13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e três

ELA FICOU FELIZ PORQUE LOBO PARECIA TER DECORADO A PLANTA do palácio melhor do que ela, pois com toda essa correria subindo e descendo escadas, dobrando esquinas e percorrendo incontáveis corredores, Cress estava perdida. Já Lobo não demonstrou um momento de hesitação enquanto eles corriam pelos corredores abandonados.
— Sincronia perfeita — murmurou Lobo baixinho quando eles dobraram outra esquina.
Ele segurou o cotovelo de Cress e a puxou antes que ela pudesse colidir com Cinder e Iko e com o homem inconsciente entre elas.
— Ah, olá, estranhos — disse Iko.
Lobo assentiu, primeiro para Cinder e depois para o imperador inconsciente.
— Achei que esse deveria ser o perfume dele. Querem ajuda?
Nem Cinder e nem Iko reclamaram quando ele se abaixou e jogou Kai por cima do ombro.
Se Cress não estivesse em pânico e ofegante e correndo por conta da mais pura adrenalina, ela teria ficado muito mais impressionada.
— Os laboratórios são por aqui — falou Cinder, seguindo na frente. Cress segurou a saia e correu atrás dela. — Alguma surpresa?
— Até agora, não — respondeu Cress. — E você?
Cinder balançou a cabeça enquanto eles corriam pela passarela para a ala de pesquisa.
— Não exatamente. Só um monte... disso.
Um guarda do palácio apareceu na frente deles segurando a arma.
— Parem ag...!
A palavra virou um grito sufocado quando o rosto ficou sem expressão. As mãos caíram nos lados do corpo e a arma caiu no chão.
Cress levou um susto, mas Cinder a puxou, dando a volta no corpo atordoado sem diminuir o passo.
— Uau! — exclamou Cress por entre ofegos. — Que bom que você andou praticando, hein!
— Eu gostaria de esse ser o motivo de ser tão fácil — disse ela, balançando a cabeça quando contornou outra esquina. — Com Lobo, pelo menos havia resistência. Um pouco de esforço envolvido. Mas com os terráqueos... é fácil demais. — Ela engoliu em seco. — Se ela se tornar imperatriz, a Terra não tem a menor chance.
Eles chegaram a um hall de elevadores e Cress digitou um código.
— Pois é — disse ela, dando um sorriso cansado. — Que bom que ela não vai ser imperatriz.
Pareceu haver um suspiro mútuo quando todos entraram no elevador. Os nervos de Cress formigavam como um milhão de eletrodos. As costas do vestido caro estavam encharcadas de suor. Ela estava cansada de toda a correria e das escadas e do pânico, mas pelo menos eles tiveram um breve momento para descansar e respirar e se preparar para o que viria depois. Cress não conseguiu evitar um olhar curioso para o homem caído sobre o ombro de Lobo. O imperador.
Todas as vezes que se imaginou conhecendo-o, depois de anos espionando-o e ao pai dele, ela nunca imaginou que o primeiro encontro seria assim.
Lobo enrijeceu quando o elevador começou a ir mais devagar.
— Tem muitos lá fora.
— Nós sabíamos que seria assim — admitiu Cinder. — É melhor Thorne e o doutor estarem prontos.
Cress andou para trás, feliz por deixar Cinder e Lobo entre ela e o que quer que os esperasse no corredor.
Iko se inclinou na direção dela.
— Esse vestido ficou lindo em você — disse ela. — Cinder, ela não está linda?
Cinder suspirou quando o elevador parou completamente.
— Iko, depois disso vamos começar a discutir ocasiões apropriadas para puxar conversa.
As portas se abriram, e dezenas de guardas do palácio de vermelho e dourado surgiram na frente deles.
— E não tem um androide entre eles — murmurou Cinder. — Kai e eu vamos ter uma longa conversa sobre segurança no palácio. — Ela andou para o corredor. — Vocês — ordenou, sem indicar ninguém em particular pelo que Cress conseguiu perceber — agora são nossa guarda pessoal. Formem uma barreira.
Oito guardas se aproximaram e, em sincronia robótica, formaram um muro entre eles e os outros guardas. Havia confusão nos olhos dos outros.
Cinder levantou a mão com a palma para cima, e um dos guardas colocou uma arma ali, com o cano virado.
Ela mirou na cabeça de Kai com expressão de neutralidade pura e fria.
— Se alguém pensar em nos atrapalhar, seu imperador morre. Agora, saiam.
Com os oito guardas agindo como uma bolha protetora ao redor deles, Cress se viu sendo levada junto com os outros na direção dos laboratórios. Quando chegaram à sexta porta, Cinder bateu, usando a sequência especial que eles combinaram.
