20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezoito


Winter deixou a empregada arrumar seu cabelo, prendendo a parte de cima em uma trança grossa feita com fios de ouro e prata, e deixando o resto caído sobre os ombros.
Ela deixou que a empregada escolhesse um vestido azul-claro que deslizava pela pele como água e uma tira de strass para acentuar o pescoço. Deixou que a empregada passasse óleo aromático em sua pele.
Ela não deixou a empregada passar maquiagem, nem para cobrir as cicatrizes. A empregada não insistiu muito.
— Acho que a senhorita não precisa, Alteza — disse ela, fazendo uma reverência.
Winter sabia que era dona de uma espécie de beleza excepcional, mas nunca havia tido um motivo para incrementá-la. Independentemente do que fizesse, olhares a seguiam pelos corredores. Independentemente do que fizesse, a madrasta rosnava e tentava esconder a inveja.
Mas, desde que Jacin confessou não ser imune à aparência dela, estava ansiosa pela oportunidade de se arrumar com roupas novas e elegantes. Não que ela esperasse que muita coisa resultasse disso, além de uma satisfação embriagante. Ela sabia que era ingenuidade pensar que Jacin poderia fazer uma coisa tão louca quanto confessar seu amor por ela. Isso se ele a amasse. Ela estava confiante de que amava, deveria amar, depois de todos aqueles anos… mas o jeito como ele a tratava tinha uma qualidade distante desde que entrou para a guarda real. O respeito profissional que ele mantinha lhe dava vontade de segurar as lapelas dele e beijá-lo, só para ver quanto tempo demoraria para ele ceder.
Não, ela não esperava uma confissão nem um beijo, e sabia muito bem que paquera estava fora de questão. Ela só queria um sorriso de admiração, um olhar sem fôlego que lhe daria forças.
Assim que a empregada saiu, Winter espiou no corredor, onde Jacin montava guarda.
— Sir Clay, posso solicitar sua opinião antes de irmos receber nossos convidados terráqueos?
Ele esperou duas respirações inteiras para responder:
— Ao seu serviço, Vossa Alteza.
Mas não desviou a atenção da parede do corredor.
Winter ajeitou a saia e parou na frente dele.
— Eu queria saber se você acha que estou bonitinha hoje.
Outra respiração, um pouco mais alta.
— Não é engraçado, princesa.
— Engraçado? É uma pergunta sincera. — Ela fez um biquinho de lado. — Não sei se azul é minha cor.
Com uma expressão zangada, ele finalmente olhou para ela.
— Você está tentando me deixar maluco?
Ela riu.
— A maluquice adora companhia, Sir Clay. Eu reparei que você não respondeu minha pergunta.
Jacin contraiu o maxilar ao voltar o foco para algum ponto acima da cabeça dela.
— Vá procurar elogios em outro lugar, princesa. Estou ocupado protegendo você de ameaças desconhecidas.
— E que trabalho excelente está fazendo. — Ela tentou esconder a decepção quando voltou para o quarto, dando um tapinha no peito de Jacin ao passar. Mas, com o toque, a mão dele agarrou a saia dela, ancorando-a ao lado. O coração de Winter pulou, e, apesar de toda a sua bravata, o olhar perfurante de Jacin a fez se sentir pequena e infantil.
— Por favor, pare de fazer isso — sussurrou ele, mais suplicante do que irritado. — Apenas… deixe pra lá.
Ela engoliu em seco e pensou em fingir ignorância. Mas, não… Ignorância era o que fingia para todo mundo. Não com Jacin. Nunca Jacin.
— Eu odeio isso — sussurrou ela em resposta. — Odeio ter que fingir que não vejo você.
A expressão dele se suavizou.
— Eu sei que você me vê. Isso é tudo o que importa. Certo?
Ela deu um aceno leve, mas não sabia se concordava. Como teria sido lindo viver em um mundo em que não tivesse que fingir.
Jacin a soltou, e ela entrou no quarto e fechou a porta. Ficou surpresa ao perceber que estava tonta. Devia ter prendido a respiração quando ele a parou, e agora…
Ela se deteve alguns passos depois de entrar na antessala. Suas entranhas se contraíram e as narinas se encheram com o odor férreo de sangue.
Estava ao redor dela. Nas paredes. Escorrendo do candelabro. Encharcando as almofadas do divã.
