13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezoito

NÃO DEMOROU PARA QUE CRESS E THORNE ACHASSEM UM RITMO. Conforme Thorne foi ficando mais à vontade com o movimento da areia embaixo deles e com a sensação da bengala na mão, permanecia mais confiante, e o ritmo de caminhada aumentou. Três dunas. Cinco. Dez. Em pouco tempo, Cress percebeu que era preciso bem menos energia para permanecer nos vales entre as dunas sempre que possível, e eles começaram a fazer uma rota mais lenta mas menos exaustiva em zigue-zague pelo deserto.
Enquanto ela andava, as toalhas ao redor dos pés começaram a afrouxar e grãos de areia entraram entre os dedos, apesar da força que Thorne usara para amarrar as cordas de cabelo. As solas dos pés começaram a arder, e uma câimbra ameaçava se espalhar pelo pé esquerdo devido ao movimento constante dos dedos no chão instável. As pernas dela doíam. O corpo de Cress começou a se rebelar quando estavam subindo mais uma duna.
As coxas queimaram quando chegaram ao topo de mais uma colina, e as panturrilhas gritaram quando desceram do outro lado. As rotinas bobas de exercício a bordo do satélite não a haviam preparado para isso.
Mas ela não reclamou. Ofegava bastante. Limpava as gotas de suor da testa. Trincava o maxilar por causa da dor. Mas não reclamava.
Pelo menos ainda enxergava, lembrou a si mesma. E pelo menos não precisava carregar os suprimentos. Ela ouvia Thorne trocar a bolsa de ombro de tempos em tempos, mas ele também não reclamava.
Às vezes, quando chegavam a uma parte plana, ela fechava os olhos para ver por quanto tempo conseguia andar sem abri-los. A vertigem a atacava quase imediatamente. O pânico florescia na base da espinha e subia até ela ter certeza de que cada passo a faria pisar em uma pedra ou pequena subida e que cairia de cara na areia.
Na quarta vez que ela fez isso, Thorne perguntou por que eles toda hora passavam a ir mais devagar. Ela manteve os olhos abertos depois disso.
— Você precisa parar um pouco? — perguntou Thorne horas depois.
— N-Não — ofegou ela, com as coxas ardendo. — Estamos quase no topo desta duna.
— Tem certeza? Não seria bom você desmaiar de exaustão.
Ela deu um suspiro de alívio quando eles chegaram ao alto da duna, mas o medo logo tomou o lugar do alívio. Cress não sabia por que esperava que essa duna fosse se mostrar diferente das dezenas de outras que já tinham subido. Não sabia por que estava pensando que essa devia marcar o fim do deserto, pois achava que não conseguiria ir muito mais longe.
Mas não era o fim. O mundo era feito de mais dunas, mais areia, mais nada.
— É sério. Vamos dar uma descansada — falou Thorne, colocando a bolsa no chão e enfiando a bengala na areia.
Ele passou um momento relaxando os ombros, depois se abaixou e desfez o nó da bolsa. Entregou a Cress uma das garrafas de água e pegou outra para si.
— Não deveríamos racionar? — perguntou ela.
Ele balançou a cabeça.
— É melhor beber enquanto estamos com sede e tentar suar o mínimo possível, pelo máximo que pudermos. Nossos corpos vão manter a hidratação melhor assim, mesmo se ficarmos sem água. E devemos evitar comer até encontrarmos outra fonte. A digestão precisa de muita água.
— Tudo bem. Não estou com fome.
E era verdade. O calor parecia ter roubado qualquer apetite que ela tivesse.
Quando acabou de beber o quanto conseguia, Cress devolveu a garrafa para Thorne e fantasiou-se deitando na areia e indo dormir, mas não ousava por medo de nunca mais acordar. Quando Thorne levantou a bolsa, ela desceu a duna sem questionar.
— O que você acha que está acontecendo na sua nave? — perguntou Cress enquanto eles desciam. A pergunta vinha ecoando em sua mente havia horas, mas a água finalmente a tornou capaz de falar. — Você acha que a mestra Sybil...?
— Eles estão bem — respondeu Thorne com confiança firme. — Tenho pena da pessoa que se posicionar contra Lobo, e Cinder é mais durona do que as pessoas imaginam. — Uma pausa, e uma gargalhada sonora se espalhou pelo ar do deserto. — Literalmente, na verdade.
— Lobo. Esse deve ser o outro homem na nave, não?
— É, e Scarlet é a... bem, não sei direito como eles se chamam, mas ele é lunático por ela. Scarlet não é moleza também. Aquela taumaturga não fazia ideia no que estava se metendo.
Cress torcia para ele estar certo. A mestra Sybil os encontrara por causa dela, e a dor que sentia era tão intensa quanto as sensações sofridas em seus ossos.
— E como uma garota que nasceu em Luna foi parar em um satélite e se tornou simpatizante da Terra?
Ela franziu o nariz.
— Ah. Quando meus pais descobriram que eu era cascuda, me entregaram para ser morta, por causa das leis do infanticídio. Mas a mestra me salvou e me criou, junto com outros cascudos que salvou. Ela basicamente nos queria para alguma espécie de experimento como os que estão sempre fazendo, mas a mestra nunca me explicou direito. Nós morávamos em uns tubos de lava convertidos em dormitórios e estávamos sempre sendo monitorados por câmeras ligadas ao sistema de comunicação de Luna. Era meio apertado, mas não era ruim, e tínhamos tablets e telas, de forma que não ficávamos completamente isolados do mundo externo. Depois de um tempo, fiquei muito boa em invadir o sistema de comunicação, que eu fazia só para coisas bobas. Vivíamos curiosos com a escola, então eu usava para invadir o sistema escolar de Luna e baixar guias de estudo, coisas assim.
