7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezenove

— O QUE É ESSE LIXO TODO? — CINDER MORDEU O LÁBIO E SE ESFORÇOU para empurrar uma caixa de plástico que era quase do tamanho dela.
Thorne resmungou ao seu lado.
— Não... é... lixo. — Os tendões do pescoço dele pulsaram quando a caixa bateu na parede do compartimento de carga.
Thorne apoiou os braços em cima da caixa com um gemido, e Cinder despencou encostada na lateral. Os ombros dela doíam, estavam tão duros quanto o metal da sua perna esquerda, e os braços pareciam prestes a cair. Mas, quando se permitiu olhar para o compartimento de carga, uma sensação de orgulho tomou conta dela.
Todas as caixas tinham sido empurradas para as paredes, abrindo caminho do cockpit até o alojamento. As menores e mais leves tinham sido empilhadas, e algumas ficaram como mobília improvisada na frente da tela principal.
Estava quase aconchegante.
O próximo trabalho seria tirar as coisas das caixas (as que valiam a pena), mas isso ficaria para outro dia.
— Não, sério — perguntou, recuperando o fôlego. — O que é isso tudo?
Thorne se sentou ao lado dela e limpou a testa com a manga.
— Não sei — respondeu, olhando para as etiquetas carimbadas na lateral da caixa mais próxima, um código que não representava nada para ele. — Suprimentos. Comida. Acho que tem armas em algumas delas. E sei que tinha umas esculturas de um artista importante da segunda era. Eu ia ganhar uma fortuna com elas, mas fui preso antes de ter uma oportunidade de vender. — Ele suspirou.
Cinder franziu a testa. Certa de que as esculturas eram roubadas, teve dificuldade em expressar solidariedade.
— Que pena — murmurou ela, batendo com a cabeça na caixa.
Thorne apontou para alguma coisa na parede oposta e seu braço passou por baixo do nariz de Cinder.
— O que é aquilo?
Ela acompanhou o gesto, franziu a testa e, com um gemido mal-humorado, ficou de pé. O canto de uma moldura de metal podia ser visto por trás de uma pilha alta de caixas que eles deixaram encostada na parede.
— Uma porta. — Ela baixou a planta da nave na tela da retina. — A enfermaria?
Uma lembrança surgiu no rosto de Thorne.
— Ah, claro. Esta nave tem isso.
Cinder apoiou os punhos nos quadris.
— Você escondeu a enfermaria?
Thorne se empertigou.
— Nunca precisei dela.
— Você não acha que poderia ser bom ter acesso a ela, só por garantia?
Thorne deu de ombros.
— Vamos ver.
Revirando os olhos, Cinder esticou a mão para a caixa mais alta e a empurrou para o chão, já atrapalhando o caminho recém-liberado.
— Como podemos ter certeza de que nada nessas caixas pode ser rastreado?
— O que você pensa que sou, amador? Nada entrou nesta nave sem ser cuidadosamente inspecionado. Senão a República a teria recuperado tempos atrás, em vez de tê-la deixado no depósito.
— Pode não haver nada rastreável — disse Iko, dando um susto em Cinder e Thorne. Ainda não estavam acostumados com a companheira invisível e onipresente. — Mas ainda podemos ser detectados por radar. Estou fazendo tudo para nos manter longe de satélites e naves, mas está surpreendentemente cheio aqui em cima.
Thorne desenrolou as mangas.
— E é quase impossível entrar na atmosfera da Terra sem ser detectado. Foi assim que me pegaram da última vez.
— Pensei que houvesse um jeito — disse Cinder. — Tenho certeza de que ouvi falar uma vez sobre como as pessoas podem entrar sorrateiramente na atmosfera da Terra, sem serem percebidas. Onde ouvi isso?
— É novidade para mim. Sou bom em jogar minha lábia nos hangares públicos, mas não sei se vai dar certo com uma presidiária fugitiva de tanto destaque.
Cinder tirou do bolso um elástico que tinha encontrado na cozinha e fez rabo de cavalo. Seu cérebro escaneou sua memória e ela lembrou: o dr. Erland tinha dito a ela que havia mais lunares na Terra do que as pessoas desconfiavam e que eles tinham um jeito de entrar no planeta sem o governo perceber.
— Lunares sabem disfarçar as naves.
— Hã?
