7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dois

SCARLET VIU GILLES ATRÁS DO FOGÃO, COLOCANDO MOLHO bechamel por cima de um sanduíche de presunto. Ela foi até o outro lado, gritando para chamar a atenção dele, e foi recebida com irritação.
— Terminei — disse ela, retribuindo o olhar de raiva. — Venha assinar o recibo.
Gilles colocou uma pilha de batatas fritas ao lado do sanduíche e deslizou o prato pela bancada de aço até ela.
— Leve isso para a primeira mesa, e o recibo vai estar pronto quando você voltar.
Scarlet se enfureceu.
— Não trabalho para você, Gilles.
— Fique grata por eu não mandar você para o beco com um esfregão. — Ele virou de costas para ela, com a camisa branca amarelada por anos de suor.
Os dedos de Scarlet tremeram com a tentação de jogar o sanduíche na nuca dele e ver como seria em comparação aos tomates, mas o rosto austero da avó logo se infiltrou no sonho. Ela ficaria extremamente decepcionada se voltasse e descobrisse que Scarlet tinha perdido um de seus clientes mais leais em um ataque de raiva.
Scarlet pegou o prato, saiu da cozinha e quase foi derrubada por um garçom assim que uma das portas vaivém se fechou atrás dela. A Taverna Rieux não era um lugar elegante. O piso era grudento, a mobília era uma mistura de mesas e cadeiras baratas, que não combinavam, e o ar era saturado de gordura. Mas, em uma cidade onde beber e fofocar eram os passatempos favoritos, ficava sempre cheia, principalmente aos domingos, quando os trabalhadores das fazendas da área ignoravam o plantio por vinte e quatro horas seguidas.
Enquanto esperava que um caminho se abrisse na multidão, a atenção de Scarlet foi atraída pelas telas atrás do bar. Todas as três estavam transmitindo a mesma filmagem que ocupava a rede desde a noite anterior. Todos falavam sobre o baile anual da Comunidade das Nações Orientais, no qual a rainha Lunar era a convidada de honra. Uma garota ciborgue se infiltrou na festa, atirou em alguns candelabros e tentou assassinar a rainha visitante... ou talvez estivesse tentando assassinar o recém-coroado imperador. Todos pareciam ter uma teoria diferente. As imagens congeladas nas telas mostravam um close da garota com manchas no rosto e mechas de cabelo molhado caídas de um rabo de cavalo malfeito. Era um mistério como ela tinha conseguido entrar em um baile real.
— Deviam ter dado fim nela quando caiu da escada — disse Roland, um cliente regular da taverna que parecia estar plantado no bar desde o meio-dia. Ele esticou um dedo na direção da tela e fez um gesto de tiro. — Eu teria colocado uma bala bem na testa dela. Não faria falta.
Quando um murmúrio de concordância se espalhou entre os clientes ali perto, Scarlet revirou os olhos com nojo e foi até a mesa mais próxima.
Ela reconheceu o belo lutador de rua de Émilie imediatamente, em parte por causa dos muitos hematomas e cicatrizes na pele morena, mas também porque ele era o único estranho na taverna. Era mais desgrenhado do que ela esperava depois da histeria de Émilie, com cabelos em mechas espetadas em todas as direções e um hematoma novo inchando em um dos olhos. Por baixo da mesa, as duas pernas balançavam como um brinquedo de corda.
Já havia três pratos na frente dele, vazios mas com manchas de gordura, restos de salada de ovo e fatias intocadas de tomate e alface.
Ela não tinha se dado conta de que o estava fitando até o olhar dele pousar no dela. Ele tinha olhos de um verde nada natural, como uvas azedas ainda na videira. Scarlet segurou o prato com mais força e de repente entendeu a histeria de Émilie. Ele tem uns olhos...
Ela passou pela multidão e colocou o sanduíche na mesa.
— Você pediu croque, monsieur?
— Obrigado. — A voz dele a assustou, não por ser alta e rouca como ela esperava, mas por ser baixa e hesitante.
Talvez Émilie estivesse certa. Talvez ele fosse mesmo tímido.
— Tem certeza de que não quer que a gente traga o porco inteiro? — disse ela, empilhando os três pratos vazios. — Pouparia os garçons de ficarem indo e vindo da cozinha.
