20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e um

Cinder foi devagar até o local onde Adri se sujeitara a Levana momentos antes. Firmou os pés e expulsou o ar do peito para se acalmar, embora fosse impossível ignorar o tremor da pulsação e a lista de trinta hormônios diferentes que o display da retina dizia que estavam se espalhando pelo seu sistema. O cérebro estava extremamente ciente do medo que ela sentia.
Dois guardas a ladearam.
— Nossa segunda prisioneira, Linh Cinder, foi acusada dos seguintes crimes — disse Aimery, andando na frente dela. — Emigração ilegal para a Terra, rebelião, ajuda a um traidor da coroa, conspiração contra a coroa, sequestro, intromissão em questões intergalácticas, obstrução de justiça, roubo, fuga da prisão e traição real. A punição para esses crimes é a morte imediata pela própria…
— Não — disse a rainha Levana. Sorrindo. Estava claro que ela tinha pensado muito nesse momento. — Já ficou provado que é muito difícil manipulá-la, então abriremos uma exceção. A punição dela será a morte imediata por… ah, por... o quê? Veneno? Afogamento? Fogueira?
Ela estreitou os olhos na última palavra, e Cinder teve uma lembrança ruim, um pesadelo que teve uma centena de vezes. Uma cama com carvões quentes e vermelhos queimando sua pele, sua mão e sua perna virando cinzas.
— Desmembramento! — gritou um homem. — Começando por esses membros artificiais horríveis!
Essa sugestão recebeu um rugido de aprovação da multidão. Levana permitiu a confusão por um momento, mas levantou a mão pedindo silêncio.
— É uma sugestão cruel para uma garota cruel. Vou permitir.
Gritos explodiram pelo salão.
Kai ficou de pé.
— Vocês são selvagens?
Levana o ignorou.
— Outra ideia me vem à mente. Talvez a honra de executar essa punição deva ser de ninguém além da minha mais nova e leal súdita. Acredito que esteja ansiosa para agradar. — Levana curvou os dedos. — Linh Adri. Quer se aproximar de novo?
Adri parecia prestes a desmaiar. Ela deu dois passos incertos para a frente.
— Eis a oportunidade de você provar que é leal a mim, sua futura imperatriz, e que despreza sua antiga filha de criação tanto quanto ela merece.
Adri engoliu em seco. Estava suando.
— Vossa Majestade… quer que eu…
— Quero que a desmembre, sra. Linh. Acho que você vai precisar de uma arma. Do que gostaria? Vou mandar trazer. Uma machadinha, talvez, ou um machado? Acho que uma faca faria sujeira, mas um machado bem afiado…
— Pare com isso — disse Kai. — É repugnante.
Levana se encostou na cadeira.
— Estou começando a achar que você não está apreciando seu presente de casamento, meu querido. Pode ir embora se os procedimentos o incomodam.
— Eu não vou deixar que você faça isso — sibilou ele entredentes, com o rosto vermelho.
Levana deu de ombros para Kai.
— Você não pode me impedir. E não vai impedir a coroação. Tem coisas demais em jogo para arriscar por uma garota qualquer… uma ciborgue. Sei que você vai concordar.
Os nós dos dedos de Kai ficaram brancos, e Cinder o imaginou batendo na rainha ou tentando fazer alguma coisa igualmente idiota.
— Cortador de fios — disse ela, e o tom de voz e a declaração aleatória bastaram para atrair a atenção de todo mundo. Kai franziu a testa, mas só naquele momento entre a confusão e o início da manipulação. Ela procurou a energia dele, estalando e quente, e fez o melhor que pôde para acalmá-lo. — Está tudo bem — disse ela, aliviada de ver os músculos dele relaxarem.
Ele provavelmente ficaria com raiva por causa disso mais tarde.
Rosnando, Levana empurrou a bandeja de petiscos e se levantou, derrubando o servo para o lado. Ele saiu correndo.
— Pare de manipular meu marido.
Cinder riu, voltando o olhar para a rainha.
— Não seja hipócrita. Você o manipula o tempo todo.
— Ele é meu. Meu marido. Meu rei.
— Seu prisioneiro? Seu bichinho? Seu troféu? — Cinder deu um passo à frente e um guarda se aproximou e botou a mão em seu ombro para segurá-la, enquanto mais seis ficaram em alerta. Cinder fungou. Era bom saber que podia deixar Levana tensa, mesmo com as mãos amarradas. — Deve ser tão gratificante saber que todos os relacionamentos que você tem são baseados em mentiras.
Levana curvou o lábio e, por um momento, uma imagem confusa e inconsistente surgiu no display da retina de Cinder. Havia alguma coisa errada com o lado esquerdo do rosto de Levana. Uma pálpebra parcialmente fechada. Marcas estranhas na bochecha.
