3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dezenove


O DR. ERLAND ERGUEU AS MÃOS NA DIREÇÃO DE UMA CADEIRA do outro lado de sua mesa.
— Por favor, sente-se. Só preciso terminar algumas anotações, e depois vou lhe contar algumas coisas que descobri desde ontem à tarde.
Cinder se sentou, satisfeita em tirar o peso do corpo de cima de suas pernas fracas.
— O príncipe acabou de…
— Sim. Eu estava bem aqui. — O dr. Erland se sentou no seu lugar e deu um tapinha na tela sobre a mesa.
Cinder se inclinou para trás na cadeira, segurando os braços para deter a tremedeira. Sua mente estava repassando a conversa enquanto o escâner de retina informava que seu corpo estava produzindo doses maciças de endorfinas e que ela deveria tentar se acalmar.
— O que você acha que ele quis dizer com seus motivos serem baseados em autopreservação?
— Ele provavelmente não quer ser atacado por todas as jovens presentes no baile este ano. Sabe, há alguns anos quase houve um tumulto.
Ela mordeu o lábio. De todas as garotas da cidade, ela era…
A mais conveniente.
Cinder repetiu as palavras para fixá-las na mente. Ela estava aqui e parecia ser sã e era um passo seguro para ele chamá-la para o baile. Só podia ser isso.
Além do mais, ele estava de luto. Não estava em seu pleno juízo.
— O imperador Rikan está morto — disse ela, procurando por qualquer outra coisa em que pensar.
— De fato. O príncipe Kai era bem próximo do pai, sabe?
Ela baixou o olhar para a tela sobre a qual o dr. Erland tinha se curvado. Só conseguia ver o pequeno diagrama de um torso humano, cercado por caixas de texto denso. Não parecia ser dela.
— Eu estaria mentindo — continuou o dr. Erland — se dissesse que não tinha alimentado esperanças secretas de encontrar um antídoto a tempo de salvar Vossa Majestade, embora eu soubesse, desde o momento em que o diagnóstico foi feito, que era improvável. Porém, devemos prosseguir com nosso trabalho.
Ela assentiu em concordância, pensando na mãozinha de Peony segurando as dela.
— Doutor, por que não contou ao príncipe a meu respeito? Você não quer que ele saiba que encontrou alguém que é imune? Isso não é importante?
Ele apertou os lábios, mas não olhou para ela.
— Talvez eu devesse. Mas seria responsabilidade dele compartilhar a novidade com o país, e não acho que estejamos prontos para chamar atenção para isso. Quando tivermos uma prova concreta de que você é… tão valiosa quanto espero, contaremos nossas novidades ao príncipe. E ao mundo.
Ela apanhou uma caneta para tablet que estava na mesa e a examinou como um mistério científico. Rodando-a como um catavento pelos dedos, murmurou:
— Você também não contou a ele que sou ciborgue.
O doutor estabeleceu contato visual agora, os pés de galinha no canto dos olhos se enrugando.
— Ah. E é com isso que você está mais preocupada agora?
Antes que ela pudesse confirmar ou negar, o dr. Erland agitou a mão como se dispensasse sua atitude defensiva.
— Você acha que eu deveria dizer a ele que você é ciborgue? Eu contarei se quiser. Mas francamente não vejo por que isso seria do interesse dele.
Cinder largou a caneta para tablet no colo.
— Não, não é isso… eu só…
O dr. Erland riu com desdém. Estava rindo dela.
Cinder bufou, irritada, e olhou pela janela. A cidade quase cegava de tão clara que estava sob o sol da manhã.
— Não que isso importe. No fim, ele descobrirá.
— É, creio que descobrirá. Especialmente se continuar a demonstrar, hum, interesse em você. — O dr. Erland afastou a cadeira da mesa. — Aqui. O sequenciamento do seu DNA foi concluído. Vamos até o laboratório?
Ela o seguiu pelo corredor estéril. Era uma caminhada curta até os laboratórios, e eles entraram no 11D desta vez, que parecia exatamente igual ao 4D: um telão, armários embutidos, uma única mesa de exames. Sem espelho.
Cinder se sentou na mesa de exame sem que ele mandasse.
— Fui até a quarentena hoje… para visitar minha irmã.
O doutor parou, a mão no botão de ligar e desligar a tela.
— Isso foi um pouco arriscado. Você sabe que não se espera que as pessoas saiam uma vez que tenham entrado, não sabe?