Ela saiu do transe e piscou para Thorne.
— Lunares conseguem disfarçar suas naves. Para impedir que os radares da Terra os vejam. É assim que tantos conseguem entrar, quando conseguem sair de Luna.
— Isso é apavorante — disse Iko, que reconhecera a verdade sobre a raça de Cinder da mesma forma que reconhecia o status de condenado de Thorne: com lealdade e aceitação, mas sem mudar a opinião de que lunares e presidiários não eram confiáveis e eram irremediáveis em geral.
Cinder ainda não tinha descoberto como contar a ela que, por acaso, também era a desaparecida princesa Selene.
— Eu sei — disse Cinder —, mas seria incrivelmente conveniente se eu soubesse como fazem.
— Você acha que tem a ver — Thorne girou o pulso na direção dela — com aquela coisa mágica lunar maluca?
— Bioeletricidade — disse ela, citando o dr. Erland. — Chamar de magia só dá poder a eles.
— Tanto faz.
— Não sei. Pode ser alguma tecnologia especial que instalam nas naves.
— Torcendo para que seja magia, será que você não deveria começar a treinar?
Cinder mordeu a parte interior da bochecha. Começar a treinar o quê?
— Acho que posso tentar. — Ela desviou a atenção para a caixa, puxou a tampa e deu de cara com um monte de pedaços de isopor. Enfiou a mão de metal lá dentro e tirou uma boneca magrela de madeira enfeitada com penas e com seis olhos pintados. — O que é isso?
— Boneca venezuelana dos sonhos.
— É horrenda.
— Vale uns doze mil univs.
Com o coração disparado, ela colocou a boneca de volta na embalagem.
— Você não acha que pode haver alguma coisa útil em uma dessas? Como, sei lá, uma bateria carregada?
— Duvido — disse Thorne. — Quanto tempo mais a nossa vai aguentar?
Iko respondeu:
— Aproximadamente 37 horas.
Thorne ergueu o polegar para Cinder.
— Tempo suficiente pra aprender um novo truque lunar, certo?
Cinder fechou a tampa da caixa e a empurrou de volta para perto das outras, tentando não demonstrar pânico por ter que usar o novo dom para qualquer coisa, ainda mais algo tão grande quanto disfarçar uma nave de carga.
— Enquanto isso, vou fazer um pouco de pesquisa para tentar escolher o melhor lugar para pousarmos. Não na Comunidade das Nações Orientais, obviamente. Ouvi falar que Fiji é muito agradável nessa época do ano.
— Ou Los Angeles! — Iko cantarolou. — Lá tem um outlet enorme para androides-acompanhantes. Eu não me importaria de ter um corpo de androide-acompanhante. Alguns dos novos modelos têm cabelo de fibra ótica que muda de cor.
Cinder se sentou no chão de novo e coçou o pulso, uma mania que estava ficando estranha, agora que não usava mais luvas.
— Não vamos pousar com uma nave americana roubada na República da América — disse, fixando a atenção na tela onde pairava no canto a foto de prisão dela. Estava tão cansada daquela foto.
— Você tem alguma sugestão? — perguntou Thorne.
África.
Ela se ouviu dizendo isso, mas nada saiu.
Era para onde tinha que ir. Para se encontrar com o dr. Erland, para que ele pudesse lhe dizer o que fazer depois. Ele tinha planos. Planos de torná-la uma heroína, uma salvadora, uma princesa. Planos de destronar Levana e declarar Cinder a verdadeira rainha.
A mão direita dela começou a tremer. O dr. Erland tinha elaborado o recrutamento de ciborgues e tinha tratado dezenas, talvez centenas de ciborgues como chamarizes, tudo para encontrá-la. E então, quando a encontrou, manteve o segredo de sua identidade até não ter mais escolha, o tempo todo planejando o resto da vida dela. Sua necessidade de vingança virara sua mais alta prioridade.
Mas o que o médico não levou em consideração era que Cinder não tinha qualquer desejo de ser rainha. Não queria ser princesa nem herdeira de nada. Durante toda a vida, pelo menos a vida da qual ela conseguia se lembrar, tudo o que quis foi liberdade. E agora, pela primeira vez, havia conseguido, por mais tênue que fosse. Não havia ninguém dizendo a ela o que fazer. Ninguém para julgar nem criticar.