Cinder piscou depressa, perguntando-se se a raiva de Levana estava fazendo com que ela perdesse o controle do glamour ou se era sua optobiônica tentando entender a anomalia à frente.
Ela piscou pela sobrecarga de dados visuais, tentando disfarçar a perda de foco.
Os guardas começaram a relaxar quando a rainha se acalmou.
— Você é a mentira — disse Levana, sua voz controlada. — Você é uma fraude.
A atenção de Cinder foi atraída pela boca da rainha, normalmente tão perfeita e vermelha. Mas alguma coisa estava estranha. Havia uma curva estranha para baixo que não se encaixava no sorriso indiferente de sempre.
Havia estrago por baixo do glamour. Algum tipo de cicatriz. Talvez até paralisia. Cinder a encarou, a pulsação trovejando na cabeça. Uma ideia, uma esperança começou a surgir no fundo de sua mente.
— Acredite, já fui chamada de coisa pior — disse ela, obrigando-se a retomar a expressão de indiferença, embora percebesse que era tarde demais. Levana tinha visto a mudança nela, ou talvez tivesse sentido. A rainha ficou na defensiva na mesma hora, desconfiada.
Levana poderia se resguardar o quanto quisesse. Poderia usar o glamour em todo mundo naquele salão, em todo mundo no reino.
Mas não poderia enganar Cinder. Ou melhor, não poderia enganar o computador interno de Cinder.
Ela parou de resistir à enxurrada de dados sendo reunida pela interface do cérebro-máquina. O glamour era uma construção biológica. Era usar a bioeletricidade natural de uma pessoa para criar pequenos pulsos elétricos no cérebro, para mudar o que se via, pensava, sentia e fazia. Mas a parte ciborgue do cérebro de Cinder não poderia ser influenciada por bioeletricidade. Era tudo máquina, tudo dados, programação, e matemática e lógica. Quando dava de cara com um glamour lunar ou quando um lunar tentava manipulá-la, as duas partes do cérebro entravam em guerra, tentando decidir qual lado deveria ser dominante.
Desta vez, ela deixou o lado ciborgue vencer.
A enxurrada caótica de informações voltou com tudo. Peças tentando se acertar, como ver um quebra-cabeça feito de pixels e código binário se resolver em sua cabeça.
Tal como uma câmera colocada em foco, todos os glamoures do salão foram substituídos pela verdade. A pele de leopardo das neves não passava de uma capa de pele falsa. Os sapatos de aquário não passavam de acrílico transparente. Levana estava mesmo usando um vestido vermelho elaborado, mas havia partes onde estava apertado demais ou ficava frouxo demais, e a pele que aparecia no braço esquerdo era…
Tecido cicatricial. Nada diferente da pele de Cinder ao redor das próteses.
Quando o mundo se acertou e a realidade de retalhos parou de se mover e girar e se unir, Cinder mandou o cérebro começar a gravar.
— Sou culpada dos crimes que você listou — disse ela. — Sequestro e conspiração e todo o resto. Mas isso não é nada em comparação ao crime que você cometeu treze anos atrás. Se existe alguém nesta sala culpado de traição real, esse alguém é essa mulher sentada naquele trono. — Ela grudou o olhar em Levana. — No meu trono.
A multidão se agitou e Levana deu um sorrisinho, fingindo indiferença, apesar de as mãos estarem tremendo, e os detalhes delas ficarem variando entre dedos leves e pálidos e um mindinho murcho. As mudanças constantes dificultavam a concentração de Cinder.
— Você não passa de uma criminosa — disse Levana, com a voz retorcida. — E será executada por seus crimes.
Cinder dobrou a língua, testou seu uso, e ergueu a voz:
— Eu sou a princesa Selene.
Levana se inclinou para a frente.
— Você é uma impostora!
— E estou pronta para retomar o que é meu. Povo de Artemísia, essa é sua chance. Renunciem a Levana como rainha e jurem lealdade a mim, ou juro que, quando eu colocar essa coroa, todas as pessoas neste salão serão punidas por sua traição.
— Já basta. Matem-na.
No primeiro momento, os guardas não se mexeram, e a breve hesitação foi toda a informação de que Cinder precisava. Levana, em sua histeria, perdeu o controle mental de seus protetores.
Antes que os taumaturgos percebessem o que tinha acontecido, Cinder entrou nas mentes deles. Doze guardas reais. Doze homens que eram, como Jacin já tinha dito, como marionetes sem cérebro. Marionetes para a rainha usar como quisesse. Doze protetores armados, prontos para obedecer a cada ímpeto dela.