— Eu sei. Mas eu tinha que vê-la. — Ela balançou as pernas, batendo os pés nas pernas da mesa. — Um dos medidroides fez um exame de sangue antes que eu saísse e estava tudo em ordem.
O doutor mexeu nos controles do telão.
— De fato.
— Só pensei que você deveria saber, no caso de isso afetar alguma coisa.
— Não afeta. — Ele enfiou a língua no canto da boca. Um segundo depois, a tela se acendeu. Suas mãos deslizaram pela tela, puxando o arquivo de Cinder. Estava mais complicado hoje, repleto de informações que nem ela mesma sabia a seu respeito.
— E eu vi uma coisa — disse ela.
O médico grunhiu, mais concentrado na tela do que nela.
— Um dos medidroides tirou um chip de identificação de uma vítima. Depois que ela morreu. Ele disse que fora programado para tirá-lo. Ele tinha dezenas deles.
O dr. Erland se virou para ela com uma expressão pouco interessada. Parecia ponderar sobre aquilo por um momento, então seu rosto lentamente relaxou.
— Bem.
— Bem o quê? Por que ele faria isso?
O médico coçou a bochecha, onde uma barba bem-cuidada começava a crescer ao longo do rosto severo.
— É uma prática comum em partes rurais do mundo, onde a letumose tem tirado vidas muito antes do que nas cidades. Os chips são extraídos dos mortos e vendidos. Ilegalmente, é claro, mas entendo que podem alcançar um bom preço.
— Por que alguém ia querer comprar o chip de identificação de outra pessoa?
— Porque é difícil viver sem um. Contas bancárias, benefícios, licenças, tudo isso requer uma identificação. — Ele juntou as sobrancelhas. — Embora isso levante um ponto interessante. Com todas as fatalidades causadas pela letumose nos últimos anos, era de se pensar que o mercado estaria saturado com chips de identificação desnecessários. É curioso que ainda haja demanda por eles.
— Eu sei, mas quando você já tem um… — Ela parou ao perceber o que dizia. Será que era tão fácil roubar a identidade de alguém?
— A não ser que você queira se tornar outra pessoa — disse ele, lendo os pensamentos dela. — Ladrões. Fugitivos da lei. — O doutor coçou a cabeça por cima do chapéu. — Os raros lunares. Eles, é claro, não têm chips de identificação, para começar.
— Não há nenhum lunar na Terra. Bem, a não ser embaixadores, eu acho.
O olhar do dr. Erland se encheu de dó, como se ela fosse uma criança ingênua.
— Ah, sim. Para a consternação infinita da rainha Levana, nem todos os lunares são tão facilmente suscetíveis a um contentamento vazio, e muitos arriscaram a vida para escapar de Luna e se estabelecerem aqui. É difícil deixar a Lua, e tenho certeza de que são muito mais numerosos os que morrem tentando do que os que conseguem, especialmente conforme mais restrições são feitas nos portais lunares, mas estou certo de que isso ainda acontece.
— Mas… é ilegal. Eles não deveriam de forma alguma estar aqui. Por que não os detivemos?
Por um momento, pareceu que o dr. Erland ia dar uma risada.
— Escapar de Luna é difícil, chegar à Terra é a parte fácil. Os lunares têm meios de ocultar suas espaçonaves e seguir caminho para dentro da atmosfera terrestre sem serem detectados.
Mágica. Cinder se inquietou.
— Você faz parecer que eles estão escapando de uma prisão.
O dr. Erland ergueu as sobrancelhas para ela.
— Verdade. Isso mesmo.
Cinder chutou com as botas a mesa do laboratório. A ideia de a rainha Levana vir a Nova Pequim revirara seu estômago — o pensamento de dezenas, talvez centenas de lunares vivendo na Terra disfarçados quase a fez precisar correr para a pia. Esses selvagens — com um chip de identificação programado e habilidade para fazer lavagem cerebral nas pessoas — podiam ser qualquer um, se tornar qualquer um.
E os terráqueos nunca saberiam que estavam sendo manipulados.
— Não fique tão assustada, srta. Linh. Em sua maioria, eles residem no interior, onde é mais provável que a presença deles não seja notada. As chances de que você alguma vez tenha cruzado o caminho de um deles é extremamente pequena. — Ele sorriu, um sorriso de aprovação, com os lábios fechados.
Cinder se endireitou na cadeira.
— Você certamente sabe muito sobre eles.
— Sou um homem velho, srta. Linh. Sei muito sobre muitas coisas.