O homem arregalou os olhos, e, por um momento, Scarlet esperou que ele fosse perguntar se o porco inteiro era mesmo uma opção, mas ele se voltou para o sanduíche.
— A comida daqui é boa.
Ela sufocou uma risada debochada. “Boa comida” e “Taverna Rieux” eram duas coisas que ela não costumava associar.
— Lutar deve abrir muito o apetite.
Ele não respondeu. Seus dedos brincaram com o canudo da bebida, e Scarlet conseguiu ver a mesa começando a tremer por causa das pernas inquietas.
— Bom apetite — disse ela, retirando os pratos. Mas acabou fazendo uma pausa e inclinou os pratos na direção dele. — Tem certeza de que não quer os tomates? São a melhor parte e foram plantados na minha horta. A alface também, na verdade. Mas não estava murcha assim quando colhi. Deixa pra lá, você não vai querer a alface. Mas e os tomates?
Parte da intensidade desapareceu do rosto do lutador.
— Nunca experimentei.
Scarlet arqueou a sobrancelha.
Nunca?
Depois de um momento de hesitação, ele soltou o copo, pegou as duas fatias de tomate e enfiou na boca.
A expressão dele ficou paralisada no meio do processo de mastigar. Pareceu ponderar por um momento, os olhos vagos, antes de engolir.
— Não é o que eu esperava — disse ele, olhando para ela de novo. — Mas não é horrível. Gostaria de mais disso. Posso?
Scarlet ajeitou os pratos que segurava para impedir que a faquinha de manteiga escorregasse.
— É que na verdade eu não trabalho...
— É agora! — disse alguém perto do bar, despertando um murmúrio excitado que se espalhou pela taverna. Scarlet olhou para as telas. Mostravam um jardim verdejante, cheio de bambus e lírios, e brilhando devido à chuva recente. A luz cálida e vermelha do baile se espalhava por uma grandiosa escadaria. A câmera de segurança estava acima da porta, direcionada para as longas sombras do caminho. Era bonito. Tranquilo.
— Aposto dez univs que uma garota vai perder o pé nessa escada! — gritou alguém, seguido por uma rodada de gargalhadas vindas do bar. — Alguém quer apostar? Vamos lá, quais as chances de isso acontecer?
Um momento depois, a garota ciborgue apareceu na tela. Ela saiu correndo pela porta e escada abaixo, destruindo a serenidade do jardim com o vestido prateado esvoaçante. Scarlet prendeu a respiração por saber o que acontecia depois, mas ainda fez uma careta quando a garota tropeçou e caiu. Ela rolou pelos degraus e terminou em posição desajeitada na base, espalhada pelo caminho de pedra. Apesar de não haver som, Scarlet imaginou a garota ofegante, deitada de costas e olhando para cima, para a porta. Sombras percorriam a escada, e uma série de figuras irreconhecíveis apareceu acima dela.
Por ter ouvido a história uma dezena de vezes, Scarlet procurou o pé que faltava ainda na escada, procurou a luz do salão de baile refletida no metal. O pé ciborgue da garota.
— Dizem que a da esquerda é a rainha — disse Émilie. Scarlet deu um pulo, pois não tinha ouvido a garçonete se aproximar.
O príncipe — não, imperador agora — desceu os degraus e se abaixou para pegar o pé. A garota esticou a mão para a barra da saia e a puxou até cobrir o tornozelo, mas não conseguiu esconder os fios mortos como tentáculos pendurados até cobrir a perna artificial.
Scarlet sabia o que os boatos diziam. Não só a garota havia sido confirmada como lunar — fugitiva ilegal e um perigo à sociedade terrestre —, mas conseguiu inclusive fazer uma lavagem cerebral no imperador Kai. Algumas pessoas achavam que ela estava em busca de poder; outras, de riquezas. Alguns acreditavam que ela estava tentando iniciar a guerra que há muito era uma ameaça. Mas, independentemente de quais fossem as intenções da garota, Scarlet não podia deixar de sentir um pouco de pena. Afinal, não passava de uma adolescente, mais nova até do que a própria Scarlet, e parecia patética, caída na base da escada.
— Que história foi essa de dar um fim na desgraça dela? — disse um dos caras no bar.
Roland apontou o dedo na direção da tela.
— Exatamente. Nunca vi nada tão nojento na vida.
