3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezessete

UM ALERTA DISPAROU NA CABEÇA DE CINDER, SEGUIDO POR UMA mensagem que rolou em meio à escuridão do sono.

COMUNICADO RECEBIDO DO DISTRITO DE NOVA PEQUIM 29, QUARENTENA DA LETUMOSE. LINH PEONY INGRESSOU NO TERCEIRO ESTÁGIO DA LETUMOSE ÀS 04H57M DE 22 DE AGOSTO, ANO 126 DA TERCEIRA ERA.

Levou um minuto para afastar o entorpecimento do sono e entender o significado das palavras que rolavam em seu visor. Ela abriu os olhos para o quarto sem janelas e se sentou. Todos os músculos doíam da viagem até o ferro-velho na noite anterior. Suas costas doíam tanto que parecia que aquele carro velho a atropelara, em vez de permanecer imóvel enquanto ela e Iko o empurravam e puxavam pela estrada. Mas elas tinham conseguido. O carro era dela, transportado para um canto sombrio da garagem subterrânea do apartamento, onde ela seria capaz de trabalhar nele em cada momento livre.
Desde que ninguém se queixasse do cheiro, seria um segredinho entre ela e Iko.
Quando enfim voltaram para casa, Cinder desabou como se alguém tivesse apertado seu botão de força. Pela primeira vez, não tivera pesadelos.
Pelo menos, nenhum pesadelo até ser acordada pela mensagem.
A ideia de Peony completamente sozinha na quarentena a expulsou de sua pilha de cobertores com um grunhido contido. Ela calçou um par de luvas, roubou um cobertor verde bordado no armário de roupas de cama e mesa do corredor e passou por Iko — em modo de hibernação e conectada a uma estação de carregamento na sala de estar. A sensação de sair sem o androide era estranha, mas ela planejava ir direto para o palácio.
No corredor do apartamento, podia ouvir alguém andando no andar de cima e um netscreen murmurando as notícias da manhã. Cinder mandou um comunicado pedindo um táxi pela primeira vez na vida, e ele já a esperava quando chegou à rua. Passou sua identidade pelo escâner e deu as coordenadas antes mesmo de se acomodar no banco de trás. Cinder se conectou à rede para que pudesse traçar o trajeto do aerodeslizador até a quarentena. O mapa que foi exibido em seu visor indicou que era um distrito industrial, vinte e quatro quilômetros além dos limites da cidade.
A cidade era toda sombras, um borrão, apartamentos adormecidos e calçadas vazias. Os edifícios ficavam cada vez menores e mais distantes uns dos outros conforme o centro ia ficando para trás. Uma luz pálida de sol se esgueirava pelas ruas, lançando longas sombras no asfalto.
Cinder sabia que haviam alcançado o distrito industrial sem a ajuda do mapa. Ela piscou para que o mapa sumisse e observou as fábricas passando, lado a lado com armazéns de concreto e suas portas de rolagem gigantescas, que poderiam acomodar até mesmo o maior dos aerodeslizadores. Provavelmente até navios de carga.
Ela escaneou sua identidade ao sair para que o aerodeslizador pudesse debitar de sua conta já quase zerada e em seguida ordenou que a esperasse.
Rumou para o armazém mais próximo, onde um grupo de androides estava parado à porta. Sobre a porta brilhava um netscreen novinho em folha.

QUARENTENA DE LETUMOSE. ENTRADA PERMITIDA SOMENTE A PACIENTES E ANDROIDES.

Ela jogou o cobertor sobre os antebraços e tentou parecer confiante ao andar, imaginando o que diria se os androides a questionassem, mas os medidroides não deviam ser programados para lidar com gente saudável querendo entrar na quarentena; mal notaram quando ela passou. Ela esperava que fosse fácil sair também. Talvez devesse pedir uma credencial ao dr. Erland.
O fedor de excremento e podridão a atingiu quando ela entrou no armazém. Cinder recuou, pondo a palma da mão no nariz enquanto o estômago se revirava, desejando que sua interface cerebral isolasse odores como fazia com o barulho.
Respirando fundo sob a luva e prendendo o ar, forçou-se a entrar.
Estava mais fresco lá dentro, o chão de concreto intocado pelo sol. Um plástico verde opaco cobria uma estreita fila de janelas próximas a telhados altos, envolvendo o edifício em uma névoa lúgubre. Lâmpadas cinzentas zumbiam lá em cima, mas eram de pouca ajuda para diminuir a escuridão.
