13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezesseis

THORNE PASSOU A BENGALA IMPROVISADA PARA O LADO OPOSTO a fim de poder segurar o cotovelo de Cress quando eles pisaram na areia. Ela manteve a cabeça baixa e calculava com cuidado cada passo, mas também estava com medo de que, se olhasse para cima, para o céu, suas pernas fossem congelar e ela jamais conseguisse fazê-las se mover de novo.
Quando chegaram a uma distância segura do satélite, Cress ergueu o olhar com hesitação. À frente estava a mesma paisagem eterna, com o céu ficando mais escuro. Ela olhou para trás, para o satélite, e levou um susto.
A mão de Thorne apertou seu cotovelo.
— Há montanhas — disse ela, olhando para os picos irregulares no horizonte.
Ele apertou os olhos.
— Montanhas ou morros glorificados?
Ela refletiu sobre a pergunta e comparou o local à frente com as fotos de cadeias de montanhas que tinha visto nas telas. Dezenas de picos de alturas variadas desapareciam na escuridão da noite.
— Eu acho... que são montanhas de verdade — disse ela. — Mas está escurecendo, e não consigo ver nada branco no topo. As montanhas sempre têm neve?
— Nem sempre. Estão muito longe?
— Hum...
Elas pareciam perto, mas as subidas e as dunas de areia entre eles poderiam enganar, e ela nunca precisara avaliar distâncias antes.
— Deixa pra lá. — Thorne bateu com a bengala no chão. As entranhas de Cress tremeram quando ele não soltou o braço dela, embora talvez ele gostasse da sensação de ligação entre os dois tanto quanto ela. — Em que direção estão?
Ela pegou a mão dele e apontou. Seu coração batia erraticamente, e Cress se sentiu presa entre a exultação e o pavor. Mesmo de longe, via que as montanhas eram enormes, feras gigantescas e antigas alinhadas como um muro impenetrável dividindo o terreno vazio. Mas pelo menos eram alguma coisa, um marco físico, visual, que quebrava a monotonia do deserto. De alguma forma, elas a acalmavam, apesar de fazerem-na se sentir tão insignificante como nunca antes.
— Isso deve ser... sul, certo? — Ele apontou para outra direção. — O sol se pôs ali?
Ela seguiu o gesto dele, onde uma luz verde leve ainda podia ser vista por cima das dunas, sumindo rápido.
— Sim — disse ela, um sorriso trêmulo surgindo nos lábios.
Seu primeiro pôr do sol de verdade. Ela nunca soube que pores do sol podiam ser verdes, nunca soube o quanto a escuridão se espalhava depressa. Seus pensamentos vibravam enquanto tentava registrar cada minuto, guardar esse momento em segurança em um lugar em que jamais esqueceria. A forma como a luz ficava turva e enevoada sobre o deserto. A forma como as estrelas surgiam no céu negro. A forma como os instintos dela impediam que seu olhar se direcionasse para o céu alto, mantendo o pânico sob controle.
— Você vê alguma planta viva? Qualquer coisa que não seja areia e montanhas?
— Não daqui. Mas não consigo ver quase nada... — Enquanto eles falavam, a escuridão tomava conta de tudo, e a areia antes dourada estava virando sombras sob seus pés. — Ali está nosso paraquedas — acrescentou ela ao reparar no tecido branco murcho esticado sobre uma duna.
Ele já estava sendo engolido pela areia em movimento. Uma trincheira tinha surgido na duna, onde o satélite bateu e deslizou.
— Devíamos cortar um pedaço — disse Thorne. — Poderia acabar sendo útil, principalmente se for à prova d’água.
Eles falaram pouco enquanto Cress o guiava duna acima, o trajeto dificultado pelo terreno instável. Thorne era desajeitado com a bengala, tentando testar o chão à frente sem afundar a ponta na colina e bater com a outra ponta em si mesmo. Eles acabaram chegando ao paraquedas e conseguiram cortar um quadrado grande o bastante para ser usado como lona.
— Vamos na direção das montanhas — disse Thorne. — Isso vai impedir que a gente ande diretamente para o sol de manhã, e, com sorte, elas vão oferecer abrigo e talvez até água.
Cress achou que parecia um plano tão bom quanto qualquer outro, mas, pela primeira vez, reparou em um tom de incerteza na voz de Thorne. Ele estava apenas supondo. Não sabia onde estavam e nem que direção os levaria até a civilização. Cada passo poderia levá-los para mais longe da segurança.
Mas uma decisão precisava ser tomada.
Juntos, eles começaram a subir a duna seguinte. O calor do dia estava sumindo, e uma brisa leve soprou areia nas canelas dela. Quando chegaram ao alto, ela se viu olhando para um oceano de nada. A noite tinha chegado e ela nem conseguia ver mais as montanhas. Mas, quando as estrelas ficaram mais iluminadas e seus olhos se acostumaram, Cress percebeu que o mundo ao redor não estava negro como breu, mas tingido de um leve tom de prateado.
