20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dois

A porta da sala do trono se abriu, e ali estava ele, preso entre dois guardas, com os pulsos amarrados atrás das costas. O cabelo louro estava embaraçado e sujo, com mechas grudadas no maxilar. Parecia fazer um bom tempo que ele não tomava banho, mas Winter não conseguiu detectar sinais óbvios de agressão.
O estômago dela deu um nó. Todo o calor que o gelo havia expulsado voltou correndo para a superfície da pele.
Fique comigo, princesa. Escute minha voz, princesa.
Ele foi levado até o centro da sala, sem demonstrar qualquer expressão no rosto. Winter cravou as unhas nas palmas das mãos.
Jacin não olhou para ela. Nem uma vez.
— Jacin Clay — disse Aimery —, você foi acusado de trair a coroa ao falhar na hora em que deveria proteger a taumaturga Mira e na hora de apreender uma conhecida fugitiva lunar, apesar de ter passado duas semanas na companhia da dita fugitiva. Você é um traidor de Luna e da nossa rainha. Esses crimes são puníveis com a morte. O que você tem a dizer em sua defesa?
O coração de Winter trovejou como um tambor junto às costelas. Ela virou olhos suplicantes para a madrasta, mas Levana não estava prestando nenhuma atenção a ela.
— Eu me declaro culpado de todos os crimes descritos — disse Jacin, atraindo a atenção de Winter novamente. — Exceto pela acusação de que sou traidor.
As unhas de Levana bateram no braço do trono.
— Explique.
Jacin se empertigou como se estivesse de uniforme, como se estivesse a serviço, e não sendo julgado.
— Como falei, eu não apreendi a fugitiva quando estava na companhia dela porque estava tentando convencê-la de que eu era confiável para conseguir informações para minha rainha.
— Ah, sim, você a estava espionando, assim como aos companheiros dela — disse Levana. — Eu me lembro de você ter dado essa desculpa quando foi capturado. Também lembro que você não tinha informações pertinentes para oferecer, só mentiras.
— Mentiras, não, minha rainha, embora eu admita que subestimei a ciborgue e as habilidades dela. Ela as estava escondendo de mim.
— Isso é que é ganhar a confiança dela. — Havia deboche no tom da rainha.
— Conhecer as habilidades da ciborgue não era a única informação que eu procurava, minha rainha.
— Sugiro que você pare de brincar com palavras. Minha paciência já está curta.
O coração de Winter murchou. Jacin, não. Ela não poderia ficar sentada ali vendo-os matar Jacin.
Ela negociaria por ele, decidiu, embora o plano tivesse uma falha. O que tinha para negociar? Nada além da própria vida, e Levana não aceitaria isso.
Ela poderia dar um ataque de birra. Ficar histérica. Não estaria muito longe da verdade, nesse ponto, e poderia distraí-los por um tempo, mas só adiaria o inevitável.
Já havia se sentido impotente muitas vezes na vida, mas nunca assim.
Só havia uma coisa a ser feita, então. Ela jogaria o próprio corpo na frente da lâmina.
Ah, Jacin odiaria isso.
Sem saber da mais recente resolução de Winter, Jacin inclinou a cabeça em um gesto respeitoso.
— Durante meu tempo com Linh Cinder, descobri informações sobre um dispositivo que pode anular os efeitos do dom lunar quando ligado ao sistema nervoso de uma pessoa.
Isso provocou uma agitação curiosa na multidão. Um enrijecer de colunas, uma inclinação de ombros para a frente.
— Impossível — disse Levana.
— Linh Cinder tinha evidência do potencial. Como foi descrito para mim, em um terráqueo o dispositivo impede que a bioeletricidade seja alterada. Mas em um lunar vai impedir que ele use o dom. A própria Linh Cinder tinha o dispositivo instalado quando chegou ao baile da Comunidade das Nações Orientais. Ela só pôde usar seu dom quando foi destruído, como foi testemunhado pelos seus próprios olhos, minha rainha.