— Tudo bem, eis uma questão. Qual é o problema dos lunares com espelhos? Sempre pensei que fosse apenas um mito eles temerem os espelhos, mas… é verdade?
As sobrancelhas do doutor se uniram.
— Tem algum fundo de verdade. Você entende como funciona e para que serve o encanto dos lunares?
— Não muito.
— Ah, entendi — disse ele, balançando-se para trás nos calcanhares. — Bem… o dom lunar nada mais é do que a habilidade de manipular energia bioelétrica, a energia que é naturalmente criada por todas as coisas vivas. Por exemplo, é a mesma energia que tubarões usam para detectar suas presas.
— Parece algo que os lunares fariam.
As linhas ao redor da boca do doutor se enrugaram.
— Os lunares têm a habilidade sem paralelo de não apenas detectar bioeletricidade nos outros, mas também de controlá-la. Eles podem manipulá-la de forma que as pessoas vejam o que os lunares quiserem e até mesmo sintam o que os lunares desejarem. Encanto é o nome que eles dão à ilusão de si mesmos que projetam na mente dos outros.
— É como fazer as pessoas pensarem que você é mais bonito do que é de fato?
— Exatamente. Ou… — Ele gesticulou para as mãos de Cinder. — Fazer uma pessoa ver pele onde na verdade há metal.
Cinder esfregou, constrangida, a mão cibernética por cima da luva.
— Esse é o motivo pelo qual a rainha Levana é tão admirável de se olhar. Alguns lunares talentosos, como a rainha, mantêm o encanto ativo o tempo todo. Mas, da mesma forma que ela não pode enganar os netscreens, também não consegue fazer isso com espelhos.
— Então eles não têm espelhos porque não querem se ver?
— Vaidade é um fato, mas é mais uma questão de controle. É mais fácil induzir os outros a acreditar que você é lindo se você puder se convencer de que você é lindo. Mas espelhos têm um jeito incomum de dizer a verdade. — O dr. Erland a encarou, como se estivesse se divertindo. — E agora uma pergunta para você, srta. Linh. Por que o súbito interesse em lunares?
Umedecendo os lábios, Cinder baixou o olhar para as mãos e percebeu que ainda estava com a caneta para tablet roubada da mesa dele.
— Algo que Kai disse.
— Sua Majestade?
Ela assentiu.
— Ele me disse que a rainha Levana está vindo para Nova Pequim.
O doutor recuou. Ele ficou boquiaberto, as sobrancelhas volumosas quase tocando a aba do chapéu, então deu um passo para trás, batendo nos arquivos.
Pela primeira vez naquele dia, a atenção dele estava inteiramente voltada para ela.
— Quando?
— A chegada dela é esperada para hoje.
Hoje?
Ela pulou. Não poderia imaginar o dr. Erland levantando a voz daquele jeito.
Ele se afastou dela, coçando o chapéu, ponderando.
— Você está bem?
Ele dispensou a pergunta com um gesto.
— Suponho que ela estivesse esperando por isso.
Ele tirou o chapéu, revelando um ponto calvo cercado por fios finos e bagunçados. Passou a mão por ele umas poucas vezes, olhando para o chão.
— Ela espera se aproveitar de Kai. Sua juventude, sua inexperiência. — Ele soltou uma respiração furiosa e vestiu novamente o boné.
Cinder espalmou os dedos nos joelhos.
— O que você quer dizer, se aproveitar dele?
Ele se virou para ela. O rosto tenso, os olhos turbulentos. O olhar que cravou em Cinder fez com que ela se encolhesse de novo.
— Você não deveria estar preocupada com o príncipe, srta. Linh.
— Não deveria?
— Ela está vindo hoje? Foi o que ele lhe disse?
Ela assentiu.
— Então você deve partir. Rápido. Você não pode estar aqui quando ela chegar.
Ele a espantou da mesa. Cinder desceu, mas não fez nenhum movimento em direção à porta.
— O que isso tem a ver comigo?
— Temos suas amostras de sangue e seu DNA. Podemos nos virar sem você por agora. Só fique bem longe do palácio até que ela tenha ido embora, entendeu?
Cinder empacou no lugar.
— Não. Não entendi.
O médico desviou o olhar dela para o netscreen, que ainda mostrava suas estatísticas. Parecia confuso. Velho. Exausto.
— Tela, exibir atualização.
As estatísticas de Cinder desapareceram, substituídas por um âncora do noticiário. A manchete acima dele anunciava a morte do imperador.
— … Alteza está se preparando para fazer um discurso dentro de alguns minutos sobre a morte de Sua Majestade Imperial e a coroação por vir. Estaremos transmitindo ao vivo…
— Mudo.
