13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dez

— ELE ATRACOU — DISSE SCARLET, OBSERVANDO A NAVE DE THORNE pela janela do cockpit. — Não foi tão constrangedor.
Cinder se apoiou na moldura da porta.
— Espero que ele seja rápido. Não temos como saber se a garota está sendo monitorada.
— Você não confia nela? — perguntou Lobo.
— Não confio na pessoa para quem ela trabalha.
— Esperem. Aquilo é outra nave? — Scarlet deu um pulo para a frente e acionou uma busca de radar na tela ao lado. — Nossos aparelhos não estão vendo.
Lobo e Cinder se juntaram atrás dela e olharam para a nave, só um pouco maior do que a de Thorne, que se aproximava do satélite. O coração de Cinder disparou.
— Luna.
— Só pode ser — disse Scarlet. — Se estão bloqueando os sinais...
— Não, olhe. A insígnia.
Lobo falou um palavrão.
— É uma nave real. Provavelmente um taumaturgo.
— Ela nos traiu — murmurou Cinder, balançando a cabeça sem acreditar. — Não acredito.
— Fugimos? — perguntou Scarlet.
— E abandonar Thorne?
Na janela, a nave lunar atracou na segunda haste do satélite. Cinder passou os dedos pelo cabelo, os pensamentos disparados na mente.
— Mande uma mensagem. Estabeleça uma ligação pelo D-COMM. Precisamos saber o que está acontecendo...
— Não — retrucou Lobo. — É possível que não saibam que estamos aqui. Talvez ela não nos tenha traído. Se não captaram nossa nave no radar, ainda há uma chance de não nos terem visto.
— Eles saberiam que a nave de Thorne veio de algum lugar!
— Talvez ele consiga sair — opinou Iko, mas sem o entusiasmo de sempre na voz.
— Contra um taumaturgo? Você viu o quanto isso deu certo em Paris.
— O que fazemos então? — perguntou Scarlet. — Não podemos mandar mensagem, não podemos atracar...
— Devíamos fugir — sugeriu Lobo. — Virão atrás de nós depois.
Os dois olharam para Cinder, e, com um susto, ela percebeu que eles esperavam que assumisse o comando. Mas não era uma decisão simples. Thorne estava lá. Ele caiu direitinho na armadilha, e fora ideia de Cinder. Ela não podia abandoná-lo.
Suas mãos começaram a tremer apertando a cadeira. Cada segundo de indecisão era tempo desperdiçado.
— Cinder. — Scarlet colocou a mão no braço dela. Isso só a fez apertar a cadeira com mais força. — Temos que...
— Fugir. Temos que fugir.
Scarlet assentiu. Ela se virou para os controles.
— Iko, prepare propulsores para...
— Esperem — disse Lobo. — Olhem.
Pela janela do cockpit eles viram uma nave se desconectando do satélite. A nave de Thorne.
— O que está acontecendo? — perguntou Iko.
Cinder sussurrou.
— A nave de Thorne está voltando. Mande uma mensagem.
Scarlet ativou a tela de mensagens.
— Thorne, reporte-se. O que aconteceu lá?
A tela só respondeu com estática.
Cinder mordeu o lábio. Depois de um momento, a estática foi substituída por uma simples mensagem de texto:
CÂMERA DESABILITADA. ESTAMOS DANIFICADOS. ABRIR PORTA.
Cinder releu a mensagem até as palavras se misturarem em sua visão.
— É uma armadilha — disse Lobo.
— Pode não ser — respondeu ela.
— Mas é.
— Não temos certeza! Ele é habilidoso.
— Cinder...
— Ele poderia ter sobrevivido.
— Ou é uma armadilha — murmurou Scarlet.
— Cinder — interrompeu Iko com voz aguda. — O que devo fazer?
Ela engoliu em seco e se levantou da cadeira.
— Abra a porta. Vocês dois, fiquem aqui.
— De jeito nenhum.
Lobo a acompanhou. Ela notou que ele estava em postura de luta, com os ombros quase na altura das orelhas, as mãos fechadas, o passo rápido e determinado.
— Lobo. — Cinder pressionou o punho de titânio contra o esterno dele. — Fique aqui. Se houver um taumaturgo naquela nave, Iko e eu somos as únicas que não podem ser controladas.
Scarlet se agarrou ao cotovelo dele.
— Ela está certa. Sua presença poderia causar mais dano do que fazer algo de bom.
Cinder não esperou que Scarlet o convencesse. Já estava na metade da escada que descia para o nível inferior da nave. No corredor, entre a doca de pouso da nave de passeio e a sala de máquinas, ela parou para escutar. Ouviu o fechamento sólido da porta e o sistema bombeando oxigênio para o espaço.
