20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e quatro


Cress e Iko estavam se abraçando na margem do lago enquanto viam Thorne e Jacin mergulharem. Cress estava tremendo, mais de medo do que de frio, e apesar de o corpo de Iko não emitir calor natural como o de um ser humano, ela sentia um consolo que vinha da solidariedade. As duas esperaram, mas não havia sinal de Thorne, Jacin e nem de Cinder. Eles estavam debaixo da água havia muito tempo.
Tempo demais.
Cress só percebeu que estava prendendo a respiração quando os pulmões berraram. Ela ofegou, e a sensação foi mais dolorosa porque sabia que os amigos estavam prendendo a respiração por todo aquele tempo.
Iko apertou a mão dela.
— Por que eles…? — Ela deu um passo para a frente, mas parou.
O corpo de Iko não foi feito para nadar, e Cress nunca tinha entrado em um corpo d’água maior do que uma banheira.
Elas eram inúteis.
Cress apertou a mão trêmula na boca e ignorou as lágrimas quentes no rosto. Fazia tempo demais.
— Ali! — gritou Iko, apontando. Duas, não, três cabeças apareceram nas ondas escuras e agitadas.
Iko deu outro passo.
— Ela está viva, não está? Ela… ela não parece estar se mexendo. Você a vê se mexendo?
— Tenho certeza de que está viva. Tenho certeza de que estão todos bem.
Ela olhou para Iko, mas não conseguiu fazer a pergunta que sabia que todos estavam pensando. A transmissão ao vivo do banquete de casamento mostrou tudo. O julgamento. O massacre. Cinder pulando da varanda no lago abaixo.
Cinder sabia nadar?
Todo mundo pensou nisso, mas ninguém perguntou.
Juntos, os quatro se esgueiraram pela cidade, agradecidos porque os poucos lunares que viram estavam ocupados demais comemorando o casamento da rainha para prestar atenção. Jacin foi na frente por estar familiarizado com a cidade e com o lago, por saber onde os corpos que caíam da sala do trono às vezes apareciam. Não houve hesitação entre eles, todos sabiam que tinham que encontrar Cinder enquanto Levana estava se recuperando do ataque.
Quando eles viram a forma escura de Cinder nas ondas, houve um suspiro alto de alegria e de alívio vindo do grupo todo, mas eles ainda não faziam ideia do estado dela.
Estaria viva? Estaria ferida? Sabia nadar?
Quando o trio na água estava perto o bastante, Cress soltou Iko e entrou na água para se juntar a eles. Juntos, puxaram o corpo de Cinder para a margem e a deitaram na areia.
— Ela está viva? — perguntou Iko, quase histérica. — Está respirando?
— Vamos levá-la para aquela casa de barcos — disse Jacin. — Não podemos ficar aqui fora.
Thorne, Jacin e Iko dividiram a tarefa de carregar o corpo inerte de Cinder enquanto Cress correu na frente para segurar as portas. Havia três barcos a remo pendurados nas duas paredes, com um quarto no meio, coberto por uma lona. Ela tirou remos e equipamentos de pesca de cima da lona e abriu espaço para colocarem o corpo de Cinder lá, mas Jacin a colocou no chão duro. Iko fechou as portas e deixou o local na escuridão.
Cress ligou o tablet para fornecer uma luz azul fantasmagórica.
Jacin não se deu ao trabalho de verificar respiração ou pulsação, só se debruçou em Cinder e juntou as mãos acima do peito dela. Com olhar severo começou a bombear o esterno dela com movimentos rápidos e fortes. Cress fez uma careta com o som da cartilagem estalando.
— Você sabe o que está fazendo? — perguntou Thorne, agachado do outro lado de Cinder. Ele tossiu e limpou a boca com o braço. — Precisa de ajuda? Aprendemos isso no treinamento… eu me lembro… mais ou menos…
— Eu sei o que estou fazendo — disse Jacin.
E parecia saber mesmo, pois inclinou a cabeça de Cinder para trás e cobriu a boca com a dele.
Thorne não pareceu tranquilizado, mas não discutiu.
Ajoelhada aos pés de Cinder, Cress observou em silêncio quando Jacin recomeçou as compressões. Ela se lembrou das novelas em que a heroína era reavivada pelo herói com ressuscitação boca a boca. Parecia tão romântico. Cress até teve fantasias de se afogar, sonhos em que o toque dos lábios de um homem poderia devolver a vida ao seu corpo inerte.
