20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezesseis

A mensagem de áudio terminou com um estalo leve, deixando o compartimento de carga em silêncio. Sentada em uma das caixas então vazias, Cress olhou ao redor, observou os ombros tensos de Cinder enquanto ela encarava o netscreen apagado, o jeito como Lobo batia com os dedos nos cotovelos, e Iko, que ainda estava concentrada no tablet no colo, tentando entender seu próximo movimento em um jogo que ela e Cress vinham jogando havia uma hora.
— Ele conseguiu — murmurou Cinder.
— Claro que conseguiu — disse Iko sem levantar o rosto. — Nós sabíamos que ia conseguir.
Virando as costas para a tela, Cinder coçou o pulso em um gesto distraído.
— O dia oito é bem mais cedo do que eu esperava. Aposto que os líderes terráqueos vão começar a partir nas próximas quarenta e oito horas.
— Que bom — comentou Lobo. — A espera está me deixando louco.
Não, a separação de Scarlet o estava deixando louco, Cress sabia, mas ninguém disse nada. Talvez a espera estivesse deixando todos meio loucos.
— Coringa para A1! — anunciou Iko finalmente. Sorrindo, ela mostrou o tablet para Cress.
— Rei para C4 e reivindico todos os rubis — disse Cress sem hesitação.
Iko fez uma pausa, olhou para a tela e murchou.
— Como você é tão boa nisso?
Cress sentiu uma onda de orgulho atrás do esterno, apesar de não saber se esse talento era impressionante ou constrangedor.
— Eu jogava muito quando estava entediada no satélite. E eu ficava muito entediada.
— Mas meu cérebro supostamente é superior.
— Eu sempre só joguei contra um computador, se isso faz você se sentir melhor.
— Não faz. — Iko franziu o nariz. — Eu quero aquele diamante.
Colocando o tablet novamente no colo, ela fechou a mão ao redor de um rabo de cavalo de trancinhas, mais uma vez em concentração profunda.
Cinder limpou a garganta e chamou a atenção de Cress, mas não de Iko.
— Kai vai ter uma frota com ele. É imperativo que saibamos em que nave ele vai estar.
Cress assentiu.
— Eu consigo descobrir.
— Esse plano vai dar certo — disse Lobo com agressividade, como se estivesse ameaçando o próprio plano. Ele começou a andar entre o cockpit e a enfermaria. A ansiedade dele e de Cinder deixava Cress mais nervosa do que qualquer coisa.
Era hora, a única chance deles. Ou daria certo ou falharia.
— Fazedor de coroa para A12.
Cress demorou um momento para voltar o foco ao jogo. Iko fez a jogada que ela esperava que fizesse, a mesma que o computador do satélite teria feito.
Cress sacrificou seu Coringa e depois levou sorrateiramente o Ladrão pelo tabuleiro, pegando todas as esmeraldas soltas, até que nem o desejado diamante de Iko pudesse fazer com que ela vencesse o jogo.
— Ah! Por que eu não vi isso? — Resmungando, Iko empurrou o tablet para longe. — Eu nunca gostei mesmo desse jogo.
— Nave detectada — disse a voz inflexível da Rampion. Cress deu um pulo, todos os músculos do corpo se contraindo. — O capitão Thorne pede permissão para atracar. A senha foi enviada. O capitão é rei.
Ela expirou, aliviada não só por eles não terem sido vistos por uma nave inimiga, mas também por Thorne estar de volta. Toda a preocupação que sentia desde que ele e Kai saíram subiu até a superfície da pele e evaporou em uma única expiração.
— Permissão concedida — disse Cinder, também com um certo alívio na voz. Ela cruzou os braços. — O primeiro passo está completo. Kai está de volta à Terra, o casamento está remarcado para acontecer em Luna e Thorne voltou em segurança. — Ela se balançou nos calcanhares com a testa franzida. — Não acredito que nada deu errado.