Alguém perto da ponta se inclinou para conseguir olhar para Roland.
— Não sei se concordo. Acho que ela é bonita, fingindo ser inofensiva e inocente. Talvez, em vez de mandá-la de volta, deviam ter deixado que ficasse comigo!
A reação a isso foram gargalhadas ruidosas. Roland bateu com a palma da mão no balcão, fazendo balançar um pote de mostarda.
— Sem dúvida aquela perna de metal seria uma companhia aconchegante na cama!
— Porco — murmurou Scarlet, mas seu comentário se perdeu em meio às risadas.
— Eu não me importaria de ter a oportunidade de aquecê-la! — acrescentou uma nova pessoa, e as mesas tremeram com gritos e risadas.
A raiva voltou a subir pela garganta de Scarlet, e ela meio que bateu, meio que largou, a pilha de pratos na mesa. Ignorou as expressões surpresas ao redor e passou pela multidão, indo em direção ao fundo do bar.
O barman, perplexo, observou Scarlet tirar algumas garrafas de bebida do caminho e subir no balcão que acompanhava toda a parede. Ela esticou a mão, abriu um painel na parede abaixo de uma prateleira de copos de conhaque e puxou o cabo de rede. Todas as três telas ficaram pretas, e o jardim do palácio e a garota ciborgue desapareceram.
Um grito de protesto surgiu ao redor dela.
Scarlet se virou para encarar todo mundo e chutou acidentalmente uma garrafa de vinho da bancada. O vidro se estilhaçou no chão, mas ela mal escutou enquanto balançava o cabo na direção da multidão inflamada.
— Vocês deviam ter respeito! Aquela garota vai ser executada!
— Aquela garota é lunar! — gritou uma mulher. — Ela deve ser executada!
O sentimento foi reforçado por acenos e por alguém que jogou uma casca de pão no ombro de Scarlet. Ela colocou as duas mãos nos quadris.
— Ela só tem dezesseis anos.
Uma confusão de argumentos surgiu, com homens e mulheres ficando de pé e gritando sobre lunares e o mal e aquela garota tentou matar uma líder da União!
— Ei, ei, pessoal, se acalmem! Deixem Scarlet em paz! — gritou Roland, com a confiança aumentada pelo uísque no hálito. Ele esticou a mão para a multidão agitada. — Todos nós sabemos que a loucura é de família. Primeiro, a velhota foge, agora Scar está defendendo direitos lunares!
Uma onda de gargalhadas e gritos chegou aos ouvidos de Scarlet, abafados pelo som do sangue dela latejando. Sem saber como desceu do balcão, ela de repente estava na metade do caminho do bar, espalhando garrafas e copos, e seu punho atingiu a orelha de Roland.
Ele deu um grito e virou para olhar para ela.
— Que...
— Minha avó não é louca! — Ela segurou a frente da camisa dele. — Foi isso que você disse ao detetive? Quando ele o interrogou? Você disse que ela era louca?
— É claro que eu disse que ela era louca! — gritou ele, e o fedor de álcool entorpeceu os sentidos dela. Scarlet apertou o tecido até seus punhos doerem. — E aposto que não fui o único. Considerando como ela fica enfiada naquela casa velha, fala com animais e androides como se fossem gente, vai atrás das pessoas com um rifle...
Uma vez, e era escolta de vendedor!
— Não estou nem um pouco surpreso de Vovó Benoit ter pirado de vez. Para mim, isso estava prestes a acontecer faz tempo.
Scarlet empurrou Roland com força usando as duas mãos. Ele se desequilibrou e bateu em Émilie, que tentava se colocar entre os dois. Émilie gritou e caiu de costas sobre uma mesa, esforçando-se para impedir que Roland a esmagasse.
O homem recuperou o equilíbrio com expressão de quem não conseguia decidir se queria dar uma risada debochada ou rosnar de raiva.
— Melhor tomar cuidado, Scar, se não vai acabar que nem a velha...
Pernas de cadeira chiaram no piso, e de repente o lutador estava com a mão ao redor do pescoço de Roland, levantando-o do chão.
A taverna ficou em silêncio. O lutador, despreocupado, segurava Roland como se ele não passasse de uma boneca, ignorando os sons sufocados que ele fazia.
Scarlet ficou boquiaberta, com a beirada do balcão apertando sua barriga.
