20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezessete

Kai olhou pela janela e observou as nuvens girarem acima do continente. Procurou a Grande Muralha serpenteando pela Comunidade e sorriu ao pensar que seus ancestrais construíram uma coisa que nem a Quarta Guerra Mundial conseguiu destruir.
Esperava que não fosse a última vez que veria esse belo país.
Ele sabia do perigo em que estava se metendo, junto com incontáveis representantes da União. Esperava que Levana tivesse sido sincera quando disse que não queria fazer mal a nenhum deles. Esperava que a situação não estivesse prestes a virar um banho de sangue no qual os terráqueos inocentes seriam presa fácil.
Ele esperava, mas esperar não ajudava a reconfortá-lo. Ele não confiava em Levana. Nem por um momento.
Mas era a única forma de dar a Cinder a chance de que ela precisava para encarar Levana e iniciar a rebelião. O sucesso de Cinder faria todos se livrarem de Levana e da tirania dela. Seria o fim da peste. O fim da guerra.
Pelas estrelas, ele torcia para que isso funcionasse.
Sufocando um suspiro, lançou o olhar inquieto pela sala da nave real. Se não fosse a vista de tirar o fôlego da Terra, Kai não teria ideia de que estava a bordo de uma espaçonave. A decoração exibia toda a exuberância do velho mundo do palácio: lanternas decoradas e papéis de parede com detalhes em dourado e um padrão de morcegos entalhado nas sancas. Muito tempo antes, os morcegos foram um símbolo de boa sorte, mas ao longo dos anos passaram a simbolizar viagens seguras pela escuridão do espaço.
Torin chamou a atenção dele, sentado em uma poltrona forrada do outro lado da sala, onde estava ocupado lendo o tablet. Ele insistiu em ir a Luna, garantindo que o Chefe de Segurança Nacional, Deshal Huy, seria capaz de agir como líder da Comunidade na ausência deles. O lugar de Torin era ao lado de Kai, mesmo que não adiantasse de nada.
— Tem alguma coisa errada, Vossa Majestade?
— Até agora, não. — Ele passou as palmas das mãos nas coxas. — Você disse para os pilotos que quero ser informado se alguma nave fizer contato?
— Claro. Eu queria poder dizer que acharam isso um pedido razoável, mas eles pareceram compreensivelmente desconfiados.
— Desde que façam o que pedi.…
— E você tem certeza de que é boa ideia?
— Nem um pouco. — A nave fez uma volta, e a Terra não estava mais visível pela janela. Kai se virou. — Mas eu confio nela.
Torin colocou o tablet na mesa.
— Então não tenho escolha além de confiar nela também.
— Ei, foi você que contou a ela sobre meu segundo chip de rastreamento.
— Sim, e desde então fiquei me perguntando se não foi o maior erro que já cometi.
— Não foi. — Kai revirou os ombros, tentando relaxar. — Cinder é capaz de fazer isso.
— Você quer dizer que Selene é capaz de fazer isso.
— Selene. Cinder. É a mesma pessoa, Torin.
— Devo discordar. Para o mundo, Linh Cinder é uma criminosa perigosa que sequestrou um líder mundial e instigou uma guerra, enquanto a princesa Selene pode ser a solução de todos os nossos problemas com Luna. Ao ajudar Linh Cinder, o mundo vai achar que você não passa de um adolescente apaixonado. Ao ajudar Selene, você está resistindo corajosamente aos inimigos do nosso país e fazendo o que acredita ser melhor para o futuro da Comunidade.
Um esboço de sorriso surgiu nos lábios de Kai.
— Não importa o que o mundo pensa; elas são a mesma pessoa. Quero o que for melhor para Cinder e quero o que for melhor para o meu país. Convenientemente, acredito que sejam a mesma coisa.
Tinha sido um alívio contar tudo para Torin, a única pessoa em quem ele confiava que guardaria seus segredos. A identidade de Cinder, o verdadeiro motivo de estarem indo para Luna, a revolução que ela planejava iniciar lá e o papel de Kai em tudo. Apesar de Torin demonstrar preocupação por Kai estar se arriscando demais, não tentou convencê-lo a desistir. Na verdade, Kai se perguntou se Torin também não estava desenvolvendo certa fé em Cinder, mesmo que tentasse esconder por trás do cinismo.
