7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezoito


SCARLET FECHOU A PORTA, ALIVIADA POR LOBO AINDA ESTAR ALI, andando de um lado para outro. Ele se virou para ela.
— Acabei de ouvir o aviso — disse ela. — Você sabe o que está acontecendo?
— Não. Estava me perguntando se você sabia.
Ela enlaçou os dedos em volta de seu tablet, dentro do bolso.
— Algum tipo de atraso. Mas me parece estranho esvaziar os corredores.
Ele não respondeu. Sua expressão de desprezo tornou-se de fúria, quase de ira.
— Você está fedendo...
Como ele não continuou, uma risada ofendida saiu pelos lábios dela.
Eu estou fedendo?
Lobo balançou a cabeça, desajeitado, fazendo o cabelo voar na testa franzida.
— Não é isso. Com quem você conversou lá fora?
Ela franziu a testa e se encostou na porta. Se Ran estava usando perfume, era leve demais para ela sentir.
— Por quê? — respondeu, irritada tanto pela acusação como pela inesperada pontada de culpa. — É da sua conta, por acaso?
Ele trincou os dentes.
— Não, não foi isso que eu... — Ele fez uma pausa, olhando para além dela.
Uma batida na porta deu-lhe um tal susto que Scarlet se afastou da parede. Virou e abriu a porta.
Um androide entrou na cabine, com um escâner na extremidade do braço fino.
— Estamos fazendo uma verificação de identidade para a segurança de todos os passageiros. Por favor, mostrem suas identificações para verificação.
Scarlet levantou a mão por instinto. Não pensou em questionar a ordem até uma luz vermelha passar por sua pele, apitar e o androide virar para Lobo.
— O que está acontecendo? — exclamou. — Nossas passagens foram escaneadas quando embarcamos.
Outro bipe.
— Vocês não devem sair desta cabine até novas instruções serem dadas.
— Você não respondeu a minha pergunta — disse Scarlet.
Um painel se abriu no tronco do androide e um terceiro membro surgiu de lá, com uma seringa fina na ponta.
— Agora preciso executar um exame obrigatório de sangue. Estique o braço direito.
Scarlet olhou para a agulha reluzente.
— Estão fazendo exames de sangue? Isso é ridículo. Só estamos indo para Paris.
— Estique o braço direito — repetiu o androide —, senão vou ser obrigado a denunciá-la por não cumprir com os regulamentos de segurança dos trens de levitação magnética. Suas passagens serão consideradas inválidas e vocês serão retirados do trem na próxima estação.
Scarlet se enfureceu e olhou para Lobo, mas ele só tinha olhos para a seringa. Por um momento, Scarlet pensou que ele fosse destruir o sensor do robô, mas esticou o braço com relutância. A expressão de Lobo ficou distante quando a agulha perfurou sua pele.
Assim que o androide retirou uma amostra de sangue e recolheu o membro extra, Lobo recuou e dobrou o braço junto ao peito.
Tem medo de agulha? Scarlet apertou os olhos para observá-lo enquanto segurava o cotovelo e o androide surgia com outra seringa. Ela pensou que não devia doer mais do que a tatuagem.
Com uma expressão irritada, ela viu a seringa ser enchida com seu sangue.
— O que exatamente vocês estão procurando? — perguntou ela quando o androide terminou e as seringas desapareceram dentro do corpo dele.
— Iniciando avaliação do sangue — disse o androide, emitindo em seguida uma série de zumbidos e bipes. Lobo tinha acabado de baixar os braços para as laterais do corpo quando o androide declarou: — Avaliação completa. Por favor, fechem a porta e permaneçam nesta cabine até receberem novas instruções.
— Você já disse isso — falou Scarlet para o androide, que já tinha virado de costas e estava seguindo para o corredor.
Ela apertou o ponto de perfuração com o polegar e fechou a porta com o pé.
— O que foi isso? Estou considerando mandar uma mensagem para o serviço de atendimento ao cliente dos trens de levitação magnética e fazer uma reclamação.