As novelas mentiram. Havia uma violência nisso que não era mostrada. Ela fez uma careta quando Jacin apoiou as mãos abertas no esterno de Cinder uma terceira vez, imaginando sentir a dor no próprio peito.
Ela teve a sensação de estar suspensa no tempo. Thorne foi vigiar a porta, espiando por uma janela pequena e imunda. Iko abraçou o próprio corpo, e parecia a ponto de se dissolver em lágrimas impossíveis.
Cress estava prestes a segurar a mão de Iko de novo quando Cinder deu um pulo. Ela começou a vomitar.
Jacin virou a cabeça dela para o lado, e água saiu pela boca, embora não tanto quanto Cress esperava. Jacin segurou Cinder, mantendo as vias áreas abertas, até que ela parasse de vomitar. Ela estava respirando de novo. Fraca e abalada, mas respirando.
Cinder abriu os olhos e Jacin a ajudou a se sentar. Seu braço direito tombou. Sua mão encontrou o braço de Jacin e o apertou. Ela cuspiu mais algumas vezes.
— Chegaram na hora certa — gemeu ela.
Havia água nos lábios e no queixo dela, mas Iko esticou o braço e limpou com a manga. Cinder olhou para ela e seus olhos se iluminaram, embora as pálpebras ainda estivessem pesadas de exaustão.
— Iko? Eu achei… — Com um gemido, ela caiu deitada.
Iko gemeu e pensou em se jogar em cima de Cinder, mas reconsiderou. Preferiu correr ao redor de Jacin para levantar os ombros de Cinder e aninhá-la no colo. Sorrindo com fraqueza, Cinder fez carinho nas tranças de Iko. A mão ciborgue estava sem um dos dedos.
— Nós não podemos ficar aqui — disse Jacin, secando a água do cabelo. — Vão começar a procurar mais perto do palácio, mas não vão demorar para bloquear o lago todo. Temos que achar outro lugar para ela se recuperar.
— Alguma ideia? — perguntou Thorne. — Não estamos exatamente em território amigo.
— Preciso de suprimentos médicos — disse Cinder, de olhos fechados. — Um soldado me mordeu. Precisamos limpar o ferimento antes que infeccione. — Ela suspirou, exausta demais para continuar.
— Eu não me importaria de conseguir uma refeição quente e um secador de roupas, já que estamos fazendo exigências — disse Thorne. Inclinando-se para a frente, ele tirou a camisa encharcada.
Cress arregalou os olhos e os grudou em Thorne enquanto ele torcia a camisa para tirar tudo o que havia do lago nela. A água caía no concreto.
Jacin disse alguma coisa, mas ela não ouviu.
Thorne vestiu a camisa de novo, um pouco mais seca e amassada, e Cress conseguiu respirar de novo.
— Isso pode dar certo — disse Thorne, assentindo para Cinder. — Acha que consegue?
— Não — respondeu Cinder. — Eu não consigo andar.
— Não é longe — retrucou Jacin. — Achei que você fosse durona.
Cinder olhou para ele com irritação.
— Eu não consigo andar. A água fez alguma coisa com minha interface. — Ela fez uma pausa. Respirou com dificuldade. — Minha perna e minha mão não estão funcionando. Também perdi o acesso à rede.
Quatro pares de olhos se desviaram para o pé de metal brilhante. Cress não tinha o hábito de pensar em Cinder como ciborgue, como uma coisa diferente. Como alguém que podia… parar de funcionar.
— Tudo bem — disse Jacin, se virando para Thorne. — Quer carregá-la primeiro ou devo começar?
Thorne levantou uma das sobrancelhas.
— Você sabe o quanto ela é pesada?
Cinder deu um chute nele.
Ele bufou.
— Tudo bem. Você primeiro.


— Tem certeza? — sussurrou Cress. Ela estava agachada atrás de uma treliça coberta de trepadeiras, junto com Cinder, Thorne e Jacin, vendo Iko levantar a aljava dourada brilhante pela terceira vez.
— Eu já disse, eles não estão em casa — disse Jacin, irritado com a precaução de mandar Iko verificar a mansão com pilares antes de eles entrarem. — Essa família é popular na corte. Eles vão passar a semana toda no palácio.
Depois da quarta batida sem resposta, Iko se virou para eles e deu de ombros.
