3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezesseis

AS ENFERMEIRAS E OS ANDROIDES DO TURNO DA NOITE PREGARAM-SE às paredes quando o príncipe Kai passou zunindo pelo corredor. Ele tinha corrido desde o seu quarto no décimo sexto andar da ala privada do palácio, parando para recuperar o fôlego somente quando foi forçado a esperar o elevador. Irrompeu pela porta da sala de visitas e parou, ainda segurando a maçaneta.
Seus olhos inquietos encontraram Torin, de braços cruzados, encostado na parede oposta. O conselheiro arrancou seu olhar da janela de vidro e recebeu a expressão de pânico de Kai com outra de resignação.
— Eu ouvi… — começou Kai, esticando os ombros para trás. Molhando a boca seca, ele entrou na sala. A porta fechou atrás dele. A pequena sala era iluminada apenas por um abajur de mesa e as luzes fluorescentes da quarentena.
Kai olhou para a enfermaria ao mesmo tempo que um medidroide puxava um pano branco sobre os olhos fechados de seu pai. Seu coração, que martelava intensamente, parou.
— Cheguei tarde demais.
Torin se mexeu.
— Aconteceu há apenas alguns minutos — disse ele, forçando-se a afastar-se da parede. Kai examinou o rosto enrugado e os olhos cansados do conselheiro, bem como uma xícara de chá intocada que estava apoiada ao lado de seu tablet.
Ficara até tarde para trabalhar, em vez de voltar para a própria casa, a própria cama.
A exaustão alcançou Kai de uma só vez, e ele apertou a testa, que parecia estar queimando, no vidro frio. Ele também deveria ter estado presente.
— Vou marcar a coletiva de imprensa. — A voz de Torin soava oca.
— Uma coletiva de imprensa?
— O país precisa saber. Vamos lamentar juntos. — Torin pareceu abalado por um raro momento, mas disfarçou, controlando a respiração.
Kai fechou os olhos e os esfregou com força. Mesmo sabendo que isso aconteceria, que seu pai estava com uma doença incurável, ainda não fazia sentido. Tudo o que acabara de perder lhe fora tomado tão rapidamente. Não apenas seu pai. Não apenas o imperador.
Sua juventude. Sua liberdade.
— Você será um bom imperador — disse Torin. — Como ele era.
Kai se afastou. Não queria pensar nisso, em todas as próprias imperfeições. Ele era jovem demais, estúpido demais, otimista demais, ingênuo demais. Não conseguiria.
A tela atrás deles apitou, e em seguida uma doce voz feminina anunciou:
— Comunicado para o príncipe Kaito, da Comunidade Oriental, da rainha Levana, de Luna.
Kai girou em direção ao netscreen, em branco, exceto por um globo girando no canto, sinalizando um comunicado disponível. Qualquer ameaça de lágrimas desapareceu, transformando-se em uma dor de cabeça iminente. O ar ficou espesso, mas nenhum deles se moveu.
— Como ela poderia saber? Tão cedo? — disse Kai. — Ela deve ter espiões.
Do canto do olho, viu Torin lançar-lhe um olhar. Um aviso para não começar com as teorias de conspiração agora.
— Talvez a taumaturga ou o guarda tenha visto você — disse ele. — Correndo pelo castelo no meio da noite. O que mais poderia significar?
Contraindo o maxilar, Kai aprumou-se, enfrentando a tela como a um inimigo.
— Parece que o nosso período de luto acabou — murmurou. — Tela, aceitar comunicado.
A tela se iluminou. Kai arrepiou-se ao ver a rainha lunar, sua cabeça e ombros envoltos em um véu ornamentado de cor creme, como uma noiva perpétua. Só o que se via sob o manto era um pouco dos longos cabelos escuros e a sombra de seus traços. A explicação dada pelos lunares era que a beleza de sua rainha era um presente aos olhos indignos dos terráqueos, mas Kai tinha ouvido falar que, na realidade, o glamour da rainha — sua capacidade de fazer as pessoas verem-na como divinamente bela, manipulando suas ondas cerebrais — não funcionava através dos netscreens, por isso ela nunca se permitia ser vista neles.
Qualquer que fosse o motivo, olhar por muito tempo para aquela figura branca embrulhada sempre fazia os olhos de Kai arderem.
— Meu caro príncipe Regente — disse Levana com uma voz melosa —, quero ser a primeira a oferecer minhas condolências pela perda de seu pai, o bom imperador Rikan. Que ele descanse em paz para sempre.
Kai lançou um frio olhar para Torin. Espiões?
Torin não retornou o olhar.
— Embora a ocasião seja trágica, estou ansiosa para continuar a discutir uma aliança com você, como o novo líder da Comunidade Oriental Terrestre. Como não vejo nenhuma razão para adiarmos essas conversas até a sua coroação, quando quer que aconteça, acho apropriado planejar uma reunião assim que for conveniente em relação a seu tempo de luto. Meu transporte está pronto. Posso partir ao seu próximo nascer do sol e oferecer tanto os meus pêsames quanto meus parabéns em pessoa. Alertarei minha taumaturga que aguarde minha chegada. Ela pode garantir que as acomodações sejam preparadas adequadamente. Peço que não se preocupe com meu conforto. Tenho certeza de que você terá muitas outras preocupações durante esse momento trágico. Meus pêsames estão com você e a Comunidade. — Ela concluiu a mensagem inclinando a cabeça, e a tela escureceu.
Boquiaberto, Kai olhou para Torin. Ele pressionou os punhos contra o corpo antes que começassem a tremer.
— Ela quer vir aqui? Agora? Não se passaram nem quinze minutos!
Torin limpou a garganta.
— Devemos discutir isso pela manhã. Antes da coletiva de imprensa, suponho.
Kai se virou, encostando a cabeça na janela. Do outro lado do vidro, o relevo do corpo de seu pai estava encoberto pelo lençol branco, não muito diferente da rainha e seu véu. O imperador tinha perdido tanto peso nas últimas semanas que sua forma mais parecia a de um manequim do que a de um homem.
Seu pai não estava mais lá. Incapaz de proteger Kai. Incapaz de oferecer conselhos. Incapaz de liderar o país outra vez.
— Ela pensa que eu sou fraco — disse Kai. — Ela vai tentar me convencer a aceitar o pacto de casamento agora, quando tudo está um caos. — Ele chutou a parede, segurando um grito de dor quando se lembrou de que não estava usando sapatos. — Não podemos responder que não? Avisar que ela não é bem-vinda aqui?
— Não tenho certeza de que essa seria a indicação de paz a qual seu pai vinha se esforçando para alcançar.
— Ela é quem vem ameaçando uma guerra nos últimos doze anos!
Torin apertou os lábios, e a preocupação assombrosa em seu olhar abrandou a raiva de Kai.
— Discussões devem ter duas direções, Vossa Alteza. Vamos ouvir suas solicitações, mas ela terá que ouvir as nossas também.
Os ombros de Kai caíram. Ele se virou, jogando a cabeça para trás e olhando para o teto.
— O que ela quis dizer com “minha taumaturga irá preparar as acomodações”?
— Vai retirar os espelhos, imagino.
Kai fechou os olhos.
— Espelhos. Certo. Esqueci. — Ele massageou a testa. O que havia de tão estranho com os lunares? E não qualquer lunar. A rainha Levana. Na Terra. No país dele, sua casa. Ele estremeceu. — O povo não vai gostar disso.
— Não. — Torin suspirou. — Amanhã será um dia sombrio para a Comunidade.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!