13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezessete

SCARLET ESTAVA PILOTANDO A NAVE. ELA NÃO LEMBRAVA POR quanto tempo voava, nem onde estava antes, nem como tinha acabado atrás daquele painel de controle. Mas sabia muito bem por que estava ali.
Porque queria estar.
Porque precisava estar.
Se ela se saísse bem, seria recompensada. A ideia a deixava exultante. Ansiosa. Disposta.
Assim, ela voou rápido. Com firmeza. Permitiu que a pequena nave se tornasse uma extensão dela. As mãos seguravam os controles, os dedos dançavam sobre os instrumentos. Ela nunca pilotou tão bem, desde o dia em que a avó começou a ensiná-la a pilotar a nave de entregas pelo terreno da fazenda. Como a nave sacudiu debaixo das mãos inabilidosas. Como tremeu e despencou, com o trem de pouso raspando na terra úmida, depois subiu para o céu enquanto a voz paciente da avó a guiava por cada etapa...
A lembrança desapareceu tão rapidamente quanto chegou, trazendo-a de volta à nave, e ela não conseguiu lembrar em que estava pensando. Só pensava nesse voo. Nesse momento. Nessa responsabilidade.
Não prestou atenção às estrelas manchadas em todas as direções. Não pensou no planeta se afastando cada vez mais atrás dela.
No banco de trás da nave, a mulher sibilava e xingava enquanto cuidava do ferimento. Estava aborrecida, e essa era a única coisa que incomodava Scarlet, porque queria que a mulher ficasse satisfeita.
Os murmúrios zangados acabaram morrendo, e a mulher começou a falar. O coração de Scarlet deu um salto até ela perceber que não era com ela que a mulher falava. Na verdade, estava enviando uma mensagem. Ela ouviu duas palavras que geraram uma onda de pânico: Vossa Majestade.
Ela estava falando com a própria rainha.
Ocorreu a Scarlet que saber disso deveria apavorá-la, mas não lembrava por quê. Na verdade, sentia-se constrangida por estar ouvindo. Não era coisa dela ser curiosa. Ela tentou ignorar a conversa e deixar que a mente se enevoasse. Dentro da mente, recitou as rimas da infância nas quais não pensava em tantos anos.
Quase deu certo. Mas, quando um nome chegou aos ouvidos dela, a curiosidade tomou conta.
Linh Cinder.
— Não, não consegui capturá-la. Eu estava em número menor. Me desculpe, Majestade. Eu falhei com você. Sim, já mandei as últimas coordenadas conhecidas da nave para a guarda real. Consegui capturar uma refém, Majestade. Uma das cúmplices dela. Talvez ela tenha informações sobre o local para onde Linh Cinder possa ir agora, ou sobre o plano dela. Sei que não é bom o bastante, Majestade. Vou compensar, Majestade. Eu vou encontrá-la.
A conversa terminou, e as orelhas de Scarlet queimavam por ela ter xeretado. Estava com vergonha. Merecia ser punida.
Em uma tentativa de compensar seu ato de delinquência, concentrou-se na tarefa: pilotar da forma mais suave e rápida que um piloto era capaz. Ela só pensava no quanto devia pilotar bem. Só pensava no quanto devia deixar sua mestra orgulhosa.
Não sentiu espanto ao se aproximar da grandiosa Luna, cheia de crateras, sua superfície branca cintilante e cidades brilhantes cobertas por domos.
Cidades que eram lar de incontáveis estranhos.
Cidades que tinham sido o lar dele no passado...
Ela se encolheu por causa do pensamento invasivo. Não sabia o que queria dizer. Não lembrava quem ele era.
Mas foi daqui que ele veio...
Ela sufocou a voz em um pânico nervoso de que a mestra sentisse sua confusão. E não queria isso. Não havia confusão.
Ela sabia precisamente onde queria estar. Precisamente quem queria estar servindo.
Scarlet não sentiu medo quando a lua foi aumentando perto da pequena nave, se expandindo até ser tudo o que conseguia ver pelo vidro.
Ela não prestou atenção às lágrimas quentes que desciam por suas bochechas e pingavam sem ruído no colo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!