13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta

— ESTOU USANDO ISSO DIREITO? — PERGUNTOU CINDER, MEXENDO na blusa de amarrar com três fitas diferentes que eram para ser presas de algum jeito misterioso.
— Sim, está ótimo — disse Iko. — Quer parar de mexer a cabeça?
Ela colocou as mãos sobre as orelhas de Cinder para que ela ficasse de cabeça parada. Cinder se balançava, inquieta, tentando acalmar os pensamentos acelerados enquanto Iko girava seu cabelo em um coque apertado que fazia seu couro cabeludo formigar. Parecia que Thorne e o dr. Erland tinham se separado dela horas antes, embora o relógio contando os segundos em sua cabeça alegasse terem se passado menos de dezessete minutos.
No canto da visão havia um noticiário com uma contagem regressiva própria. A contagem para o início do casamento real.
Cinder fechou os olhos e tentou afastar outra onda de náusea. Nunca tinha ficado tão nervosa em toda a vida, e não era só a espera e a certeza de que tantas coisas podiam dar errado, e o pavor de ser capturada e devolvida para a prisão a qualquer minuto.
O que realmente a apavorava, o que deixava seus nervos latejando, era saber que veria Kai de novo. Cara a cara. Que olharia nos olhos dele pela primeira vez desde que tinha caído no jardim do palácio.
Na ocasião, a expressão dele estava tão cheia de choque e traição que o coração dela se partiu em dois, principalmente porque, menos de uma hora antes, ela apareceu encharcada no alto da escada, e Kai ergueu o olhar e sorriu.
Um sorriso.
As duas expressões não poderiam ter sido mais diferentes, e as duas foram dirigidas a ela.
Ela não sabia o que esperar quando o visse de novo, e a incerteza era apavorante.
— Cinder... você está assistindo ao noticiário?
Ela retomou o foco no apresentador que estava falando de um atraso temporário na cerimônia. Disseram que tudo estava bem e a cerimônia começaria em pouco tempo, mas que uma equipe de segurança estava tomando precauções adicionais...
— É agora. Vamos.
Só depois que elas espiaram pelo corredor de serviço nas duas direções e confirmaram que não havia ninguém por perto e que as luzes suaves perto das câmeras de teto mais próximas estavam apagadas foi que Cinder começou a perceber a extensão de sua vulnerabilidade.
Ela era a criminosa mais procurada do mundo e estava voltando para a cena do crime.
Mas não havia como mudar de ideia.
Ela desligou o noticiário e abriu a planta do palácio.
— Localizando agora — disse ela, usando o sistema de posicionamento interno para marcar onde ela e Iko estavam antes de inserir o código de rastreamento do imperador Kai que Cress lhe dera.
Ela prendeu a respiração enquanto o sistema procurava e procurava.
E então... ali estava ele. Um ponto verde na torre norte. No décimo quarto andar. Na sala que levava aos seus aposentos pessoais. Ele andava de um lado para outro.
Ela tremeu. Estava tão perto dele, depois de estar a uma galáxia de distância.
— Achei.
Elas ficaram nos corredores que Cinder esperava estarem desocupados. Viu-se olhando continuamente para as câmeras no teto, mas nenhuma se moveu nem piscou nem indicou estar ligada, e a paranoia de Cinder começou a sumir lentamente.
Cress conseguiu. Ela desligou o sistema de segurança.
Então, elas dobraram uma esquina no saguão de elevadores da torre norte, e Cinder deu um encontrão em uma mulher.
Ela cambaleou para trás.
— Ah... desculpe!
A mulher olhou para Cinder. Era funcionária do palácio, vestida com a mesma blusa e a calça preta que elas.
Cinder ativou seu glamour e transformou a mão ciborgue em humana e deu o mesmo tom impecável à pele de um androide-acompanhante. Deu um sorriso que torcia para esconder a surpresa e fez uma reverência.
Ela demorou mais alguns segundos para se dar conta do motivo para estar tão surpresa. Não por elas terem dado de cara com uma pessoa aqui no corredor, mas porque não tinha sentido essa mulher no outro corredor.
Era uma sensação tão sutil que ela nem percebeu que estava fazendo isso antes: projetar a consciência e tocar de leve a bioeletricidade emanada por cada ser humano. Ela se acostumou a sentir Thorne e Lobo e Jacin e o dr. Erland quando estavam por perto, e a presença deles era como uma sombra no subconsciente dela. Era instintivo, tão fácil quanto respirar.