A porta foi aberta um segundo depois. Thorne estava vermelho e franzindo as sobrancelhas. E com a bengala em uma das mãos, uma trouxinha de pano na outra e ainda de venda nos olhos.
— O doutor não vem — disse ele.
Um momento de hesitação, e Cinder perguntou:
— O que você quer dizer com ele não vem?
Ele indicou os fundos do laboratório, e todos entraram, deixando as marionetes de Cinder esperando, perplexas, no corredor. Havia uma janela na parede que mostrava uma sala de quarentena estéril. O doutor estava sentado em uma mesa de laboratório, com a cabeça pendendo e os dedos mexendo no chapéu.
Com um gemido, Cinder andou até a janela e bateu com o punho.
O doutor levantou a cabeça, com o cabelo grisalho desgrenhado espetado em todas as direções.
Ela pegou um microfone na mesa, apertou um botão e gritou:
— Não temos tempo para isso! Saia daí.
O doutor só deu um sorriso triste.
— Cinder — disse Thorne, usando um tom pesado que Cress raramente ouvia. — Ele está com a peste.
O estômago de Cress deu um nó, e Cinder se virou da janela.
O doutor ajeitou o cabelo.
— Todo mundo voltou em segurança? — perguntou ele, sua voz saindo de um alto-falante na parede.
Cinder demorou um momento, mas acabou gaguejando:
— Sim. Todo mundo, menos você.
A mão de alguém pousou na cabeça de Cress. Ela levou um susto e se encolheu, mas Thorne já estava passando o braço pelos ombros dela e apertando.
— Só queria ver se era mesmo você — sussurrou ele.
Ela olhou para o perfil dele. As horas que passaram separados de repente pareceram dias, e Cress percebeu que poderia muito bem ser ele que seria deixado para trás em vez do doutor. Ela mergulhou mais no abraço dele.
— Eu sinto muito — disse o dr. Erland, as palavras quebradas, como se estivesse esperando a hora de dizê-las. Ele parecia mais frágil do que nunca sentado naquela mesa de exames, com o rosto coberto de rugas. — Srta. Linh. Sr. Lobo. — Suspirou. — Crescente.
Os olhos dela se arregalaram. Ninguém a chamava assim desde Sybil. Como ele sabia?
Era um nome comum em Luna. Talvez fosse um palpite de sorte.
— Fiz mal a todos vocês de alguma forma. Fui ao menos parcialmente responsável por alguma tragédia nas vidas de vocês. Sinto muito.
Cress engoliu em seco e sentiu uma pontada de arrependimento na base do estômago. O doutor ainda estava com um hematoma no queixo, no ponto onde ela o acertou.
— Fiz algumas descobertas importantes — disse o doutor. — Quanto tempo vocês podem esperar?
A mão de Cinder apertou o microfone.
— A chegada estimada de Jacin é em seis minutos.
— Isso vai ter que bastar. — A dor no rosto do homem pareceu aumentar. — Sua Majestade está com vocês?
— Ele está inconsciente — disse Cinder.
Ele ergueu as sobrancelhas de forma quase imperceptível.
— Entendo. Você poderia fazer a gentileza de passar uma mensagem para ele? — Antes que Cinder respondesse, o doutor colocou o chapéu e inspirou fundo. — Essa peste não é uma tragédia aleatória. É uma guerra biológica.
— O quê? — Cinder apoiou as mãos na mesa. — O que você quer dizer?
— A coroa lunar está usando anticorpos encontrados no sangue das pessoas sem dom para fabricar antídoto há pelo menos dezesseis anos, e talvez bem mais do que isso. Mas, dezesseis anos atrás, a letumose nem existia, a não ser que também tenha sido criada em um laboratório lunar. Os lunares queriam enfraquecer a Terra e criar uma dependência do antídoto deles. — Ele bateu no peito, como se procurando alguma coisa no bolso, mas pareceu perceber que não estava lá. — Certo. Anotei minhas descobertas no tablet que está com o sr. Thorne. Por favor, entreguem para Sua Majestade quando ele estiver recuperado. A Terra precisa saber que essa guerra não começou com os ataques recentes. Essa guerra está acontecendo debaixo de nossos narizes há mais de uma década, e temo que a Terra esteja perdendo.
O silêncio em seguida foi sufocante.
Cinder se inclinou para o microfone.
— Não vamos perder.
— Acredito em você, srta. Linh. — A respiração do doutor tremeu. — Agora, será... será que Cress pode se aproximar, por favor?