Cinder cruzou os braços.
— Doutor?
Ele virou olhos suplicantes para Cinder.
— Srta. Linh, você deve ouvir com muita atenção.
— Vou botar o volume da minha interface de áudio no máximo. — Ela se apoiou nos arquivos, desapontada quando o dr. Erland não fez muito mais do que piscar para ela com sarcasmo.
Em vez disso, deixou escapar um suspiro contrariado.
— Não sei ao certo como dizer isso. Pensei que teria mais tempo. — Ele esfregou as mãos. Andou na direção da porta. Endireitou os ombros e olhou para Cinder de novo. — Você tinha onze anos quando passou pela cirurgia, certo?
A pergunta não era o que ela esperava.
— Foi…
— E antes disso, você não se lembra de nada?
— Nada. O que isso tem a ver com…?
— Mas e seus pais adotivos? Com certeza eles lhe contaram algo sobre sua infância. Suas origens.
A palma da mão direita de Cinder começou a suar.
— Meu pai adotivo morreu logo depois do acidente, e Adri não gosta de falar sobre isso, se é que sabe de alguma coisa. A minha adoção não estava exatamente nos planos dela.
— Você sabe alguma coisa sobre seus pais biológicos?
Cinder sacudiu a cabeça.
— Só os nomes deles, datas de nascimento… o que estava nos meus arquivos.
— Os arquivos no seu chip de identificação.
— Bem… — A irritação cresceu dentro dela. — Aonde você quer chegar?
Os olhos do dr. Erland se suavizaram, tentando oferecer algum conforto, mas o olhar apenas a enervou.
— Srta. Linh, a partir de suas amostras de sangue deduzi que você é, na verdade, uma lunar.
A palavra se abateu sobre Cinder como se ele estivesse falando um idioma diferente. A máquina em seu cérebro continuou funcionando, como se trabalhasse tentando resolver uma equação impossível.
— Lunar? — A palavra evaporou de sua língua, quase não existindo.
— Sim.
Lunar?
— Isso mesmo.
Ela recuou. Olhou para as paredes, a mesa de exame, o âncora silencioso do noticiário.
— Eu não tenho poderes mágicos — disse ela, cruzando os braços como provocação.
— É, bem. Nem todos os lunares nascem com o dom. Eles são chamados de cascudos, o que tem uma conotação ligeiramente depreciativa em Luna, então… Bem, bioeletricamente deficiente não soa muito melhor, não é? — Ele deu um risinho para si mesmo, de uma maneira estranha.
A mão de metal de Cinder se retesou. Ela desejou brevemente ter algum tipo de mágica que pudesse disparar um raio na cabeça dele.
— Eu não sou lunar. — Ela tirou a luva e agitou a mão para ele. — Sou um ciborgue. Você não acha que isso já é ruim o bastante?
— Lunares podem ser ciborgues tão facilmente como humanos. É raro, claro, dada a intensa oposição deles a cibernética e interfaces cerebrais mecânicas…
Cinder fingiu um engasgo.
Não. Quem se oporia a isso?
— Mas ser lunar e ser ciborgue não são incompatíveis. E não é uma surpresa total que você tenha sido trazida para cá. Desde a admissão do infanticídio dos nascidos sem dom, durante o reinado da rainha Channary, muitos pais lunares tentam salvar seus filhos cascudos trazendo-os para a Terra. É claro, a maioria deles morre ou é executada como punição pela tentativa, mas ainda assim… acredito que esse tenha sido o seu caso. A parte do salvamento. Não a da execução.
Uma luz laranja piscou no canto do visor dela. Cinder semicerrou os olhos para o homem.
— Você está mentindo.
— Não estou mentindo, srta. Linh.
Ela abriu a boca para argumentar — mas qual parte? O que exatamente ele tinha dito para disparar o detector de mentiras?
A luz se foi assim que ele continuou a falar.
— Isso também explica sua imunidade. Na verdade, quando o seu sistema combateu os patógenos ontem, a possibilidade de você ser lunar foi a primeira que passou pela minha mente, mas não quis dizer nada até ter a confirmação.
Cinder pressionou as palmas das mãos nos olhos, bloqueando as fortes luzes fluorescentes.
— O que isso tem a ver com imunidade?
— Lunares são imunes à doença, é evidente.
— Não. Não é evidente. Isso não é de conhecimento geral. — Ela enrolou as mãos no rabo de cavalo.
