20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e seis

Elas não tinham andado muito quando detectaram ruídos retumbando pela caverna.
Eram baixos e intensos, como um trem distante. Elas chegaram a outra bifurcação no túnel, e, enquanto um caminho levava a mais escuridão e pedras e nada, o outro dava em um par de portas de ferro. Com dobradiças presas na parede de regolito, as portas pareciam antiquíssimas. A única decoração era uma marca no canto inferior de cada uma — DEPÓSITO 16, SETOR EM-12.
Havia uma telinha embutida na parede ao lado das portas. Era velha e antiquada, e o texto ficava piscando. REGIMENTO LUNAR 117. MATILHAS 1009-1020.
O chão e a parede vibravam com a atividade atrás das portas: gargalhadas, gritos e passos altos. Pela primeira vez desde que partiu na missão, Winter sentiu um tremor de nervosismo na barriga.
Scarlet olhou para ela.
— Não é tarde demais para voltar.
— Discordo.
Suspirando, Scarlet observou a tela.
— Onze matilhas, por volta de cem soldados, mais ou menos.
Winter cantarolou, um som descompromissado. Cem soldados. Animais, assassinos, predadores, era o que todo mundo dizia. Ela estava mesmo louca por achar que podia mudá-los?
Seus olhos ficaram úmidos, e isso a surpreendeu. Ela não tinha percebido que pensar no próprio desequilíbrio a entristeceria, mas a sensação das costelas esmagando o coração era inconfundível.
— Por que você me seguiu? — perguntou ela, olhando para as portas sólidas. — Sabendo o que tem de errado comigo. Sabendo que tenho problemas.
Scarlet riu com deboche.
— É uma pergunta excelente.
Um baque alto foi seguido de gritos. As paredes reverberaram ao redor. Elas não foram descobertas. Scarlet estava certa. Elas poderiam dar as costas e ir embora. Winter poderia admitir que sofria de alucinações e ninguém prestaria atenção nela. Ela era eficiente em tomar decisões erradas.
— Eu não podia deixar você seguir sozinha — disse Scarlet, quase sem veneno na voz.
— Por quê?
— Não sei. Pode me chamar de louca.
Winter fechou os olhos.
— Não vou fazer isso. Você não é problemática como eu. Não é formada de cem pedacinhos que vão ficando cada vez mais longe uns dos outros.
— Como você pode saber?
Winter inclinou a cabeça e ousou levantar o rosto de novo.
Scarlet se encostou na parede de regolito.
— Meu pai era mentiroso e bêbado. Minha mãe foi embora quando eu era criança e nunca olhou para trás. Eu vi um homem matar minha avó e rasgar a garganta dela com os dentes. Fiquei em uma jaula por seis semanas. Fui obrigada a cortar o próprio dedo. Tenho certeza de que estou me apaixonando por um cara geneticamente modificado e mentalmente programado para ser um predador. Considerando tudo, eu diria que tenho uma boa quantidade de partes quebradas em mim.
Winter sentiu sua determinação desmoronar.
— Você veio comigo porque era o caminho mais rápido até a morte, então.
Scarlet franziu a testa.
— Eu não sou suicida — disse ela, com a rispidez voltando à fala. — Eu vim com você porque… — Ela cruzou os braços sobre o peito. — Porque, desde que minha avó me acolheu, ouvi gente me dizendo que ela era maluca. Uma senhora idosa esquisita e agressiva, sempre assunto de piadas. Ninguém fazia ideia do quanto ela era brilhante. Aquela idosa maluca arriscou tudo o que tinha para proteger Cinder quando ela era bebê e, no final, sacrificou a própria vida para não entregar o segredo de Cinder. Ela era corajosa e forte, e todas as outras pessoas foram cegas demais para ver. — Ela revirou os olhos, irritada com a própria frustração. — Acho que só estou torcendo para que, apesar de todas as coisas absurdas que diz, você também possa ser meio brilhante. Que, desta vez, você possa estar certa. — Ela levantou o dedo. — Dito isso, se você vai me dizer o quanto essa ideia era idiota desde o começo e que devemos sair correndo como loucas, então vou logo atrás de você.
