7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dez

THORNE DEU UM PULO AO OUVIR UM ESTALO METÁLICO.
Uma voz masculina disse em seguida.
— Ouviu isso?
Thorne se agachou entre o trem de pouso da nave e se encolheu perto de uma viga de metal.
— O capitão é rei — sussurrou. — O capitão é reio capitão é re...
Um zumbido sutil pulsou acima de sua cabeça. Luzes pálidas piscaram perto do nariz da nave.
— O capitão é...?
Engrenagens começaram a estalar antes que ele pudesse terminar. A escotilha se abriu e a rampa desceu até o chão. Com o coração pulando, Thorne saiu de seu esconderijo bem a tempo de não ser esmagado.
— Ali!
Um facho de lanterna iluminou Thorne, que já subia pela rampa.
— Rampion, fechar escotilha!
A nave não respondeu.
Uma arma foi disparada. A bala passou raspando pela luz superior da nave. Thorne se agachou atrás de uma das caixas de plástico que lotavam o compartimento de carga.
— Rampion, fechar escotilha!
— Estou tentando!
Ele ficou paralisado e olhou para os canos e tubos que dominavam o teto da nave.
— Rampion?
O silêncio a seguir foi pontuado por estalos da rampa no concreto lá fora e pelo som de botas marchando, até que a rampa gemeu de novo e começou a subir. Uma chuva de balas se alojou nas caixas de plástico, ricocheteando nas paredes de metal. Thorne cobriu a cabeça e esperou até que a rampa estivesse fechada o bastante para bloquear as balas, então empurrou a caixa e correu para o cockpit.
A nave vibrou quando a rampa se fechou. Uma chuva de balas ricocheteou no casco.
Thorne correu na direção das luzes de emergência que contornavam o cockpit, empurrando caixas fechadas no caminho. Seu joelho bateu em alguma coisa dura e ele soltou uma série de palavrões enquanto se acomodava no assento do piloto. O para-brisa estava sujo, e tudo que ele conseguia ver no armazém escuro eram as luzes fracas do escritório de Alak e as lanternas ao redor da Rampion, procurando outra entrada.
— Rampion, aprontar para decolagem!
O painel se iluminou com controles e telas; só as mais importantes.
A mesma voz estéril feminina soou nos alto-falantes da nave.
— Thorne, não consigo preparar a elevação automática. Você vai ter que fazer a decolagem manualmente.
Ele olhou para os controles, boquiaberto.
— Por que minha nave está conversando comigo?
— Sou eu, seu idiota.
Ele inclinou a orelha na direção do alto-falante.
— Cinder?
— Escute, o sistema de navegação automática está com problema. A bateria também está ruim. Acho que conseguimos sair, mas você vai ter que decolar sem assistência do computador.
As palavras, secas demais no tom do computador, foram pontuadas por outra saraivada de balas atingindo a escotilha fechada da nave.
Thorne engoliu em seco.
— Sem assistência do computador? Tem certeza?
Um silêncio curto foi seguido pela voz de novo, e Thorne detectou o tom irritado de Cinder, mesmo naquele tom computadorizado.
— Você sabe pilotar, não é?
— Hã. — Thorne observou os controles à frente. — Sei?
Ele endireitou a coluna e levou a mão ao controle preso ao teto. Um momento depois, um raio de sol cruzou o armazém quando o teto se abriu no meio.
Algo bateu na lateral da nave.
— Tá, tá, estou ouvindo. — Thorne acionou a ignição.
As luzes no painel ficaram mais fracas e a nave ganhou vida.
— Aqui vamos nós.
Outro estrondo ecoou na parte externa da escotilha. Mexendo em alguns interruptores, Thorne preparou o modo de flutuação e tirou a nave do chão. Ela subiu lentamente, os ímãs embaixo da cidade empurrando a nave como uma pluma, e Thorne soltou um suspiro profundo.
E, então, a nave tremeu e começou a se inclinar.
— Ei, ei, ei, não faça isso! — O coração de Thorne disparou enquanto tentava acertar a nave.
— A bateria vai acabar. Você precisa acionar os propulsores auxiliares.
— Acionar os o quê? Ah, já encontrei.
O motor vibrou de novo. Com a onda repentina de força, a nave deu um salto para o lado oposto e Thorne ouviu um baque ao baterem na nave ao lado. A Rampion tremeu e começou a descer. Outra saraivada de balas bateu na lateral de estibordo. Uma gota de suor escorreu pelas costas de Thorne.
— O que você está fazendo aí em cima?
— Pare de me distrair! — gritou ele, segurando os controles e tentando controlar a nave. Um pouco demais. A nave se inclinou dessa vez para a direita.
— Vamos morrer.
— Não é tão fácil quanto parece! — Thorne nivelou a nave de novo. — Costumo ter um estabilizador automático pra cuidar disso!