Um choramingo escapou de sua boca.
Havia semanas que não tinha uma visão. Nada a assombrou depois da volta de Jacin. Ela tinha esquecido o medo sufocante, o aperto de pavor no estômago.
Apertou bem os olhos.
— J-Jacin? — Uma coisa quente caiu em seu ombro, sem dúvida manchando a linda seda azul. Ela deu um passo para trás e sentiu o tapete fazer um barulho molhado debaixo dos pés. — Jacin!
Ele entrou pela porta de forma explosiva, e, apesar de ela estar com os olhos bem fechados, imaginou-o atrás de si, com a arma na mão.
— Princesa… o que foi? — Ele segurou o cotovelo dela. — Princesa?
— As paredes — sussurrou ela.
Um momento, seguido de um xingamento baixo. Ela ouviu a arma ser recolocada no coldre, e ele estava na frente dela, com as mãos em seus ombros. A voz ficou baixa e carinhosa.
— Me conte.
Ela tentou engolir, mas a saliva era densa e metálica.
— As paredes estão sangrando. O candelabro também, e caiu no meu ombro, e acho que está manchando meus sapatos, estou sentindo o cheiro, o gosto, e por que… — A voz dela se descontrolou de repente. — Por que o palácio sente tanta dor, Jacin? Por que está sempre morrendo?
Ele a puxou para perto e aninhou o corpo dela. Os braços eram estáveis e protetores, e ele não estava sangrando e não estava destruído. Ela afundou no abraço, atordoada demais para retribuir, mas disposta a aceitar o consolo. Winter se afundou na segurança dele.
— Respire fundo — mandou ele.
Ela respirou, embora o ar estivesse tomado de morte.
Ela ficou feliz em soltar o ar novamente.
— É coisa da sua cabeça, princesa. Você sabe. Repita.
— É coisa da minha cabeça — murmurou ela.
— As paredes estão sangrando?
Ela fez que não e sentiu a pressão do broche militar dele em sua têmpora.
— Não. Elas não sangram. É só coisa da minha cabeça.
Ele a apertou mais.
— Você está bem. Vai passar. Mas continue respirando.
Ela continuou. E, repetidas vezes, a voz dele guiava cada respiração, até que o cheiro de sangue foi aos poucos sumindo.
Ela se sentiu tonta e exausta e com o estômago embrulhado, mas feliz porque o café da manhã não voltou.
— Está melhor agora. Passou.
Jacin expirou, como se também estivesse se esquecendo de respirar. Em seguida, em um momento estranho de vulnerabilidade, ele inclinou a cabeça e beijou o ombro dela, bem onde a gota inexistente de sangue tinha caído.
— Não foi tão ruim — disse ele, com uma nova leveza na voz. — Não teve janela, pelo menos.
Winter se encolheu, lembrando a primeira vez que viu o castelo sangrar. Ela ficou tão perturbada e desesperada para fugir que tentou se jogar da varanda do segundo andar.
Jacin chegou bem a tempo de puxá-la de volta.
— Nem objetos afiados — disse ela, falando como piada. Teve uma vez que ela fez doze buracos na cortina tentando matar as aranhas que estavam nelas, acertando a própria mão no processo. Não fora um ferimento fundo, mas desde então Jacin cuidava para manter objetos afiados longe dela.
Ele a segurou com os braços esticados e a inspecionou. Winter forçou um sorriso, mas percebeu que não era forçado, afinal.
— Acabou. Eu estou bem.
O olhar dele ficou caloroso, e por um breve momento ela pensou: É agora, é agora que ele vai me beijar…
Houve uma tosse vinda da porta.
Jacin se afastou.
Winter se virou com o coração disparado.
Aimery estava na porta com a expressão sombria.
— Vossa Alteza.
Winter recuperou o fôlego e prendeu uma mecha de cabelo atrás da orelha; devia ter se soltado da trança. Ela estava toda quente. Afobada e nervosa e ciente de que deveria estar constrangida, mas estava mais irritada com a interrupção do que qualquer outra coisa.
— Taumaturgo Park — disse ela, com um aceno cordial. — Eu estava tendo um dos meus pesadelos. Sir Clay estava me ajudando.
— Entendo — disse Aimery. — Se o pesadelo passou, sugiro que ele retome a posição.