Mas essa mulher era uma tábula rasa para ela. Como Cress, uma cascuda. Como Iko.
— Minhas desculpas — disse a mulher, retribuindo a reverência de Cinder. — Essa ala do palácio está fechada para qualquer pessoa que não tenha passe emitido pela coroa. Preciso pedir que saiam.
— Temos passe — disse Iko, dando um sorriso largo. — Pediram que verificássemos com Sua Majestade Imperial se ele deseja alguma bebida enquanto espera o início da cerimônia.
Ela fez que ia passar pela mulher, mas uma mão surgiu e apoiou no peito dela.
No entanto, o olhar sereno da mulher permaneceu fixo em Cinder.
— Você é Linh Cinder — disse ela. — É uma fugitiva procurada. Preciso alertar as autoridades.
— Er, desculpe, mas agora é um momento ruim para mim.
Cinder deu um passo para trás, ergueu a mão e disparou um dardo tranquilizante na coxa da mulher. O dardo tiniu, a ponta ficou presa brevemente no tecido da calça dela e caiu no chão.
Era toda a confirmação de que ela precisava.
Cinder trincou o maxilar e golpeou a lateral da cabeça da mulher, mas ela se abaixou e ergueu a perna, batendo com o pé no lado do corpo de Cinder.
Ela grunhiu e cambaleou, e acabou caindo contra a parede.
Com expressão impassível, a mulher pulou em cima dela, o cotovelo dirigido ao nariz. Cinder quase não conseguiu bloquear o movimento e aproveitou o impulso para girar e prender o braço ao redor do pescoço da mulher.
A mulher sacudiu os quadris e fez Cinder voar por cima da cabeça dela. Cinder caiu de costas, com a visão manchada.
— Iko... ela é...
Ela ouviu um clique, e a briga parou atrás dela.
Cinder gemeu.
— Uma androide.
— Eu reparei — disse Iko, erguendo um painel de controle cheio de fios arrancados. — Você está bem?
Iko se agachou ao lado de Cinder, com uma expressão perfeita de preocupação.
Apesar de ainda estar ofegante, Cinder se viu sorrindo.
— Você é a androide mais humana que já conheci.
— Eu sei. — Iko passou a mão por baixo de Cinder e a ajudou a se levantar. — Seu cabelo está uma bagunça. Sinceramente, Cinder, você não consegue ficar apresentável por mais de cinco minutos?
Cinder se apoiou em Iko e ficou de pé.
— Sou mecânica — disse ela, uma resposta automática.
Ela olhou para a mulher, cujos braços estavam inertes nos lados e cujos olhos olhavam vazios para o elevador.
Cinder balançou a cabeça para clarear os pensamentos e apertou o botão do elevador. A tela piscou duas vezes com um aviso de falha de segurança de nível um e ficou verde. O elevador mais próximo se abriu.
Em algum lugar, muitos andares debaixo do palácio, Cress tinha conseguido liberar o elevador para elas.
Juntas, ela e Iko arrastaram a androide para o elevador e a deixaram em um canto. As mãos de Cinder estavam tremendo tanto de adrenalina que ela quase apertou o botão do andar errado. Quando as portas se fecharam, ela tirou os últimos grampos do cabelo e prendeu em um rabo de cavalo rápido e desgrenhado. Cinco minutos apresentável foram o suficiente.
Mentalmente, direcionou o foco para os dois pontos separados que estavam se aproximando cada vez mais.
Ela, deslizando entre andares da torre.
E Kai.


HAVIA ALGUMA COISA ERRADA. A TAUMATURGA SYBIL MIRA SENTIA a forma como os guardas terráqueos estavam agindo, por haver sussurros demais e mãos pousadas em cabos de armas. Ao seguir a rainha Levana, Sybil foi ficando tensa.
A rainha não ficaria feliz se alguma coisa desse errado.
Ela olhou para o lado, para o taumaturgo Aimery. Seus olhos se encontraram. Ele também havia reparado.
