7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezessete

O CORREDOR DO TREM ESTAVA AGITADO COM TANTA ATIVIDADE. Ao seguir para o vagão-restaurante, Scarlet passou por androides servos entregando marmitas de almoço, uma mulher em um terno engomado falando com seriedade com o tablet, uma criança pequena abrindo com curiosidade todas as portas pelas quais passava.
Scarlet desviou de todos, atravessou uns seis vagões idênticos, passou pela miríade de passageiros a caminho de empregos normais, férias normais, idas às compras normais, talvez até voltando para suas casas normais. Suas emoções começaram a se distanciar gradualmente; a irritação com a imprensa por demonizar uma garota de dezesseis anos e a surpresa de descobrir que ela tinha fugido da prisão e ainda estava por aí. A solidariedade para com a infância violenta de Lobo, seguida de uma rejeição inesperada quando ele preferiu não vir com ela. O pavor incontrolável pela avó e o que poderia estar acontecendo com ela agora, enquanto o trem seguia lento demais pelo campo, tranquila apenas com a certeza de que pelo menos estava a caminho.
Pelo menos chegando mais perto.
Com a mente ainda girando como um caleidoscópio, ficou feliz ao encontrar o vagão-restaurante relativamente vazio. Um atendente entediado estava atrás de um balcão de bar circular, vendo um talk show do qual Scarlet nunca gostou na tela. Duas mulheres estavam tomando mimosas em uma mesinha. Um jovem estava sentado com as pernas apoiadas em um banco, digitando furiosamente no tablet. Quatro androides esperavam junto à parede para fazer entregas em vagões particulares.
Scarlet se sentou em frente ao bar e colocou o tablet ao lado de um pote de azeitonas verdes.
— O que deseja? — perguntou o barman, ainda prestando atenção na entrevista do apresentador com um antigo astro de filmes de ação.
— Espresso, um cubo de açúcar, por favor.
Ela apoiou o queixo na palma da mão enquanto ele digitava o pedido. Depois de passar o dedo na tela do tablet, ela digitou:
A ORDEM DA MATILHA
Uma lista de bandas de música e grupos surgiu na página, todos com nomes de matilhas de lobos e sociedades secretas.
SOLDADO LEAL À ORDEM DA MATILHA
Nenhum resultado.
OS LOBOS
Assim que digitou, ela soube que o termo era amplo demais. Modificou rapidamente para A GANGUE DOS LOBOS.
Quando surgiram 20.400 respostas, ela acrescentou PARIS.
Apareceu uma banda de música que tinha feito turnê em Paris dois anos antes.
GANGUE DE LOBOS DE RUA. LOBOS PARAMILITARES. SEQUESTRADORES SÁDICOS SE APRESENTANDO COMO VIRTUOSOS ASPIRANTES A LUPINOS.
Nada. Nada. Nada.
Frustrada, ela enfiou o cabelo para dentro do capuz. O espresso tinha aparecido na sua frente sem que reparasse, e ela levou a pequena xícara à boca, soprando o vapor antes de tomar um gole.
Se essa Ordem da Matilha existia havia tempo suficiente para recrutar 962 membros, devia existir algum registro dela. Crimes, julgamentos, assassinatos, alguma confusão com a sociedade.
Ela se esforçou para pensar em outro termo de busca, desejando ter feito mais perguntas a Lobo.
— Que busca específica.
Ela virou a cabeça na direção do homem sentado a dois bancos de distância, que não tinha percebido antes. Ele estava dando um sorriso provocador com olhos caídos, que sugeria uma covinha na bochecha. Parecia ligeiramente familiar, o que a assustou até se dar conta de que o tinha visto uma hora antes na plataforma da estação de Toulouse.
— Estou procurando uma coisa bem específica — respondeu.
— Deu pra perceber. “Virtuosos aspirantes a lupinos.” Não consigo nem imaginar o que isso quer dizer.
O barman franziu a testa para eles.
— O que você deseja?
O estranho desviou o olhar.
— Leite achocolatado, por favor.
Scarlet sufocou uma risadinha quando o barman, sem se impressionar, pegou um copo vazio.
— Não teria sido meu primeiro palpite.
— Não? O que você teria chutado?
Ela o observou. Não podia ser muito mais velho do que ela, e apesar de não ser bonito de uma forma clássica, com toda aquela autoconfiança, ele sem dúvida nenhuma não tinha problemas com as mulheres. Era corpulento e musculoso, o cabelo bem penteado para trás. Havia uma ousadia na postura dele, uma certeza que beirava a arrogância.
— Conhaque — disse ela. — Sempre foi o preferido do meu pai.
