20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e sete

O homem que falou pegou o soldado mais próximo pelo pescoço e o jogou no centro do círculo. Gritos de surpresa e raiva se espalharam pelos homens reunidos quando alguns caíram sob o peso do colega. Em segundos, houve um furor de punhos e maxilares. Um homem atacou o primeiro que reparou nelas, unhas afiadas criando linhas de sangue no peito. Um segundo depois, ele também foi puxado e jogado no tumulto.
— Bons modos — gritou alguém, alto o bastante para a voz ecoar nas paredes, e Winter teve uma visão rápida e escaldante do domo de pedra de lava caindo sobre eles.
Começaria com um tremor de paredes, depois algumas pedrinhas caindo, até que uma rachadura iria de um lado da caverna até o outro, se abrindo e…
— Tem damas presentes — disse o mutante que as viu primeiro. Seu nariz se franziu na palavra damas.
A atenção de cem soldados híbridos foi direcionada a Winter e Scarlet. Enquanto sobrancelhas eram erguidas e olhares penetrantes as examinavam, os homens pareceram esquecer a briga. Eles começaram a se espalhar. Corpos ágeis e musculosos se esgueiraram entre os equipamentos com paciência agonizante. Narizes tremeram. Línguas percorreram dentes afiados.
Os cabelos da nuca de Winter se eriçaram, e ela se viu grudada no chão, chocada pelo silêncio repentino e respirável.
Quando a multidão se dispersou, ela viu que o foco era uma briga entre dois soldados, os dois sangrando, inchados e sorrindo, tão intrigados quanto o resto. Era impossível saber qual estava vencendo antes da interrupção.
Havia uma abundância de cicatrizes e hematomas em todos os homens, o que sugeria que brigas assim eram comuns. Uma forma de passar o tempo enquanto esperavam serem enviados para a Terra para participar da guerra de Levana.
O medo latejou no corpo de Winter. E se ela estivesse errada?
— Oi, moças bonitas — disse um dos soldados, massageando o maxilar peludo. — Estão perdidas?
Winter chegou perto de Scarlet, mas Scarlet se afastou e deu um passo à frente para se aproximar deles. Scarlet era a corajosa, a resiliente, e provou isso ao inclinar a cabeça em desafio fingido.
— Qual de vocês está no comando? — perguntou Scarlet, fechando as mãos e apoiando nos quadris. — Queremos falar com seu alfa.
Uma gargalhada se espalhou entre eles.
— Qual deles? Onze matilhas, onze alfas.
— O mais forte — disse Scarlet, perfurando-o com um olhar mais intenso do que Winter já tinha visto. — Se vocês não sabem qual é o mais forte, vamos esperar que briguem.
— Tem certeza de que não quer escolher, moça bonita? — perguntou um enquanto se aproximava por trás, entrando no caminho da saída… não que Winter tivesse esperanças de sair correndo. Ela viu que eles estavam tentando intimidá-las, e sentia nos ossos o quanto estava dando certo. — Tenho certeza de que qualquer um de nós ficaria feliz em satisfazer qualquer necessidade que vocês tenham.
Scarlet olhou para ele de cara feia, com o canto do olho.
— Já tenho um companheiro alfa para satisfazer minhas necessidades, e ele poderia destruir qualquer um de vocês.
O homem latiu, e uma risada rouca ecoou entre os outros.
O primeiro soldado chegou mais perto de Scarlet e parecia intrigado de novo.
— Ela está falando a verdade — disse ele, silenciando as gargalhadas. — O cheiro dele está nela toda. Um de nós. — Ele apertou os olhos. — Ou… um agente especial?
— Alfa Ze’ev Kesley — disse Scarlet. — Já ouviu falar?
Um momento. Um sorrisinho.
— Não.
Scarlet estalou a língua.
— Que pena. Já posso dizer que ele é duas vezes mais homem duas vezes mais lobo do que qualquer um de vocês. Poderia ensinar uma coisinha ou duas a vocês.
Os homens riram de novo, achando graça.
— Eu não sabia que estavam deixando nossos irmãos de matilha pegar companheiras na Terra. É mais um motivo para antecipar nosso envio.