Cress enrijeceu. E se apertou contra Thorne quando todos olharam para ela, e foi só o empurrão delicado dele que fez os pés dela se moverem. E seguiu até a janela que os separava da salinha de quarentena.
Só então, quando ficou de pé na frente do microfone, se deu conta de que a janela só permitia vista em uma direção. Ela via o doutor, mas, do outro lado, ele devia estar olhando para um reflexo de si mesmo.
Cinder limpou a garganta sem afastar o olhar curioso de Cress.
— Ela está aqui.
Um sorriso patético tentou surgir nos lábios do doutor, mas falhou.
— Crescente. Minha Lua Crescente.
— Como você sabe meu nome? — perguntou ela, confusa demais para perceber a aspereza no próprio tom.
Mas o doutor não pareceu se deixar afetar, e seus lábios começaram a tremer.
— Porque eu escolhi seu nome.
Ela tremeu e enfiou as mãos nas dobras da saia.
— Quero que você saiba que quase morri quando perdi você e que pensei em você todos os dias. — Ele baixou o olhar para um ponto perto da base da janela. — Eu sempre quis ser pai. Mesmo quando jovem. Mas fui recrutado para a equipe de cientistas da coroa imediatamente depois de acabar os estudos. Era uma honra tão grande, sabe. Minha carreira virou tudo, e não havia tempo para a família. Eu já estava com mais de quarenta quando me casei, e minha mulher era outra cientista que eu conhecia havia anos e nunca achei que gostava muito dela até ela decidir que gostava de mim. Ela não era muito mais nova do que eu, e os anos se passaram, e eu tinha desistido... até que, um dia, ela ficou grávida.
Um arrepio desceu pela coluna de Cress. Parecia que ela estava ouvindo uma história velha e triste, da qual não fazia parte. Uma história cujo final parecia conhecer, mas a negação criava uma distância entre ela e as palavras do doutor.
— Nós fizemos tudo certo. Decoramos o quartinho. Planejamos uma comemoração. E às vezes, à noite, ela cantava uma cantiga antiga, uma cantiga que eu tinha esquecido, e decidimos chamar você de nossa pequena Lua Crescente. — A voz dele falhou nessa última palavra, e ele se encolheu e coçou o chapéu.
Cress engoliu em seco. A janela, a sala estéril, o homem com um hematoma roxo, tudo isso começou a embaçar na frente dela.
— E aí você nasceu, e era cascuda. — As palavras dele se arrastaram. — E Sybil veio, e eu implorei, implorei para que não levasse você, mas não havia nada... ela não... e achei que você estivesse morta. Achei que você estivesse morta, e o tempo todo você estava... se eu soubesse, Crescente. Se eu soubesse, jamais teria ido embora. Teria encontrado um jeito de salvar você. Sinto muito. Sinto muito por tudo.
Ele escondeu o rosto quando os soluços começaram a sacudir seu corpo.
Cress apertou os lábios e balançou a cabeça, querendo negar tudo, mas como ela podia se ele sabia o nome dela, tinha os olhos dele, e...
Uma lágrima passou por seus cílios e escorreu quente pela bochecha.
Seu pai estava vivo.
Seu pai estava morrendo.
Seu pai estava ali, na sua frente, quase à distância de um braço. Mas ficaria ali para morrer, e ela jamais o veria de novo.
Metal frio tocou seu pulso, e Cress deu um pulo.
— Me desculpe — disse Cinder, afastando a mão. — Mas temos que ir. Dr. Erland...
— Eu sei, s-sim, eu sei. — Ele passou a mão no rosto rapidamente. Quando ergueu a cabeça, as bochechas estavam vermelhas, os olhos, vidrados. Ele parecia tão fraco e frágil quanto um pássaro ferido. — S-Sinto muito por ser assim que... ah, por favor, tome cuidado. Fique em segurança. Minha Lua Crescente. Eu amo você. Amo você de verdade.
Os pulmões dela se contraíram e mais lágrimas pingaram do queixo e marcaram a saia de seda com pontinhos molhados. Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Eu amo você. Eu também amo você. Palavras que eram tão fáceis nas fantasias e naquele momento pareciam impossíveis.
Ela acreditava nele, mas não o conhecia. Não sabia se o amava também.
— Cress — falou Cinder, apertando o pulso dela. — Sinto muito, mas temos que ir.
Ela assentiu cegamente.
— Ad... adeus — disse ela, a única palavra que saiu quando foi arrastada da janela.
Do outro lado do vidro, o doutor chorou. Ele não ergueu o olhar, mas levantou a mão trêmula em um aceno de despedida. A ponta dos dedos estava enrugada e azul.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!