As palavras dele carregavam um ar de impertinência. Os nós dos dedos de Levana ficaram brancos.
— Quantos desses hipotéticos dispositivos existem?
— Que eu saiba, só o dispositivo quebrado instalado na própria ciborgue. Mas desconfio que ainda existam documentos e projetos. O inventor foi o pai adotivo de Linh Cinder.
O aperto da rainha começou a relaxar.
— É uma informação intrigante, sr. Clay. Mas fala mais de uma tentativa desesperada de se salvar do que de inocência verdadeira.
Jacin deu de ombros, indiferente.
— Se minha lealdade não pode ser identificada na forma como me portei com o inimigo, obtendo essa informação e alertando a taumaturga Mira sobre o plano de sequestrar o imperador Kaito, eu não sei que outra prova posso fornecer, minha rainha.
— Sim, sim, a dica anônima que Sybil recebeu, alertando-a sobre os planos de Linh Cinder. — Levana suspirou. — Acho muito conveniente que esse comunicado que você alega ter enviado não tenha sido visto por mais ninguém além da própria Sybil, que agora está morta.
Pela primeira vez, Jacin pareceu perturbado sob o olhar da rainha. Ele ainda não tinha olhado para Winter.
A rainha se virou para Jerrico Solis, o capitão da guarda. Assim como tantos dos guardas da rainha, Jerrico deixava Winter pouco à vontade, e ela costumava ter visões do cabelo ruivo alaranjado pegando fogo e do resto dele queimando até virar um carvão fumegante.
— Você estava com Sybil quando ela emboscou a nave inimiga naquele dia, mas disse antes que Sybil não mencionou essa mensagem. Você tem alguma coisa a acrescentar?
Jerrico deu um passo à frente. Ele tinha voltado da viagem à Terra com uma boa quantidade de hematomas, mas já tinham começado a sumir.
— Minha rainha, a taumaturga Mira parecia confiante de que encontraríamos Linh Cinder naquele telhado, mas não mencionou ter recebido nenhuma informação externa, anônima ou não. Quando a nave pousou, foi a taumaturga Mira que mandou que Jacin Clay fosse preso.
A sobrancelha de Jacin tremeu.
— Talvez ela ainda estivesse chateada por eu ter atirado nela. — Ele fez uma pausa, mas depois acrescentou: — Enquanto eu estava sob o controle de Linh Cinder, devo dizer em minha defesa.
— Você parece ter muito a dizer em sua defesa — disse Levana.
Jacin não respondeu. Era o comportamento mais calmo que Winter já tinha visto em um prisioneiro; ele, que sabia melhor do que ninguém as coisas horríveis que aconteciam ali, bem no lugar onde estava. Levana devia estar furiosa com a audácia, mas parecia apenas pensativa.
— Permissão para falar, minha rainha?
A plateia se moveu, e Winter demorou um momento para discernir quem tinha falado.
Era um guarda. Uma das ornamentações silenciosas do palácio. Apesar de reconhecê-lo, ela não sabia seu nome.
Levana olhou com irritação para ele, e Winter a imaginou calculando se daria permissão ou puniria o homem por se manifestar num momento inadequado. Por fim, disse:
— Qual é seu nome e por que você ousa interromper o procedimento?
O guarda deu um passo à frente, encarando a parede, sempre a parede.
— Meu nome é Liam Kinney, minha rainha. Eu ajudei na recuperação do corpo da taumaturga Mira.
Uma sobrancelha questionadora para Jerrico; um aceno confirmando.
— Continue — disse Levana.
— A mestra Mira estava com um tablet quando nós a encontramos, e apesar de ter quebrado na queda, o aparelho foi submetido como prova no caso do assassinato dela. Eu me pergunto se alguém tentou recuperar a suposta mensagem.
Levana voltou a atenção para Aimery, cujo rosto era uma máscara que Winter reconheceu. Quanto mais agradável era a expressão dele, mais irritado estava.