Winter apertou as mãos suadas nas laterais do corpo, grata por Scarlet sustentar a atenção deles. Se tivesse sido obrigada a falar, sua boca teria emitido murmúrios incoerentes, e eles teriam rido por um momento e enfiado os dentes nela no momento seguinte. Fechariam os maxilares nos membros dela. Cortariam os músculos até os ossos.
— Não estamos aqui para discutir minha vida amorosa. Nem a sua — disse Scarlet. — Você parece ser o mais falante. Se denomina o líder aqui?
Ele inclinou a cabeça de um jeito que a lembrou de Ryu, a forma como ele às vezes baixava as orelhas quando ouvia o guarda-caça chegando com comida.
— Alfa Strom ao seu serviço. — Ele fez uma reverência debochada. Apesar de não ser maior do que os outros, ele se movia com uma graça nada natural. Como Lobo. Como Ryu. — E ao serviço da coisinha bonita ali atrás. Sugiro que você fale rápido, moça bonita. Consigo ouvir o estômago da minha matilha roncando.
Um dos soldados passou a língua pelo lábio inferior.
Scarlet se virou e lançou um olhar para Winter.
Tremendo da cabeça aos pés, Winter esticou a mão para Scarlet e usou o ombro dela para se equilibrar.
Os soldados riram.
— Winter — sibilou Scarlet.
— Estou com medo, Scarlet.
A expressão de Scarlet ficou pétrea.
— Talvez você queira ir lá fora se recompor e podemos voltar depois — disse ela, falando entre os dentes.
Winter tremeu por causa da raiva de Scarlet, apesar de saber que ela tinha o direito de estar se sentindo assim. Ir até ali fora ideia dela. Se as duas morressem, seria culpa dela.
Mas ela não permitiria. Eles eram homens, lembrou a si mesma. Homens que mereciam vida e felicidade tanto quanto qualquer outro.
Agarrando-se a esse pensamento, ela se obrigou a se afastar de Scarlet e ficou grata quando a tontura passou.
— Sou Winter Hayle-Blackburn, princesa de Luna — disse ela, e percebeu como sua voz soava baixa. Bem diferente da de Scarlet. — Preciso da sua ajuda.
Olhos brilharam, achando graça.
— Em troca, quero ajudar vocês.
Graça. Fome. Menos curiosidade do que ela esperava.
Ela engoliu em seco.
— A rainha Levana, minha madrasta, trata vocês com crueldade e injustiça. Ela tirou vocês das suas famílias e agiu como se não passassem de experimentos científicos dela. Ela trancou vocês nessas cavernas com o único objetivo de mandá-los para a Terra para lutarem na guerra dela. E o que vocês vão ganhar por esse serviço?
Eles todos esperaram, com os olhos severos e cintilantes, observando Winter como se ela fosse o lanchinho da tarde, ainda assando no espeto. Não era diferente dos olhares que recebia de incontáveis homens na corte de Levana.
— Nada — disse ela, empurrando o medo para o fundo do estômago. — Se sobreviverem às batalhas, vão voltar para cá e ser escravizados nessas cavernas até ela precisar de vocês de novo. Não vão poder voltar para suas famílias. Não vão voltar para a sociedade nem viver as vidas que talvez já tenham sonhado em viver, antes de serem… de serem…
— Monstros — sugeriu um dos homens, sorrindo com a palavra.
— Eu não acredito que vocês sejam monstros. Acredito que tiveram bem poucas escolhas e que estejam lidando com as consequências da melhor maneira que podem.
Alfa Strom deu uma risadinha debochada.
— Quem poderia imaginar que receberíamos um conselho desses da própria princesa hoje? Me diga, alteza bonita… essa sessão de terapia tem lanchinho junto?
— Sua amiga, talvez? — disse outro. — O cheiro dela é delicioso.
Scarlet cruzou os braços e afundou os dedos nos cotovelos.
Winter empertigou os ombros.
— Viemos aqui para dar outra escolha a vocês. O povo de Luna está planejando uma rebelião. Em dois dias, vamos marchar para o domo central de Artemísia. Planejamos vencer a rainha e a corte, destroná-la e pôr fim à tirania dela. Peço que vocês se juntem a nós. Que lutem por nós e nos ajudem a acabar com o reinado que tirou vocês de suas vidas e os transformou em soldados. Que garantam que não vão se tornar prisioneiros nunca mais, nem experimentos, nem… animais criados para a diversão de Levana. Nunca mais.