Thorne tropeçou e gritou, cambaleando e caindo sobre as mãos e os joelhos. A bengala improvisada estava espetada na areia e por pouco não atravessou Thorne quando ele caiu.
Ofegante, Cress caiu de joelhos ao lado dele e apertou uma das mãos nas costas de Thorne.
— Você está bem?
Afastando-a com rispidez, Thorne se levantou até ficar sentado sobre os calcanhares.
À luz suave, Cress viu que o maxilar dele estava tenso e as mãos, apertadas.
— Capitão?
— Estou bem — disse ele, com dureza na voz.
Cress hesitou, com os dedos pairando perto dos ombros dele.
Ela viu o peito dele se expandir com uma respiração lenta e ouviu o expirar trêmulo e esforçado.
— Eu — começou ele, falando lentamente — não estou feliz com a direção que os eventos tomaram.
Cress mordeu o lábio, ardendo de solidariedade.
— O que posso fazer?
Depois de um momento olhando cegamente para as montanhas, Thorne balançou a cabeça.
— Nada — disse ele, e esticou o braço até encontrar a bengala. Envolveu-a com os dedos.
— Posso fazer isso. Só preciso entender como.
Ele ficou de pé e tirou a traiçoeira bengala da areia.
— Na verdade, se você pudesse tentar me avisar quando estivermos chegando a uma subida ou prestes a descer de novo, já ajudaria.
— É claro. Estamos quase no topo... — Ela parou de falar quando seus olhos deixaram o rosto de Thorne para procurar o topo da duna e encontraram a lua, uma faixa crescente brilhando vívida e branca no horizonte. Ela afastou o rosto, a força do hábito dizendo para que se escondesse debaixo da mesa ou da cama até a lua não poder mais encontrá-la; só que não havia mesa nem cama sob as quais se esconder. E, quando a surpresa inicial passou, ela começou a perceber que a visão da lua não a enchia de pavor como antigamente. Da Terra, parecia tão distante. Ela engoliu em seco. — ... Quase no topo dessa duna.
Thorne inclinou a cabeça para o lado.
— O que foi?
— Nada. É só que... estou vendo Luna. Só isso.
Ela afastou o olhar da lua e olhou para o céu noturno. Foi com hesitação no começo, com medo de que olhar para o céu a deixasse tonta mais uma vez, mas logo descobriu que havia alguma coisa de reconfortante em ver a mesma galáxia que sempre conhecera. As mesmas estrelas para as quais olhara a vida toda, vistas por uma nova lente.
A tensão em seu corpo diminuiu aos poucos. Isso era familiar. Era seguro. Um leve movimento de gases no universo, brilhando em tons de roxos e azul. O brilho de milhares e milhares de estrelas, tão numerosas quanto grãos de areia, tão estonteantes quanto um pôr do sol terráqueo visto pela janela do satélite.
A pulsação dela deu um salto.
— Espere... as constelações — disse ela, girando em um círculo enquanto Thorne tirava areia dos joelhos.
— O quê?
— Ali... ali está Pegasus, e Peixes, e... oh! É Andrômeda!
— O que você... ah. — Thorne afundou a bengala na areia e apoiou o peso nela. — Navegação. — Ele esfregou o maxilar. — Essas são todas constelações do norte. Isso tira a Austrália da jogada, pelo menos.
— Espere. Me dê um minuto. Sou capaz de descobrir isso.
Cress apertou os dedos contra o rosto, tentando se ver olhando para as mesmas constelações incontáveis vezes das janelas do satélite. Concentrou-se em Andrômeda, a maior à vista, com a estrela alfa brilhando como um farol não muito distante do horizonte. Onde o satélite dela estaria em relação à Terra quando ela via aquela estrela naquele ângulo?
Depois de um momento, as constelações começaram a se espalhar como um holograma em sua mente. Era como se estivesse vendo a ilusão cintilante da Terra girando devagar à frente dela, cercada de espaçonaves e satélites e estrelas, estrelas, estrelas...
— Acho que estamos no norte da África — disse ela, virando-se para olhar para as outras constelações que surgiam no oceano de estrelas. — Ou talvez na Comunidade das Nações Orientais, em uma das províncias ocidentais.
Thorne uniu as sobrancelhas.
— Poderia ser o Saara. — Seus ombros começaram a murchar, e Cress viu o momento em que ele percebeu que não fazia diferença em qual hemisfério eles estavam, em qual país. Ainda era um deserto. Eles ainda estavam presos. — Não podemos ficar aqui olhando as estrelas a noite toda — lembrou ele, abaixando-se para pegar a bolsa de suprimentos e recolocar no ombro. — Vamos continuar seguindo para as montanhas.
Cress tentou oferecer o cotovelo de novo, mas Thorne só o apertou de leve e soltou.
— Tira meu equilíbrio — disse ele, testando o comprimento da bengala para poder andar sem enfiá-la no chão de novo. — Vou ficar bem.
Cress escondeu a decepção e começou a subir a duna. Anunciou o topo quando eles chegaram lá e continuaram a descer pelo outro lado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!