— A doca está fechada — disse Iko. — O sistema vital está estável. Entrada segura.
O display da retina de Cinder estava em pânico, como costumava acontecer quando ela estava nervosa ou com medo. Diagnósticos em vermelho surgiram no canto da visão em uma série de avisos: PRESSÃO SANGUÍNEA ALTA DEMAIS; BATIMENTOS CARDÍACOS RÁPIDOS DEMAIS; SISTEMAS MUITO AQUECIDOS, INICIANDO REAÇÃO DE AUTORRESFRIAMENTO.
— Iko, o que você vê lá dentro?
— Vejo que precisamos instalar umas câmeras de verdade nesta nave — respondeu ela. — Meus sensores confirmam que a nave atracou. Detecto duas formas de vida dentro, mas não parece que alguém já tenha saído da nave. Talvez eles estivessem feridos demais para sair da nave.
Ou talvez fosse um taumaturgo que não queria sair da nave, onde ainda havia uma chance de poderem reabrir a porta da doca e fazer com que tudo lá dentro fosse sugado para o espaço.
Cinder abriu a ponta do indicador esquerdo e carregou um dardo. Embora tivesse usado todos os tranquilizantes na luta de Paris, ela havia manufaturado algumas armas, projéteis feitos de pregos soldados.
— Acabamos de receber outra mensagem de texto da nave — disse Iko. — Ela diz “Nos ajudem”.
Tudo dentro da cabeça de Cinder gritava armadilha. Armadilha. Armadilha.
Mas se fosse Thorne... se Thorne estivesse dentro daquela nave, ferido ou morrendo...
Ela limpou a mente, esticou a mão e digitou o código de acesso à área de pouso, depois desceu a alavanca manual. O mecanismo de destravamento estalou, e Cinder ergueu a mão esquerda como se fosse uma arma.
A nave de Thorne estava entre a segunda nave e uma parede de fios e maquinários presos ao painel grosso; eram ferramentas para prender e soltar cargas, equipamento de abastecimento, macacos, compressores a ar, bobinas pneumáticas.
Ela se aproximou aos poucos.
— Thorne? — disse, inclinando a cabeça.
Ela viu um amontoado de tecido no assento do piloto, um corpo inclinado.
Tremendo, abriu a porta antes de dar alguns passos para trás e apontar a arma para o corpo. A camisa estava encharcada de sangue.
— Thorne!
Ela baixou e esticou a mão, puxando-o para si.
— O que acont...?
Uma luz laranja se acendeu no canto de sua visão, o dispositivo óptico biônico lembrando-a de que seus olhos eram uma fraqueza.
Ofegante, ela levantou a mão de novo, na mesma hora em que ele pulou. Uma das mãos envolveu o pulso dela, a outra, o pescoço, com movimentos tão rápidos que fizeram Cinder cair no chão. Por um momento, Thorne estava em cima dela, os olhos azuis surpreendentemente calmos enquanto a prendia no chão.
E então ele se transformou. O olhar ficou frio e cristalino, o cabelo tornou-se mais comprido e mais claro e as roupas se transformaram no uniforme vermelho e cinza da guarda real lunar.
Os instintos dela pareceram reconhecê-lo antes mesmo dos olhos, tremendo com ódio violento. Ele não era um guarda lunar qualquer. Era o guarda que a segurara durante o baile, enquanto Levana a ridicularizava e ameaçava Kai, ameaçava todo mundo.
Mas ele não era...?
Uma risada trêmula se espalhou no ar. Cinder apertou os olhos contra a luz intensa quando uma mulher saiu da nave.
Certo. O guarda pessoal da taumaturga-chefe Sybil Mira.
— Eu esperava mais da criminosa mais procurada da galáxia — comentou ela, vendo Cinder pressionar o queixo do guarda com a mão livre, lutando para empurrá-lo. A taumaturga sorriu, parecendo um gato faminto com um brinquedo novo. Estrelas começaram a manchar a visão de Cinder. — Devo matar você aqui ou entregá-la acorrentada para minha rai...
Ela parou e seus olhos cinzentos se desviaram para a porta. Um rugido gutural foi seguido de Lobo se jogando contra a taumaturga e prendendo-a contra a nave.
O guarda afrouxou as mãos, seu rosto indeciso olhando para a mestra. Cinder bateu com o punho no maxilar dele. Sentiu a batida e ele recuou, voltando sua atenção para ela.
