7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezesseis

SCARLET CHAMOU UM AERODESLIZADOR PARA LEVÁ-LOS A TOULOUSE e quase esvaziou a conta com o último depósito de Gilles. Sentou-se em frente a Lobo durante a viagem, com a pistola apertando suas costas enquanto o observava. De perto assim, sabia que a pistola era inútil para ela. Afinal, tinha testemunhado a velocidade de Lobo mais de uma vez. Ele conseguiria segurá-la e quase sufocá-la antes que ela pudesse tirar a pistola da cintura.
Mas era impossível se sentir ameaçada por esse quase estranho sentado à sua frente. Lobo estava hipnotizado pelas fazendas passando pela janela, olhando boquiaberto para tratores e gado e celeiros decrépitos, desmoronando. Suas pernas se mexiam sem parar, embora ela duvidasse que ele percebesse.
Essa fascinação quase infantil parecia estranha nele, de todas as maneiras. O olho roxo, as cicatrizes pálidas, os ombros largos, a compostura calma que ele demonstrara ao quase estrangular Roland, a brutalidade selvagem no olhar quando quase matara o oponente na luta.
Scarlet mordeu a língua, se perguntando qual parte dele era apenas um ato, e qual parte era real.
— De onde você é? — perguntou ela.
Lobo desviou o olhar para observá-la, e a curiosidade sumiu. Como se tivesse esquecido de que ela estava lá.
— Daqui. Da França.
Os lábios dela tremeram.
— Interessante. Você parece nunca ter visto uma vaca na vida.
— Ah... Não, não daqui. Não de Rieux. Sou da cidade.
— Paris?
Ele assentiu, e o movimento das pernas adquiriu um ritmo novo, alternando uma com a outra.
Incapaz de suportar aquilo, Scarlet esticou a mão e apertou um joelho, forçando a perna dele a parar. Lobo ficou surpreso com o toque.
— Você está me deixando louca — disse ela, recolhendo a mão. As pernas ficaram paradas, ao menos um tempo, mas a surpresa permaneceu. — Então, como foi parar logo em Rieux?
Ele voltou a atenção para a janela.
— A princípio, eu só queria ir pra longe. Peguei um trem de levitação magnética até Lyon e comecei a seguir as lutas a partir de lá. Rieux é pequena, mas tem uma plateia boa.
— Eu reparei. — Scarlet recostou a cabeça na poltrona. — Morei em Paris por um tempo quando era criança. Antes de vir morar com grand-mère. — Ela deu de ombros. — Nunca senti saudade de lá.
Eles passaram por fazendas e olivedos, vinhedos e subúrbios, e estavam entrando no coração de Toulouse quando ela ouviu Lobo responder.
— Eu também não.


O NÍVEL INFERIOR DA ESTAÇÃO DO TREM DE LEVITAÇÃO MAGNÉTICA estava tão ridiculamente iluminado que chegava a irritar os olhos quando eles desceram a escada rolante, as luzes fluorescentes compensando até demais a falta de sol. Dois androides e um detector de armas estavam esperando lá embaixo, e um apitou no momento em que os pés de Scarlet tocaram a plataforma.
— Pistola de uso pessoal modelo Leo 1272 TCP 380 detectada. Por favor, exiba seu chip de identificação e aguarde liberação.
— Tenho autorização — disse Scarlet, esticando o pulso.
Um brilho vermelho.
— Arma autorizada. Obrigado por usar o Trem de Levitação Magnética da Federação Europeia — disse o androide, voltando ao seu posto.
Scarlet passou pelos androides e encontrou um banco vazio perto dos trilhos. Apesar de haver meia dúzia de pequenas câmeras periféricas orbitando perto do teto, as paredes estavam pichadas com anos de rabiscos elaborados e imagens fantasmas de pôsteres de shows rasgados.
Lobo se sentou ao lado dela, e em poucos minutos sua energia frenética recomeçou. Embora ele tivesse deixado espaço entre os dois, Scarlet se viu sintonizada aos dedos agitados, joelhos sacolejantes, ombros que giravam. A energia dele era quase tangível.
