20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezenove

Foi preciso uma quantidade heroica de esforço para Kai fingir que não estava passando mal de nervosismo. A nave parou com um baque que o fez pular. A presença de Torin ao lado dele, ao menos, era estabilizante, e ele ouviu os sussurros ansiosos dos embaixadores da Comunidade enquanto esperavam para desembarcar da sala comum da nave. Ele sentia cinco clandestinos escondidos na nave, apesar de não saber onde, então não havia como entregar a localização deles com um olhar perdido.
Se alguém ia atrair desconfiança, seria ele. Só ele e Torin sabiam sobre Cinder e os aliados dela, e a expressão de Torin era impassível, como sempre. A tripulação da nave estava ocupada demais com os procedimentos de chegada para questionar o desaparecimento da secretária de Defesa da América, e nenhum dos outros passageiros sabia que eles tinham recebido convidados.
Ao mesmo tempo, Kai não parava de pensar sobre essas pessoas, seus amigos, e o que ele as estava ajudando a fazer. Invadir Luna. Iniciar uma rebelião. Encerrar a guerra. Ele também não parava de contar as milhares de coisas que poderiam dar errado.
Ele precisava se concentrar. Isso só funcionaria se Levana acreditasse que Kai estava determinado a ir até o fim com a aliança de casamento de uma vez por todas. Ele tinha que fazê-la pensar que tinha vencido.
A rampa começou a descer. Kai respirou fundo e prendeu o ar, tentando limpar a mente. Tentando se convencer de que queria que esse casamento e essa aliança dessem certo.
O porto real de Artemísia estava brilhando desde o chão de uma forma que o deixou desconcertado na mesma hora. As paredes eram pedregosas e pretas, mas iluminadas por milhares de pequenas lâmpadas como um céu noturno estrelado. O porto continha dezenas de naves de vários tamanhos, a maioria lunares que cintilavam em um branco uniforme, pintadas com runas não familiares e exibindo o selo real. Kai também reconheceu emblemas entre as naves; alguns convidados terráqueos já tinham começado a chegar. Vê-los reunidos o encheu de medo.
Um movimento atraiu o olhar de Kai, que viu a própria Levana deslizando pela plataforma larga que envolvia as docas. Ela estava cercada pelo grupo: o sempre arrogante taumaturgo-chefe Aimery Park estava à direita, e uma garota de vestido azul-claro ia atrás da rainha, com a cabeça baixa e o rosto obstruído pelo cabelo ondulado volumoso. Havia mais cinco taumaturgos e pelo menos doze guardas. Era uma segurança impressionante; um exagero, na opinião de Kai.
Levana estava esperando que alguma coisa desse errado? Ou seria uma demonstração de intimidação?
Preparando-se, Kai desceu a rampa para encontrar a rainha. Seu próprio grupo, que incluía dez guardas, foi atrás.
— Vossa Majestade — disse Kai, aceitando a mão esticada de Levana. Ele se inclinou para beijá-la.
— Sempre tão formal — retrucou Levana, com aquela voz repugnante que provocava arrepios na pele dele. — Não podemos nos referir um ao outro em termos tão idiotas para sempre. Talvez eu deva chamá-lo de agora em diante de Meu Amado e você deva me chamar de Sua Querida.
Kai ficou parado perto da mão dela, o ódio fazendo sua pele arder onde tocava a de Levana. Depois de um momento prolongado, ele a soltou e se empertigou.
— Vossa Majestade — recomeçou —, é uma honra ser recebido em Luna. Meus ancestrais ficariam cheios de orgulho ao testemunhar uma ocasião assim.
— O prazer é meu. — O olhar de Levana foi até os embaixadores reunidos na rampa da nave. — Espero que você ache nossa hospitalidade agradável. Se precisar de alguma coisa, avise um dos servos e eles cuidarão para que tudo seja providenciado.
— Obrigado — disse Kai. — Estamos curiosos com os famosos luxos da cidade branca.
— Não tenho dúvida. Vou mandar servos serem trazidos para descarregarem seus pertences e levarem aos seus aposentos.
— Não será necessário. Nossa tripulação já está descarregando a nave. — Ele fez um gesto para trás. Uma segunda rampa de carga e descarga tinha sido baixada no compartimento de carga. Ele fez questão de dizer para o capitão que queria que a tripulação cuidasse disso como prioridade. Queria ter certeza de que a nave seria esvaziada de pessoas e carga o mais rápido possível, para que Cinder e os outros não ficassem presos nas docas por muito tempo.
— Que eficiente — disse Levana. — Nesse caso, seus embaixadores podem seguir o taumaturgo Lindwurm até nossas suítes de convidados. — Ela indicou um homem de casaco preto. — Tenho certeza de que eles devem querer descansar depois da viagem longa.
Pouco depois, os companheiros nervosos de Kai estavam sendo levados por um par de portas enormes em arco, que cintilavam com um desenho de uma lua crescente acima da Terra. Apesar de a presença de seus companheiros terrestres não oferecer segurança nenhuma, Kai se sentiu abandonado quando ele, Torin e seus guardas ficaram para trás.