Para sua surpresa, não ouviu nenhum comentário sarcástico em resposta.
Um momento depois, outro painel se iluminou. CONDUTORES MAGNÉTICOS SE ESTABILIZANDO. SAÍDA DE FORÇA: 37/63... 38/62... 42/58...
A nave se estabilizou calmamente, mais uma vez tremendo no ar.
— Ótimo! É isso aí!
Os dedos de Thorne estavam brancos, segurando os controles, quando arqueou o nariz da nave em direção ao telhado aberto. O zumbido do motor virou um rugido quando a nave decolou. Ele ouviu o último ricochetear de balas, e o som se distanciou quando a nave saiu do depósito e foi banhada pela luz amarelada do sol.
— Vamos, querida — murmurou ele, apertando bem os olhos quando, sem resistência, sem vacilar, a nave deixou o campo magnético protetor da cidade para trás, usou o poder total dos propulsores e varou pelas nuvens delicadas que pairavam no céu da manhã. Os arranha-céus do centro de Nova Pequim ficaram para trás, e logo só havia ele e o céu e a paisagem infinita do espaço.
Os dedos de Thorne permaneceram presos como algemas de ferro ao redor dos controles até a nave sair da atmosfera da Terra. Meio tonto, ele ajustou a saída dos propulsores e a nave entrou em órbita natural. Só então ele afastou as mãos dos controles.
Ele se recostou na cadeira, tremendo. Precisou de um longo tempo para voltar a falar, esperando seus batimentos cardíacos voltarem a um ritmo controlável.
— Bom trabalho, garota ciborgue — disse. — Se você quiser uma posição permanente na minha tripulação, está contratada.
Os alto-falantes ficaram em silêncio.
— E não estou falando de posição subalterna, não. A de imediato está disponível. Bem, na verdade, todas as posições estão disponíveis. Mecânico... cozinheiro... um piloto seria legal, pra eu não ter que passar por isso de novo. — Ele esperou. — Cinder? Você está aí?
Quando não houve resposta, ele se levantou e saiu do cockpit cambaleando, passou pela área de carga e entrou no corredor que levava aos aposentos da tripulação. Suas pernas estavam fracas quando ele esticou a mão para abrir a escotilha que levava ao nível inferior da nave. Ele desceu a escada até o corredorzinho entre a sala de máquinas e a plataforma de lançamento. A tela ao lado da sala de máquinas não dava aviso nenhum de vácuo espacial nem de compressão insegura. Também não falava sobre uma garota viva lá dentro.
Thorne bateu na tela no ícone de destrancar e girou a tranca manual, depois empurrou a porta.
O motor estava alto e quente, cheirando a borracha queimada.
— Olá? — gritou ele no escuro. — Garota ciborgue? Você está aí?
Se ela respondeu, as palavras se perderam no barulho do motor. Thorne engoliu em seco.
— Acender luzes.
Uma luz vermelha de emergência se acendeu acima da porta, lançando sombras melancólicas sobre o enorme motor em movimento e os vários fios e molas que saíam por baixo dele.
Thorne apertou os olhos e viu algo quase branco.
Ele ficou de quatro e engatinhou até ela.
— Garota ciborgue?
Ela não se moveu.
Quando Thorne chegou mais perto, viu que ela estava deitada, com o cabelo escuro espalhado sobre o rosto. A mão robótica estava enfiada no compartimento de um painel de computador exposto.
— Ei, você — disse ele, pairando sobre ela.
Ao abrir as pálpebras da garota, viu que seu olhar estava escuro e vazio. Thorne se agachou e encostou uma orelha no peito dela, mas, se havia batimentos, estavam abafados pelo rugido do motor.
— Vamos lá — resmungou ele, pegando a mão dela e tirando-a do compartimento. O painel mais próximo ficou escuro.
— Sistema de controle automático desconectado — disse uma voz robótica acima, dando um susto em Thorne. — Iniciando procedimentos de sistema padrão.
— Bom plano — murmurou ele, segurando os tornozelos dela. Thorne arrastou-a lentamente até o corredor e a apoiou na parede. Fosse lá qual fosse o material de que as partes ciborgue eram feitas, era bem mais pesado do que carne e osso.
Encostou de novo a orelha no peito dela. Desta vez, ouviu um leve batimento.
— Acorde — disse, sacudindo-a. A cabeça de Cinder tombou para a frente.
Thorne se agachou e apertou os lábios. A garota estava horrivelmente pálida e imunda da caminhada pelos esgotos, mas na claridade do corredor ele conseguia ver que estava respirando, mesmo que fracamente.
— E aí, você tem um botão de ligar ou algo do tipo?