Ela olhou para a frente, para a rainha, que estava usando vermelho e dourado, as cores tradicionais de casamento da Comunidade. Sua cabeça estava coberta por um véu fino, e a longa cauda do vestido foi bordada com os rabos decorados de um dragão e uma fênix que convergiam na frente. O tecido balançava como uma vela quando ela andava. A postura sugeria orgulho e confiança, como sempre. Será que já tinha reparado em alguma coisa? Mesmo que tivesse, talvez só atribuísse à sua presença e a como os fracos terráqueos simultaneamente a encaravam e se encolhiam de medo dela. Mas Sybil sabia que era mais do que isso.
Os cabelos em sua nuca se eriçaram.
Eles estavam quase no corredor principal quando um guarda entrou na frente dos acompanhantes. Sua Majestade parou e a saia se acomodou ao redor dos pés. Aimery também parou, mas Sybil continuou andando para ficar ao lado de Sua Majestade, tomando o cuidado de não favorecer a perna machucada. Ela podia ter sido obrigada a contar à rainha sobre o fracasso em capturar Linh Cinder, mas até o momento tinha evitado o fato constrangedor de ter levado um tiro na briga. Do próprio guarda, ninguém menos.
— Minhas sinceras desculpas, Vossa Majestade — começou o guarda terráqueo com uma reverência rápida.
Sybil olhou com raiva, e, com um movimento dos dedos, o guarda caiu de joelhos. Ele grunhiu.
— Você vai demonstrar respeito à minha rainha quando falar com ela — disse Sybil, enfiando as mãos nas mangas.
O guarda demorou um momento para se recuperar do choque. Ela não permitiu que ele ficasse de pé nem erguesse a cabeça da posição baixa e respeitosa, e finalmente limpou a garganta e prosseguiu, com voz mais tensa do que antes:
— Vossa Majestade, estamos passando por um mau funcionamento inesperado em nossos sistemas de segurança. Determinamos que, para sua segurança e para a segurança do imperador Kaito, teremos que atrasar a cerimônia. — Ele fez uma pausa para inspirar. — Estamos otimistas de que o atraso será curto. No entanto, infelizmente tenho que pedir que você volte para seus aposentos. Você será informada assim que a questão for resolvida e possamos prosseguir com a cerimônia. — Uma gota de suor desceu pelo pescoço dele. — Seus acompanhantes poderão levá-la até...
— Que tipo de mau funcionamento? — perguntou a rainha.
— Infelizmente, não posso divulgar nenhum detalhe neste momento, mas estamos trabalhando para corrigir o...
— Essa não é uma resposta aceitável para a pergunta justa da rainha — retrucou Sybil. — Você sugeriu que minha rainha pode estar em perigo. Exijo saber que detalhes você tem da situação, para que eu possa cuidar pessoalmente da segurança dela. Não aceitaremos ficar na ignorância. Agora, que tipo de mau funcionamento vocês estão tendo?
Ela viu o maxilar dele se flexionando, os olhos grudados no chão em frente aos pés da rainha. Sybil duvidava de que ele fosse de posição elevada o bastante para responder à pergunta, mas o medo estava trabalhando contra a determinação. Os dois guardas de posição inferior que o acompanharam não se moveram, mas a postura rígida indicava o desconforto deles. Talvez ela devesse deixar todos prostrados.
— Uma falha manual — disse o guarda. — Nosso sistema de segurança foi desligado, o que só pode ser feito na sala de controle central.
— E isso fica dentro do palácio?
— Sim, taumaturga Mira.
— Você está me dizendo que seu mau funcionamento é, na verdade, uma falha de segurança.
— É uma possibilidade que estamos considerando. Nossa prioridade número um é a segurança de nossos hóspedes. Mais uma vez, preciso pedir que volte aos seus aposentos, Vossa Majestade.
Sybil riu.
— O palácio pode ter sido infiltrado. Vocês não conseguem impedir que alguém invada seu sistema de segurança, mas acha que vamos ficar em segurança nos aposentos dos hóspedes?
— Já basta, Sybil.
Sybil parou e olhou para a rainha. Os dedos longos e pálidos estavam entrelaçados sobre a saia, mas Sybil supôs que, por baixo do véu, os olhos estariam perfurantes como agulhas.
— Minha rainha?
— Tenho certeza de que esses homens estão todos cientes da importância dessa cerimônia de casamento e das repercussões globais que poderiam ser geradas se alguma coisa o impedisse de acontecer. Não estão, cavalheiros?