Centenas de camas estavam alinhadas entre as paredes distantes, cobertas por cobertores descombinados — doações e retalhos. Ela sentia-se grata por ter trazido um bom para Peony. A maioria dos leitos estava vazia. Esta quarentena fora construída rapidamente nas últimas semanas, conforme a doença rastejava cada vez mais rápido em direção à cidade. Ainda assim, as moscas já haviam tomado o lugar e preenchiam o recinto com seu zumbido.
Os poucos pacientes pelos quais Cinder passou estavam adormecidos ou olhando fixa e inexpressivamente para o teto, a pele coberta por erupções preto-azuladas. Aqueles que ainda estavam conscientes encolhiam-se com seus tablets — sua última ligação com o mundo lá fora. Olhos brilhantes se ergueram, seguindo Cinder enquanto ela se apressava.
Mais medidroides se moviam entre as camas, fornecendo comida e bebida, mas nenhum deles interpelou Cinder.
Ela encontrou Peony adormecida, aninhada em um cobertor azul-bebê.
Cinder não tinha certeza de que a reconheceria se não fosse pelos cachos castanhos enrolados no travesseiro. As manchas arroxeadas haviam se espalhado pelos seus braços. Embora estivesse tremendo, sua testa brilhava de suor. Parecia uma mulher idosa, próxima à hora da morte.
Cinder tirou a luva e pousou a parte de trás da mão na testa de Peony. Quente ao toque e úmida. O terceiro estágio da letumose.
Ela jogou o cobertor verde sobre Peony, depois se ergueu, perguntando-se se deveria acordá-la ou se era melhor deixá-la descansar. Balançando-se sobre os calcanhares, olhou em volta. A cama atrás dela estava vazia. A que ficava no lado oposto a Peony estava ocupada por uma pequena forma virada de costas para ela, enrolada em posição fetal. Uma criança.
Cinder se sobressaltou ao sentir um puxão em seu pulso esquerdo. Peony estava agarrando seus dedos de aço, apertando com a pouca força que ainda tinha. Seus olhos observavam Cinder, suplicantes. Assustados. Perplexos, como se estivesse vendo um fantasma.
Cinder engoliu em seco e se sentou na cama. Era quase tão dura quanto o chão do próprio quarto.
— Me leva para casa? — pediu Peony, a voz arranhando as palavras.
Cinder se encolheu e cobriu as mãos de Peony.
— Trouxe um cobertor para você — disse ela, como se isso explicasse sua presença.
O olhar de Peony se desviou dela. A mão livre traçou a textura do brocado.
Não disseram nada por um longo tempo, até ouvirem um grito estridente. As mãos de Peony apertaram com mais força enquanto Cinder girava, procurando, certa de que alguém estava sendo assassinado.
Uma mulher, quatro corredores adiante, estava se debatendo na cama, gritando, implorando para ser deixada em paz enquanto um medidroide calmamente aguardava com uma seringa para lhe injetar algo. Um minuto depois, mais dois androides chegaram para imobilizar a mulher, forçando-a a ficar parada na cama, segurando o braço esticado para receber a injeção.
Sentindo Peony se encolher ao seu lado, Cinder se virou de volta. Peony estava tremendo.
— Estou sendo punida por alguma coisa — disse Peony, fechando os olhos.
— Não seja ridícula — disse Cinder. — A peste é só… não é justa. Mas você não fez nada de errado.
Ela acariciou a mão da irmã.
— Mamãe e Pearl estão…?
— Com o coração partido — respondeu Cinder. — Nós todas sentimos muito a sua falta. Mas elas não pegaram a doença.
Os olhos de Peony piscaram, abertos. Ela estudou o rosto de Cinder, seu pescoço.
— Onde estão suas manchas?
Os lábios se abrindo, Cinder esfregou distraidamente a garganta, mas Peony não esperou por uma resposta.
— Você pode dormir ali, não pode? — disse ela, gesticulando para a cama vazia. — Eles não vão botar você numa cama longe?
Cinder apertou as mãos de Peony.
— Não, Peony, eu não… — Ela olhou em volta, mas ninguém estava prestando nenhuma atenção nelas. Um medidroide estava a duas camas de distância, ajudando um paciente a beber água. — Não estou doente.
Peony apontou com a cabeça.
— Você está aqui.