Ao virar, viu Lobo já na janela. Seus passos tinham sido completamente silenciosos.
— Estamos desacelerando.
Um momento silencioso e agonizante se passou até Scarlet também sentir isso. Pela janela, via-se uma cobertura densa de floresta bloqueando o sol do meio-dia. Não havia estradas nem prédios. Eles não estavam parando em uma estação.
Ela abriu a boca, mas a expressão de Lobo interrompeu sua pergunta antes que ela pudesse se formar.
— Está ouvindo isso?
Scarlet abriu o zíper do moletom para deixar o ar entrar e prestou atenção. O zumbido dos ímãs. O assobio de ar passando por uma janela aberta na cabine ao lado. O movimento de bagagem.
Um choro agudo. Tão distante que parecia um pesadelo desaparecendo.
Um arrepio gelado passou por seus braços.
— O que está acontecendo lá fora?
O alto-falante da parede estalou.
— Passageiros, quem fala é o condutor. Houve uma emergência médica no trem. Teremos um atraso enquanto aguardamos as autoridades médicas. Pedimos que todos os passageiros permaneçam em suas cabines particulares e obedeçam a qualquer pedido dos androides tripulantes. Agradecemos pela paciência.
O alto-falante caiu em silêncio, e Scarlet e Lobo se entreolharam.
A garganta de Scarlet se apertou.
Exame de sangue. Choro. Atraso.
— A peste.
Lobo não disse nada.
— Vão isolar o trem todo — disse ela. — Vamos ficar de quarentena.
No corredor, portas batiam, pessoas gritavam perguntas e especulações e ignoravam o pedido do condutor para ficarem em suas cabines. O androide devia ter seguido para o vagão seguinte.
Scarlet ouviu as palavras epidemia de letumose sussurradas, ditas como uma pergunta, um medo.
— Não. — Ela cuspiu a palavra como o disparo de uma bala. — Eles não podem nos manter aqui. Minha avó...! — Sua voz tremeu, com uma onda de pânico a envolvendo completamente.
Alguém no corredor bateu erraticamente em uma porta. O choro distante ficou mais alto.
— Pegue suas coisas — disse Lobo.
Os dois se moveram ao mesmo tempo. Ela jogou o tablet na mala enquanto Lobo foi abrir a janela. O chão passava disparado abaixo deles. Para além dos trilhos, uma floresta densa se perdia no escuros.
Scarlet verificou a arma na cintura.
— Vamos pular?
— Vamos. Mas eles podem estar esperando por isso, então temos que pular antes de o trem ficar devagar demais. Devem estar preparando androides policiais agora mesmo para pegar fugitivos.
Scarlet assentiu.
— Se for letumose, provavelmente já estamos em quarentena.
Lobo colocou a cabeça para fora da janela e olhou para os dois lados.
— Agora é nossa melhor chance.
Ele trouxe a cabeça para dentro e colocou a bolsa no ombro. Scarlet olhou para o chão correndo abaixo, tonta por um momento. Era impossível se concentrar em um ponto com o sol penetrando por entre as árvores.
— Ai. Isso parece perigoso.
— Vamos ficar bem.
Ela olhou para ele, esperando ver, por um momento, aquele louco ensandecido de novo, mas sua expressão estava fria e clínica. Lobo estava concentrado na paisagem que passava em disparada.
— Estão freando — disse. — Vamos parar em pouco tempo. — Mais uma vez, demorou alguns segundos para que Scarlet também sentisse a mudança sutil na velocidade, a forma como estavam desacelerando, rapidamente.
Lobo inclinou a cabeça.
— Suba nas minhas costas.
— Consigo pular sozinha.
Scarlet.
Ela olhou nos olhos dele. A curiosidade jovem de antes tinha sumido e sido substituída por uma firmeza que ela não esperava.
— O quê? Vai ser como pular do celeiro em um monte de feno. Já fiz umas cem vezes.
— Monte de feno? Sinceramente, Scarlet, não vai ser nada assim.