Cinder dobrou os joelhos para ganhar apoio e o empurrou para longe. Ficou de pé na mesma hora em que Lobo segurou a taumaturga e a empurrou para trás. Ele encolheu os lábios, deixando as presas implantadas à mostra.
O guarda levou a mão ao coldre, o que chamou a atenção de Cinder. Ele puxou a arma. Cinder ergueu a mão.
Dois disparos soaram em uníssono.
Lobo uivou de dor quando a bala do guarda afundou na sua clavícula.
O guarda grunhiu quando o projétil de Cinder acertou o lado de seu corpo.
Cinder virou-se, procurando mirar no coração da taumaturga, mas Lobo estava entre elas, uma mancha escura de sangue se espalhando na camisa.
O rosto de Sybil estava desfigurado de fúria quando ela colocou a mão no peito de Lobo e rosnou:
— Muito bem. Vamos fazer você lembrar quem realmente é.
Lobo fechou o maxilar. Um rosnado baixo subiu pela garganta dele. Virou-se para Cinder, sua expressão se enchendo de sede de sangue.
— Ah, pelas estrelas — murmurou ela, recuando até encostar na segunda nave.
Ela manteve a mão firme, mas não tinha esperança de acertar Sybil com Lobo no caminho, principalmente porque ele estava sob o controle da taumaturga. Engolindo em seco, ela o procurou com a mente, querendo encontrar as ondas familiares da energia de Lobo, sua assinatura pessoal de bioeletricidade, mas só encontrou uma coisa brutal e selvagem envolvendo-o.
Lobo pulou para cima dela.
Cinder mudou o alvo e procurou o guarda mentalmente. Pareceu natural o meio segundo que precisou para tomar a força de vontade dele e obrigá-lo a agir. Em um piscar de olhos, o guarda entrou entre os dois. Ergueu a arma, mas foi lento demais e Lobo o empurrou para longe, deslizando entre o trem de pouso da nave. A arma bateu na fileira de armários.
Cinder contornou o nariz da nave. Eles fizeram contato visual por cima da nave e Lobo hesitou, os dentes à mostra. Os avisos internos de Cinder surgiam tão rápido que se misturavam, indicando disparos nos batimentos e um aumento prejudicial de adrenalina. Cinder os ignorou e se concentrou em manter a nave entre ela e Lobo enquanto ele andava de um lado para outro.
Mas, de repente, o corpo dele todo se contraiu. Lobo se virou e correu na direção de Sybil quando outro tiro ecoou pela doca. Lobo se jogou na frente da taumaturga e foi baleado no peito.
Scarlet gritou da porta, segurando uma arma nas mãos trêmulas.
Ofegante, Cinder procurou uma arma, um plano. A taumaturga estava encurralada em um canto com Lobo funcionando de escudo. O guarda lunar estava encolhido debaixo da nave mais próxima, e ela torcia para que ele estivesse inconsciente. Scarlet baixou a arma. A taumaturga não teria dificuldade em controlá-la.
Só que a taumaturga estava com uma expressão de dúvida e de dor no rosto. Uma veia latejava em sua testa enquanto ela se escondia atrás de Lobo.
Cinder percebeu com certo choque que era quase tão difícil para Sybil controlar Lobo quanto para ela, que não era capaz de dominar mais ninguém enquanto estivesse com ele, e, assim que o libertasse, Lobo se viraria contra ela e a batalha estaria acabada.
A não ser que...
A não ser que ela matasse Lobo e o excluísse da equação.
Com o sangue pingando dos dois ferimentos a bala que ele levou, Cinder se perguntou quanto tempo isso demoraria.
— Lobo! — A voz de Scarlet tremeu.
A arma continuava apontada para Sybil, mas Lobo ainda estava entre eles.
Outro disparo fez Cinder pular, e o barulho ricocheteou nas paredes. Sybil deu um grito de dor.
O guarda, que não estava inconsciente, afinal, segurava a arma que tinha caído. E atirou na taumaturga.
Sybil resmungou, as narinas se dilatando ao cair de joelhos e a mão apertando a coxa, já coberta de sangue.
O guarda estava ajoelhado, segurando a arma. Cinder não via o rosto dele, mas ele pareceu tenso quando falou:
— Ela está me controlando. O ciborgue...
O detector de mentiras de Cinder piscou desnecessariamente. Ela não estava fazendo isso, embora tivesse pensado nisso antes...
Sybil empurrou Lobo na direção do guarda. A energia no aposento oscilou, com ondas de bioeletricidade fumegando e tremendo ao redor deles. Sybil interrompeu o controle sobre Lobo. O tiro a tinha enfraquecido e ela não conseguia mais controlá-lo.
