3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dois

AS SIRENES DE EMERGÊNCIA AINDA NÃO HAVIAM DESAPARECIDO quando o ronco de outro motor tomou a praça. O silêncio do mercado foi interrompido pelo ruído de pés batendo na calçada e de alguém bradando comandos. Seguiu-se a resposta gutural de alguém.
Atirando a bolsa-carteiro nas costas, Cinder rastejou pelo chão empoeirado do estande e passou pela toalha que cobria a mesa de trabalho. Enfiou os dedos pela fenda iluminada debaixo da porta e a abriu alguns centímetros.
Pressionando o rosto no chão quente e duro, conseguiu distinguir três pares de botas amarelas do outro lado da praça. Uma equipe de emergência. Ela abriu um pouco mais a porta e viu os homens, todos usando máscaras antigás, encharcando o interior do estande com o líquido de uma lata amarela. Mesmo do outro lado da praça, Cinder torceu o nariz por causa do cheiro ruim.
— O que está acontecendo? — perguntou Iko atrás dela.
— Eles vão queimar o estande da Chang-ji. — Os olhos de Cinder passaram rapidamente por toda a praça, examinando o aerodeslizador branco e imaculado parado perto da esquina. Exceto pelos três homens, a praça estava deserta. Virando de costas, Cinder olhou para o sensor de Iko, ainda brilhando com uma luz fraca no escuro. — Nós vamos sair quando as chamas começarem, enquanto eles estiverem distraídos.
— Estamos encrencadas?
— Não. Apenas não posso perder tempo com uma viagem à quarentena hoje.
Um dos homens deu uma ordem, seguida pelo ruído de pés se movimentando. Cinder virou a cabeça e espiou pela abertura. Lançaram as chamas no estande. O cheiro de gasolina logo se juntou ao de pão queimado. Os homens permaneceram afastados, via-se a silhueta de seus uniformes contra as chamas crescentes.
Esticando-se, Cinder pegou o androide do príncipe Kai pelo pescoço e puxou-o. Ajeitando-o debaixo do braço, abriu a porta o suficiente para que pudessem passar rastejando, mantendo os olhos nas costas dos homens. Iko seguiu, apressando-se para o estande seguinte enquanto Cinder abaixava a porta.
Elas saíram em disparada ao longo das fachadas dos estandes — a maioria fora deixada escancarada durante o êxodo em massa — e entraram no primeiro beco estreito entre as lojas. Fumaça negra manchava o céu acima delas. Segundos depois, um grupo de aerodeslizadores de noticiários pairava sobre os edifícios em seu caminho até a praça do mercado.
Cinder diminuiu a velocidade quando abriram uma distância suficiente entre elas e o mercado, emergindo do labirinto de vielas. O sol estava se pondo atrás dos arranha-céus a oeste. O ar estava pesado com o calor de agosto, mas uma ocasional brisa quente canalizava-se entre os prédios, tirando redemoinhos de lixo das calhas. A quatro quadras do mercado, sinais de vida apareciam novamente nas ruas, pedestres parando nas calçadas e fofocando sobre o surto de peste no centro da cidade. Telões fixados nas paredes dos prédios mostravam transmissões ao vivo de fogo e fumaça no centro de Nova Pequim e manchetes alarmantes anunciavam que o número de infectados crescia a cada segundo, apesar de apenas uma pessoa ter sido confirmada doente, até onde Cinder sabia.
— Todos aqueles bolos pegajosos — disse Iko, quando exibiram uma imagem de perto do estande queimado.
Cinder mordeu o canto interno da bochecha. Nenhuma das duas havia experimentado os aclamados doces da padaria do mercado. Iko não tem paladar, e Chang Sacha não servia ciborgues.
Centros executivos e shoppings gradualmente se misturavam a uma confusa variedade de prédios residenciais, construídos tão próximos uns dos outros que se tornaram uma área de vidro e concreto que não parecia ter fim. Os apartamentos naquele canto da cidade já haviam sido espaçosos e desejáveis, mas tinham sido tão subdivididos e remodelados ao longo do tempo, sempre tentando enfiar mais pessoas no mesmo metro quadrado, que os edifícios se tornaram labirintos de corredores e escadas.