Antes que ela pudesse argumentar, antes que pudesse firmar a postura de desafio, ele se inclinou e a tomou nos braços.
Ela levou um susto e teve tempo apenas para abrir a boca, pronta para mandar que a colocasse no chão, mas Lobo já estava na janela, e o vento fazia os cachos de Scarlet baterem no pescoço.
Lobo pulou. Scarlet soltou um grito e se agarrou a ele, seu estômago dando voltas, e, então, o choque do impacto acertou sua coluna inteira.
Ela enfiou os dedos nos ombros dele. Todos os membros tremendo.
Lobo tinha caído em uma clareira dez passos além dos trilhos. Cambaleou até as árvores e se agachou nas sombras.
— Tudo bem? — perguntou ele.
— Igualzinho — disse ela enquanto recuperava o fôlego — a um monte de feno.
Uma gargalhada reverberou pelo peito dele, chegou a ela, e antes que estivesse pronta, Lobo colocou os pés dela em uma área de musgo úmido. Ela se soltou das mãos, se equilibrou e deu um soco no braço dele.
— Nunca mais faça isso.
Ele pareceu quase satisfeito consigo mesmo e depois inclinou a cabeça na direção da floresta.
— Temos que nos afastar, caso alguém tenha nos visto.
Ela ouviu o trem passando. Sua pulsação estava errática e pesada, e ela seguiu Lobo entre as árvores. Não tinham dado nem dez passos quando a vibração do trem desapareceu, se afastando nos trilhos.
Scarlet tirou o tablet da bolsa e verificou a localização deles.
— Que ótimo. A cidade mais próxima fica trinta quilômetros a leste daqui. É fora do nosso caminho, mas talvez alguém possa nos dar carona até a próxima estação de trem.
— Porque temos uma aparência superconfiável?
Scarlet reparou nas cicatrizes de Lobo, pálidas e espalhadas, e no olho roxo quase bom.
— Qual é sua ideia?
— Devemos seguir os trilhos. Outro trem vai acabar passando.
— E por acaso vai nos dar carona?
— Claro.
Desta vez, ela captou a malícia nos olhos dele quando começou a andar em direção aos trilhos. Mas não tinham andado quase nada quando ele parou de repente.
— O quê...?
Lobo virou para ela e colocou uma das mãos com firmeza atrás da cabeça e a outra na boca dela.
Tensa, Scarlet fez um movimento para empurrá-lo, mas alguma coisa a fez parar. Ele estava olhando para a floresta com a testa franzida. Ergueu o nariz e farejou o ar.
Quando teve certeza de que ela não faria ruído nenhum, ele afastou as mãos, como se alguma coisa o tivesse picado. Scarlet cambaleou para trás, surpresa com o gesto repentino.
Os dois ficaram parados em silêncio, Scarlet tentando ouvir o que tinha deixado Lobo tenso.
Levou lentamente a mão às costas e tirou a arma da cintura. O clique quando ela soltou a trava ecoou pelas árvores.
Na floresta, um lobo uivou. O grito solitário provocou um arrepio na coluna de Scarlet.
Lobo não pareceu surpreso.
Então, atrás deles, outro uivo, mais distante. E outro ao norte.
O silêncio se espalhou ao redor deles quando os uivos desapareceram no ar.
— Amigos seus? — perguntou Scarlet.
A lucidez voltou à expressão de Lobo e ele analisou-a junto de sua arma. Scarlet achou estranho que ele pudesse se assustar com ela quando os uivos não geraram reação nenhuma.
— Não vão nos incomodar — respondeu por fim, virando e seguindo os trilhos.
Com uma risada debochada, Scarlet saiu atrás dele.
— Ah, não é um alívio? Estamos presos em um território de lobos selvagens, mas como você diz que não vão nos incomodar... — Ela travou a arma de novo e estava enfiando na cintura da calça quando um gesto de Lobo a fez parar.
— Eles não vão nos incomodar — repetiu ele, quase sorrindo. — Mas você pode ficar com isso na mão, só por garantia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!