3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Dez

CINDER DESPERTOU QUANDO A VOZ MISTERIOSA PREENCHEU O recinto novamente, solicitando outra amostra de sangue do cordeiro sacrificado. Ela olhou para o espelho, ignorando o medidroide que preparava uma nova agulha com eficiência robótica.
Ela se forçou a engolir, umedecendo a garganta.
— Quanto tempo até eu receber o suposto antídoto?
Esperou, mas não houve resposta. O androide prendeu suas garras metálicas em volta do braço dela. Ela se encolheu com o contato do metal gelado, e de novo conforme a agulha picava seu cotovelo dolorido.
A ferida duraria dias.
Então ela se lembrou de que amanhã estaria morta. Ou quase.
Como Peony.
Seu estômago se revirou. Talvez Adri estivesse certa. Talvez fosse melhor assim.
Um estremecimento tomou seu corpo. A perna de metal tiniu com força contra as contenções.
Por outro lado, talvez não. Talvez o antídoto funcionasse.
Ela encheu os pulmões com o ar frio e estéril do laboratório e observou a holografia na parede. Dois pontos verdes vagavam em seu pé direito.
O medidroide tirou a agulha e usou uma bola de algodão para estancar o sangramento. O frasco cheio de sangue foi depositado em uma caixa de metal presa à parede.
Cinder bateu a cabeça contra a bancada do laboratório.
— Eu fiz uma pergunta. Antídoto? Vocês vão pelo menos tentar salvar minha vida, né?
— Med — disse uma nova voz, feminina. Cinder girou a cabeça para olhar para si mesma no espelho outra vez. — Desconecte a paciente das máquinas de monitoramento e a transfira para o laboratório 4D.
Cinder enterrou as unhas na toalha hospitalar embaixo dela. Laboratório 4D. Era para onde enviavam as pessoas para que pudessem observá-las morrer?
O androide desligou o painel da cabeça dela e removeu os sensores em seu peito. O monitor de batimentos cardíacos foi desligado.
— Alô? — disse Cinder. — Você pode me dizer o que está acontecendo?
Sem resposta. Uma luz verde brilhou ao lado do sensor do androide, e a porta se abriu para o corredor branco e azulejado de uma sala. O medidroide empurrou a maca de exames de Cinder para fora do laboratório, para além do espelho. O corredor estava vazio e cheirava a água sanitária, e uma das rodas da maca fazia o mesmo barulho ritmado das rodas do androide.
Cinder ergueu a cabeça, mas não conseguiu ver o sensor do medidroide.
— Acho que tenho algum óleo guardado na panturrilha, se você quiser consertar essa roda.
O androide permaneceu em silêncio.
Cinder apertou os lábios. Portas brancas e numeradas ficavam para trás.
— O que há no laboratório 4D?
Silêncio.
Cinder batucou com os dedos, ouvindo o farfalhar da toalha hospitalar e a roda que com certeza acabaria enlouquecendo-a. Ela ouviu o som de vozes em algum lugar distante, em outro corredor, e pensou ouvir gritos vindos de trás das portas fechadas. Em seguida uma das portas se abriu, e o androide a empurrou para dentro da sala, que era quase uma cópia da outra, só que sem o espelho de observação.
Cinder foi transferida para outra maca de exames, sobre a qual estava um par de botas e luvas familiares. Depois, para sua surpresa, seus imobilizadores se abriram com um assobio de ar simultâneo.
Ela puxou rapidamente as mãos e os pés para fora dos anéis de metal abertos antes que o androide pudesse perceber que cometera um erro e a prendesse de novo, mas o androide não demonstrou nenhuma reação enquanto se dirigia ao corredor. A porta se fechou atrás dele.
Tremendo, Cinder se sentou e procurou câmeras escondidas pela sala, mas nada lhe pareceu óbvio. Uma bancada ao longo de uma parede contava com o mesmo monitor de batimentos cardíacos e de taxas que a outra sala tinha. Um netscreen à sua direita permanecia apagado. A porta. Duas mesas de exame. E ela.
Cinder girou as pernas para o lado e pegou suas botas e luvas. Enquanto amarrava a bota esquerda, lembrou-se das ferramentas que guardara na perna antes de deixar o ferro-velho, há o que agora parecia uma eternidade. Ela abriu o compartimento e ficou aliviada ao constatar que não havia sido violado.