Mas toda aquela feiura superlotada foi rapidamente esquecida assim que Cinder virou a esquina e entrou em sua rua. Mais um passo, e o Palácio de Nova Pequim podia ser vislumbrado entre os complexos, extenso e sereno sobre o penhasco com vista para a cidade. Os telhados de ouro pontiagudos brilhavam em cor de laranja sob o sol e as janelas refletiam as luzes da cidade. As cumeeiras ornamentadas, os pavilhões diferenciados que oscilavam perigosamente perto da borda do penhasco, os templos arredondados se esticando para os céus. Cinder fez uma pausa mais longa do que a habitual para observar o palácio, pensando em alguém que vivia além daqueles muros, que estava lá em cima, talvez naquele exato momento.
Não que ela não soubesse que o príncipe vivia lá todas as vezes que vira o palácio antes, mas hoje sentira uma conexão que nunca havia sentido, e com isso veio um prazer quase presunçoso. Ela havia conhecido o príncipe. Ele tinha ido ao seu estande. Ele sabia o nome dela.
Inspirando uma lufada de ar úmido, Cinder forçou-se a continuar seu caminho, sentindo-se infantil. Ela começaria a soar como Peony.
Cinder passou o androide do príncipe para o outro braço, enquanto ela e Iko abaixavam-se sob a projeção dos apartamentos da Torre Fênix. Mostrou o pulso livre ao escâner de identificação na parede e ouviu a fechadura se abrir.
Iko utilizou suas extensões braçais para galopar escada abaixo enquanto desciam para o porão, um labirinto escuro de depósitos cercados com tela de arame. E, quando uma onda de ar mofado soprou em sua direção, o androide ligou a lanterna, dispersando as sombras das poucas lâmpadas. Era um caminho familiar da escada para o depósito número 18-20, o compartimento apertado e sempre frio que Adri permitia que Cinder usasse para trabalhar.
Cinder abriu espaço para o androide na confusão da bancada de trabalho e largou a bolsa no chão. Ela trocou as luvas de trabalho pesado por outras de algodão menos sujas, antes de trancar o depósito.
— Se a Adri perguntar — disse ela, enquanto iam até os elevadores —, nosso estande não fica nem perto da padaria.
A luz de Iko cintilou.
— Anotado.
Elas estavam sozinhas no elevador. Quando saíram, no décimo oitavo andar, o prédio virou uma colmeia: crianças perseguindo umas às outras pelos corredores, gatos domésticos e de rua andando colados nas paredes, a constante mistura confusa dos barulhos dos telões reverberando pelos corredores. Cinder ajustou o ruído branco de sua interface cerebral enquanto se esquivava das crianças, a caminho do apartamento.
A porta estava escancarada, o que fez Cinder parar e verificar o número antes de entrar.
Ela ouviu a firme voz de Adri vindo da sala de estar:
— Mais decote para Peony. Ela está parecendo uma velha.
Cinder observou ao redor com atenção. Adri estava com uma das mãos sobre a moldura da lareira holográfica, vestindo um roupão de banho com crisântemos bordados, que se misturavam com a extravagante coleção de leques que cobria a parede atrás dela — reproduções feitas para parecerem antiguidades. Com o rosto brilhando de tanto pó de arroz e lábios pintados com uma cor espalhafatosa, Adri quase parecia uma reprodução em pessoa. Seu rosto estava maquiado como se planejasse ir a algum lugar, embora raramente saísse do apartamento.
Se ela percebeu Cinder espreitando à porta, ignorou-a.
O telão acima das chamas sem calor mostrava imagens do mercado. O estande da padeira tinha sido reduzido a cinzas e ao esqueleto de um forno portátil.
No centro da sala, Pearl e Peony estavam envoltas em seda e tule. Peony segurava o cabelo escuro e encaracolado, enquanto uma mulher que Cinder não reconheceu ajeitava impacientemente o decote do vestido. Peony avistou Cinder por cima do ombro da mulher e seus olhos brilharam, seu rosto se iluminou. Ela apontou para o vestido com um gritinho pouco discreto.
Cinder sorriu de volta. Sua meia-irmã mais jovem estava angelical com o vestido todo prateado e cintilante, com brilhos violeta que apareciam sob a luz da lareira.