— Infelizmente, nunca experimentei. — A covinha ficou mais funda quando um copo alto de leite achocolatado cheio de espuma foi colocado na frente dele.
Scarlet desligou o tablet e pegou o espresso. O aroma de repente pareceu forte demais, amargo demais.
— Parece bem gostoso.
— É surpreendentemente repleto de proteínas — disse ele, tomando um gole.
Scarlet tomou outro gole da xícara e descobriu que suas papilas gustativas não aceitaram bem. Ela recolocou a xícara no pires.
— Se você fosse um cavalheiro, me ofereceria um também.
— Se você fosse uma dama, teria esperado que eu oferecesse.
Scarlet deu um sorrisinho debochado, mas o homem já estava chamando o barman e pedindo outro leite achocolatado.
— Sou Ran, a propósito.
— Scarlet.
— Por causa do cabelo ruivo?
— Ah, uau, nunca ouvi essa antes.
O barman colocou a bebida no bar e se afastou para aumentar o volume de sua tela.
— E para onde você está viajando, mademoiselle Scarlet?
Paris.
A palavra ressoou na cabeça dela e encheu o pensamento com seu peso. A atenção dela foi desviada para a tela na parede para verificar a hora, calcular a distância, a chegada.
— Paris. — Ela tomou um grande gole. Não era o leite fresco que estava acostumada a tomar, mas sua doçura densa foi uma alegria rara. — Vou visitar minha avó.
— É mesmo? Também estou indo para Paris.
Scarlet assentiu vagamente, de repente com vontade de encerrar a conversa. Ao bebericar o líquido denso, ocorreu a ela que estava tomando aquilo por um tipo de manipulação, por mais subconsciente que tivesse sido. Não estava interessada naquele homem, não tinha curiosidade nenhuma sobre o que o levava a Paris e nem se voltaria a vê-lo depois daquele momento. Só precisou provar que conseguia atrair o interesse dele, e agora estava irritada por ter conseguido fazer isso tão facilmente.
Era o tipo de coisa que seu pai faria, e esse pensamento fez seu estômago se revirar. Fez com que ela tivesse vontade de jogar o leite achocolatado para longe.
— Está viajando sozinha?
Ela inclinou a cabeça e deu um sorriso como quem pede desculpas.
— Não. Na verdade, preciso voltar para ele. — Ela enfatizou a palavra ele mais do que o necessário, mas o homem não reagiu.
— É claro.
Os dois terminaram as bebidas ao mesmo tempo, e Scarlet passou o pulso pelo escâner do bar antes que o estranho pudesse protestar e pagou pelo dela.
— Barman — disse ela, se levantando. — Posso pedir algo para viagem? Um sanduíche, talvez?
O barman apontou com o polegar para as telas embutidas no bar.
— Cardápios.
Scarlet franziu a testa.
— Deixa pra lá, vou pedir alguma coisa da cabine.
O barman não deu sinal de ter ouvido.
— Foi um prazer conhecer você, Ran.
Ele apoiou o cotovelo no balcão e girou o banco na direção dela.
— Talvez nossos caminhos voltem a se cruzar. Em Paris.
Os pelos de sua nuca se eriçaram quando ele apoiou o queixo na palma da mão. Reparou, com uma onda de nojo, que cada uma das unhas tinha sido lixada até formar uma ponta afiada e perfeita.
— Talvez — disse ela, com a voz muito bem-educada.
O alarme instintivo permaneceu disparado por dois vagões inteiros enquanto ela voltava pelo trem, como um aviso vibrando no ar. Tentou afastar a sensação. Eram os nervos pregando peças, a paranoia se apresentando depois do que aconteceu com a avó e com o pai. Era incrível ela conseguir sustentar uma conversa com todo o pânico que residia sob a superfície da pele.
Ele tinha sido educado. Um cavalheiro. Talvez as unhas bem-feitas fossem moda na cidade.
Quando determinou que nada em Ran merecia uma desconfiança repentina e ardente, ela se lembrou.
Tinha-o visto na plataforma de Toulouse, descendo da escada rolante com calça jeans rasgada e sem bagagem, quando Lobo ficou tão tenso. Quando pareceu que Lobo tinha ouvido alguma coisa ou reconhecido alguém.
Coincidência?
O alto-falante estalou. Scarlet mal ouviu a mensagem em meio ao barulho do corredor, até que as palavras repetidas gradualmente silenciaram a conversa ao redor.
— ... passando por um atraso temporário. Todos os passageiros devem voltar para as cabines particulares imediatamente e ficar fora dos corredores até o próximo aviso. Isto não é um teste. Estamos passando por um atraso temporário...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!