— Eu sei. É complicado. Veja bem, fui para o centro de pesquisas sobre a letumose ontem, e eles me testaram e… Peony, eu sou imune. Não posso contrair letumose.
A testa tensa de Peony se descontraiu. Ela avaliou o rosto de Cinder, o pescoço, novamente os braços, como se sua imunidade fosse algo visível, algoque deveria estar aparente.
— Imune?
Cinder esfregou mais rápido a mão de Peony, agora ansiosa por ter contado seu segredo a alguém.
— Eles me pediram para voltar lá hoje. O médico-chefe acha que pode ser capaz de me usar para encontrar um antídoto. Eu disse a ele que, caso consiga fazer isso, você tem que ser a primeira a recebê-lo. Fiz ele prometer.
Ela observou, espantada, quando os olhos de Peony começaram a se encher de lágrimas.
— Verdade?
— Isso mesmo. Nós vamos encontrar um antídoto.
— Quanto tempo vai levar?
— E-eu não sei ao certo.
A outra mão de Peony encontrou o pulso dela e o apertou. Suas longas unhas se enterraram na pele de Cinder, mas levou um tempo considerável até que ela registrasse a dor. A respiração de Peony se tornou mais rápida. Mais lágrimas surgiram em seus olhos, mas uma parte daquela esperança momentânea se desvaneceu, deixando-a num desespero incontrolável.
— Não me deixe morrer, Cinder. Eu queria ir ao baile, lembra? Você ia me apresentar ao príncipe… — Ela virou a cabeça, erguendo o rosto numa tentativa vã de conter as lágrimas, escondê-las ou esgotá-las mais rápido. Então uma tosse estourou em sua boca, junto com um fino fio de sangue.
Cinder fez uma careta, depois esticou a mão e limpou o sangue do queixo de Peony com a ponta do cobertor bordado.
— Não desista, Peony. Se eu sou imune, então deve haver um jeito de combater isso. E eles vão descobrir. Você ainda vai ao baile. — Ela pensou em contar a Peony que Iko conseguira salvar seu vestido, mas imaginou que isso implicaria ter que contar a ela que tudo o que ela já tocara fora descartado. Ela limpou a garganta e, com um carinho, tirou o cabelo de Peony da têmpora.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer para deixar você mais confortável?
Peony balançou a cabeça no travesseiro gasto, segurando o cobertor contra a boca. Mas então ergueu os olhos.
— Meu tablet?
Cinder se encolheu, culpada.
— Me desculpe. Ainda está quebrado. Mas vou dar uma olhada nele hoje à noite.
— Eu só quero mandar um comunicado para Pearl. E mamãe.
— É claro. Vou trazê-lo para você, assim que puder. — O tablet de Peony. O androide do príncipe. O carro. — Sinto muito, Peony, mas preciso ir.
As pequenas mãos a apertaram.
— Volto assim que puder. Prometo.
Peony respirou tremulamente, fungou e em seguida a soltou. Enfiou as mãos frágeis embaixo do cobertor, cobrindo-se até o queixo.
Cinder se levantou e desembaraçou o cabelo de Peony com os dedos.
— Tente dormir um pouco. Poupe sua energia.
Peony seguiu Cinder com os olhos cheios de lágrimas.
— Amo você, Cinder. Fico feliz que não esteja doente.
Cinder sentiu um enorme aperto no coração. Franzindo os lábios, ela se inclinou e deu um beijo na testa úmida de Peony.
— Eu também amo você.
Ela lutou para respirar enquanto se forçava a afastar-se, tentando se enganar e ter esperanças. Havia uma chance. Uma chance.
Não olhou para nenhum outro paciente ao se encaminhar para a saída da quarentena, até que ouviu seu nome. Parou, pensando que a voz áspera não fora nada além de sua imaginação misturada a muitos lamúrios histéricos.
— Cin-der?
Ela se virou e avistou um rosto familiar meio coberto por uma colcha desbotada pelo tempo.
— Chang-ji? — Ela se aproximou do pé da cama, o nariz enrugando com o odor forte que vinha do leito da mulher. Mal reconheceu Chang Sacha, a padeira, com suas pálpebras inchadas e a pele pálida.
Tentando respirar normalmente, Cinder contornou a cama.
A colcha que repousava sobre o nariz e a boca de Sacha contribuía para sua respiração difícil. Os olhos dela estavam embaçados e mais abertos do que Cinder jamais vira. Era a primeira vez que Sacha a olhava sem desdém.