Lobo tombou em cima do guarda, e os dois caíram no chão. O guarda tentou se segurar sem soltar a arma e empurrando Lobo. Pálido e tremendo, Lobo nem se defendeu. O sangue formava uma poça ao redor dele e deixava o chão escorregadio.
— LOBO!
Scarlet levantou a arma na direção da taumaturga de novo, mas Sybil já tinha se erguido e estava mancando para trás da nave mais próxima.
Cinder se lançou para cima de Lobo, pegou-o debaixo dos braços e puxou-o para longe do guarda. Ele mexeu as pernas e seus calcanhares escorregaram no sangue, mas não ofereceu nenhuma outra ajuda.
O guarda se agachou, ofegante e coberto de sangue, o lado do corpo sangrando pelo disparo de Cinder. Ele ainda estava com a arma.
Quando Cinder olhou para ele, viu a escolha.
Tomar controle do guarda antes de ele levantar a arma e matá-la.
Ou tomar controle de Lobo e dar-lhe a força de que ele precisava para sair do local antes de sangrar até morrer.
O guarda sustentou o olhar dela por um momento, depois se levantou e correu para sua mestra.
Cinder não esperou para ver se ele ia matá-la ou protegê-la.
Apertando os punhos, ela bloqueou tudo ao redor e se concentrou apenas em Lobo e na bioeletricidade que fervia ao redor dele. Estava fraco. Isso não era como tentar controlá-lo nas brigas fingidas. Ela percebeu que sua vontade se misturava facilmente com a dele e, apesar de o corpo dele protestar, o fez contrair os músculos das pernas. Só o bastante para aliviar o peso de cima dela. Só o bastante para ela carregá-lo, mancando, até o corredor.
Ela deixou Lobo encostado na parede. As palmas das mãos estavam grudentas de sangue.
— O que está acontecendo? — perguntou Iko pelos alto-falantes.
— Mantenha seu sensor neste corredor — disse Cinder. — Quando nós três estivermos em segurança fora da área da doca, feche a porta e abra a comporta.
Com gotas de suor pingando nos olhos, ela voltou para a doca. Só precisava pegar Scarlet e deixar que Iko abrisse a comporta. O vácuo do espaço cuidaria do resto.
Ela viu a taumaturga primeiro. Menos de dez passos à frente.
Não havia obstáculos.
Com os nervos vibrando de adrenalina, ela levantou a mão e preparou um projétil.
Mirou.
Scarlet pulou na frente dela, os braços bem abertos. Sua expressão estava vazia e a mente se encontrava sob o controle da taumaturga.
Cinder quase perdeu toda a sua energia de tanto alívio. Mas, sem hesitar, pegou Scarlet pela cintura com um dos braços e levantou o outro para disparar uma saraivada de projéteis na direção da taumaturga, mais para mantê-la longe do que com esperança de causar algum dano verdadeiro. O último dos pregos soldados bateu na parede de metal quando Cinder cambaleou para trás e caiu no corredor.
Ela notou a luz laranja no visor na mesma hora em que gritou:
— Iko, agora!
Quando a porta do corredor se fechou, ela viu Sybil correndo na direção da nave mais próxima e teve um vislumbre de pés do outro lado da nave.
Os pés do guarda.
Mas...
Mas...
De calça jeans e tênis?
Cinder empurrou o corpo de Scarlet para o lado com um grito.
O glamour sumiu, junto com a luz laranja em sua visão. O moletom vermelho de Scarlet tremeu, transformando-se em um uniforme lunar. O guarda grunhiu e rolou para o lado. Estava sangrando pelo ferimento no lado do corpo.
Ela havia agarrado o guarda. Sybil a enganou. O que queria dizer...
— Não... Scarlet! Iko!
Ela se jogou no painel de controle e digitou o código para abrir a porta, mas um erro piscou para ela. Do outro lado, a comporta estava se abrindo. Um grito ecoou pelo corredor, e Cinder quase não percebeu que era dela.
— Cinder! O que está acontecendo? O que...?
— Scarlet está lá... Ela...
Ela fincou as unhas com força na borracha que selava a porta, sem conseguir afastar a imagem de Scarlet sendo sugada para o espaço.
— Cinder, a nave! — disse Iko. — Ela está pegando a nave. Tem duas formas de vida a bordo.
— O quê?
Cinder olhou para o painel. E, como Iko dissera, os escâneres do aposento indicavam que só havia uma nave atracada.
A taumaturga sobrevivera e estava levando Scarlet junto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!