13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e sete

— SATÉLITE AR817.3... BLOQUEAR RASTREADOR... CONFIGURAR contador alternativo... e verificar. Isso deve deixar apenas o satélite AR944.1... e... isso... deve... resolver.
Cress fez uma pausa, respirou e afastou devagar os dedos da tela principal do cockpit, onde tinha passado as últimas três horas cuidando para que qualquer satélite no caminho estivesse convenientemente virado para longe quando eles passassem.
Enquanto o caminho orbital da Rampion permanecesse o mesmo, eles não seriam detectados.
Ao menos, não por satélites e radares.
Ainda havia o problema dos avistamentos, e, como a Comunidade das Nações Orientais tinha anunciado vinte minutos antes que uma recompensa monetária enorme seria dada para qualquer pessoa que encontrasse a Rampion roubada, todas as naves daqui até Marte estariam de olho.
Eles tinham que estar preparados para fugir se alguém os visse, o que era bem mais difícil uma vez que não tinham mais um piloto treinado a bordo. Pelo menos, não um que enxergasse. Thorne guiou Cinder pelos procedimentos de decolagem, com grande ajuda do novo sistema de autocontrole da Rampion, mas foi uma decolagem sacolejante seguida de uma mudança imediata para órbita neutra. Se eles se deparassem com qualquer coisa que exigisse manobras mais complicadas antes de Thorne recuperar a visão, estariam encrencados.
De acordo com Cinder, estariam encrencados mesmo quando ele recuperasse a visão.
Cress massageou o pescoço e tentou fazer os pensamentos pararem de girar. Quando estava no meio de um trabalho, isso ocupava o cérebro dela até sua visão se saturar de códigos e cálculos, pulando para cada tarefa necessária mais rápido do que ela conseguia completá-las. Isso costumava deixá-la em um estado de euforia esgotada.
Mas, ao menos por enquanto, a Rampion estava segura.
Ela desviou a atenção para uma luz amarela na base da tela que a estava irritando desde que ela começou, mas que não havia tido tempo de resolver. Como esperado, quando ela gerou o comando de ejeção, um pequeno chip D-COMM reluzente pulou da tela.
Era o par do chip que Sybil tinha tirado do satélite dela, destruindo qualquer esperança que Cress e Thorne tinham de fazer contato com os amigos.
Amigos.
Ela apertou os olhos para o chip enquanto o segurava, perguntando-se se era a palavra certa. A sensação era de ter amigos, principalmente depois de sobreviverem juntos à missão. Mas, por outro lado, não tinha nada com que comparar essa amizade.
Mas uma coisa que ela sabia era que não precisava mais ser salva.
Ela olhou ao redor em busca de alguma coisa que pudesse usar para destruir o chip e viu o fantasma de um reflexo na janela do cockpit. Thorne estava na porta atrás dela, com as mãos enfiadas nos bolsos.
Ela levou um susto e se virou para olhar para ele, a saia volumosa levemente enrolada na base da cadeira. Apesar de estar suja e rasgada em algumas partes, ela ainda não tivera tempo de trocar e não tinha certeza de que queria. O vestido a fazia sentir como se ainda estivesse vivendo uma história, e talvez fosse o que a impedisse de entrar em choque por tudo o que aconteceu naquele dia.
— Você me deu um susto!
Thorne deu um sorriso moderadamente constrangido.
— Desculpe?
— Há quanto tempo você está aí?
Ele deu de ombros.
— Eu estava ouvindo você trabalhar. É meio relaxante. E gosto quando você canta.
Ela ficou vermelha. Não tinha percebido que estava cantando.
Thorne tateou para encontrar o caminho e se sentou na cadeira do copiloto, apoiando a bengala no colo e as botas no painel.
— Estamos invisíveis de novo?
— Para os radares, por enquanto. — Ela prendeu o cabelo atrás da orelha. — Posso ver sua bengala?
Ele ergueu uma das sobrancelhas, mas entregou sem fazer perguntas. Cress soltou o chip D-COMM no chão e o esmagou com a ponta da bengala. Um tremor de poder percorreu o corpo dela.
— O que foi isso? — perguntou Thorne.
— O chip D-COMM que vocês usaram para fazer contato comigo antes. Não vamos precisar mais dele.
— Parece que foi séculos atrás. — Thorne passou o dedo pela venda. — Lamento por você não ter conseguido ver muita coisa da Terra quando estávamos lá. E agora estamos presos aqui de novo.