Cress apertou os olhos em direção à lua, tão distante. Era difícil acreditar que ela era de lá.
— Aí, um dia, um dos garotos mais velhos, Julian, me perguntou se eu achava que conseguiria descobrir quem eram os pais dele. Demorei uns dois dias, mas descobri, e vimos que os pais dele moravam em um dos domos de madeira, que os dois estavam vivos e que ele tinha dois irmãos mais novos. Depois, descobrimos como mandar uma mensagem para eles para contar que ele estava vivo. Ele achava que, se eles soubessem que ele não tinha sido morto, iriam procurá-lo. Ficamos tão animados achando que podíamos fazer contato com nossas famílias. Que seríamos resgatados. — Ela engoliu em seco. — Foi muita inocência, é claro. No dia seguinte, a mestra veio e levou Julian, depois alguns técnicos tiraram todo o equipamento de monitoria, para não termos mais acesso à rede. Eu acho... acho que os pais dele devem ter feito contato com as autoridades quando receberam a mensagem, e acho que ele deve ter sido morto, para provar que as leis do infanticídio estavam sendo levadas a sério.
Ela passou os dedos pelo cabelo e ficou surpresa de deslizarem com tanta facilidade.
— Depois disso, a mestra Sybil passou a prestar mais atenção em mim. Ela às vezes me levava para fora das cavernas, até os domos, e me passava tarefas diferentes. Alterar o código do sistema de transmissão. Invadir redes. Programar software inteligente para captar dicas verbais específicas e enviar informações para contas de mensagens diferentes. No começo, eu amei. A mestra era boa comigo nessa época, e significava que eu podia sair dos tubos de lava e ver um pouco da cidade. Eu sentia como se estivesse me tornando a favorita dela e que, se eu fizesse o que ela me pedia, acabaria não importando mais o fato de eu ser cascuda, e eu teria permissão de ir à escola e ser como qualquer lunar normal. Um dia, Sybil me pediu para invadir uma troca de mensagens de dois diplomatas europeus, e eu falei que o sinal estava muito fraco. Eu precisava ficar mais perto da Terra, e precisava de conectividade melhor, softwares avançados...
Cress balançou a cabeça, lembrando-se de como dissera para Sybil exatamente o que Sybil precisaria para montar o satélite para seu jovem prodígio. Cress praticamente elaborou a própria prisão.
— Alguns meses depois, a mestra foi me buscar e me disse que íamos viajar. Subimos em uma nave, e eu estava tão animada! Pensei que ela fosse me levar até Artemísia, para ser apresentada para a própria rainha, para ser perdoada por ter nascido cascuda. Eu me sinto tão idiota agora. Mesmo quando começamos a voar para longe de Luna e eu vi que estávamos indo na direção da Terra, foi para lá que pensei que estivéssemos indo. Eu pensei, tudo bem, talvez os lunares não consigam me aceitar assim, mas a mestra sabe que os terráqueos aceitarão. Então está me deixando ir para a Terra. A viagem demorou horas e horas, e, no final, eu estava tremendo de empolgação e já tinha elaborado toda uma história na cabeça, de que a mestra me daria para um casal terráqueo legal que me criaria como filha, e eles moravam em uma casa enorme na árvore... Não sei por que pensei que eles morariam em uma casa na árvore, mas acho que era para isso que eu torcia. Eu nunca tinha visto árvores de verdade. — Ela franziu a testa. — Na verdade, ainda não vi.
Houve um silêncio curto antes de Thorne dizer:
— E foi aí que ela levou você para o satélite e você se tornou programadora da rainha.
— Programadora, hacker, espiã... de alguma forma, nunca deixei de acreditar que, se eu fizesse tudo o que ela pedia, um dia ela me soltaria.
— E quanto tempo demorou para você decidir que preferia tentar salvar a realeza da Terra em vez de espioná-la?
— Não sei. Eu sempre fui fascinada pela Terra. Passei muito tempo lendo notícias terráqueas e vendo as novelas. Comecei a me sentir ligada às pessoas de lá de baixo... daqui de baixo. Mais do que me sentia ligada aos lunares. — Ela uniu as mãos. — Depois de um tempo, comecei a fingir que era uma guardiã secreta e que era meu trabalho proteger a Terra e seu povo de Levana.
Para o alívio dela, Thorne não riu. Ele não falou nada por um tempo, e Cress não conseguiu decidir se o silêncio era reconfortante ou constrangedor. Talvez ele achasse que as fantasias dela eram infantis.
Um bom tempo depois, Thorne falou:
— Se eu estivesse em seu lugar e só tivesse um chip D-COMM que pudesse usar para me comunicar com a Terra, eu teria encontrado alguma sujeira no passado de algum piloto famoso e feito chantagem com ele até fazê-lo me buscar no satélite em vez de tentar salvar o imperador.
Apesar de ele parecer sério, Cress não pôde evitar um sorriso.
— Não, não teria. Você teria feito a mesma coisa que eu porque você sabe que a ameaça que Levana é para a Terra é muito maior do que você e eu... muito maior do que qualquer um de nós.
Mas o capitão balançou a cabeça.
— É bondade sua dizer isso, Cress. Mas acredite em mim. Eu teria feito chantagem com alguém.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!