— Na verdade, nós conseguimos acessar as mensagens recentes dela. Eu estava prestes a apresentar as provas.
Era mentira, o que deu esperança a Winter. Aimery mentia muito bem, principalmente quando era de seu interesse. E ele odiava Jacin. Não ia querer entregar nada que pudesse ajudá-lo.
Esperança. Frágil, escassa, patética. Esperança.
Aimery indicou a porta, e um criado se aproximou correndo, carregando um tablete quebrado e um dispositivo holográfico em uma bandeja.
— Este é o tablet que Sir Kinney mencionou. Nossa investigação confirmou que realmente houve uma mensagem anônima enviada a Sybil Mira naquele dia.
O criado ligou o dispositivo, e um holograma brilhou no centro da sala. Atrás dele, Jacin sumiu como um fantasma.
O holograma exibia um texto básico de mensagem.

Linh Cinder planejando sequestrar o imperador da C.N.O.
Fuga planejada pelo telhado da torre norte, pôr do sol.

Tanta importância depositada em tão poucas palavras. Era a cara de Jacin.
Levana leu as palavras com olhos apertados.
— Obrigada, Sir Kinney, por chamar nossa atenção para isso. — Foi revelador o fato de ela não ter agradecido a Aimery.
O guarda, Kinney, fez uma reverência e recuou para sua posição. O olhar dele se desviou uma vez para Winter, ilegível, antes de se grudar de novo na parede distante.
Levana continuou.
— Imagino que você vá me dizer, Sir Clay, que essa foi a mensagem que você enviou.
— Foi.
— Você tem mais alguma coisa a acrescentar antes que eu declare meu veredito?
— Nada, minha rainha.
Levana se encostou no trono, e o aposento ficou em silêncio, com todo mundo esperando a decisão da rainha.
— Imagino que minha enteada gostaria que eu poupasse você.
Jacin não reagiu, mas Winter fez uma careta em resposta à arrogância do tom da madrasta.
— Por favor, madrasta — sussurrou ela, as palavras estalando na língua seca. — É Jacin. Ele não é nosso inimigo.
— Não seu, talvez — disse Levana. — Mas você é uma garota ingênua e burra.
— Não é verdade. Sou uma fábrica de sangue e plaquetas, e todo o meu maquinário está congelando…
A corte caiu na gargalhada, e Winter se encolheu. Até os lábios de Levana tremeram, embora houvesse irritação por baixo da diversão.
— Eu tomei minha decisão — disse ela, com a voz estrondosa exigindo silêncio. — Decidi deixar o prisioneiro viver.
Winter deu um grito de alívio. Colocou a mão sobre a boca, mas foi tarde demais para sufocar o barulho.
Houve mais risinhos da plateia.
— Você tem alguma outra coisa a acrescentar, princesa? — perguntou Levana entredentes.
Winter controlou as emoções da melhor maneira que conseguiu.
— Não, minha rainha. Suas determinações sempre são sábias e finais, minha rainha.
— Essa determinação não terminou. — A rainha endureceu a voz quando voltou a falar com Jacin. — Sua incapacidade de matar ou capturar Linh Cinder não vai passar sem punição, pois sua incompetência levou ao sucesso dela no sequestro do meu noivo. Por esse crime, eu sentencio você a trinta chibatadas autoinfligidas, a serem dadas no tablado central, seguidas de quarenta horas de penitência. Sua sentença vai começar no amanhecer de amanhã.
Winter se encolheu, mas nem essa punição poderia destruir o alívio eufórico na barriga dela. Ele não ia morrer. Ela não era uma garota de gelo e vidro, mas uma garota de sol e poeira estelar, porque Jacin não ia morrer.
— E, Winter…
Ela voltou a atenção para a madrasta, que a encarava com desdém.
— Se você tentar levar comida para ele, vou mandar cortar a língua dele em pagamento pela sua gentileza.
Ela se encolheu na cadeira, um pequeno raio da luz de seu sol se extinguiu.
— Sim, minha rainha.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!