— Ah. Bem, mas é senso comum quando você conhece a história. — Ele torceu as mãos. — O que, creio eu, não acontece com a maioria das pessoas.
Cinder escondeu o rosto, arfando. Talvez ela pudesse presumir que o homem era louco e não ter que acreditar em nada do que ele dizia, afinal.
— Sabe — disse o dr. Erland —, lunares são os hospedeiros originais da letumose. A migração deles para áreas rurais da Terra, principalmente durante o reinado da rainha Channary, colocou a doença em contato com os humanos pela primeira vez. Historicamente, é uma situação comum. Os ratos levaram a peste bubônica à Europa, os conquistadores levaram varíola aos americanos nativos. Soa muito Segunda Era os terráqueos considerarem sua imunidade algo garantido agora, mas com a migração de lunares, bem… os sistemas imunológicos terráqueos apenas não estavam preparados. Uma vez que mesmo um punhado de lunares chegou, trazendo consigo a doença, ela começou a se espalhar como um incêndio fora de controle.
— Pensei que eu não fosse contagiosa.
— Você não é agora, porque seu corpo desenvolveu formas de se livrar da doença, mas deve ter sido em algum momento. Além disso, suspeito que lunares tenham níveis diferentes de imunidade. Enquanto alguns podem livrar o corpo inteiramente da doença, outros carregam-na sem apresentar os sintomas, espalhando-a por todos os lados por onde passam e inconscientes do problema que causam.
Cinder agitou as mãos diante dele.
— Não. Você está enganado. Tem que haver outra explicação. Eu não posso ser…
— Entendo que é demais para compreender nesse momento. Mas preciso que você entenda por que não poderá estar presente quando a rainha chegar. É perigoso demais.
— Não, você não entende. Eu não sou um deles!
Ser ciborgue e lunar. Uma dessas coisas já era o bastante para fazer dela uma mutante, uma rejeitada, mas ser ambas? Ela encolheu os ombros. Lunares eram pessoas cruéis e selvagens. Eles matavam suas crianças que nasciam sem o dom. Mentiam, trapaceavam e faziam lavagem cerebral uns nos outros porque podiam. Não se importavam com o mal que fariam, desde que fossem beneficiados. Ela não era um deles.
— Srta. Linh, você deve me ouvir. Você foi trazida até aqui por um motivo.
— Qual, ajudar você a encontrar a cura? Acha que isso é algum tipo de presente tortuoso do destino?
— Não estou falando de sorte ou destino. Estou falando de sobrevivência. Você não pode deixar que a rainha a veja.
Cinder se encolheu contra o gabinete, ainda mais perplexa.
— Por quê? Por que ela se importaria comigo?
— Ela se importaria bastante com você. — Ele hesitou, seus olhos azuis selvagens de pânico. — Ela… ela odeia cascudos lunares, sabe. Cascudos são imunes ao encanto lunar. — Ele girou as mãos pelo ar, procurando. — É a lavagem cerebral deles, propriamente dita. A rainha Levana não consegue controlar cascudos, motivo pelo qual continua mandando exterminá-los. — Seus lábios se endureceram. — Nada impedirá a rainha Levana de assegurar seu controle, de exterminar qualquer resistência. Isso significa matar aqueles que podem resistir a ela, gente como você. Está me entendendo, srta. Linh? Se ela visse você, isso significaria sua morte.
Engolindo em seco, Cinder pressionou o pulso esquerdo com o polegar. Não conseguia sentir seu chip de identificação, mas sabia que ele estava no lugar. Extraído de algum falecido.
Se o dr. Erland estivesse certo, então tudo que ela sabia sobre si mesma, sua infância, seus pais, estava errado. Uma história inventada. Uma garota inventada.
A ideia de lunares fugitivos não soava mais tão estranha.
Ela se virou na direção do netscreen. Kai estava lá agora, na sala de imprensa, falando em um pódio.
— Srta. Linh, alguém passou por um baita problema para trazê-la para cá, e agora você está em perigo extremo. Você não pode correr esse risco.
Ela mal ouviu, observando enquanto o texto começou a rolar ao longo da parte inferior da tela.

ANUNCIADO: A RAINHA LUNAR LEVANA VIRÁ À COMUNIDADE ORIENTAL PARA DISCUTIR UMA ALIANÇA DE PAZ.
ANUNCIADO: A RAINHA LUNAR LEVANA…

— Srta. Linh, você me ouviu?
— Ouvi — disse ela. — Perigo extremo. Eu ouvi.

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