Um silêncio se espalhou por eles, como se estivessem esperando para ter certeza de que ela tinha terminado. Winter procurou indicações de que prestaram atenção.
Ela se sentia um cordeiro na toca deles.
— Ela diz palavras bonitas.
Winter se virou para a voz. Era um dos homens envolvidos na briga. Havia sangue secando no canto da boca.
Ele inclinou a cabeça quando viu que tinha a atenção dela, as pálpebras se entrefechando de forma sugestiva.
— Não tão bonitas quanto o rosto.
— Exceto por essas cicatrizes.
Ela deu um pulo e se virou. Não tinha ouvido esse soldado chegar tão perto, e ele estava bem à frente. Ele passou uma unha afiada pela bochecha dela.
— De onde veio isso, moça bonita?
Ela não conseguiu responder.
Um braço envolveu os ombros de Winter e a puxou de volta.
— Pare — disse Scarlet, botando Winter atrás de si, embora fosse inútil. Elas estavam cercadas. — Vocês prestaram atenção ao que ela disse? Vocês podem se chamar de soldados ou matilhas de lobos ou do que quiserem, mas a verdade é que não passam de escravos. Winter está oferecendo liberdade. Está dando uma escolha, que é bem mais do que Levana já ofereceu. Vocês vão nos ajudar ou não?
— Vocês vão ser massacradas — sussurrou alguém no ouvido de Winter.
Ela ofegou e se virou de novo, encostando as costas nas de Scarlet. Os soldados chegaram mais perto. Predadores brincando com a presa, se deleitando com a expectativa da refeição.
— Um bando de civis patéticos vai se rebelar contra a rainha? — disse outro. — Eles não têm a menor chance.
E outro:
— Vocês não sabem quem a rainha vai chamar para os controlar se houver gente demais para manipular?
— A nós — disse um terceiro. — O exército dela.
— Você quer dizer os cachorrinhos dela? — retrucou Scarlet, e, embora seu tom fosse de deboche, ela estava encostada em Winter, também fazendo força. — Os bichinhos de estimação dela?
Os rostos dos soldados se contorceram.
— Se vocês ficarem do nosso lado, podemos vencer — declarou Winter. — Nós vamos vencer.
— O que vai acontecer conosco se ficarmos do seu lado e você perder? — perguntou Alfa Strom.
Um deles passou o dedo pelo pescoço de Winter. O coração dela deu um pulo.
— Com vocês ao nosso lado, nós não vamos perder — respondeu ela, a voz tremendo. Seus olhos começaram a lacrimejar de medo. — Podem parar agora. Já nos assustaram o bastante. Sei que vocês não são as criaturas cruéis que fingem ser, que foram treinados e atormentados e construídos para ser. Vocês são homens. São cidadãos de Luna. Se me ajudarem, se lutarem por mim… posso ajudar vocês a recuperarem suas vidas. Vocês não podem me dizer que não querem isso!
Ela sentia o hálito deles. Via os pontinhos coloridos nas íris. Sentia o cheiro de suor e sangue na pele. Um dos homens estava sugando um dedo dobrado, como se mal esperasse para sentir o gosto da carne dela.
Eles eram o nó de uma forca ficando cada vez mais apertado.
Com a pulsação saltando, Winter levou a mão até o pescoço, onde o soldado a tocou. Sentiu uma corda áspera ali. Apertando. Espremendo. Ela gritou e tentou passar os dedos ao redor, formar uma barreira entre a corda e o pescoço, mas já estava apertado demais.
— Princesinha mimada — sibilou um dos soldados, se inclinando para que ela sentisse o hálito dele na bochecha. Winter tremeu e soube que seu olhar estava úmido e suplicante. — Nós não lutamos por princesas. Nós brincamos com elas.
Alfa Strom deu um sorrisinho.
— Prontas para brincar?

Um comentário:

  1. the girl you'll never know who it is9 de março de 2019 23:23

    Eu estou sentindo...que vai dar merda

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Boa leitura, E SEM SPOILER!