— Pearl. — Adri fez um gesto girando o dedo para a filha mais velha, e Pearl rodopiou, exibindo uma fileira de botões de pérola nas costas. O vestido dela combinava com o de Peony, com seu corpete apertado e sua saia de babados, só que era dourado, da cor da poeira estelar. — Vamos apertar mais a cintura.
Enfiando um alfinete na bainha do decote de Peony, a desconhecida notou Cinder à porta, mas logo se virou. Dando um passo atrás, a mulher retirou um pacote de afiados alfinetes do meio dos lábios e inclinou a cabeça para um lado.
— Já está muito apertado — disse ela. — Nós queremos que ela dance, não é?
— Queremos que ela encontre um marido — disse Adri.
— Não, não. — A costureira sufocava o riso enquanto marcava o material na cintura de Pearl. Cinder percebeu que Pearl estava encolhendo a barriga o máximo que podia; conseguia ver as costelas marcadas sob o tecido. — Ela é muito jovem para casar.
— Eu tenho dezessete anos — disse Pearl, encarando a mulher com um olhar de reprovação.
— Dezessete! Viu! Uma criança. Agora é para se divertir, não é, menina?
— Gasto muito dinheiro para ela se divertir — disse Adri. — Espero que esse vestido nos traga resultados.
— Não se preocupe, Linh-ji. Ela ficará adorável, como o orvalho matinal.
Botando os alfinetes de volta na boca, a mulher voltou a atenção para o decote de Peony.
Adri levantou o queixo e finalmente percebeu a presença de Cinder, observando suas botas imundas e sua calça cargo.
— Por que você não está no mercado?
— Ele fechou mais cedo hoje — disse Cinder, com um olhar significativo para o telão que Adri não seguiu. Fingindo indiferença, Cinder esticou um polegar em direção ao corredor. — Então, vou só me limpar, e logo estarei pronta para experimentar meu vestido.
A costureira parou.
— Outro vestido, Linh-ji? Eu não trouxe material para…
— Você já substituiu a correia magnética no aerodeslizador?
O sorriso de Cinder se desfez.
— Não. Ainda não.
— Bem, nenhuma de nós irá ao baile se isso não for consertado, não é?
Cinder escondeu sua irritação. Elas já haviam tido essa conversa duas vezes na semana passada.
— Eu preciso de oitocentos univs, pelo menos, para comprar uma nova correia magnética. Se a renda do mercado não fosse depositada diretamente na sua conta, já teria comprado uma.
— E confiar que você não vai gastá-la toda com seus brinquedos inúteis? — Adri disse brinquedos lançando um olhar irritado para Iko e apertando os lábios, embora, tecnicamente, Iko lhe pertencesse. — Além disso, não posso pagar por uma correia magnética um vestido novo que você vai usar apenas uma vez. Você vai ter que encontrar outra forma de consertar o aerodeslizador ou costurar você mesma um vestido para o baile.
A irritação aumentava dentro de Cinder. Ela poderia ter dito que Pearl e Peony podiam ter comprado vestidos prontos, em vez de tê-los feito sob encomenda, para que Cinder pudesse comprar um também. Poderia ter dito que elas também só usariam seus vestidos uma vez. Poderia ter dito que, como era a única a trabalhar, o dinheiro deveria ser dela, para gastar como bem entendesse.
Mas os argumentos não dariam em nada. Legalmente, Cinder pertencia a Adri, tanto quanto o androide doméstico, assim como seu dinheiro, seus poucos pertences e até mesmo o pé novo que acabara de colocar. Adri adorava lembrá-la disso.
Então, engoliu sua raiva antes que Adri pudesse ver uma centelha de rebeldia.
— Talvez eu consiga propor uma troca pela correia magnética. Vou verificar com o comércio local.
Adri fungou.
— Por que não trocamos esse androide inútil por ela?
Iko se escondeu atrás das pernas de Cinder.
— Não conseguiríamos muito por ele — disse Cinder. — Ninguém quer um modelo tão velho.
— Não. Não querem, não é? Talvez eu tenha que vender vocês duas como peças de reposição. — Adri estendeu a mão e inquietou-se com a bainha inacabada da manga de Pearl. — Não quero saber como você consertará o aerodeslizador, apenas conserte-o antes do baile, e é melhor que seja barato. Não preciso daquele monte de lixo ocupando um espaço valioso no estacionamento.