— Espero que não ache grosseria eu não oferecer apresentações completas para seus convidados — disse Levana. — Minha enteada se perturba com facilidade, e rostos novos em excesso poderiam deixá-la nervosa. — Ela esticou a mão para o lado, como se estivesse conduzindo uma sinfonia. — Mas quero apresentar a você, pelo menos, minha enteada, a princesa Winter Hayle-Blackburn de Luna.
— Claro. Eu ouvi falar muito… sobre… você.
Kai perdeu-se em seu discurso quando a princesa levantou a cabeça e o observou através de uma cobertura de cílios grossos. Foi um olhar rápido, quase um vislumbre, mas bastou para que uma onda de calor subisse pelo pescoço de Kai até as orelhas. Ele tinha ouvido falar da beleza lendária da princesa. Beleza que não era criada por glamour, como a de Levana. Os boatos não eram exagero.
Kai limpou a garganta e forçou um sorriso controlado.
— Estou honrado em conhecê-la, Vossa Alteza.
Os olhos da princesa eram provocadores quando ela deu um passo para o lado da rainha e fez uma reverência com a graça de uma dançarina. Quando se levantou, Kai reparou nas cicatrizes pela primeira vez. Três cicatrizes uniformes cortavam a bochecha direita. Elas também eram lendárias, junto com a história de como, por inveja, Levana fez a princesa mutilar o próprio rosto.
A visão deu um nó em seu estômago.
A princesa Winter deu um sorriso dócil de lábios cerrados.
— A honra é minha, Vossa Majestade Imperial. — Chegando mais perto, ela deu um beijo leve na bochecha machucada de Kai. As entranhas dele viraram gelatina. Ele teve a presença de espírito de ficar agradecido por Cinder não estar testemunhando essa interação, pois alguma coisa dizia que ele nunca deixaria de ouvir sobre isso.
A princesa deu um passo para trás, e ele conseguiu respirar de novo.
— Com as apresentações terminadas, acho seguro deixarmos de lado qualquer formalidade futura. Afinal, com as núpcias vindouras, você é praticamente meu pai.
Kai oscilou e seu queixo caiu.
Uma gargalhada silenciosa brilhou no olhar da princesa quando ela voltou à posição atrás da madrasta. Ela não parecia perturbada nem nervosa.
A rainha lançou um olhar irritado para a enteada e fez um gesto para o homem do outro lado dela.
— Você se lembra, claro, do meu taumaturgo-chefe, Aimery Park.
Kai fechou a boca e inclinou a cabeça, embora o taumaturgo oferecesse só a arrogância de sempre em resposta.
— Bem-vindo a Luna — disse ele.
Ao observar o grupo, Kai reconheceu dois guardas. Ver o capitão da guarda da rainha não foi surpresa, mas seus dentes se trincaram quando ele notou o guarda louro que era como uma sombra de Sybil Mira quando ela foi hóspede em Nova Pequim.
Suas entranhas se contorceram de desconfiança. Cinder havia pensado que esse guarda era aliado, mas ela desconfiava que ele os tinha denunciado para Sybil quando estavam tentando fugir do palácio. A presença dele ali, de uniforme novamente, confirmava as desconfianças dela.
Não importava, pensou ele. Cinder teve sucesso apesar da traição dele.
Levana sorriu, como se detectasse a rebelião nos pensamentos de Kai, apesar de todas as tentativas dele de parecer complacente.
— Acredito que isso deixa apenas uma questão para cuidarmos antes de levarmos vocês aos seus aposentos. — Ela estalou os dedos, e dois taumaturgos e seis guardas fizeram posição de sentido. — Revistem a nave deles.
Apesar de todas as suas tentativas de agir com normalidade, Kai não conseguiu se livrar do pânico que ardeu em seu peito.
— Como é? — disse ele, virando a cabeça enquanto o grupo marchava por ele. — O que vocês estão fazendo?
— Meu querido amado, você não achou que eu confiaria cegamente na sua palavra depois de você ter demonstrado tanta solidariedade com meus inimigos, achou? — Ela entrelaçou os dedos. Eles podiam estar falando sobre o tempo. — Quando estávamos monitorando sua frota, reparamos que vocês acolheram a bordo alguns passageiros da República Americana, mas parece que eles são tímidos demais para se mostrar.
O estômago de Kai despencou quando um dos guardas o puxou junto com Torin para trás da rainha, e ele teve que olhar impotente enquanto os homens de Levana subiam a bordo da nave. Se seus guardas pensaram em oferecer alguma proteção, já estavam sob controle lunar.
Kai apertou os punhos.
— Isso é um absurdo. Os americanos estavam com o grupo que você acabou de mandar lá para dentro. Não há nada na nave além de bagagem e presentes de casamento.
O rosto da rainha endureceu.
— Para seu bem, imperador Kaito, eu espero que seja verdade. Porque, se você veio aqui para me trair, temo que esta acabe sendo uma visita incrivelmente desagradável.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!