Respirando para se acalmar, pegou a maior e mais pesada ferramenta que tinha — uma chave inglesa — antes de fechar o compartimento e amarrar a bota.
Com os membros sintéticos cobertos e uma arma na mão, ela se sentiu melhor. Ainda tensa, mas não tão vulnerável quanto antes.
Mais confusa do que nunca.
Por que devolver suas coisas se iam matá-la? Por que levá-la a um novo laboratório?
Ela esfregou a chave inglesa gelada contra o hematoma no cotovelo. Parecia quase uma mancha como a da peste. Cinder a pressionou com o polegar, satisfeita em sentir a leve dor que provava o contrário.
Novamente estudou com meticulosidade a sala à procura de uma câmera, esperando que um pequeno exército de medidroides invadisse o aposento antes que ela pudesse destruir todo o equipamento do laboratório, mas ninguém veio. Não se ouviam pegadas lá fora, no corredor.
Deslizando da maca de exame, Cinder foi até a porta e testou a maçaneta. Trancada. Havia um escâner de identidade inserido no batente, mas ficou vermelho quando ela estendeu o pulso diante dele. Sinal de que devia ter sido programado para permitir a passagem apenas de pessoas selecionadas.
Ela foi até os arquivos e tentou abrir as gavetas, mas não conseguiu.
Batendo a chave inglesa na coxa, Cinder se virou para o netscreen, que brilhou, uma imagem holográfica saltando para ela. Era sua imagem novamente, o diagrama médico fatiado ao meio.
Ela acertou o abdômen da holografia com a chave inglesa. A imagem piscou, depois voltou ao normal.
Atrás dela, a porta se abriu sibilando.
Cinder girou, escondendo a chave inglesa na lateral do corpo.
Um velho com um boné cinza de entregador de jornal postou-se diante dela, segurando um tablet na mão esquerda e dois frascos cheios de sangue na outra. Ele era mais baixo do que Cinder. Um jaleco branco de laboratório estava pendurado em seus ombros como se ele fosse um esqueleto modelo. Linhas se desenhavam no seu rosto, sugerindo que passara muitos anos analisando com concentração problemas bem difíceis. Mas os olhos dele eram mais azuis do que o céu e, naquele momento, sorriam.
Ele lembrava a ela uma criança salivando por um pão doce grudento.
A porta se fechou.
— Olá, srta. Linh.
Os dedos dela apertaram a chave inglesa com mais força. O sotaque estranho. A voz sem corpo.
— Sou o dr. Erland, o cientista-chefe da equipe real de pesquisadores da letumose.
Ela forçou seus ombros a relaxarem.
— Você não deveria estar usando uma máscara?
Ele ergueu as sobrancelhas cinzentas.
— Por quê? Você está doente?
Cinder trincou os dentes e pressionou a chave inglesa contra a coxa.
— Por que você não se senta? Temos algumas coisas importantes para discutir.
— Ah, agora você quer conversar — disse ela, avançando devagar em direção a ele. — Tive a impressão de que você não se importava muito com as opiniões de suas cobaias.
— Você é um pouco diferente dos nossos voluntários habituais.
Cinder fez a mira nele, a arma de metal esquentando na palma da mão.
— Talvez seja porque eu não seja voluntária.
Em um movimento fluido, ela ergueu o braço. Mirou a têmpora dele. Viu-o caindo no chão.
Mas parou, com a visão turva. Os batimentos cardíacos se acalmaram, o pico de adrenalina passou antes que seu visor de retina pudesse alertá-la. Pensamentos invadiram sua mente, agudos e claros em meio ao sentimento de confusão formado em seu cérebro. Ele era simplesmente um velho. Frágil e desamparado. Com os mais doces e inocentes olhos azuis que ela já vira. Ela não queria lhe fazer mal.
O braço dela tremeu.
A pequena luz laranja se acendeu e, surpresa, ela soltou a chave inglesa. A ferramenta retiniu no chão ladrilhado, mas Cinder estava muito atordoada para se importar com aquilo.
Ele não havia dito nada. Como poderia estar mentindo?
O doutor nem sequer vacilou. Seus olhos expressaram satisfação com a reação de Cinder.
— Por favor — disse ele, indicando com os dedos a mesa de exames. — Você não vai se sentar?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!