Cinder enfiou as mãos nos bolsos traseiros.
— Está dizendo que, se eu consertar o aerodeslizador e arrumar um vestido, vou poder mesmo ir este ano?
Os lábios de Adri se enrugaram ligeiramente nos cantos.
— Será um milagre se você conseguir encontrar algo adequado para vestir que esconda suas — seu olhar voltou-se para as botas de Cinder — excentricidades. Mas sim. Se consertar o aerodeslizador, creio que você possa ir ao baile.
Peony abriu um meio sorriso chocado para Cinder, enquanto sua irmã mais velha girava em torno da mãe.
— Você não pode estar falando sério! Ela? Ir com a gente?
Cinder apoiou o ombro na moldura da porta, tentando esconder de Peony que estava chateada. A indignação de Pearl era desnecessária, pois uma pequena luz laranja piscou no canto da visão de Cinder — Adri não estava dizendo a verdade ao fazer aquela promessa.
— Bem — disse ela, tentando parecer animada. — É melhor eu achar uma correia magnética, então.
Adri fez um gesto com o braço na direção de Cinder, voltando a prestar atenção no vestido de Pearl. Ela a dispensou sem uma palavra.
Cinder olhou novamente para os suntuosos vestidos de suas irmãs antes de se retirar da sala. Ela mal tinha entrado no corredor quando Peony gritou.
— Príncipe Kai!
Sem se mover, Cinder olhou para o telão. Os alertas sobre a peste foram substituídos por uma transmissão ao vivo da sala de imprensa do palácio. O príncipe Kai estava falando para uma multidão de jornalistas, humanos e androides.
— Aumentar o volume — disse Pearl, dispensando a costureira.
— … pesquisas continuam sendo a nossa prioridade — o príncipe Kai estava dizendo, com as mãos nas laterais do púlpito — Nossa equipe de pesquisa está determinada a encontrar uma vacina para esta doença, que já levou um dos meus pais e ameaça levar o outro, assim como dezenas de milhares de nossos cidadãos. As circunstâncias são ainda mais desesperadoras depois do surto que ocorreu hoje nos limites da cidade. Não podemos mais dizer que esta doença se restringe aos pobres, às comunidades rurais do nosso país. A letumose ameaça a todos nós, e vamos encontrar uma maneira de detê-la. Só então poderemos começar a reconstruir nossa economia e devolver a Comunidade das Nações Orientais ao seu estado próspero de outrora.
Aplausos sem entusiasmo ecoaram na multidão. Pesquisas sobre a peste estavam em andamento desde o primeiro surto, ocorrido em uma pequena cidade na União Africana, havia dezenas de anos. Parecia que muito pouco progresso tinha ocorrido. Enquanto isso, a doença aparecera em centenas de comunidades aparentemente desconexas em todo o mundo. Centenas de milhares de pessoas haviam adoecido, sofrido, morrido. Até o marido de Adri tinha contraído a doença em uma viagem à Europa — a mesma viagem durante a qual ele concordara em se tornar o guardião de uma ciborgue órfã de onze anos. Uma das poucas lembranças que Cinder tinha do homem era o momento em que ele fora levado para a quarentena, enquanto Adri reclamava que ele não poderia deixá-la com aquela coisa.
Adri nunca falava sobre o marido, e havia poucas lembranças dele no apartamento. A única prova de que ele sequer havia existido era encontrada em uma fileira de placas holográficas e medalhões esculpidos que ladeavam o consolo da lareira — troféus de realizações pessoais e prêmios de uma feira internacional de tecnologia, três anos consecutivos. Cinder não tinha ideia do que ele inventara. Evidentemente, fosse o que fosse, não dera certo, porque ele não deixou quase nenhum dinheiro para a família quando morreu.
Na tela, o discurso do príncipe foi interrompido quando um estranho subiu no palco e lhe entregou um bilhete. Os olhos do príncipe se anuviaram. A tela ficou preta.
A sala de imprensa foi substituída por uma mesa diante de uma tela azul. A mulher sentada atrás dela não tinha expressão, mas agarrava-se à beirada da mesa.