Mas, se fosse até o dr. Erland, ela perderia isso tudo. Ele esperaria que ela tomasse sua posição de rainha de Luna, e, aos olhos dela, isso parecia a pior algema de todas.
Cinder segurou a mão trêmula com a mão ciborgue, mais firme. Estava cansada de todo mundo decidir o que ela devia fazer com sua vida. Estava pronta para descobrir quem era de verdade, não o que as outras pessoas mandavam que fosse.
— Hã... Cinder?
— Europa. — Ela pressionou as costas na caixa, se forçando a sentar ereta, a fingir certeza. — Vamos pra Europa.
Um breve silêncio.
— Algum motivo especial?
Ela olhou nos olhos dele e pensou por um momento antes de escolher as palavras.
— Você acredita na herdeira lunar?
Thorne apoiou o queixo nas palmas das duas mãos.
— É claro.
— Não, o que quero dizer é se você acredita que ela ainda está viva.
Ele olhou para ela como se ela estivesse fazendo gracinha.
— É, você se expressou de forma tão vaga antes. Sim, é claro que acho que ela está viva.
Cinder recuou.
— Acha?
— Claro. Sei que algumas pessoas pensam que são teorias da conspiração, mas ouvi que a rainha Levana ficou paranoica durante meses depois daquele incêndio, quando deveria estar eufórica porque finalmente tinha virado rainha, certo? Parecia que ela sabia que a princesa tinha fugido.
— É, mas... podiam ser só histórias — disse Cinder, sem saber por que estava tentando dissuadi-lo. Talvez porque ela mesma nunca tivesse acreditado, até saber a verdade.
Ele deu de ombros.
— O que isso tem a ver com a Europa?
Cinder virou de frente para ele e cruzou as pernas.
— Tem uma mulher que mora lá, ou pelo menos morava. Era militar. O nome dela é Michelle Benoit, e acho que pode estar ligada à princesa desaparecida. — Ela inspirou lentamente, torcendo para não ter dito nada que pudesse revelar seu segredo.
— Quando você ouviu isso?
— Um androide me contou. Um androide real.
— Ah! O androide de Kai? — disse Iko, mudando com euforia a tela para uma das páginas de fãs de Kai.
Cinder suspirou.
— Sim, o androide de Sua Majestade.
Sem que ela soubesse na época, seu cérebro ciborgue tinha gravado todas as palavras que o androide, Nainsi, falou, como se soubesse que um dia essas informações lhe seriam úteis.
De acordo com a pesquisa de Nainsi, um médico lunar chamado Logan Tanner tinha levado Cinder para a Terra quando ainda era criança, depois que a tentativa de assassinato de Levana falhou. Ele acabou sendo internado em um hospital psiquiátrico e cometeu suicídio, mas não sem antes entregá-la a outra pessoa. Nainsi achava que essa pessoa era um ex-piloto militar da Federação Europeia.
A tenente-coronel Michelle Benoit.
— Um androide real — disse Thorne, dando o primeiro sinal de especulação. — E como ele obteve essa informação?
— Não faço a menor ideia. Mas quero encontrar essa Michelle Benoit e ver se o androide estava certo.
Tinha esperanças de que Michelle Benoit tivesse algumas das respostas que o dr. Erland não pôde lhe dar. Talvez pudesse contar a Cinder sobre sua história, sobre os onze longos anos perdidos em sua memória, sobre a cirurgia e os cirurgiões, e a invenção de Linh Garan que impediu que Cinder usasse seu dom até o dr. Erland libertá-lo.
Talvez ela tivesse outras ideias sobre o que Cinder devia fazer em seguida. Outras escolhas do que fazer com o resto de sua vida.
— Eu topo.
Ela levou um susto.
— Topa?
— Claro. É o maior mistério não resolvido da terceira era. Deve ter alguém por aí oferecendo uma recompensa para quem encontrar essa princesa, certo?
— É, a rainha Levana.
Thorne se inclinou na direção dela e a cutucou com o cotovelo.
— Nesse caso, já temos uma coisa em comum com a princesa, não é mesmo? — Ele piscou, o que deixou os nervos de Cinder em alerta. — Só espero que ela seja bonita.
— Você poderia ao menos tentar se concentrar nas coisas importantes?