Jacin bateu os calcanhares e saiu sem dizer nada, apesar de ser impossível saber se foi por vontade própria ou se Aimery o estava controlando.
Ainda tentando se recompor, Winter deu um sorriso para o taumaturgo.
— Deve ser a hora de ir para as docas, certo?
— Quase — disse ele, e, para a surpresa dela, virou-se e fechou a porta do corredor.
Os dedos de Winter tremeram na defensiva, mas não por preocupação consigo mesma. O pobre Jacin odiaria ficar sozinho do outro lado, sem protegê-la se alguma coisa acontecesse.
Mas era um pensamento inútil. Mesmo se Jacin estivesse presente, ele não poderia fazer nada contra um taumaturgo. Winter costumava pensar que isso era uma fraqueza na segurança deles. Ela nunca confiou nos taumaturgos, mas eles tinham tanto poder no palácio.
Afinal, um taumaturgo matou seu pai, e ela nunca superou esse fato. Até hoje, uma manga comprida vista com o canto dos olhos costumava lhe dar um susto.
— Você precisa de alguma coisa? — perguntou ela, tentando parecer despreocupada.
Ainda estava se recuperando da visão. O estômago tinha dado um nó, e havia suor quente grudado na nuca. Gostaria de se deitar por um minuto, mas não queria parecer mais fraca do que já parecia. Do que já era.
— Vim fazer uma proposta um tanto interessante, Vossa Alteza — disse Aimery. — Na qual venho pensando há algum tempo e que espero que você concorde que é benéfica para nós dois. Já sugeri a ideia a Sua Majestade, e ela manifestou aprovação, com a condição de você consentir.
A voz dele era ao mesmo tempo escorregadia e gentil. Sempre que estava na presença de Aimery, Winter desejava ao mesmo tempo se esconder e se encolher, sonolenta, junto ao timbre firme dele.
— Me perdoe, Aimery, meu cérebro ainda está confuso da alucinação e estou tendo dificuldade em entender você.
O olhar dele passou por ela, parou nas cicatrizes e nas curvas, e Winter ficou feliz por não tremer involuntariamente.
— Princesa Winter Blackburn. — Ele se aproximou. Ela não conseguiu resistir a dar um passo para trás antes que pudesse se impedir. Medo era uma fraqueza na corte. Era bem melhor agir de maneira imperturbável. Era bem mais seguro agir como louca quando na dúvida.
Ela queria não ter dito que o pesadelo tinha acabado. Queria que as paredes tivessem continuado sangrando.
— Você é querida pelo povo. Amada. Linda. — Os dedos dele acariciaram o queixo dela com a delicadeza de uma pena. Desta vez, ela tremeu. — Todo mundo sabe que você nunca vai ser rainha, mas isso não quer dizer que não possa ter sua espécie de poder. Uma capacidade de acalmar as pessoas, de dar alegria a elas. O povo admira você imensamente. É importante que mostremos ao povo seu apoio à família real e à corte que a serve. Você não concorda?
A pele dela estava coberta de arrepios.
— Eu sempre demonstrei apoio à rainha.
— Claro que sim, minha princesa. — Quando queria, ele tinha um sorriso lindo, e sua beleza fez o estômago dela se contrair. Mais uma vez, ele olhou para as cicatrizes. — Mas sua madrasta e eu concordamos que está na hora de fazer uma grande declaração para o povo. Um gesto simbólico que mostre onde você se encaixa nessa hierarquia. Está na hora, princesa, de você ter um marido.
Os músculos de Winter ficaram rígidos. Ela imaginou que o discurso chegaria nesse ponto, mas as palavras saídas da boca de Aimery eram repulsivas.
Ela apertou os lábios em um sorriso.
— Claro — disse ela. — Vou ficar feliz em pensar na minha felicidade futura. Já me disseram que há vários pretendentes que manifestaram interesse. Assim que as cerimônias de casamento e coroação da minha madrasta acabarem, vou ter prazer em dar uma olhada nos potenciais pretendentes e dar continuidade ao cortejo.
— Não vai ser necessário.
O sorriso dela era de gesso.
— O que você quer dizer?
— Eu vim pedir sua mão, Vossa Alteza.
Os pulmões dela entraram em convulsão.