O display da retina de Cinder se encheu de informações: seus batimentos acelerados, o disparo da manipulação bioelétrica, a adrenalina correndo em suas veias. O tempo ficou mais lento. As sinapses do cérebro dispararam mais rápido do que ela era capaz de reconhecer, com informações sendo gravadas e traduzidas e armazenadas antes que ela pudesse interpretar. Sete taumaturgos: dois de preto atrás da rainha, os quatro que levaram Cinder da cela até a porta e Aimery. O guarda mais próximo estava oitenta centímetros à esquerda. Seis soldados lobos: o mais próximo a 3,1 metros; o mais distante a 6,4 metros. Quarenta e cinco lunares na plateia. Kai e seu conselheiro e cinco líderes terráqueos, junto com dezessete representantes adicionais da União. Trinta e quatro servos ajoelhados como estátuas, tentando lançar olhares à garota que alegava ser rainha deles.
Doze guardas com doze armas e doze facas, todos pertencendo a ela.
Ameaças foram pesadas, avaliadas, medidas. Perigos viraram dados em uma calculadora mental. A faca surgiu na ponta do dedo de Cinder.
Todos os terráqueos se abaixaram para se esconder, inclusive Kai. Só depois ela percebeu que foi ela mesma quem o forçou.
Então, ela usou onze dos doze guardas para abrir fogo.
Onze armas foram disparadas, todas mirando nos seis lobos mutantes, enquanto o guarda mais perto de Cinder puxava a faca e cortava as amarras dos pulsos dela. Na pressa, ela sentiu a lâmina bater na palma de metal.
Suas mãos estavam livres. O corpo e a mente estavam em harmonia, como Lobo tinha ensinado. O cérebro fez a lista de ameaças.
Os soldados lobos pularam em cima dos guardas quando outra rodada de tiros explodiu ao redor.
O servo mais próximo ficou de pé e partiu para cima de Cinder, como se para derrubá-la. Cinder o segurou e empurrou na direção de um taumaturgo. Eles colidiram com uma série de grunhidos e caíram no chão.
— Matem-na! — soou a voz de Levana.
Mais tiros fizeram os tímpanos de Cinder latejar. Corpos se moviam e cadeiras faziam ruído ao serem arrastadas no chão, e Cinder perdeu a noção de onde os guardas estavam e se algum soldado lobo tinha caído, e dois aristocratas estavam correndo para cima dela dos dois lados, e ela mandou os guardas se concentrarem nos taumaturgos, nos taumaturgos, agora. Houve outra saraivada de balas e os aristocratas gritaram e se encolheram e tentaram sair do meio da confusão assim que foram libertados.
Um soldado lobo pegou Cinder por trás. Seu ombro explodiu em dor, os dentes caninos rasgando sua pele. Ela gritou. Sangue quente escorreu pelo braço. Cinder levantou a mão ciborgue e atacou cegamente, e a lâmina encontrou carne. O soldado a soltou com um rugido e ela girou, chutando-o para longe.
Tremendo da cabeça aos pés, tentou recuperar as mentes dos guardas, mas, naquele segundo de distração, a sala foi esvaziada das ondas bioelétricas deles. Dez estavam mortos, tinham sido destruídos pelos soldados, que se viraram contra eles com ferocidade surpreendente, apesar dos buracos de bala perfurando seus peitos e barrigas.
No caos, Cinder encontrou Kai, que a observava boquiaberto.
A ciborgue afastou os olhos e encontrou a rainha, ainda gritando e tentando dar ordens, mas os dois guardas que restavam não pertenciam mais a ela, os lobos não ligavam para quem estavam atacando, e os taumaturgos… mortos. Todos mortos. Cinder matou todos. Exceto talvez Aimery, que Cinder não encontrou no caos. Ela o queria, mas tinha outra pessoa que queria mais.
Com a mente lúcida, Cinder se inclinou para pegar uma arma de um dos guardas mortos. Ela levantou o braço, trincando os dentes por causa da dor ardente no ombro, e mirou no ponto entre os olhos da rainha.
Por uma fração de segundo, Levana pareceu apavorada.
Mas Kai se posicionou entre elas, o rosto frouxo por causa da manipulação.
Suor escorreu para os olhos de Cinder e borrou o mundo ao redor.
As portas pesadas se abriram, e logo veio o som de botas no corredor.
Os reforços tinham chegado.
Animada, Levana fez todas as pessoas que restavam no salão partirem para cima de Cinder. Os terráqueos e os aristocratas podiam não ter armas, mas tinham muitas mãos e muitas unhas e muitos dentes. Os novos guardas estariam logo atrás.
Qual tinha sido sua sentença? Morte por desmembramento.
Cinder baixou a arma, girou e correu. Passou pelos lunares marionetes e suas roupas cintilantes. Passou pelos servos desmiolados e pelos taumaturgos mortos e pelas manchas de sangue e pelas cadeiras caídas e por Pearl e Adri encolhidas no canto. Ela correu para a única rota de fuga: a varanda aberta acima da água.
A dor no ombro latejava, e ela usou-a como lembrete para correr mais rápido, os pés batendo com força no mármore.
Ela ouviu tiros, mas já tinha pulado. O céu negro se abriu à frente, e ela caiu.

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