— Acredito que você deve a ela um pedido de desculpas — disse o lutador, com a voz baixa e equilibrada.
Um gorgolejar escapou da boca de Roland. Seus pés se balançavam à procura de apoio.
— Ei, solta ele! — gritou um homem, pulando do banco. — Você vai matá-lo! — Ele segurou o pulso do lutador, mas foi o mesmo que segurar uma barra de ferro, pois ele nem tremeu. Corando, o homem soltou e se preparou para dar um soco, mas, assim que desferiu o golpe, a mão livre do lutador se levantou e bloqueou o movimento.
Scarlet saiu cambaleando do bar e deteve o olhar em uma tatuagem de letras e números sem sentido no antebraço do lutador. SLOM962.
O lutador ainda parecia zangado, mas agora também havia um traço de diversão na expressão dele, como se tivesse acabado de se lembrar das regras de um jogo. Ele baixou Roland até os pés dele tocarem o chão e o soltou ao mesmo tempo que largou o punho do outro homem.
Roland se apoiou em um banco.
— Qual é seu problema? — perguntou ele com voz rouca, esfregando o pescoço. — Você é um transplante lunático da cidade ou o quê?
— Você estava sendo desrespeitoso.
Desrespeitoso? — gritou Roland. — Você acabou de tentar me matar!
Gilles saiu da cozinha empurrando as portas vaivém.
— O que está acontecendo aqui?
— Esse cara está querendo arranjar briga — disse alguém em meio à multidão.
— E Scarlet quebrou as telas!
— Não quebrei, idiota! — gritou Scarlet, embora não tivesse certeza de quem havia falado.
Gilles observou as telas apagadas, Roland ainda esfregando o pescoço, as garrafas e copos quebrados espalhados pelo chão molhado. Olhou com raiva para o lutador de rua.
— Você — disse ele, apontando. — Saia da minha taverna.
O estômago de Scarlet deu um nó.
— Ele não fez na...
— Não comece, Scarlet. Quanta destruição você estava planejando causar hoje? Está tentando fazer com que eu feche minha conta?
Ela se enfureceu, o rosto ainda quente.
— Talvez eu leve a entrega de volta e vamos ver se seus clientes gostam de comer legumes estragados de agora em diante.
Contornando o bar, Gilles arrancou os cabos da mão de Scarlet.
— Você acha mesmo que a sua é a única fazenda que existe na França? Sinceramente, Scar, só compro com você porque sua avó não me deixaria em paz se eu não comprasse!
Scarlet apertou os lábios e sufocou a lembrança frustrada de que a avó não estava mais ali e que então ele talvez devesse mesmo comprar com outra pessoa, se era isso que queria.
Gilles voltou a atenção para o lutador.
— Mandei você ir embora!
Ignorando-o, o lutador esticou a mão para Émilie, que ainda estava meio encurvada sobre a mesa. Seu rosto estava vermelho e a saia, encharcada de cerveja, mas o olhar brilhava de fascínio enquanto ela se deixava ser levantada por ele.
— Obrigada — disse ela, e o sussurro se espalhou no silêncio incomum.
Por fim, o lutador se virou para o irritado Gilles.
— Vou embora, mas ainda não paguei pela comida. — Ele hesitou. — Também posso pagar pelos copos quebrados.
Scarlet piscou sem entender.
— O quê?
— Não quero seu dinheiro! — gritou Gilles, parecendo insultado, o que foi um choque ainda maior para Scarlet, que só ouvia Gilles reclamar de dinheiro, dizendo que os fornecedores estavam arrancando tudo que ele tinha. — Quero você fora da minha taverna.
Os olhos claros do lutador se dirigiram à Scarlet, e, por um momento, ela sentiu uma ligação com ele.
Ali estavam eles, dois párias. Indesejados. Loucos.
Com a pulsação latejando, ela enterrou o pensamento. Aquele homem era um problema. Ele lutava com pessoas para ganhar a vida ou talvez até para se divertir. Ela não sabia qual das duas opções era pior.
Ao virar, o lutador baixou a cabeça, quase como um pedido de desculpas, e saiu andando em direção à porta. Quando ele passou por ela, Scarlet não conseguiu deixar de pensar que, apesar de todos os sinais de brutalidade, o homem não parecia mais ameaçador agora do que um cachorro repreendido.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!