Atrás da porta, alguma coisa caiu, e houve uma explosão de gargalhadas altas. Em seguida, um uivo. Um coral de mais uma dezena de vozes se reuniu a ele, um som vitorioso.
Um músculo se contraiu no maxilar de Winter, mas o lábio tinha parado de tremer. Ela não tinha chorado. Estava concentrada demais nas palavras de Scarlet para se lembrar de ficar chateada.
— Acredito que eles já foram garotos e podem ser garotos de novo. Acredito que posso ajudá-los, e eles vão me ajudar em troca.
Scarlet suspirou, parecendo um pouco decepcionada e meio resignada, mas não surpresa.
— E acredito que você não é maluca como todo mundo pensa que é.
O olhar de Winter se dirigiu a Scarlet, surpreso, mas Scarlet não o retribuiu. Ela deu um passo à frente e colocou a palma da mão em uma das pesadas portas.
— E aí, a gente bate?
— Acho que eles não nos ouviriam. — Outra série de uivos ecoou pela caverna. Winter passou os dedos pela tela, e o texto mudou.
IDENTIFICAÇÃO DE SEGURANÇA NECESSÁRIA
Ela apertou as pontas dos dedos na tela, que se iluminou, recebendo-a. As portas começaram a se abrir, gemendo em dobradiças antigas. Quando Winter se virou, Scarlet estava olhando para ela, perplexa.
— Você percebe que acabou de alertar a rainha sobre onde está, certo?
Winter deu de ombros.
— Quando ela nos encontrar, vamos ter um exército para nos proteger ou já vamos ter virado carne e tutano e ossos.
Ela passou pelas portas e parou na mesma hora.
Scarlet estava certa. Havia cerca de cem homens no 117º regimento do exército de Levana, embora homens fosse um termo geral para o que eles tinham se tornado. Soldados também parecia inadequado. Winter vinha ouvindo histórias sobre o exército da madrasta havia anos, mas eles eram bem mais bestiais do que ela tinha imaginado, com corpos malformados, pelos nas laterais dos rostos e lábios repuxados ao redor de dentes enormes.
Aquele depósito, que no início fora um lar para os primeiros colonizadores, estava equipado para abrigar muito mais do que cem pessoas. O teto tinha a altura de três andares e era irregular, com musgo e estalactites onde bolhas de ar tinham se formado e lava tinha pingado tempos atrás. Apesar de a caverna ser antiga e impenetrável, alguém, havia muito tempo, teve a precaução de reforçá-la com colunas de pedra espaçadas.
Incontáveis alcovas e mais corredores se espalhavam em todas as direções, levando a alojamentos adicionais ou locais de treinamento.
Ao redor da parte externa havia armários sujos e caixas, muitas das quais deixadas abertas e esquecidas. Bancos e equipamentos de exercício ocupavam o resto do espaço: sacos de areia, barras, pesos. Muitos foram empurrados para o lado para abrir espaço para o entretenimento principal no centro do aposento.
Os uivos se dissolveram em gritos e berros novamente. Dentes caninos brilharam. A maioria estava parcialmente despido: sem camisa, de pés descalços, com uma quantidade absurda de pelos em lugares que Winter não sabia se eram naturais ou não. Um tremor percorreu sua pele. As palavras de Scarlet ecoaram em sua mente: Vão fazer o que mandarem, e vão mandá-los comer a gente.
Scarlet estava certa. Foi um erro. Ela não era brilhante. Estava ficando louca.
As portas se fecharam, o que a fez pular. Um homem se virou para encará-las. Seu olhar pousou em Winter, foi até Scarlet e voltou. Primeiro com curiosidade, depois, inevitavelmente, fome.
Um sorriso torto e malicioso surgiu na boca.
— Ora, ora — refletiu ele. — Já está na hora do almoço?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!