13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e um

KAI GARGALHOU, UM SOM ROUCO QUE ERA QUASE HIPERVENTILAÇÃO. Ele não sabia se essa virada inesperada de eventos era terrível ou muito, muito engraçada.
— A segurança do palácio foi afetada? O que exatamente isso quer dizer?
— A guarda real não teve tempo de fazer um relatório oficial, Vossa Majestade — disse Torin —, mas sabemos que todas as câmeras e escâneres de segurança, incluindo os de armas, não estão funcionando. Ou pelo menos que seus guardas não conseguem acessar as transmissões nesse momento.
— Há quanto tempo não estão funcionando?
— Quase onze minutos.
Kai andou até a janela. Ele viu um noivo no reflexo: vestindo uma camisa branca de seda com uma faixa vermelha pendurada no ombro. Sempre que a via, pensava em sangue. Ele tinha passado a última hora andando de um lado para outro nos aposentos pessoais e evitando o reflexo o máximo possível.
— Você acha que Levana tem alguma coisa a ver com isso?
— Parece não ter sentido ela fazer qualquer coisa que pudesse atrapalhar a cerimônia de hoje.
Kai passou os dedos no cabelo. Priya teria um ataque quando o visse, depois que aqueles cabeleireiros especialistas passaram quarenta minutos ajustando cada fio de cabelo em sua cabeça.
— Vossa Majestade, devo pedir que se afaste da janela.
Ele se virou, surpreso pela preocupação na voz de Torin.
— Por quê?
— Temos que supor que essa falha gera ameaça à sua segurança, mas não temos como adivinhar de onde essa ameaça pode vir.
— Você acha que alguém vai tentar me assassinar por uma janela? No décimo quarto andar?
— Não sabemos o que pensar, mas não quero correr riscos desnecessários até termos mais informações. O capitão da guarda deve chegar em pouco tempo. Tenho certeza de que tem um plano para circunstâncias assim. Talvez tenhamos que evacuar o palácio ou entrar em modo de isolamento.
Kai se afastou da janela. Modo de isolamento? Ele não sabia que isso existia.
— Vamos cancelar a cerimônia? — perguntou ele, sem ousar ter esperanças.
Torin suspirou.
— Não oficialmente. Ainda não. Seria o último recurso. A rainha Levana e seu cortejo estão confinados aos aposentos e, se necessário, serão levados para um local remoto. A cerimônia está temporariamente adiada até podermos garantir sua segurança e a da rainha.
Kai se sentou brevemente na beirada de uma das cadeiras de madeira entalhada, mas, ansioso demais para ficar sentado, se levantou e voltou a andar.
— Ela vai ficar furiosa. É melhor você avisar quem for dar a notícia a ela.
— Imagino que todos saibam muito bem.
Kai balançou a cabeça, perplexo. Durante semanas, viveu em uma névoa mental, preso entre a infelicidade e a apreensão, com o medo e os nervos e a esperança desesperada e constante sempre em mente. A esperança de haver uma saída. A esperança de que o dia do casamento não chegasse nunca. A esperança de que a princesa Selene tivesse sido encontrada e que, de alguma forma, isso fosse mudar tudo.
E então... isso.
Não tinha como ser coincidência. Alguém invadiu de propósito o sistema de segurança do palácio. Quem era capaz disso? E o que queria fazer, apenas impedir o casamento?
Havia muita gente no mundo que não queria que esse casamento acontecesse, afinal.
Ou seriam as motivações mais perigosas, talvez até sinistras?
Ele olhou para Torin.
— Sei que você não gosta quando falo em conspirações, mas olha só.
Torin expirou, um som longo e doloroso.
— Vossa Majestade, desta vez acho que estamos de acordo.
Alguém bateu à porta e deu um susto nos dois. Normalmente, um alto-falante na porta anunciaria a chegada da pessoa do outro lado, mas isso devia fazer parte do sistema falho.
E isso fez Kai questionar: não devia haver um sistema alternativo? Ou ele também foi comprometido?
Torin se moveu na direção da porta primeiro.
— Apresente-se.
— Tashmi Priya, pedindo permissão para falar com Sua Majestade.
Kai massageou a nuca quando Torin destrancava e abria a porta. Priya apareceu tensa na frente deles, ainda mais formal do que o habitual, usando um sári esmeralda e prateado.
— Alguma novidade? — perguntou Kai.
A expressão de Priya era atordoada, quase temerosa. Kai se preparou para o pior, embora não soubesse o que isso poderia ser.
Mas, em vez de falar, Priya fechou os olhos e desabou no tapete.
Kai ofegou e se abaixou ao lado dela. Do outro lado, Torin ergueu o pulso e verificou os batimentos.
— Qual é o problema dela? — perguntou Kai, antes de seus olhos encontrarem um pequeno dardo se projetando das costas de Priya. — O que...
— Ela vai ficar bem.
Kai ficou paralisado.
Ergueu o olhar. Para uma calça preta e uma blusa de seda e...