— Estou feliz de estar presa aqui. — Ela girou a bengala distraidamente entre as palmas das mãos. — É uma nave ótima. Bem mais espaçosa do que o satélite. E... com companhia bem melhor.
— Não posso discordar. — Sorrindo, Thorne tirou uma garrafinha do bolso. — Vim aqui perguntar se você pode me ajudar com isso. Essas são as gotinhas místicas que o doutor fez. Temos que colocar três ou quatro gotas em cada olho, duas vezes por dia... ou eram duas gotas, três vezes?... Não lembro. Ele anotou as instruções no tablet.
Thorne soltou o tablet do cinto e entregou a ela.
Cress apoiou a bengala no painel de instrumentos.
— Ele devia estar com medo de você esquecer depois de tanto estresse... — Ela parou de falar quando viu o texto no tablet.
Thorne inclinou a cabeça.
— O que foi?
O tablet tinha aberto em uma tela com instruções para uso das gotas e também um relato detalhado de por que o dr. Erland acreditava que a peste era uma arma fabricada sendo usada como guerra biológica.
Mas, além de tudo isso...
— Tem uma aba com meu nome. — Mas não Cress. Lua Crescente Darnel.
— Ah. Era o tablet do doutor.
Cress deslizou os dedos pela tela e abriu a aba antes que sua mente decidisse se queria saber o que tinha ali ou não.
— Uma análise de DNA — disse ela — e... confirmação de paternidade. — Ela ficou de pé e apoiou o tablet no painel de controle. — Vamos pingar suas gotas.
— Cress. — Ele esticou a mão para ela e os dedos seguraram nas dobras da saia. — Você está bem?
— Na verdade, não. — Ela olhou para ele. Thorne tinha puxado a venda para o pescoço, deixando à mostra uma leve marca de bronzeado ao redor dos olhos. Engolindo em seco, Cress afundou na cadeira do piloto de novo. — Eu devia ter dito para ele que o amava. Ele estava morrendo e estava bem ali, e eu sabia que jamais o veria de novo. Mas não consegui dizer. Sou horrível?
— É claro que não. Ele podia ser seu pai biológico, mas você mal o conhecia. Como poderia amá-lo?
— E tem importância? Ele disse que me amava. Estava morrendo, agora já se foi, e eu nunca...
— Ei, Cress, pare. — Thorne virou a cadeira para ficar de frente para ela. Encontrou os pulsos dela e deslizou as mãos para entrelaçar os dedos com os dela. — Você não fez nada de errado. Tudo aconteceu tão rápido, e não houve nada que você pudesse fazer.
Ela mordeu o lábio.
— Ele tirou uma amostra de sangue minha naquele primeiro dia, em Farafrah. — Ela fechou bem os olhos. — Ele sabia o tempo todo... quase uma semana. Por que não me contou antes?
— Devia querer esperar a hora certa. Ele não sabia que ia morrer.
— Ele sabia que havia uma chance de todos nós morrermos.
A respiração seguinte tremeu dentro do diafragma dela, e, quando as lágrimas começaram a rolar, ela se sentiu sendo puxada na direção de Thorne. Ele a pegou no colo e passou um braço por baixo das pernas para impedir que a enorme saia se emaranhasse.
Chorando, Cress afundou o rosto no peito dele e deixou que as lágrimas viessem. Ela chorou intensamente no começo, a liberação saindo toda dela de uma vez. Mas quase se sentiu culpada quando, minutos depois, as lágrimas começaram a secar. A tristeza não bastava. O sofrimento também. Mas era tudo o que tinha.
Thorne a abraçou até o som de seus batimentos ficar mais alto do que o som do choro. Ele afastou o cabelo dela do rosto, e, apesar de ser egoísmo, Cress ficou feliz por ele não poder vê-la assim, com rosto vermelho e olhos inchados e todos os fluidos nada delicados que deixou na camisa dele.
— Escuta, Cress — murmurou ele com a boca perto do cabelo dela quando a respiração estava quase estável. — Não sou especialista, mas sei que você não fez nada de errado hoje. Você não deve dizer para alguém que o ama a não ser que sinta de verdade.
Ela fungou.
— Mas pensei que você tivesse dito que falou pra várias garotas que as amava.
— E é exatamente por isso que não sou especialista. A questão é que eu não amava nenhuma delas. Não sei se reconheceria o amor verdadeiro nem se estivesse...
Ela passou as costas da mão sobre as bochechas molhadas.
— Se estivesse o quê?
— Nada. — Thorne limpou a garganta e apoiou a cabeça no encosto da cadeira. — Você está bem?
Ela fungou de novo e assentiu.
