13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dois

LOBO PULOU DE CIMA DA CAIXA E CORREU NA DIREÇÃO DELA. Cinder se preparou para o pânico instintivo. A expectativa de outro golpe contraiu cada músculo, apesar de ele ainda estar pegando leve com ela.
Cinder fechou os olhos momentos antes do impacto e se concentrou.
A dor atingiu sua cabeça como um cinzel enfiado no cérebro. Cinder trincou os dentes e tentou se isolar das ondas de náusea que vieram em seguida.
O impacto não aconteceu.
— Pare. De. Fechar. Os. Olhos.
Com o maxilar ainda contraído, Cinder se forçou a abrir um olho e depois o outro.
Lobo estava de pé na frente dela, com a mão direita a caminho de lhe dar um golpe na orelha. Seu corpo estava parado como uma pedra, porque ela o estava segurando ali. A energia dele era quente e palpável e quase a seu alcance, e a força do dom lunar o mantinha distante.
— É mais fácil ficar com eles fechados — sibilou ela em resposta.
Mesmo essas poucas palavras foram um esforço para sua mente, e os dedos de Lobo tremeram. Ele lutava contra o poder de Cinder.
Mas o olhar dele se desviou para trás dela, e um golpe entre as omoplatas a empurrou para a frente. A testa dela colidiu com o peito de Lobo. O corpo dele se soltou bem a tempo de segurá-la.
Atrás dela, Thorne riu.
— Também é mais fácil para as pessoas se aproximarem sem você perceber.
Cinder se virou e empurrou Thorne.
— Isso não é brincadeira!
— Thorne está certo — disse Lobo. Cinder ouvia a exaustão dele, embora não tivesse certeza se vinha da briga constante ou, mais provavelmente, da frustração de ter que treinar uma pessoa tão amadora. — Quando você fecha os olhos, fica vulnerável. Você precisa aprender a usar o dom e continuar ciente do que está à sua volta, enquanto continua ativa.
— Ativa?
Lobo alongou o pescoço para os dois lados, gerando alguns estalos, antes de sacudi-lo.
— Sim, ativa. Poderíamos enfrentar dezenas de soldados ao mesmo tempo. Com sorte, você vai controlar nove ou dez, embora isso seja uma estimativa otimista no momento.
Cinder franziu o nariz para ele.
— O que quer dizer que você ficaria vulnerável a muitos outros. Você deveria ser capaz de me controlar enquanto ainda está presente, de corpo e mente. — Ele deu um passo para trás e mexeu no cabelo bagunçado. — Se até Thorne consegue se aproximar sem você perceber, estamos com problemas.
Thorne dobrou as mangas da camisa.
— Nunca subestime a furtividade de um gênio do crime.
Scarlet começou a rir de onde estava, sentada de pernas cruzadas em uma caixa plástica de armazenamento, saboreando uma tigela de mingau.
— “Gênio do crime”? Estamos tentando descobrir como nos infiltrar no casamento real há uma semana, e até agora sua maior contribuição foi determinar qual dos telhados do palácio é o mais espaçoso para que sua preciosa nave não corra o risco de ganhar um arranhão ao pousar.
A luz se intensificou em alguns painéis no teto.
— Concordo com as prioridades do capitão Thorne — disse Iko, falando pelos alto-falantes embutidos da nave. — Como essa pode ser minha grande estreia na rede, quero estar com minha melhor aparência, muito obrigada.
— Isso mesmo, linda. — Thorne piscou para os alto-falantes, apesar de os sensores de Iko não serem sensíveis o bastante para captar isso. — E eu gostaria que o restante de vocês observasse o uso adequado que Iko fez da palavra capitão ao se dirigir a mim. Vocês todos poderiam aprender um pouco com ela.
Scarlet riu de novo, Lobo ergueu uma das sobrancelhas, nada impressionado, e a temperatura do compartimento de carga subiu uns dois graus quando Iko corou depois de receber tal elogio.
Mas Cinder ignorou todos eles e, enquanto as repreensões de Lobo giravam em sua cabeça, tomou um copo de água. Sabia que ele estava certo. Embora controlar Lobo sobrecarregasse todas as suas habilidades, controlar terráqueos como Thorne e Scarlet costumava ser mais fácil do que substituir um sensor de androide quebrado.
A essa altura, ela já deveria ser capaz de fazer as duas coisas.
— Vamos tentar de novo — disse ela, apertando melhor o rabo de cavalo.
Lobo voltou a prestar atenção nela.
— Talvez você devesse descansar um pouco.
— Não vou ter tempo para descansar enquanto estiver sendo perseguida pelos soldados da rainha, vou?
Ela mexeu os ombros para tentar se reenergizar. A dor de cabeça tinha diminuído, mas as costas da camiseta estavam úmidas de suor, e cada músculo tremia pelo esforço de lutar com Lobo pelas duas últimas horas.
Lobo massageou as têmporas.
— Vamos torcer para você nunca ter que enfrentar os soldados verdadeiros da rainha. Acho que temos chance se encararmos os taumaturgos e os agentes especiais, mas os soldados avançados são diferentes. São mais animais do que humanos e não reagem muito bem à manipulação mental.
— Ao contrário da maioria das pessoas? — retrucou Scarlet, raspando a colher no fundo da tigela.
Lobo desviou o olhar para ela, e alguma coisa na sua expressão se suavizou. Essa era uma expressão que Cinder já tinha visto cem vezes desde que ele e Scarlet haviam se juntado à tripulação da Rampion, e, mesmo assim, vê-la fazia-a sentir como se estivesse invadindo uma coisa íntima.