Cinder. O coração pulou na garganta.
Ela usava o mesmo uniforme que a equipe que trabalhava no casamento. O cabelo estava desgrenhado, como sempre. Não utilizava luvas. Parecia afobada.
Outra garota entrou atrás dela e fechou a porta. Era um pouco mais alta, com pele morena e cabelo azul, embora Kai não conseguisse dar a ela mais do que uma olhada rápida.
Porque Cinder estava ali.
Cinder.
Sem fechar a boca, Kai ficou de pé. Torin também se levantou e contornou Priya, tentando ficar entre eles como um escudo, mas Kai nem percebeu.
Cinder sustentou o olhar dele. Parecia que esperava alguma coisa. Que estava se preparando. Apesar do fato de que a mão ciborgue tinha algum tipo de acessório de metal com aparência perigosa projetado de um dos dedos, ela parecia quase tímida.
O silêncio estava insuportável, mas Kai não pensava em nada para dizer.
Finalmente, Cinder engoliu em seco.
— Me desculpe, mas tive que... — Ela indicou a cerimonialista inconsciente e balançou a mão, como se afastando o pensamento. — Mas ela vai ficar bem, eu juro. Talvez um pouco enjoada quando acordar, mas fora isso... E sua androide... Nainsi, certo? Precisei desabilitá-la. E o processador adicional dela. Mas qualquer mecânico pode recuperar a configuração antiga em uns seis segundos, então... — Ela massageou o pulso com ansiedade. — Ah, e encontramos seu capitão da guarda no corredor e alguns outros guardas, e eu talvez o tenha assustado e ele, hã, está inconsciente. Também. Mas, sério, vão todos ficar bem. Eu juro. — Os lábios dela se contorceram em um sorriso breve e nervoso. — Ah... oi de novo. Aliás.
— Ugh — disse a outra garota, revirando os olhos. — Isso foi sofrível.
Cinder lançou um olhar de irritação para ela, mas a garota deu um único passo na direção de Kai e fez uma reverência graciosa.
— Vossa Majestade Imperial. É um grande prazer vê-lo de novo.
Ele não disse nada.
Cinder não disse nada.
Torin, posicionado parcialmente entre Kai e Cinder, não disse nada.
Finalmente, a garota levantou a cabeça.
— Quando quiser, Cinder.
Cinder deu um pulo.
— Certo. Desculpe.
Ela deu um passo hesitante e parecia prestes a falar de novo, mas Kai finalmente encontrou a voz.
— Você está louca?
Cinder fez uma pausa.
— Você... sabe... a rainha Levana está neste palácio. Ela vai matar você!
Ela ficou olhando para ele.
— É. Eu sei.
— E é por isso que precisamos parar de perder tempo — murmurou a garota baixinho.
Kai franziu a testa para ela.
— Quem é você?
Ela sorriu.
— Ah, sou Iko! Você talvez não se lembre de mim, mas nos conhecemos na feira naquele dia que você levou o androide, só que eu era desse tamanho — ela levantou a mão até a altura do quadril — e tinha a forma de uma pera enorme, e era bem mais pálida. — Ela piscou os cílios.
Kai voltou a atenção para Cinder.
— Ela está certa — falou Cinder. — Precisamos ir embora agora. E você vai conosco.
— Eu o quê?
— Ele não vai fazer isso — retrucou Torin.
Ele começou a se mover na direção de Cinder, mas seu pé parou no ar e voltou. De repente, passou por cima de Priya e andou para trás até as partes de trás dos joelhos baterem em um divã e ele afundar na almofada.
Kai ficou olhando para ele boquiaberto, começando a achar que era tudo um sonho de ansiedade.
— Me desculpe — disse Cinder, levantando a mão ciborgue. — Mas tenho mais um tranquilizador e, se você tentar interferir, infelizmente vou ter que usar em você.
Torin olhou com raiva para ela, colocando mais ódio no olhar do que Kai já tinha visto.
— Kai, preciso remover seu chip de identificação.
Ele olhou para ela de novo e sentiu pela primeira vez uma pontada de medo. Alguma coisa estalou, e Kai baixou o olhar e a viu ejetando uma faca curta de um dos dedos.
Ela era ciborgue. Ele quase tinha se acostumado com isso.
Mas também era lunar, e apesar de ele saber as duas coisas pelo mesmo período de tempo, nunca a tinha visto antes agir como lunar. Não de forma tão aberta. Só agora.
Cinder deu um passo na direção dele.
Ele recuou um passo.
Ela fez uma pausa, uma dor aparecendo nos olhos.
— Kai?
— Você não devia ter voltado aqui.
Ela lambeu os lábios.
— Sei o que pode parecer, mas estou pedindo que você confie em mim. Não posso deixar que se case com ela.
Ele deu uma gargalhada repentina. O casamento. Quase tinha esquecido, e era ele quem estava com a roupa de noivo.
— Não é decisão sua.
— Mas estou decidindo mesmo assim.