Ele voltou a atenção para a mão de metal com o fio e o plugue ainda pendurados na junta do dedo. Segurou a mão e observou-a de vários ângulos. Ele se lembrava de uma lanterna, uma chave de fenda e uma faca em três dos dedos, mas não sabia o que o indicador escondia. Se era um botão de força, ele não conseguia ver como usá-lo.
Mas o cabo de ligação...
— Certo! — Thorne deu um salto e quase bateu na parede. Apertou a tela que abria a porta para a plataforma de lançamento. Luzes brancas se acenderam quando ele entrou.
Ele segurou os pulsos de Cinder e a puxou para a plataforma, largando-a entre as duas pequenas naves-satélite, que pareciam cogumelos com uma confusão de cabos e ferramentas no meio.
Ofegante, tirou o fio carregador da nave da parede e ficou paralisado, olhando para o cabo da garota, para o cabo da nave, para a garota... Falou outro palavrão e soltou os dois. Ambos machos. Até ele conseguia ver que não seria possível ligá-los.
Thorne bateu os nós dos dedos na têmpora e se forçou a pensar, pensar, pensar.
Outra ideia surgiu, e ele apertou os olhos para ver a garota. Ela parecia estar ficando ainda mais pálida, mas talvez fosse efeito da luz.
— Ah... — disse, outra ideia surgindo em sua mente. — Ah, rapaz. Será que... Ah, isso é nojento.
Deixando de lado a frescura, ele delicadamente puxou a garota até que ela caísse por cima de um dos braços dele. Com a mão livre, procurou em meio ao cabelo embaraçado até descobrir o pequeno fecho logo acima da nuca.
Afastou o olhar ao abrir, antes de ousar espiar com o canto do olho.
Uma confusão de fios e chips de computador e botões que não faziam o menor sentido para Thorne preenchia um compartimento raso na parte de trás do crânio dela. Ele expirou, feliz que o painel de controle escondia completamente qualquer tecido cerebral. Na base, viu o que parecia ser uma pequena tomada, do mesmo tamanho dos plugues.
— Ai — murmurou Thorne, procurando o cabo das naves-satélite de novo e torcendo para não estar prestes a cometer um grande erro.
Enfiou o plugue do fio de recarga no painel de controle dela. O encaixe foi perfeito.
Ele engoliu em seco.
Nada aconteceu.
Recostando-se, Thorne segurou Cinder com o braço esticado. Tirou o cabelo do rosto dela e esperou.
Doze batimentos depois, alguma coisa zumbiu dentro do crânio dela. Foi ficando mais alto e depois caiu em silêncio completo.
Thorne prendeu a respiração.
O ombro esquerdo da garota tremeu e se soltou da mão de Thorne. Ele a deixou cair no chão, com a cabeça pendendo para o lado. A perna dela se debateu e quase acertou a virilha de Thorne; que se afastou rapidamente, encostando no trem de pouso da nave-satélite.
A garota inspirou rapidamente, segurou o ar por alguns segundos e soltou um gemido.
— Cinder? Você está viva?
Uma série de espasmos mais fracos percorreu os membros robóticos, e ela franziu o rosto todo como se estivesse chupando um limão. Com as pálpebras tremendo, ela conseguiu olhar com algum esforço para ele.
— Cinder?
Ela se sentou devagar. O maxilar e a língua trabalharam silenciosamente por um momento, e quando ela falou, as palavras saíram muito arrastadas.
— O sistema padrão de controle automático... quase acabou com meu sistema de força.
— Acho que acabou com ele todo.
Ela franziu a testa e pareceu momentaneamente insegura antes de esticar a mão até o fio ainda ligado no cérebro. Ao arrancá-lo, ela fechou o painel.
— Você abriu meu painel de controle? — perguntou ela, as palavras um pouco mais claras com a raiva.
Ele franziu as sobrancelhas.
— Eu não queria.
A expressão dela estava azeda quando olhou para ele; nem completamente zangada, tampouco agradecida. Eles se olharam por um longo momento, enquanto o motor zumbia do outro lado do corredor e uma luz no canto começou a se apagar, piscando em intervalos aleatórios.
— Bem — resmungou Cinder por fim. — Acho que foi um raciocínio bem rápido.
Um sorriso aliviado se abriu no rosto de Thorne.
— Estamos tendo outro momento, não é?
— Se por momento você quer dizer que eu não tenho vontade de estrangular você pela primeira vez desde que nos conhecemos, então acho que sim. — Cinder se deitou de novo. — Mas, talvez esteja exausta demais pra estrangular qualquer um agora.
— Por mim, tudo bem — disse Thorne, se deitando no chão ao lado dela, apreciando o piso duro e frio da plataforma, as luzes horrivelmente intensas no teto, o fedor de esgoto nas roupas deles, e a perfeita sensação de liberdade.

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