Scarlet ficou exausta só de olhar.
Ela pegou o tablet no bolso, tentando ignorá-lo, e verificou a chegada de mensagens, embora só houvesse recebido spam e anúncios.
Três trens chegaram e foram embora. Lisboa. Roma. Munique Oeste.
Scarlet ficou ansiosa e não percebeu que o próprio pé começou a batucar no mesmo ritmo até Lobo apoiar a ponta do dedo em seu joelho.
Ela gelou, e Lobo imediatamente afastou a mão.
— Desculpe — sussurrou ele, juntando as mãos no colo.
Scarlet ficou sem resposta, não sabendo bem pelo que ele estava se desculpando. Sem saber se as orelhas dele tinham ficado vermelhas ou se tinha sido as luzes piscantes de um anúncio ali perto.
Ela o viu dar um suspiro calculado e, sem aviso, enrijecer e virar a cabeça na direção da escada rolante.
Instantaneamente tensa, Scarlet esticou o pescoço para ver o que era. Um homem de terno estava passando pelos detectores na base da escada rolante. Seguido por outro homem, de calça jeans rasgada e suéter. Depois veio uma mãe empurrando um carrinho flutuante com uma das mãos enquanto verificava o tablet com a outra.
— Qual é o problema? — perguntou, mas as palavras sumiram sob o som dos alto-falantes anunciando o trem para Paris via Montpellier.
A tensão nos músculos de Lobo diminuiu, e ele ficou de pé. Os ímãs dos trilhos começaram a zumbir, e ele foi se juntar aos outros passageiros seguindo em direção à beirada da plataforma. O desconforto já tinha desaparecido de seu rosto.
Puxando a bolsa pesada nos ombros, Scarlet olhou para trás apenas uma vez antes de se juntar a ele.
O nariz do trem-bala deslizou pela plataforma, uma mancha no começo, antes de parar lentamente. Em um movimento fluido, os vagões pararam no trilho com um estalo, e as portas do trem se abriram com um chiado. Androides saíram de cada vagão, suas vozes monótonas falando em uníssono.
— Bem-vindos a bordo do Trem de Levitação Magnética da Federação Europeia. Por favor, exibam a identificação para a verificação da passagem. Bem-vindos a bordo do Trem...
Um peso saiu dos ombros de Scarlet quando o escâner passou por seu pulso, e ela entrou no trem. Finalmente, finalmente, ela estava a caminho. Chega de ficar parada. Chega de não fazer nada.
Encontrou uma cabine particular vazia, com beliches, uma mesa e uma tela na parede. O vagão tinha o aroma bolorento de um aposento em que foram borrifados, em demasia, sprays aromatizantes.
— Vai ser uma longa viagem — disse, colocando a bolsa na mesa. — Podemos ver a rede um tempo. Você tem algum canal favorito?
De pé dentro da cabine, Lobo olhou do chão para a tela e para as paredes, tentando encontrar novos lugares onde pousar o olhar. Em qualquer lugar, menos nela.
— Na verdade, não — disse ele, indo até a janela.
Scarlet se sentou na beirada da cama e viu o brilho das telas no vidro, que acentuava uma coleção de marcas de dedos.
— Nem eu. Quem tem tempo de ver essas coisas, né?
Como ele não respondeu, ela se apoiou nas palmas das mãos e fingiu não notar o constrangimento repentino.
— Ligar tela.
Havia um grupo de repórteres de fofoca sentados ao redor de uma mesa. As palavras vazias e traiçoeiras entravam e saíam dos ouvidos de Scarlet, que estava distraída com seus pensamentos, até que percebeu que estavam criticando a garota lunar no baile de Nova Pequim: o cabelo horroroso, o estado vergonhoso do vestido, e aquilo eram manchas de graxa na luva dela? Trágico.
Uma das mulheres riu.
— Pena que não tem lojas de departamento no espaço, porque aquela garota precisava muito de uma transformação!
Os outros repórteres riram.
Scarlet balançou a cabeça.