— Nós interrompemos a coletiva de imprensa de Sua Alteza Imperial com uma atualização sobre o estado de Sua Majestade Imperial, Imperador Rikan. Os médicos do imperador acabaram de nos informar que Sua Majestade entrou na terceira fase da letumose.
Surpresa, a costureira tirou os alfinetes da boca.
Cinder apoiou-se na moldura da porta. Ela não tinha nem pensado em prestar suas condolências a Kai, ou desejar melhoras à saúde do imperador. Ele devia pensar que ela era muito insensível. Muito ignorante.
— Fomos informados de que tudo está sendo feito para garantir o conforto de Sua Majestade Imperial neste momento, e oficiais do palácio nos dizem que os pesquisadores estão trabalhando sem parar em busca de uma vacina. Voluntários ainda são necessários com urgência para testar o antídoto, assim como o recrutamento de ciborgues continua.
“Tem havido muita controvérsia sobre o 126° Festival Anual da Paz devido à doença do imperador, mas o príncipe Kaito disse à imprensa que o festival acontecerá como previsto e que ele espera que possa trazer alguma alegria neste momento trágico. — A jornalista fez uma pausa, hesitante, mesmo com o ponto à sua frente. Seu rosto suavizou, e a voz dura tinha um tom musical quando ela concluiu. — Vida longa ao imperador.
A costureira murmurou as mesmas palavras, respondendo à jornalista. A tela ficou preta novamente antes de voltar para a coletiva de imprensa, mas o príncipe Kai havia deixado o palco, e a plateia de jornalistas estava em convulsão ao se reportar às respectivas câmeras.
— Eu conheço um ciborgue que poderia se voluntariar para os testes da peste — disse Pearl. — Por que esperar pelo recrutamento?
Cinder baixou os olhos, lançando um olhar de ódio a Pearl, que era cerca de quinze centímetros mais baixa do que ela, apesar de um ano mais velha.
— Boa ideia — disse ela. — E depois você poderia arrumar um emprego para pagar pelo seu vestido bonito.
Pearl resmungou.
— Eles reembolsam as famílias dos voluntários, cabeça de arame.
O recrutamento de ciborgues fora iniciado por um grupo de pesquisadores da realeza havia um ano. Todas as manhãs, um novo número de identificação era sorteado entre os números dos milhares de ciborgues que residiam na Comunidade das Nações Orientais. Muitos deles tinham sido transportados de províncias longínquas como Mumbai e Cingapura para servirem de cobaias. O sistema fora inventado para ser um tipo de honra, a troca da vida pelo bem da humanidade, mas era apenas um lembrete de que ciborgues não eram como os outros. Muitos deles tinham recebido uma segunda chance na vida pelas mãos generosas de cientistas e, portanto, deviam sua existência a quem os criara. Tiveram sorte por ter vivido todo aquele tempo, muitos pensavam. Era justo que fossem os primeiros a abrir mão de suas vidas em busca da cura.
— Não podemos oferecer Cinder — disse Peony, juntando a saia nas mãos. — Preciso dela para consertar meu tablet.
Pearl fungou e se afastou. Peony torceu o nariz pelas costas da irmã.
— Parem de brigar — disse Adri. — Peony, você está amassando sua saia.
Cinder voltou para o corredor quando a costureira retornou ao trabalho. Iko já estava dois passos à frente, ansiosa para escapar da presença de Adri.
Ela ficou agradecida por Peony tê-la defendido, é claro, mas Cinder sabia que, no final, não faria diferença. Adri nunca a apresentaria como voluntária para os testes, porque isso seria o fim de sua única renda, e Cinder tinha certeza de que sua madrasta nunca tinha trabalhado sequer um dia na vida.
Mas, se o recrutamento a escolhesse, ninguém poderia interferir. E parecia que ultimamente um número desproporcional de escolhidos era de Nova Pequim e dos subúrbios vizinhos.
Toda vez que uma das vítimas do recrutamento era uma adolescente, Cinder imaginava o toque de um relógio dentro de sua cabeça.

Um comentário:

  1. Tem muita gente,fiquei um pouco confusa,mas amei,não tanto quanto a sereia ou a sequência inteira da a seleção

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Boa leitura, E SEM SPOILER!