Torin voltou a atenção para o tablet, e Kai ficou olhando pela janela, seu coração pulando cada vez que via outra nave no espaço.
Horas se passaram como dias. Kai tentou cochilar, mas não conseguiu. Ele leu suas juras de casamento sem entender uma palavra. Andou de um lado para outro e bebeu meia xícara de chá que alguém levou para ele, apesar de não ser tão bom quanto o que Nainsi faria, o que o fez sentir falta de sua androide assistente de confiança. Ele contava com a conversa prática e objetiva dela, mas Levana era firme na decisão de que androides não tinham permissão de entrar em Luna, então ele teve que deixar Nainsi na Terra.
Colocou o chá de lado, com um nó de nervosismo no estômago. Já devia ter tido notícia de Cinder. Alguma coisa deu errado, e ali estava ele, levando uma frota inteira das pessoas mais poderosas da Terra direto para as garras de Levana, e tudo seria por nada, e…
— Vossa Majestade.
Ele levantou a cabeça. O imediato da nave estava na porta.
— Sim?
— Fomos contatados pelo secretário de Defesa da República Americana. Parece que estão tendo problemas técnicos com o mainframe da nave e pediram permissão para subir a bordo e concluir a viagem até Artemísia conosco.
Kai expirou.
— O capitão sugeriu que enviássemos uma escolta militar para ajudá-los. Fico feliz em colocá-los em contato…
— Não vai ser necessário — disse Kai. — Nós temos espaço. Deixe que venham. — Apesar de doze representantes de províncias e alguns jornalistas da imprensa da Comunidade já estarem a bordo, a nave não estava nem perto da capacidade.
O oficial franziu a testa.
— Acredito que seja questão de segurança, não de espaço. Por causa das dificuldades técnicas, nós não conseguimos uma identificação apropriada da nave nem dos passageiros dela. As mensagens de vídeo também não funcionam direito. Nossa imagem da nave a confirma como uma nave militar da República, da classe Rampion. Fora isso, somos obrigados a aceitar a palavra deles, e tenho certeza de que não preciso lembrar a Vossa Majestade que… seus sequestradores também estavam em uma Rampion.
Kai fingiu pensar nisso.
— A Rampion em que fiquei de refém tinha a silhueta de uma mulher pintada na lateral a bombordo. Tem esse desenho na nave do secretário?
O oficial passou a pergunta por um chip de comunicação na gola do uniforme e, um momento depois, confirmou que não havia mulher nenhuma visível. Só um painel preto na rampa de bombordo.
— Então, pronto — disse Kai, fingindo distanciamento. — Vamos aceitar nossos aliados americanos a bordo, supondo que as naves de passeio deles estejam funcionando. Na verdade, por que não vou até a doca para recebê-los, como demonstração de boa vontade política?
— Eu também vou — disse Torin, deixando o tablet de lado.
O imediato pareceu querer protestar, mas, depois de um momento de incerteza, bateu os calcanhares e assentiu.
— Claro, Vossa Majestade.
Até a sala de espera junto à doca de naves era luxuosa, e Kai se viu batendo os pés no tapete grosso enquanto os motores zumbiam nas paredes. O capitão da nave se juntou a eles, esperando para cumprimentar os convidados antes de voltar para a ponte, e ele e o imediato estavam com postura impecável em seus uniformes passados.
A tela ao lado das portas seladas anunciou que era seguro entrar na doca.
O capitão foi primeiro, Kai logo atrás. Havia seis naves esperando por eles, e vagas para mais três. O transporte da Rampion ocupou o espaço mais distante e seus motores estavam sendo desligados.
As duas portas se levantaram simultaneamente e cinco pessoas saíram: a secretária de Defesa da América, uma assistente, uma estagiária e dois seguranças.
O capitão apertou a mão da secretária, dando boas-vindas aos recém-chegados a bordo, dando sequência a uma série de reverências diplomáticas.