— O que quero dizer é que eles são imprevisíveis, mesmo sob o controle de um taumaturgo. — Ele voltou o foco para Cinder. — Ou qualquer outro lunar. A alteração genética que sofrem para se tornarem soldados afeta seus cérebros tanto quanto seus corpos. Eles são inconstantes, selvagens... perigosos.
Thorne se apoiou na caixa de Scarlet, fingindo sussurrar para ela:
— Ele sabe que é um ex-lutador de rua que ainda é chamado de ‘Lobo’, né?
Cinder mordeu o lábio para segurar uma gargalhada.
— Mais um motivo para eu estar o mais bem preparada possível. Eu gostaria de evitar outra situação tensa como a de Paris.
— Você não é a única.
Lobo começou a se balançar nos calcanhares de novo. Antes, Cinder achava que isso indicava que ele estava pronto para outra rodada de luta, mas já estava começando a pensar que era apenas o jeito dele; vivia se movendo, sempre inquieto.
— Isso me lembra uma coisa — disse Cinder. — Eu gostaria de conseguir mais daqueles dardos tranquilizantes quando pousarmos de novo. Quanto menos soldados tivermos que enfrentar ou fazer lavagem cerebral, melhor.
— Dardos tranquilizantes, anotado — confirmou Iko. — Também tomei a liberdade de programar um relógio de contagem regressiva. Faltam quinze dias e nove horas para o casamento real.
A tela na parede ganhou vida e exibiu um enorme relógio digital fazendo contagem regressiva a cada décimo de segundo.
Três segundos olhando para o relógio e Cinder ficou zonza de ansiedade. Ela desviou o olhar, analisando o resto da tela e o plano de impedir o casamento entre Kai e a rainha Levana. Uma lista de suprimentos necessários estava anotada no lado esquerdo: armas, ferramentas, disfarces e, por fim, dardos tranquilizantes.
No meio da tela havia a planta do palácio de Nova Pequim.
À direita, uma lista de preparativos absurdamente longa, sendo que nenhum deles tinha sido marcado como feito, embora a equipe estivesse planejando e elaborando havia dias.
O número um da lista era preparar Cinder para quando voltasse a ficar inevitavelmente cara a cara com a rainha Levana e sua corte. Embora Lobo não tivesse dito com todas as palavras, ela sabia que seu dom lunar não estava progredindo rápido o bastante. Cinder estava começando a pensar que poderia levar anos para chegar a um bom nível, e eles só tinham mais duas semanas.
A ideia do plano era provocar uma distração no dia do casamento que lhes permitisse entrar escondidos no palácio durante a cerimônia e anunciar para o mundo que Cinder era na verdade a desaparecida princesa Selene. Em seguida, com a imprensa do mundo todo assistindo, Cinder exigiria que Levana entregasse a coroa para ela, acabando ao mesmo tempo com o casamento e seu reinado em um golpe só.
Tudo o que deveria vir depois do casamento aparecia embaçado na mente de Cinder. Ficava imaginando as reações do povo lunar quando descobrisse que a princesa perdida não era apenas ciborgue, mas também ignorava o mundo deles, a cultura, as tradições e a política. A única coisa que impedia que o peito dela fosse esmagado pelo peso de tudo era saber que, apesar de tudo, ela não poderia ser pior governante do que Levana.
Torcia para que eles pensassem da mesma forma.
A água que ela bebeu fazia barulho no estômago. Pela milésima vez, surgiu em seu pensamento uma fantasia de entrar debaixo da coberta de seu beliche nos aposentos da tripulação e se esconder até todo mundo esquecer que existia uma princesa lunar.
Em vez disso, ela se virou de costas para a tela e sacudiu os músculos.
— Tudo bem, estou pronta para tentar de novo — disse, assumindo a postura de luta que Lobo ensinara.
Mas Lobo já estava sentado ao lado de Scarlet, raspando os restos do mingau. Com a boca cheia, ele olhou para o chão e engoliu.
— Flexões.
Cinder baixou os braços.
— O quê?
Ele apontou para ela com a colher.
— Lutar não é o único tipo de exercício físico. Podemos fortalecer a parte superior do seu corpo e treinar sua mente ao mesmo tempo. Apenas tente prestar atenção ao que está ao redor. Concentre-se.
Ela olhou para ele com raiva por cinco segundos inteiros antes de se abaixar. Já tinha contado até onze quando ouviu Thorne se afastar da caixa.
— Sabe, quando eu era criança, fui levado a pensar que princesas usavam tiaras e davam festas. Agora que conheci uma princesa de verdade, devo dizer que estou meio decepcionado.
Cinder não sabia dizer se era um insulto, mas atualmente a palavra princesa deixava todos os seus nervos à flor da pele.
Soltando o ar com força, ela fez exatamente o que Lobo instruiu. Concentrou-se e captou a energia de Thorne com facilidade quando ele passou por ela, a caminho do cockpit.
Ela estava na décima quarta flexão quando obrigou os pés dele a parar.
— O qu...?
Cinder empurrou o corpo para cima e esticou uma perna em semicírculo. Seu tornozelo colidiu com a parte de trás da panturrilha de Thorne. Ele gritou e caiu de costas com um gemido.
Cinder abriu um largo sorriso e olhou para Lobo em busca de aprovação, mas ele e Scarlet estavam ocupados demais gargalhando. Ela conseguia até ver a ponta afiada dos caninos de Lobo, que ele costumava tomar o cuidado de manter escondidos.
Cinder ficou de pé e ofereceu a mão a Thorne. Até ele estava sorrindo, embora ao mesmo tempo tenha feito uma cara feia ao massagear o quadril.
— Você pode me ajudar a escolher uma tiara quando acabarmos de salvar o mundo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!