— Acho que sim. Eu talvez ainda esteja um pouco em estado de choque.
— Acho que todos estamos depois de hoje.
Cress viu o vidro de colírio ao lado do tablet do doutor. Não queria sair dos braços de Thorne, mas também não queria mais pensar no doutor. No segredo que ele guardou. Nas palavras que ela não poderia dizer.
— Devíamos cuidar dos seus olhos.
— Quando você parar de tremer — disse Thorne. — Não gosto de coisas tremendo perto dos meus olhos.
Ela deu uma gargalhada fraca e começou a se levantar do colo dele. Os braços de Thorne a apertaram, mas só por um momento antes de soltá-la. Ela forçou a culpa de volta para dentro de si. Não queria pensar nisso naquele momento.
Depois de ler as instruções do doutor, três gotas em cada olho, quatro vezes por dia, durante uma semana, ela abriu a tampa. Sugou a solução para o conta-gotas e ficou de pé atrás da cadeira de Thorne, o vestido amassado balançando ao redor do corpo.
Thorne apoiou os pés no painel de controle de novo e inclinou a cabeça para trás até o rosto ficar virado para o teto. Ela não via os olhos dele havia dias, mas estavam tão azuis como sempre.
Cress colocou a mão na testa dele para se firmar, e a bochecha dele tremeu.
— Aqui vai — murmurou, apertando o conta-gotas.
Ele se encolheu e piscou instintivamente, empurrando as gotas como lágrimas pelas têmporas. Cress as secou, incapaz de resistir a ajeitar uma mecha de cabelo na testa.
Concentrou a atenção nos lábios dele e, envergonhada de repente, afastou os dedos.
— Que tal?
Ele apertou bem os olhos por um momento.
— Parece que estou com água nos olhos. — Ele deu uma risada sarcástica e os abriu de novo. — Talvez a solução seja só água e o doutor tenha pregado uma peça em mim.
— Isso seria horrível! — disse ela, girando a tampa para fechar o vidro. — Ele não faria isso.
— Não, você está certa. Não depois do que passamos para consegui-la. — Ele levantou a cabeça do encosto da cadeira e puxou a bandana amarrada no pescoço. — Mas ele deixou bem claro que não gostava muito de mim.
— Se isso for verdade, foi só porque ele ainda não conhecia você direito.
— Verdade. Eu acabaria deixando-o encantado.
Ela deu um sorriso.
— É claro que sim, além de mostrar para ele suas muitas outras qualidades — falou, corando enquanto configurava um lembrete no tablet para tocar quatro vezes por dia. Mas, quando olhou para Thorne de novo, a expressão dele estava séria. — Capitão?
O pomo de adão dele subiu e desceu. Thorne se sentou mais ereto e esfregou as palmas das mãos uma na outra.
— Preciso contar uma coisa.
— Ah?
A esperança latejou nas veias enquanto ela se sentava na cadeira do piloto de novo. O vestido luxuoso inflou ao redor dela.
O telhado. O beijo.
Será que ele tinha percebido o quanto a amava?
— O que é?
Thorne tirou os pés do painel de controle.
— Lembra quando nós estávamos no deserto... e eu falei que não queria magoar você? Porque você estava errada sobre mim?
Ela entrelaçou os dedos.
— Quando você tentou negar o quanto é realmente um herói?
Ela tentou inserir um tom de provocação na pergunta, mas seus nervos estavam tão à flor da pele que acabou saindo mais como um gritinho assustado.
— Herói. Exatamente. — Thorne passou o dedo entre a venda e o pescoço, afrouxando-a. — A questão é a seguinte. Aquela garota que defendi quando aqueles idiotas pegaram o tablet dela, sabe?
— Kate Fallow.
— Certo, Kate Fallow. Bem, ela era excelente em matemática. E, na época, eu estava indo mal.
A ansiedade espalhada pelo corpo dela virou gelo. Espere... era essa a confissão dele? Alguma coisa a ver com... Kate Fallow?
Ele limpou a garganta uma vez que ela não disse nada.
— Eu perdi a briga e tudo, mas ela me deixou copiar o dever durante um mês mesmo assim. Foi por isso que fiz aquilo. Não por um desejo incomum de ser heroico.
— Mas você disse que estava a fim dela.
— Cress. — Ele deu um sorriso, mas pareceu um sorriso tenso. — Eu estava a fim de todas as garotas. Acredite em mim, isso não era uma grande motivação.
Ela apertou as costas na cadeira e puxou os joelhos para o peito.
— Por que está me contando isso agora?