— Obrigada pela hospitalidade. Pedimos desculpas por qualquer inconveniente que isso possa ter causado — disse a secretária enquanto Kai tentava descobrir quem era por baixo da ilusão. Ele achava que Thorne e Lobo eram os seguranças, mas era perfeito o glamour emitido para a secretária da República, exibindo até mesmo a pinta no lado direito do queixo. A assistente e a estagiária eram igualmente convincentes. Era impossível distingui-las entre Cinder, Iko e Cress.
— Evidentemente — acrescentou a assistente, com o olhar virando na direção de Kai —, isso tudo poderia ter sido evitado se o mecânico da nave tivesse se lembrado de trazer um cortador de fios.
A boca de Kai tremeu. Aquela, então, era Cinder. Ele tentou imaginá-la por baixo do glamour, presunçosa pelo uso da nova “senha”. Ele se segurou para não revirar os olhos.
— Não é inconveniência nenhuma — disse Kai, se concentrando na secretária. — Ficamos felizes de poder ajudar. Vocês precisam que enviemos alguém para buscar a nave?
— Não, obrigada. A República já mandou uma equipe de manutenção, mas não queríamos nos atrasar mais do que o necessário. Temos uma festa para ir, sabe.
A secretária deu uma piscadela nada diplomática. Então, era Iko.
Lembrando-se do aviso de Cinder, de que seria cansativo para ela não só usar o glamour em si, mas também manipular a percepção dos quatro amigos e de que não sabia por quanto tempo conseguiria sustentá-lo, Kai indicou a saída.
— Venham comigo. Temos uma sala onde vocês ficarão à vontade. Posso oferecer chá?
— Eu aceito um uísque com gelo — disse um dos seguranças.
A assistente Cinder lançou um olhar glacial para o homem. Thorne.
— Nós estamos bem — disse Cinder. — Obrigada.
— Por aqui. — Kai e Torin levaram os convidados para longe da doca, dispensando o capitão e o imediato. Ninguém falou nada até eles chegarem aos aposentos particulares.
Quando Kai se virou para os convidados novamente, os disfarces haviam sumido, e a realidade de ver cinco criminosos conhecidos na sala dele o lembrou que tinha colocado todo mundo a bordo da nave correndo um perigo enorme.
— Esta sala é segura? — perguntou Thorne.
— Deveria ser — disse Kai. — Nós usamos para conferências internacionais e…
— Cress.
— Pode deixar, capitão. — Cress tirou um tablet do bolso de trás e foi até o painel de controle embutido na parede para ativar a verificação de sistema que ela elaborou.
— Este é Konn Torin, meu conselheiro. Torin, você se lembra de Cin…
— Espere — disse Cinder, levantando a mão.
Kai parou.
Nove longos e silenciosos segundos se passaram entre eles antes que Cress finalmente desconectasse o tablet.
— Tudo limpo.
— Obrigado, Cress — disse Thorne.
Cinder baixou a mão.
— Agora, podemos falar.
Kai levantou uma das sobrancelhas.
— Certo. Torin, você se lembra de Cinder e Iko.
Torin assentiu para elas com os braços cruzados, e Cinder retribuiu o gesto, carregado de uma quantidade similar de tensão.
— Eu falei que o devolveria em segurança — disse ela.
Uma expressão de ironia surgiu no rosto de Torin.
— Você prometeu que nenhum mal seria feito a ele. Em minha opinião, isso inclui ferimentos físicos.
— Foi só um soco, Torin. — Kai deu de ombros para Cinder. — Tentei explicar que era tudo parte da armação.
— Eu entendo perfeitamente, mas me perdoem por estar na defensiva. — Torin observou os novos convidados. — Apesar de ser grato por Kai ter sido devolvido, parece que essa provação ainda não acabou. Espero que você saiba o que está fazendo, Linh Cinder.
Kai esperava que ela fizesse algum comentário autodepreciativo sobre Torin não ser o único, mas, depois de um longo silêncio, ela só perguntou:
— O quanto ele sabe?
