20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e três

A água a atingiu como concreto. A força se espalhou por seu corpo. Cada membro vibrou, primeiro com o forte golpe da água e depois com o frio.
A água a engoliu. Ela ainda estava tonta pelo baque quando o ar sumiu dos pulmões em uma explosão de espuma e bolhas. O peito já estava queimando. O corpo rolou como uma boia, a perna esquerda pesada puxando-a para baixo.
Um aviso vermelho surgiu na escuridão:
IMERSÃO EM LÍQUIDO DETECTADA. INTERROMPENDO O FORNECIMENTO DE ENERGIA EM 3…
A contagem regressiva só foi até aí. A escuridão surgiu no fundo da mente de Cinder, como se um interruptor tivesse sido desligado. A vertigem tomou conta. Ela se forçou a abrir os olhos e olhar para a superfície, mas só conseguiu se orientar porque sentia a perna a puxando para baixo, para baixo.
Fagulhas brancas estavam surgindo nos cantos dos olhos. Os pulmões se apertaram e começaram a se contrair.
Algas escorregadias pareciam querer segurá-la, deslizando pelo ponto na panturrilha direita onde a calça tinha se amontoado, perto do joelho. Obrigando-se a ficar consciente, Cinder apontou a lanterna do dedo para a escuridão aos pés e tentou acendê-la, mas nada aconteceu.
Com apenas a luz do palácio passando pela água turva, Cinder pensou detectar uma série de ossos pálidos presos nas algas. O pé de metal afundou em uma caixa torácica. Ela deu um pulo de surpresa e a mente clareou na hora em que os ossos se esmagaram embaixo dela.
Trincando os dentes, Cinder usou toda a energia que restava para se empurrar a partir do fundo do lago, lutando para voltar à superfície. A perna e a mão esquerda não estavam respondendo a seus controles. Tinham se tornado peso morto, e o ombro parecia gritar no local em que o soldado mutante enfiara os dentes. Foi preciso usar toda a sua energia restante para subir.
Seu diafragma se contraiu. Acima, o brilho da superfície foi aumentando, as luzes tremeluzindo como uma miragem acima da água. Ela sentiu a força indo embora, a perna cheia de água tentando puxá-la para baixo…
Ela rompeu o espelho d’água cuspindo e sugando ar com avidez para os pulmões. Nadou por um momento desesperado antes de ser puxada para baixo de novo. Os músculos arderam quando ela chutou e voltou à superfície, lutando para manter a cabeça acima da água.
Quando os brilhos em sua visão começaram a sumir, Cinder tirou água dos olhos. O palácio estava à frente, ameaçador e opressivo apesar da beleza, esticando-se pelos dois lados do lago. Sem a luz artificial do dia iluminando o domo, ela via a Via Láctea pelo vidro, hipnotizante.
Na varanda acima, Cinder viu sombras se movendo. Em seguida, uma onda a atingiu e ela foi parar debaixo d’água de novo, o corpo levado pela corrente. Ela perdeu o sentido de direção, onde era para cima e onde era para baixo. O pânico explodiu em sua cabeça, os braços lutaram para controlá-la nas ondas. O ombro latejava. Quando se sentiu afundando foi que conseguiu se reorientar e voltar para a superfície.
Ela tentou nadar para longe do palácio, na direção do centro do lago, embora não houvesse fim visível. Não tinha se deslocado muito quando os músculos começaram a queimar, e todas as juntas do lado esquerdo do corpo gritavam por causa do peso inútil das próteses. Os pulmões pareciam estar em carne viva, mas ela tinha que sobreviver.
Não podia parar de lutar, não podia parar de tentar. Kai ainda estava lá em cima. Todos os amigos estavam em algum lugar de Luna, precisando dela, e o povo dos setores externos contava com ela, que tinha que seguir em frente, seguir em frente…