— Aquela pobre garota vai ser executada e todo mundo está fazendo piada dela.
Lobo olhou de novo para a tela.
— É a segunda vez que ouço você defendê-la.
— É, bem, eu tento pensar por mim mesma de vez em quando, em vez de acreditar nas ideias ridículas em que a imprensa quer que a gente acredite. — Ela franziu a testa ao perceber que tinha falado exatamente como a avó. Temperou a irritação com um suspiro. — As pessoas são tão rápidas para acusar e criticar, mas não sabem o que ela passou, nem o que a levou a fazer as coisas que fez. Por acaso temos certeza de que ela fez alguma coisa?
Uma voz automatizada avisou que as portas do trem estavam se fechando, e ela ouviu o chiado segundos depois. O trem se ergueu nos trilhos e deslizou para fora da estação, mergulhando-os em uma escuridão só quebrada pelo corredor iluminado e pela tela azul. Ganhou velocidade rapidamente, como uma bala deslizando nos trilhos, e saiu do subsolo, a luz do sol se espalhando pelas janelas.
— Tiros foram disparados no baile — disse Lobo enquanto as cabeças falantes na tela tagarelavam. — Algumas pessoas acreditam que a garota pretendia iniciar um massacre e que é um milagre ninguém ter se ferido.
— Algumas pessoas também disseram que ela estava lá para assassinar a rainha Levana, e isso não a tornaria uma heroína? — Scarlet mudava os canais sem prestar atenção. — Só acho que não devíamos julgá-la, e nem ninguém, sem tentar entender primeiro. Que talvez devêssemos ouvir a história toda antes de tirar conclusões. Uma ideia louca, eu sei.
Ela bufou, irritada ao perceber que estava ficando corada. Os canais foram passando. Anúncios. Anúncios. Notícias. Fofoca de celebridades. Um reality show sobre um grupo de crianças tentando governar um pequeno país. Mais anúncios.
— Além do mais — murmurou ela, meio para si mesma —, a garota só tem dezesseis anos. Me parece que todo mundo está exagerando.
Lobo coçou atrás da orelha e afundou na cama, o mais longe possível de Scarlet.
— Houve casos de lunares jovens, até com sete anos, que foram julgados culpados de assassinato.
Ela fez uma expressão de desprezo.
— Até onde eu sei, aquela garota não assassinou ninguém.
— Eu não assassinei Caçador ontem à noite. Mas isso não me torna inofensivo.
Scarlet hesitou.
— Não. Acho que não.
Depois de um silêncio pesado, ela mudou o canal da tela de volta para o reality show e fingiu estar interessada.
— Comecei a lutar quando tinha doze anos.
Ela voltou a atenção para ele. Lobo estava olhando para a parede, para o nada.
— Por dinheiro?
— Não. Por status. Entrara na matilha havia poucas semanas, mas logo ficou claro que, se você não luta, se não consegue se defender, não é nada. Você é atormentado e ridicularizado... praticamente se torna um escravo, e não tem nada que possa fazer quanto a isso. A única forma de não se tornar um ômega é lutar. E ganhar. É por isso que eu luto. É por isso que sou bom.
A testa dela estava tão franzida que começava a doer, mas Scarlet não conseguia relaxar enquanto ouvia.
— Ômega — disse ela. — Como em uma matilha de lobos de verdade.
Ele assentiu e cutucou nervosamente as unhas curtas.
— Vi o quanto você ficou com medo de mim. Não só com medo, mas... com nojo. E você tinha razão. Mas disse que gosta de saber a história toda antes de julgar, tentar entender primeiro. Então essa é minha história. Foi assim que aprendi a lutar. Sem misericórdia.
— Mas você não faz mais parte da gangue. Não precisa mais lutar.
— O que mais eu faria? — perguntou ele, com uma risada fria. — É o que sei fazer, é nisso que sou bom. Até ontem, eu nem sabia o que era um tomate.
Scarlet sufocou um princípio de sorriso. A frustração dele era quase adorável.