— Não consegui contar antes. Você tinha tanta certeza de que eu era essa outra pessoa, e eu meio que gostei de você me ver de forma diferente do que as outras pessoas viam. Parte de mim ficava achando que talvez você estivesse certa e todo mundo estivesse errado. Que até eu me enganei sobre mim mesmo. — Ele deu de ombros. — Mas até isso foi só meu ego falando, não foi? E você merecia saber a verdade.
— E você acha que toda a minha opinião sobre você era baseada em um incidente que aconteceu quando você tinha treze anos?
Ele franziu a testa.
— Achei que eu tinha feito um bom trabalho de esclarecer todos os outros incidentes, mas, se você tem mais, por favor, me permita estragá-los também.
Ela mordeu o lábio.
O telhado. O beijo. Ele manteve a promessa. Deu nela um beijo pelo qual valeu a pena esperar porque ela estava prestes a morrer, os dois estavam prestes a morrer. Ela sabia que foi um risco, provavelmente um risco burro. E foi a escolha que ele fez em vez de deixar que ela morresse sem vivenciar aquele momento perfeito.
Ela não conseguia pensar em nada mais heroico.
Por que ele não mencionava isso?
Talvez o mais importante, por que ela não conseguia?
— Não — sussurrou ela por fim. — Acho que não consigo pensar em mais nenhum.
Ele assentiu, embora a expressão fosse de decepção.
— Então, considerando todas essas novas informações, você, hã, provavelmente, não pensa mais que está apaixonada por mim. Pensa?
Ela se encolheu na cadeira, com a certeza de que, se ele pudesse vê-la, saberia. A verdade estaria evidente em cada ângulo do rosto dela.
Ela o amava mais do que nunca.
E não por ter lido arquivo atrás de arquivo de relatos e resumos e dados e fotos. Não porque ele era o Carswell Thorne intocável dos sonhos que ela se imaginou beijando às margens de um rio iluminado pelas estrelas enquanto fogos de artifício explodiam acima e violinos tocavam ao fundo.
Ele era o Carswell Thorne que deu a ela força no deserto. Que foi atrás dela quando foi sequestrada. Que a beijou quando a esperança foi perdida e a morte era iminente.
Thorne coçou a orelha constrangido.
— Foi o que eu pensei. Achei que era mesmo só a febre falando.
O coração dela deu um nó.
— Capitão?
Ele se empertigou.
— O quê?
Ela pegou a camada de chiffon da saia.
— Você acha que foi o destino que nos uniu?
Ele apertou os olhos e, depois de um momento de reflexão, balançou a cabeça.
— Não. Tenho certeza de que foi Cinder. Por quê?
— Acho que também tenho uma confissão. — Ela apertou a saia ao redor das pernas, com o rosto já quente. — Eu... eu já tinha uma queda por você bem antes de nos conhecermos, só de ver você em imagens. Achava que você e eu estávamos destinados a ficarmos juntos um dia e que teríamos um romance grandioso e épico.
Uma sobrancelha subiu.
— Uau. Sem pressão nenhuma.
Ela se mexeu, o corpo vibrando de nervosismo.
— Eu sei. Me desculpe. Mas acho que você talvez esteja certo. Talvez não exista destino. Talvez sejam só as oportunidades que recebemos e o que fazemos com elas. Estou começando a pensar que talvez os romances grandiosos e épicos não acontecem sozinhos. Nós é que temos que fazê-los acontecer.
Thorne mexeu os pés.
— Sabe, se o beijo foi ruim, é só você dizer.
Ela enrijeceu o corpo.
— Não é isso que eu... Espere. Você achou que o beijo foi ruim?
— Não — disse ele, com uma gargalhada abrupta e desajeitada. — Achei que foi... hã. — Limpou a garganta. — Mas é claro que havia muita expectativa, muita pressão, e... — Ele se mexeu na cadeira. — A gente ia morrer, sabe.
— Eu sei. — Ela puxou os joelhos contra o peito. — E não, não foi... Eu não achei que foi um beijo ruim.
— Ah, graças às estrelas. — Ele apoiou a cabeça na cadeira de novo. — Porque, se eu tivesse estragado isso para você, eu ia me sentir tão incompetente.
— Não precisa. Correspondeu a todas as expectativas. Acho que eu devia agradecer, né?
O desconforto sumiu das feições dele, e ela continuou corando furiosamente. Thorne esticou a mão para ela, e foi preciso toda a coragem que conquistou naquele dia para colocar a mão na dele.
— Acredite em mim, Cress. O prazer foi todo meu.

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