Cinder prendeu a respiração, mergulhou e tirou as botas, deixando que afundassem. Não era muito, mas ela se sentiu bem mais leve para lutar com o peso desequilibrado do corpo, lançando-se pelas ondas.
O lago parecia não ter fim, mas, toda vez que olhava para trás e via o quanto o palácio lunar estava longe, Cinder sentia uma nova onda de força. A margem estava iluminada por mansões e docas para pequenos barcos. O lado mais distante do lago tinha desaparecido no horizonte.
Ela flutuou de costas, ofegante. A perna estava pegando fogo, os braços pareciam feitos de borracha, o ferimento no ombro era como um furador de gelo enfiado na pele.
Ela não conseguia seguir em frente.
Uma onda bateu em seu corpo, e Cinder quase não se moveu para voltar à superfície. Ocorreu-lhe, então, que ela não sabia se tinha reserva de energia para chegar à margem. E se a estivessem esperando lá? Ela não conseguiria lutar. Não conseguiria manipular. Era seu fim. Ela era uma garota praticamente morta, derrotada.
A cabeça de Cinder bateu em uma coisa sólida.
Ela ofegou, e a perda de propulsão a jogou para baixo da superfície de novo. Cinder bateu o pé, se forçou a subir e cuspiu água. As mãos tocaram na superfície dura e escorregadia na qual ela havia batido. O domo.
Ela tinha chegado à fronteira de Artemísia.
A parede curva enorme funcionava como represa e segurava o lago, enquanto do outro lado do vidro a cratera prosseguia por quilômetros em toda as direções, seca, cheia de marcas e perturbadoramente profunda.
Oscilando junto ao vidro, Cinder olhou para o fundo da cratera muitos metros abaixo.
Ela se sentia como um peixe em um aquário. Presa.
Virou-se para a margem, mas não conseguiu se mover. Estava tremendo. O estômago estava vazio. A perna pesada a puxava para baixo, e foi necessária a força de mil soldados lobos para voltar à superfície. A água entrava na boca, e ela cuspia assim que a cabeça rompia o espelho d’água, mas era inútil.
Ela não conseguia.
Uma tontura a desnorteou. Os braços bateram na água. A perna direita cedeu primeiro, cansada demais para dar mais um chute que fosse. Cinder ofegou e foi puxada para baixo, a mão deslizando pela parede de vidro liso.
Houve uma sensação estranha de libertação quando a escuridão a envolveu. Um orgulho de saber que, quando procurassem no lago, encontrariam seu corpo lá longe e saberiam o quanto ela lutou.
Seu corpo ficou inerte. Uma onda a empurrou, e a ciborgue bateu na parede, mas quase nem sentiu. De repente, alguma coisa a segurou e a puxou para cima.
Fraca demais para lutar, Cinder se deixou ser carregada. A cabeça rompeu a superfície e seus pulmões se expandiram. Ela tossiu. Braços a envolveram. Um corpo a encostou na parede.
Cinder pendeu para a frente e apoiou a cabeça em um ombro.
— Cinder. — Era uma voz de homem, tensa e vibrando pelo peito dela. — Pare de ser frouxa, tá? — Ele a ajeitou nos braços e moveu o peso dela para aninhá-la com um cotovelo. — Cinder!
Ela ergueu os olhos embaçados. Teve vislumbres do queixo, do perfil e do cabelo molhado grudado na testa. Devia estar delirando.
— Thorne? — A palavra grudou na garganta dela.
— É capitão… para você. — Ele trincou os dentes e lutou para nadar para a margem. — Pelas estrelas, como você é pesada! Ah, pronto! Que gentileza sua… ajudar…
— Sua boca gasta muita energia — resmungou alguém. Jacin? — Vire-a de costas para que o corpo dela não lute contra…
As palavras dele viraram um grito quando o corpo de Cinder escapou das mãos de Thorne e escorregou para o oscilar reconfortante das ondas.

Um comentário:

  1. Yeah! Eu sabia que o bonde não ia decepcionar...cof,cof como sempre né?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!