— Eu esperaria até você estar sentada em um trono antes de fazer uma declaração assim — disse Lobo.
Cinder contraiu os lábios.
— Faz sentido. Tudo bem, pessoal. — Ela bateu palmas. — Vamos começar os preparativos de último minuto. Cress e Iko, vocês estão encarregadas de fazer as edições finais de vídeo. Lobo, preciso que você…
A porta da escotilha de subnível se abriu, batendo na parede. Thorne subiu pela ladeira e foi direto para cima de Cinder, que deu um passo para trás.
— Você pintou minha nave? — gritou ele. — Por quê… o quê… por que você faria isso?
Cinder abriu a boca, mas hesitou. Ela esperava um tipo diferente de cumprimento, obviamente.
— Ah. Isso. — Ela olhou ao redor para Cress, Lobo e Iko, como se pedisse ajuda. — Eu achei… uau, isso faz tanto tempo. Acho que eu deveria ter mencionado.
— Mencionado? Você não deveria…! Você não pode sair pintando a nave dos outros! Sabe quanto tempo demorei para pintar aquela garota?
Cinder apertou um olho.
— A julgar pela precisão e pelo detalhe, vou supor que… dez minutos? Quinze?
Thorne fez cara feia.
— Tudo bem, desculpe. Mas a silhueta era reconhecível demais. Era um risco.
— Um risco! Você é um risco! — Ele apontou para Lobo. — Ele é um risco. Cress é um risco. Nós somos todos um risco!
— Eu também? — perguntou Iko. — Não quero ficar de fora.
Thorne revirou os olhos e levantou as mãos no ar.
— Que se dane. Tudo bem. Não é minha nave mesmo, né? — Resmungando, ele passou a mão pelo cabelo. — Eu queria que você tivesse dito alguma coisa antes de eu ter um ataque cardíaco achando que tinha me comunicado com a nave errada.
— Você está certo. Não vai acontecer de novo. — Cinder tentou dar um sorriso nervoso. — Então… como foi?
— Tudo bem, tudo bem. — Thorne descartou a pergunta. — Apesar da minha desconfiança inerente em relação a figuras de autoridade, estou começando a gostar desse seu imperador.
Cinder ergueu uma das sobrancelhas.
— Não sei se eu deveria ficar aliviada ou preocupada.
Cress mordeu o lábio para esconder um sorriso divertido. Ela sentiu certo desconforto vindo de Thorne quando Kai subiu a bordo. Afinal, “imperador” era um ranking superior a “capitão” no padrão de qualquer pessoa. Mas ela também reparou que Thorne ficava um pouco mais ereto na presença de Kai, como se quisesse que o imperador ficasse impressionado com ele, sua nave e sua tripulação… só um pouco.
Thorne tirou a jaqueta e a colocou em cima da caixa mais próxima.
— Aconteceu alguma coisa legal enquanto eu estava fora?
Pela primeira vez, o olhar dele passou por Cinder e Iko e parou em Cress, e foi tão repentino e concentrado que ela ficou afobada na mesma hora. Cress quebrou o contato visual e começou a inspecionar as placas de metal da parede.
— O casamento está de pé — disse Cinder. — Vai acontecer em Artemísia no dia oito, e a coroação será dois dias depois no amanhecer do sol lunar.
As sobrancelhas de Thorne dispararam.
— Não estão perdendo tempo. Mais alguma coisa?
— Levana aceitou um cessar-fogo — informou Lobo. — Mas estamos esperando para saber se foi implementado.
— Além do mais, Cress me destruiu em um jogo de Mineradores da Montanha — contou Iko.
Thorne assentiu, como se os dois anúncios tivessem o mesmo peso.
— Ela é um gênio.
Cress ficou mais vermelha, o que era frustrante. Era mais fácil fingir que não estava apaixonada quando ele não conseguia saber com que frequência o olhar dela o procurava e como ela enrubescia a cada elogio.
— É, mas eu sou androide.