— Você também? Cinder?
Em vez de responder, Cinder disse, sem muita convicção:
— Tem alguma coisa que eu possa fazer por você?
Foram as palavras mais gentis já trocadas entre elas. A colcha se mexeu, exibindo o rosto de Sacha. Cinder mordeu o lábio para conter um engasgo ao ver as manchas azuis em forma de anel no maxilar da mulher e garganta abaixo.
— Meu filho — disse ela, ofegante. — Você pode trazer Sunto? Eu preciso vê-lo.
Cinder não se mexeu, lembrando-se de como Sacha ordenara que Sunto se afastasse de seu estande dias antes.
— Trazê-lo?
Sacha tirou um braço de debaixo das cobertas e tentou alcançar Cinder, agarrando seu pulso, onde a pele se encontrava com o metal. Cinder se contorceu, tentando se desvencilhar, mas Sacha segurou firme. Sua mão estava marcada por pigmento azulado em volta das unhas amareladas.
O quarto e último estágio da febre azul.
— Vou tentar — disse ela. Esticou a mão, hesitou, e então afagou Sacha nas articulações. Os dedos azuis a soltaram e se afundaram na cama.
— Sunto — murmurou Sacha. Seu olhar ainda estava fixo no rosto de Cinder, mas o reconhecimento falhava. — Sunto.
Cinder deu um passo para trás, observando as palavras sumirem. A vida se apagou dos olhos negros de Sacha.
Cinder convulsionou, envolvendo a barriga com os braços. Ela olhou em volta. Nenhum dos outros pacientes estava prestando atenção a ela ou à mulher — o cadáver — diante dela. Mas então ela viu o androide seguindo na sua direção.
Os medidroides deviam ter algum tipo de conexão, ela pensou, para saber quando alguém morria.
Quanto tempo levaria para que o comunicado de notificação fosse enviado à família? Quanto tempo levaria até que Sunto soubesse que sua mãe morrera?
Ela queria se virar, ir embora, mas ficou enraizada ao lugar enquanto o androide vinha em suas rodas até a beira da cama e levava sua mão mole entre seus pegadores. A compleição de Sacha estava cinzenta, exceto pelas manchas, como as de contusões, em seu maxilar. Seus olhos ainda estavam abertos, mirando o céu.
Talvez o medidroide tivesse perguntas a fazer a Cinder. Talvez alguém quisesse saber as palavras finais da mulher. Seu filho provavelmente iria querer saber. Cinder deveria contar a alguém.
Mas o sensor do medidroide não se virou na direção dela.
Cinder umedeceu os lábios. Ela abriu a boca, mas não conseguia pensar em nada para dizer.
Um painel se abriu no corpo do medidroide. Ele pôs os pegadores livres lá dentro e tirou um bisturi. Cinder observou, impressionada e enojada, o androide pressionar a lâmina no pulso de Sacha. Um fio de sangue escorreu pela palma da padeira.
Cinder espantou o estupor e cambaleou para a frente. O pé da cama ficou pressionado contra suas coxas.
— O que você está fazendo? — perguntou ela, mais alto do que pretendia.
O medidroide parou com o bisturi enterrado na carne de Sacha. Seu visor amarelo piscou na direção de Cinder e em seguida escureceu.
— Como posso ajudá-la? — respondeu, com sua educação fabricada.
— O que você está fazendo com ela? — perguntou Cinder novamente. Ela queria esticar a mão e tirar o bisturi, mas temia ser mal compreendida. Devia haver uma razão, algo lógico. Medidroides se resumiam à lógica.
— Removendo o chip de identificação dela — respondeu o androide.
— Por quê?
O visor se iluminou de novo, e o androide voltou a se concentrar no pulso de Sacha.
— Ela não vai mais usar.
O medidroide trocou o bisturi por uma pequena pinça, e Cinder ouviu o clique sutil de metal no metal. Ela fez uma careta quando o androide extraiu o pequeno chip com o plástico de proteção coberto por um vermelho cintilante.
— Mas… você não precisa identificar o corpo?
O androide depositou o chip em uma bandeja que se abriu em seu revestimento de plástico. Cinder viu quando ele caiu em um compartimento com dezenas de outros chips ensanguentados.
Então jogou o cobertor esfarrapado sobre os olhos de Sacha, que não piscavam mais. Em vez de responder a pergunta de Cinder, simplesmente disse:
— Fui programado para seguir instruções.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!