20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dez

Eles assistiram ao noticiário em silêncio, com as câmeras tremendo enquanto aerodeslizadores pilotados por androides circulavam o palácio. Muitos dos jardins estavam soltando fumaça por causa de incêndios gerados pelos soldados da rainha, estátuas foram derrubadas e o portão enorme foi despedaçado, mas o palácio em si permanecia intocado. Até o momento, o único regimento dos militares da Comunidade das Nações Orientais posicionado no palácio manteve o inimigo fora enquanto esperava a chegada de reforços.
O cerco ao Palácio de Nova Pequim ia contra as estratégias que os soldados lobos vinham usando por toda a guerra. Eles se tornaram famosos pelos ataques de guerrilha e pela falta de tática, preocupados tanto em deixar o povo da Terra morrendo de medo deles quanto em vencer batalhas de verdade. Até o momento, não houve nenhuma batalha de verdade, só lutas e ataques surpresa, resultando em derramamento de sangue e pesadelos demais.
Os soldados lobos se deslocavam em bando, furtivos e rápidos. Causavam caos e destruição aonde quer que fossem, depois desapareciam antes que os militares terráqueos os alcançassem. Especulava-se que eles estavam se deslocando pelos esgotos ou desaparecendo na natureza, deixando uma trilha de sangue e membros arrancados no caminho. Gostavam de deixar ao menos uma vítima viva para relatar a brutalidade deles.
Repetidas vezes, a mensagem ia ficando clara. Ninguém está seguro.
A Terra matou sua cota de soldados lunares, assim como alguns dos taumaturgos que lideravam os bandos. Eles não eram invencíveis, como os líderes da Terra reiteravam sem parar. Mas, depois de cento e vinte e seis anos de paz, a União Terráquea não estava preparada para a guerra, principalmente de forma tão imprevisível. Durante gerações, a força militar se tornou mais um serviço social decorativo do que qualquer outra coisa, oferecendo trabalho manual em comunidades pobres e fornecendo suprimentos quando desastres naturais aconteciam. Agora, todos os países estavam se esforçando para convocar mais soldados para suas forças, para treiná-los, para fabricar armas.
Enquanto isso, os soldados lunares dizimavam bairros inteiros, deixando para trás só o eco dos uivos sedentos de sangue.
Até então.
Pelo que as pessoas sabiam, aquele ataque ao Palácio de Nova Pequim era a primeira vez que bandos múltiplos se juntaram em um ataque orquestrado, e em plena luz do dia. Cinder se perguntou se estavam ficando arrogantes ou se estavam tentando provar alguma coisa. Ela tentou se consolar com o fato de que havia mais corpos mutantes de lobos caídos no terreno do palácio do que ela já tinha visto em um lugar só. Não era possível que essa batalha não afetasse os números deles, ao menos em Nova Pequim. Mas era pouco consolo se o sangue deles estava misturado ao dos soldados terráqueos e se uma das torres do palácio estava em chamas.
— O palácio foi evacuado — disse uma jornalista, falando mais alto que a catástrofe no vídeo. — E todos os oficiais e servos humanos foram levados para um lugar seguro. O secretário de Defesa comentou em um discurso vinte minutos atrás que eles não estão especulando quanto tempo esse cerco pode durar e nem quanta destruição pode ser feita. Até o momento, os especialistas militares estimam que cerca de trezentos soldados da Comunidade foram perdidos nesse ataque, e perto de cinquenta lunares.
— Eu me sinto tão inútil — disse Iko, com o tom grave de tristeza que só um androide entenderia. Iko não era um androide comum, mas ainda tinha um traço distinto com o qual todos os androides foram programados: a necessidade de ser útil.
Do outro lado de Cinder estava Kai, abalado. Sem dúvida, ele estava vivenciando seu próprio senso de inutilidade. Sem dúvida, aquilo estava acabando com ele.
— Os militares vão segurá-los — disse Cinder.
Ele assentiu, mas a testa estava franzida.
Suspirando, ela deixou que o olhar flutuasse de Kai para Lobo, Thorne, Cress e depois Iko. Todos encarando a tela, determinados e com raiva e horrorizados. Ela voltou sua atenção para Kai. Ele estava escondendo bem as emoções, mas ela sabia que ver sua casa queimar era de matar. Como nunca teve uma casa com a qual se importasse, ao menos até subir a bordo da Rampion, Cinder não imaginava a dor que ele estava sentindo.
Ela trincou os dentes e pensou em todos os cálculos deles, em todos os planos. Kai estava certo. Ela nunca se sentiria pronta, mas eles não podiam ficar sentados sem fazer nada para sempre.
Thorne tinha recuperado a visão.
Lobo contou sobre os pais, operários que trabalharam em fábricas e minas de regolito a vida toda. Se estivessem vivos, ele achava que talvez estivessem dispostos a oferecer abrigo em Luna. Poderiam ser aliados.
A rainha estava dando o passo mais ousado desde que a guerra começou, o que queria dizer que estava ficando confiante demais ou estava ficando desesperada. Fosse como fosse, Cinder não queria que Luna vencesse a batalha. Não queria que tivessem controle do Palácio de Nova Pequim, mesmo que fosse apenas simbólico. Era a casa da família real da Comunidade das Nações Orientais. Pertencia a Kai, não a Levana. Nunca a Levana.
— Nós soubemos — disse a jornalista — que o grupo político radical que se intitula Associação da Segurança na Comunidade emitiu outra declaração pedindo a abdicação forçada do imperador Kaito, mais uma vez insistindo que ele não pode ser o governante de que precisamos nesses momentos difíceis e que, enquanto ele estiver nas mãos de terroristas, é impossível que tenha o bem-estar do país como preocupação principal. Embora a ideologia da ASC tenha sido amplamente ignorada na política, uma pesquisa recente divulgada pela rede indicou que as opiniões deles estão ganhando popularidade entre o público geral.
— Terroristas? — disse Iko, olhando para o grupo. — Ela está falando de nós?
Cinder passou a mão no rosto com frustração. Kai seria um ótimo líder, era um ótimo líder, mas ainda não tinha tido chance de provar isso. O estômago dela dava um nó de pensar que o reinado dele podia ser curto, tudo por causa dela.
Ela queria abraçar Kai e dizer que eles eram idiotas. Não tinham ideia do quanto ele ligava para o bem-estar do país.
Mas não era isso que ele precisava ouvir.
O display na retina dela foi mudando entre as transmissões mais assistidas. Contagens de corpos; total de mortos; filmagens das quarentenas da peste; adolescentes em fila em frente a centros de recrutamento, muitos deles parecendo quase eufóricos de se juntarem à luta para defender o planeta da invasão. Levana com o fino véu branco. Ela desligou as transmissões.
Kai a estava observando.
— Está na hora, Cinder.
Hora de dizer adeus. Hora de seguir em frente. Hora de deixar para trás a pequena utopia na qual eles se esconderam.
— Eu sei — disse ela, com voz triste e pesada. — Thorne, vamos nos preparar para levar Kai para casa.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!