Thorne riu, a raiva por causa da pintura da nave já dissipada.
— Por que vocês não jogam Ataque Androide, então? Talvez esse dê vantagem a você.
— Ou Resistência Robô — sugeriu Cinder.
Thorne estalou os dedos.
— Isso. Antigo e dos bons. — Os olhos dele estavam brilhando, calmos e confiantes, daquele jeito que sempre fez Cress se sentir mais calma e confiante também só por estar perto dele, sabendo que ele era corajoso e capaz e…
E ele estava olhando para ela. De novo.
Ela desviou o olhar. De novo.
Burra, burra, burra.
Morrendo de vergonha, ela se viu fantasiando sobre rastejar até a doca de naves e ser sugada para o espaço.
— A gente devia começar — disse Cinder. — Pegar os suprimentos que achamos que vamos precisar e preparar a nave para órbita neutra estendida.
— Você quer dizer abandono — disse Thorne, o tom leve sumindo de sua voz.
— Eu já ajustei a fiação para as configurações mais eficientes. Vai ficar tudo bem.
— Você sabe que não é verdade. Sem Cress interferindo com os sinais, não vai demorar para a nave ser encontrada e confiscada.
Cinder suspirou.
— É um risco que temos que correr. Que tal isto: quando eu for rainha, vou usar meus fundos reais, ou seja lá o que for, para comprar uma nave nova.
Thorne fez cara feia.
— Eu não quero uma nave nova.
Cress sentiu uma pontada de solidariedade. Estavam todos tristes por deixarem a Rampion. Foi uma boa casa pelo curto tempo que os abrigou.
— Sabe, Thorne — disse Cinder, falando baixo, como se não quisesse dizer aquilo —, não precisa vir conosco. Pode nos levar até Kai, voltar para a Rampion e… você sabe que nós nunca iríamos entregá-lo. — Ela respirou fundo. — Estou falando sério. Com todos vocês. Não precisam ir comigo. Sei o perigo em que estou colocando vocês, que não sabiam em que estavam se metendo quando se juntaram a mim. Vocês podem continuar a vida, eu não impediria. Lobo, Cress, voltar para Luna deve parecer uma sentença de morte para vocês dois. E, Iko…
Iko levantou a mão.
— Você precisa de uma limpeza de sistema se está sugerindo que eu a abandonaria agora.
Thorne sorriu. Seu sorriso seguro, de canto da boca.
— Ela está certa. É fofo da sua parte se preocupar, mas não tem como você fazer isso sem a gente.
Apertando os lábios, Cinder não discutiu.
Cress ficou em silêncio, se perguntando se era a única que ficou brevemente tentada pela proposta de Cinder. Voltar para Luna era como sentenciá-los à morte, principalmente uma cascuda como ela, que deveria ter sido morta anos antes. Sabotar Levana da segurança do espaço era uma coisa. Mas entrar em Artemísia… era quase como pedir para ser assassinada.
Mas Thorne estava certo. Cinder precisava deles. De todos eles.
Ela fechou os olhos e lembrou a si mesma de ser corajosa.
— Além do mais, nosso capitão ainda está querendo aquele dinheiro da recompensa — acrescentou Iko, quebrando a tensão.
Os outros riram, e um sorriso passou pelos lábios de Cress, mas, quando ela abriu os olhos, Thorne não estava se divertindo como os outros.
Na verdade, ele pareceu pouco à vontade de repente, com os ombros tensos.
— Ah, sabe, algumas pessoas podem dizer que fazer a coisa certa é uma recompensa por si só.
O compartimento de carga ficou imóvel. Cress piscou.
Uma incerteza se estendeu entre eles.
Com uma risadinha nervosa, Thorne acrescentou:
— Mas essas pessoas morrem pobres e desamparadas, então quem liga para o que elas pensam? — Ele descartou as próprias palavras. — Vamos lá, aproveitadores. Vamos começar a trabalhar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!