— Tudo — disse Kai.
Ela se virou para Torin.
— Nesse caso, obrigada pela ajuda. Eu gostaria de apresentá-lo ao resto da equipe: Iko você já conheceu, e este é o capitão da nave, Carswell Thorne, nossa engenheira de software, Cress Darnel, e meu oficial de segurança… Lobo.
Enquanto Torin cumprimentava os convidados com mais respeito do que era necessário, consideradas as circunstâncias, a atenção de Kai permaneceu em Cinder. Ela estava a dez passos dele, e por mais que Kai quisesse atravessar a sala e beijá-la, ele não podia. Talvez fosse a presença de Torin. Talvez fosse saber que eles estavam a caminho de Luna, onde ele se casaria. Talvez estivesse com medo de que o tempo que passaram na Rampion tivesse sido um sonho, frágil demais para sobreviver à realidade.
Apesar de ele tê-la visto três dias antes, parecia uma vida. Um muro foi erguido entre eles durante esse intervalo, embora ele não tivesse certeza do que tinha mudado. O relacionamento deles era precário. Kai sentia que, se respirasse do jeito errado, poderia destruir tudo, e via a mesma incerteza espelhada no rosto de Cinder.
— Ah, olhem — disse Iko, indo até a fileira de janelas. Luna estava surgindo em seu campo de visão, branca e cintilante e marcada com mil crateras e penhascos. Eles estavam perto o bastante para ver os biodomos, a luz do sol brilhando na superfície.
Kai nunca na vida sonhou que fosse botar o pé em Luna. Ao vê-la, a inevitabilidade de seu destino gerou um nó apertado no estômago.
Cinder se virou para Kai. Ela estava fazendo um bom trabalho escondendo a ansiedade, mas ele estava aprendendo a desvendar o que ficava por baixo dos ombros empertigados e da expressão determinada.
— Espero que você tenha uma coisa para nós.
Kai indicou um armário encostado na parede.
Iko foi a primeira a chegar lá e abriu as portas com entusiasmo efervescente, mas murchou com rapidez quando viu as roupas que Nainsi tinha reunido. A pilha era uma mistura de marrons e cinza e brancos sem graça, linho e algodão. Roupas simples e utilitárias.
— Isso me parece certo — disse Lobo, que foi o mais útil em descrever o que as pessoas dos setores externos de Luna poderiam usar.
Enquanto eles olhavam as roupas e começavam a decidir quem ficava com que peça, Kai foi até outro armário e puxou uma peça de cobertura de androide de fibra de vidro e uma caixa de fibras de pele sintética.
— E isto é para Iko. Junto com tudo de que Cinder precisa para instalar.
Iko deu um gritinho e saiu correndo pela sala. Kai se preparou para outro abraço, mas ela foi para cima da peça e ficou maravilhada com os suprimentos. Cinder não demorou para ir atrás.
— São perfeitas — disse Cinder, examinando as fibras. Os olhos dela brilharam com provocação. — Sabe, se essa coisa de imperador não der certo, você pode ter uma carreira em espionagem.
Kai lançou um olhar irônico para ela.
— Vamos cuidar para que essa coisa de imperador dê certo, tá?
O rosto de Cinder se suavizou, e ela sorriu pela primeira vez desde que eles chegaram a bordo. Depois de colocar as fibras de volta na caixa, ela hesitou por um momento, deu alguns passos até Kai e enlaçou-o com os braços.
Ele fechou os olhos. E assim, com essa facilidade, o muro sumiu. Seus braços estavam ansiosos para puxá-la para perto.
— Obrigada — sussurrou Cinder, e ele soube que não era pelas roupas nem pelas peças de androide. As palavras saíram carregadas de fé e confiança e sacrifícios nos quais Kai ainda não estava pronto para pensar. Ele a apertou com mais força, encostando a têmpora no cabelo dela.
Cinder ainda estava sorrindo quando se afastou do abraço, embora estivesse cheia de determinação também.
— O tempo está se esgotando — disse ela. — Sugiro que repassemos o plano mais uma vez.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!