Ela deu outro passo à frente, e, com outro passo para trás, Kai se viu encostado em uma mesinha. Cinder baixou o olhar e arregalou os olhos.
Kai seguiu o olhar.
O pé dela estava na mesa. O pé de tamanho infantil que caiu na escada do jardim, com a placa amassada e as juntas cheias de terra. Ele tirou do escritório quando a equipe de segurança fez a busca pelo equipamento de Levana.
As orelhas dele ficaram quentes, e ele sentiu como se tivesse sido flagrado guardando uma coisa estranha e muito íntima. Algo que não pertencia a ele.
— Você, hã... — Ele fez um gesto sem ânimo. — Você deixou cair isso.
Cinder afastou a atenção do pé e olhou nos olhos dele, sem palavras. Kai não conseguia adivinhar o que ela estava pensando. Nem ele sabia o que significava o fato de tê-lo guardado.
A outra garota, Iko, apoiou o queixo com as mãos.
— Isso é tão melhor do que as novelas.
Cinder baixou o olhar brevemente para se recompor, depois esticou a mão para ele.
— Por favor, Kai. Não temos muito tempo. Preciso do seu pulso.
A voz dela estava delicada e gentil, e por algum motivo isso chamou mais a atenção dele do que qualquer outra coisa. Os lunares eram sempre tão convincentemente gentis, tão maliciosamente delicados.
Ele balançou a cabeça e apertou o pulso vulnerável na lateral do corpo.
— Cinder, veja bem. Não sei o que você está fazendo aqui. Quero acreditar que está bem-intencionada, mas... não sei nada sobre você. Você mentiu para mim sobre tudo.
— Eu nunca menti para você. — Cinder lançou outro olhar para o pé. — Eu talvez não tenha contado a verdade toda, mas você pode me culpar?
Ele franziu a testa.
— É claro que posso. Você teve muitas oportunidades para me contar a verdade.
As palavras pareceram surpreendê-la, e ela apoiou as mãos fechadas nos quadris.
— Certo. E como seria se eu tivesse dito, claro, Vossa Alteza, eu adoraria ir ao baile com você, mas primeiro você precisa saber que sou ciborgue. O que aconteceria?
Kai afastou o olhar.
— Você nunca mais teria falado comigo — respondeu ela por ele. — Ficaria morrendo de vergonha.
— E você pretendia esconder para sempre?
— Para sempre? — Cinder balançou o braço na direção da janela. — Você é o imperador de um país inteiro. Nunca haveria um para sempre.
Ele ficou surpreso com o quanto as palavras doeram. Ela estava certa. Não havia espaço para um absurdo desses entre eles. Um imperador. Uma ciborgue. As palavras dela não deviam ter machucado nada.
— E quanto a ser lunar? — disse ele. — Quando isso seria mencionado?
Cinder bufou, e ele percebeu que ela estava ficando exasperada.
— Não temos tempo para isso.
— Quantas vezes você me manipulou? O quanto foi lavagem cerebral?
O queixo dela caiu, como se ela estivesse perplexa de ele sugerir isso. E então um fogo ardeu atrás dos olhos dela.
— Por quê? Você está com medo de ter tido sentimentos verdadeiros por uma ciborgue inferior?
— Só estou tentando entender o que foi real e quem é essa pessoa. — Ele a indicou dos pés à cabeça. — Um dia, você está consertando tablets na feira, no outro está fugindo de uma prisão de segurança máxima. E agora... desabilitou a segurança do meu palácio, está apontando uma faca para mim e ameaçando apagar meu conselheiro principal se não conseguir o que quer. O que devo pensar? Nem sei de que lado você está!
Cinder apertou os punhos, mas, quando digeriu as palavras dele, seus olhos se dirigiram para algum ponto acima do ombro dele. Na enorme janela com vista para a Comunidade das Nações Orientais. A expressão dela ficou distante. Calculista.
Ela deu outro passo na direção dele. Kai se encolheu.
— Estou do meu lado — disse ela. — E, se você quer o melhor para a Comunidade e para esse planeta inteiro, é melhor também ficar do meu lado. — Ela esticou a mão com a palma para cima. — Agora me dê seu pulso.
Ele fechou os dedos.
— Minha responsabilidade é aqui. Tenho um país para proteger. Não vou fugir disso e, sem a menor sombra de dúvida, não vou fugir com você.
Ele tentou erguer o queixo, mas foi difícil com a expressão de raiva de Cinder fazendo-o se sentir tão importante quanto um grão de sal.
— É mesmo? — perguntou ela. — Você prefere se arriscar com ela?
— Pelo menos eu sei quando ela está me manipulando.
— Olha só, eu nunca manipulei você. E espero nunca precisar. Mas você não é o único com responsabilidades e com o povo de um país inteiro contando com você. Portanto, lamento, Vossa Majestade, mas você vem comigo e vai ter que decidir se confia em mim ou não quando o tempo não estiver tão apertado.
Em seguida, ergueu a mão e disparou nele.

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