— Agora você sabe — disse ela. — Quem sabe? Amanhã você talvez aprenda sobre brócolis. Na semana que vem, pode até saber a diferença entre abóbora e abobrinha.
Lobo a fuzilou com os olhos.
— Estou falando sério. Você não é um cachorro que não consegue aprender truques novos. Pode aprender a fazer outra coisa sem ser lutar. Vamos encontrar algo.
Lobo bagunçou o cabelo com o punho, deixando-o mais desgrenhado do que o habitual.
— Não é por isso que estou contando tudo — disse, num tom mais calmo agora, mas ainda desanimado. — Não vai nem fazer diferença quando chegarmos a Paris, mas achei importante que você soubesse que não gosto. Odeio perder o controle daquele jeito. Sempre odiei.
A luta surgiu nas lembranças de Scarlet. A forma como Lobo soltou o outro lutador tão rapidamente. Como se lançou para fora do palco, como se tentasse correr mais rápido do que si mesmo.
Ela engoliu em seco.
— Você já foi o... o ômega?
Lobo pareceu insultado.
— É claro que não.
Scarlet ergueu uma sobrancelha, e Lobo pareceu reconhecer sua arrogância. Evidentemente, o desejo por status ainda não o tinha abandonado.
— Não — repetiu ele, com mais gentileza. — Tomei cuidado para nunca ser o ômega. — Ficou de pé e andou até a janela, para observar as colinas de vinhedos.
Scarlet apertou os lábios, sentindo alguma coisa similar a culpa. Era fácil esquecer o risco em que Lobo estava se colocando, pois ela só conseguia pensar em ter a avó de volta. Claro, Lobo podia ter saído da gangue, mas agora estava voltando diretamente para ela.
— Obrigada por me ajudar — disse depois de um longo silêncio. — Não tinha muita gente nessa fila.
Ele deu de ombros sem jeito, e quando ficou claro que não ia responder, Scarlet suspirou e começou a mudar de canal de novo. Parou em um noticiário.
BUSCA POR LUNAR FUGITIVA LINH CINDER CONTINUA.
Ela deu um salto.
— Fugitiva?
Lobo virou e leu a notícia antes de franzir a testa para ela.
— Você não sabia?
— Não. Quando?
— Uns dois dias atrás.
Scarlet apoiou o queixo na mão, hipnotizada pela notícia.
— Eu não fazia ideia. Como isso é possível?
A tela começou a repetir a filmagem do baile.
— Dizem que alguém a ajudou. Um funcionário do governo. — Lobo apoiou a mão na janela. — Faz a gente se perguntar o que faríamos em uma situação dessas. Se um lunar precisasse de ajuda e você pudesse ajudar, apesar de colocar você e sua família em risco, você ajudaria?
Scarlet franziu a testa sem prestar muita atenção.
— Eu não colocaria minha família em risco por ninguém.
Lobo baixou o olhar para o tapete barato.
— Sua família? Ou sua avó?
A ira surgiu dentro dela como um gêiser a toda assim que se lembrou do pai. E como ele foi até a fazenda usando aquele transmissor. Como destruiu o hangar dela.
— Grand-mère é a única família que me sobrou. — Scarlet passou as palmas das mãos suadas na calça e ficou de pé. — Um espresso cairia bem.
Ela hesitou, sem saber qual resposta queria que ele desse quando perguntou:
— Quer ir até o vagão-restaurante comigo?
O olhar dele passou por trás do ombro dela, até a porta, com uma expressão dividida.
Scarlet encarou a indecisão dele com um sorriso, ao mesmo tempo provocador e simpático.
Talvez um pouco paquerador.
— Tem quase duas horas desde que você comeu pela última vez. Deve estar morrendo de fome.
Algo surgiu no rosto de Lobo, algo que beirava o pânico.
— Não, obrigado — disse rapidamente. — Vou ficar aqui.
— Ah. — A pulsação disparada se acalmou. — Tudo bem. Volto logo.
Enquanto fechava a porta atrás de si, viu Lobo passar a mão pelo cabelo com um suspiro aliviado, como se tivesse acabado de escapar de uma armadilha.

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