— Nós somos um par perfeito. Você é linda e adorada. Eu sou poderoso e respeitado. Você precisa de um parceiro que possa protegê-la do seu dom e contrabalançar suas incapacidades. Pense bem. A princesa e o taumaturgo-chefe da rainha… vamos ser a maior fonte de inveja da corte.
Os olhos dele brilhavam, e ficou claro que ele já estava imaginando isso havia um bom tempo. Winter suspeitava que Aimery podia sentir atração por ela, e saber disso tinha sido fonte de incontáveis pesadelos. Ela sabia como ele tratava as mulheres por quem sentia atração.
Mas nunca imaginou que ele fosse procurar um casamento, acima das famílias, acima até de um potencial arranjo terráqueo…
Não. Já que Levana seria uma imperatriz terrestre, não importaria se Winter fosse fazer ou não um arranjo de matrimônio com o planeta azul. Na verdade, casar a enteada fraca e patética com um homem dotado de uma capacidade tão impressionante de controlar as pessoas…
Era uma combinação inteligente, realmente.
O sorriso de Aimery provocou arrepios nela.
— Estou vendo que a deixei sem palavras, minha princesa. Posso interpretar seu choque como consentimento?
Ela se obrigou a sorrir e afastar o olhar; pudica, não enojada.
— Estou… lisonjeada com sua proposta, taumaturgo Park. Eu não mereço as atenções de alguém tão bem-sucedido quanto você.
— Não finja modéstia. — Ele aninhou a bochecha de Winter, que se encolheu. — Diga sim, princesa, e podemos anunciar nosso noivado na festa desta noite.
Ela recuou para longe do toque dele.
— Estou honrada, mas… isso é tão repentino. Preciso de tempo para pensar. Eu… eu preciso falar com minha madrasta e… e pensar…
— Winter. — O tom dele tinha uma aspereza nova, embora o rosto permanecesse gentil, até impassível. — Não há nada a considerar. Sua Majestade aprovou a união. Só falta você aceitar para a confirmação do nosso noivado. Aceite minha proposta, princesa. É a melhor que você vai receber.
Ela olhou para a porta, procurando algum consolo que não sabia qual era. Estava encurralada.
Os olhos de Aimery escureceram.
— Espero que você não esteja esperando que aquele guarda peça sua mão. Espero que não esteja alimentando uma fantasia infantil de que me recusar é aceitá-lo.
Ela trincou os dentes e sorriu com tensão.
— Não seja bobo, Aimery. Jacin é um amigo querido, mas não tenho intenções com ele.
Ele riu com deboche.
— A rainha jamais permitiria tal casamento.
— Eu acabei de falar que…
— Qual é sua resposta? Não brinque com palavras e significados, princesa.
A cabeça de Winter girou. Ela não queria, não podia dizer sim. Para Aimery? O cruel e mentiroso Aimery, que sorria quando havia derramamento de sangue no chão da sala do trono?
Mas dizer não também não seria boa ideia. Ela não ligava para o que poderiam fazer com ela, mas, se colocasse Jacin em perigo com sua recusa, se Aimery acreditasse que Jacin era o motivo da recusa dela…
Uma batida na porta prolongou a falta de decisão.
Aimery rosnou:
— O quê?
Jacin entrou, e, apesar de não ter expressão nenhuma no rosto, como sempre, Winter detectou um tom vermelho de ressentimento nas bochechas dele.
— Sua Alteza foi convocada para se reunir ao grupo da rainha, para se encontrar com os convidados terráqueos.
Winter relaxou de alívio.
— Obrigada, Sir Clay — disse ela, contornando Aimery.
Aimery segurou o pulso dela antes que saísse de seu alcance. Jacin levou a mão à arma, mas não a puxou.
— Eu quero uma resposta — disse Aimery, baixinho.
Winter colocou a mão em cima da de Aimery, imaginando-se despreocupada.
— Se quer agora, infelizmente a resposta vai ter que ser não — disse ela, com um descaso que negava seus verdadeiros sentimentos. — Mas me dê tempo para pensar na proposta, taumaturgo Park, e talvez a resposta seja diferente quando voltarmos a falar nisso.
Ela bateu de leve nos dedos dele e ficou grata quando ele a soltou.
Mas a expressão que ele lançou a Jacin quando passaram não falava em ciúme, mas em assassinato.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!