Os guardas não disseram nada. O homem ajoelhado estava começando a tremer. Sybil achava que o pescoço dele doía por sustentar a cabeça em uma posição tão estranha.
Dois passos estalaram no chão do outro lado de Sua Majestade.
— Minha rainha fez uma pergunta — falou Aimery, sua voz calma e ameaçadora ao mesmo tempo, como um trovejar distante.
O guarda limpou a garganta.
— Não temos nenhum desejo de atrasar nem impedir este casamento, Vossa Majestade. Só queremos resolver o problema rapidamente para que a cerimônia possa continuar assim que possível.
— Façam isso — disse a rainha. — Sybil, Aimery, vamos voltar para nossos aposentos e permitir que esses homens cumpram suas responsabilidades sem ter trabalho conosco. — Ela começou a se virar, mas fez uma pausa. O véu balançou até os cotovelos. — Por favor, me informem imediatamente da segurança do meu noivo. Vou ficar uma pilha de nervos até saber que ele está bem.
— Sim, Vossa Majestade — confirmou o guarda. — Colocaremos proteção adicional em frente aos seus aposentos, assim como dos de Sua Majestade Imperial, até que isso seja resolvido.
Sybil esperou até elas estarem se afastando atrás dos acompanhantes e guardas para liberar o homem. Perguntou-se se aqueles guardas faziam ideia da ira que sofreriam se essa interrupção não fosse resolvida.
Mas não era o atraso em si que deixava Sybil ansiosa. Era o que (ou quem) poderia ter causado o atraso.
Embora Levana se recusasse a falar sobre a ciborgue foragida, com exceção de quando mencionava a incompetência das forças militares terráqueas, Sybil concluiu o que a rainha não se permitia dizer abertamente.
Foi fácil interrogar a refém, e a ruiva não mentiu. Linh Cinder, a ciborgue, era realmente a princesa Selene.
Sybil viu o glamour da garota no baile. Mais revelador, viu a reação de Sua Majestade a ele. A sobrinha perdida era a única pessoa na galáxia que poderia ter causado uma reação daquelas, e a ideia de que a princesa Selene estava por aí, fugindo dela, provocando-a, devia estar deixando a rainha louca.
Até o momento, a garota se mostrou ser extremamente engenhosa. Fugiu de Nova Pequim. Escapou das autoridades em Paris e naquela cidadezinha africana. Fugiu até dela.
Será que ela estava por trás disso? Seria tão inconsequente a ponto de tentar impedir o casamento da rainha?
Se sim, talvez Sybil não tivesse dado crédito suficiente a ela. Invasão ao palácio. Mau funcionamento na segurança. Sistema desabil...
Ela quase errou o passo. Não costumava ser desajeitada, e Aimery reparou. Ela não devolveu o olhar dele. Seus pensamentos já estavam disparados.
Não era possível. Ela estava tirando conclusões precipitadas.
Pegou dentro da manga o tablet miniatura que ficava em um bolsinho lá dentro e abriu as informações de segurança do palácio de Nova Pequim. Todas as câmeras e rastreadores que ela instalou com dificuldade pelo palácio em incontáveis reuniões e discussões diplomáticas horríveis...
NÃO É POSSÍVEL ESTABELECER LINK
Ela trincou os dentes.
Não era só a segurança do palácio que tinha sido alterada. O sistema de segurança dela estava incapacitado também.
O sistema inteiro.
Não parecia possível, mas ela conhecia o trabalho de Crescente quando via.
Ela guardou o tablet.
— Minha rainha.
O grupo parou.
— Eu gostaria de permissão para investigar pessoalmente essa falha de segurança.
Um dos guardas se mexeu, pouco à vontade.
— Peço desculpas, mas fomos instruídos a levar todos vocês de volta a...
Sybil distorceu a bioeletricidade ao redor da cabeça dele, e o guarda ficou em silêncio com um ofego estrangulado.
— Eu não estava pedindo sua permissão.
Depois de um momento, Levana deu um único aceno de cabeça, e a cortina de véu quase nem se mexeu.
— Concedida.
Ela fez uma reverência.
— E Sybil, se você encontrar os invasores, ordeno a morte imediata deles. Não quero ser incomodada com prisões e julgamentos triviais no dia do meu casamento.
— É claro, minha rainha.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!