— Isso é importante. — Thorne se levantou com um resmungo, ainda dolorido de todo o trabalho que tiveram com a reorganização. — Está com fome? Acho que tem uma lata de feijão por aí com o meu nome nela.
— Não, estou bem. Obrigada.
Quando ele saiu, Cinder se sentou em cima da caixa mais próxima e relaxou os ombros. A notícia ainda estava sendo transmitida na tela, sem som. Uma legenda dizia: A busca pela fugitiva lunar Linh Cinder e o traidor da coroa Dmitri Erland continua.
Sua garganta se apertou. Traidor da coroa?
Não deveria ter ficado surpresa. Afinal, quanto tempo achava que demorariam para descobrir quem a ajudou a fugir?
Cinder se deitou de costas, com as pernas penduradas na beirada da caixa, e olhou para o labirinto de canos e fios que lotavam o teto da nave. Será que cometeria um erro ao ir para a Europa? Era um impulso ao qual ela não conseguiria resistir. Não só por causa do que Nainsi dissera, mas por suas próprias lembranças, confusas. Sempre soubera que tinha sido adotada na Europa e tinha uma vaga lembrança disso. Apenas memórias meio estranhas que sempre pensou serem parcialmente sonhos. Um celeiro. Um campo coberto de neve. Um céu cinza que nunca acabava. E uma longa viagem de trem levando-a para Nova Pequim e para sua nova família.
Agora se sentia compelida a ir até lá. Para descobrir onde tinha estado durante todos esses anos perdidos e quem tinha cuidado dela, quem mais conhecia seu maior segredo.
Mas e se ela estivesse apenas evitando o inevitável? E se ir a Europa fosse só uma distração que a impediria de ir até o dr. Erland e aceitar seu destino? Pelo menos o médico podia ensiná-la a ser lunar. A se proteger da rainha Levana.
Ela nem sabia usar o glamour. Ao menos, não da maneira certa.
Apertou os lábios e levou a mão ciborgue até o rosto. A cobertura de metal brilhava quase como um espelho sob as luzes fracas da nave. Era tão impecável, tão bem-feita, que não parecia a mão dela. Ainda não.
Inclinando a cabeça, Cinder levantou a outra mão, a humana, posicionou-a ao lado da ciborgue e tentou imaginar como seria ser completamente humana. Com dois membros feitos de pele e tecido e ossos. Com sangue correndo levemente em veias azuis por baixo da superfície. Com dez unhas.
Uma corrente elétrica desceu pelos nervos, e a mão ciborgue começou a se modificar na frente de seus olhos. Pequenas rugas apareceram nos nós dos dedos. Tendões se esticaram por baixo da pele. As extremidades se arredondaram. Aqueceram. Viraram carne.
Ela estava olhando para duas mãos, duas mãos humanas. Pequenas e delicadas com dedos perfeitamente esculpidos e unhas arredondadas. Flexionou os dedos da mão esquerda, formou um punho e os esticou de novo.
Uma risada quase eufórica saiu de seus lábios. Ela estava conseguindo. Estava usando o glamour.
Não precisaria mais de luvas. Poderia convencer todo mundo de que aquilo era real.
Ninguém jamais saberia que ela era ciborgue.
Uma ideia simples, repentina e avassaladora.
E então, rápido demais, uma luz laranja piscou no canto de seus olhos, o cérebro avisando que o que ela estava vendo era mentira. Que não era real, nunca seria real.
Ela se sentiu um pouco sem ar e fechou bem os olhos antes que o escâner de retina pudesse começar a captar todas as pequenas imprecisões e falsidades, como tinha feito com o glamour de Levana quando Cinder começou a ver através dele. Estava irritada consigo mesma, enojada pela facilidade com que seu desejo tinha se realizado.
Era assim que Levana fazia. Ela controlava as pessoas enganando seus olhos e seus corações. Governava pelo medo, sim, mas também pela adoração. Era fácil explorar uma pessoa quando ela não percebia que estava sendo explorada.
Não era muito diferente de quando ela usou o glamour com Thorne. Ela dominou a mente dele sem nem tentar, e ele fez de bom grado tudo que ela queria.
Ficou tremendo por um tempo, ouvindo Thorne fazendo barulhos na cozinha e cantarolando.
Se essa era a chance de decidir quem ela era, quem queria ser, então a primeira decisão seria fácil.
Ela jamais seria como a rainha Levana.

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