Cress passou o braço pela cintura de Cinder. Ela tinha uma boa altura para servir de muleta enquanto seguiam pelo jardim. O pé morto de metal de Cinder se arrastou, deixando uma marca no caminho de grama azul.
— E se estiver trancada? — perguntou Cress, olhando para a rua, apesar de eles não terem visto ninguém. Talvez o bairro todo fosse formado de membros populares da corte. Talvez a cidade toda estivesse fazendo uma comemoração agitada no palácio.
— Eu arrombo — disse Thorne.
A porta não estava trancada. Eles se viram em uma entrada grandiosa com uma escadaria curva e um mar de piso dourado e branco.
Thorne soltou um assobio baixo.
— Este lugar está perfeito para ser pilhado.
Iko respondeu:
— Posso pilhar o armário principal?
Jacin encontrou um vaso enorme de flores e o colocou em frente à porta, de forma que, se alguém a abrisse, ele cairia e se partiria em centenas de pedacinhos. Seria um bom aviso de que era hora de eles irem embora.
Eles não demoraram para encontrar uma cozinha maior do que o satélite de Cress. Ela e Iko levaram Cinder até um banco e ajudaram a levantar a perna dela enquanto Jacin mexia na despensa e voltava com uma variedade de nozes e frutas.
— O que acha que está acontecendo com você? — perguntou Iko.
Cinder bateu com a palma da mão na lateral da cabeça, como se quisesse colocar alguma coisa no lugar.
— Não é problema de energia — disse ela. — Meus olhos estão funcionando, pelo menos. É alguma coisa na conexão da interface entre cérebro-máquina e minhas próteses. Afetou minha mão e minha perna ao mesmo tempo, então deve ser uma conexão primária. Meu painel de controle deve ter ficado encharcado, sei lá. Alguns fios podem ter morrido. — Ela suspirou. — Acho que eu deveria me sentir sortuda. Se minha bateria tivesse morrido, eu teria morrido junto.
Todos pensaram nisso por um momento enquanto comiam.
Thorne olhou para a despensa.
— Você viu se tinha arroz lá? Talvez a gente pudesse encher a cabeça de Cinder com arroz cru.
Todo mundo ficou olhando para ele.
— Vocês sabem, para… absorver a umidade, sei lá. Não se faz isso?
— Não vamos colocar arroz na minha cabeça.
— Mas tenho certeza de que me lembro de alguém colocando um tablet em um saco de arroz depois de ter enfiado o aparelho sem querer na máquina de lavar e…
Thorne.
— Só estou querendo ajudar.
— De que você precisa para consertar? — perguntou Cress, depois se encolheu toda quando todos os olhares se voltaram para ela.
Cinder franziu a testa, e Cress a viu avaliando as possibilidades. Em seguida, começou a rir, arrastando a mão boa pelo cabelo ainda molhado e embaraçado.
— De um mecânico — disse ela. — Um muito bom.
Iko abriu um sorriso.
— Isso nós temos. Além do mais, estamos em uma mansão. Deve ter muita tecnologia aqui. Só precisamos encontrar as peças e ferramentas, e você pode me guiar no processo de conserto. Certo?
Cinder franziu os lábios. Havia marcas escuras embaixo dos olhos dela e uma palidez nada saudável na pele. Cress nunca a tinha visto tão cansada.
Iko inclinou a cabeça. Ela também devia ter reparado, pois passou um momento avaliando Cinder, depois todo mundo no grupo.
— Vocês todos estão com aparência péssima. Talvez devessem descansar um tempo. Eu posso ficar vigiando.
Eles pensaram na ideia por um minuto, e Thorne disse:
— Não é má ideia.
Iko deu de ombros.
— Alguém precisa estar com a mente lúcida em uma situação de emergência. — Franzindo a testa, acrescentou: — Mas nunca achei que fosse ter que ser eu.
Thorne se virou para Cinder.
— Você vai pensar com mais clareza depois de um cochilo.
Ela o ignorou e olhou para a bancada. Seus ombros estavam caídos de um jeito que fazia com que ela parecesse derrotada, com um vazio no olhar.
— Acho que um cochilo não vai consertar isso — disse ela, levantando a mão ciborgue. Pendia inerte do pulso, com um buraco onde o dedo havia sido removido. — Não consigo acreditar que isso está acontecendo. Não posso lutar assim, nem iniciar uma revolução, nem ser rainha. Não posso fazer nada assim. Estou quebrada. Estou literalmente quebrada.
Iko colocou a mão no ombro de Cinder.
— É, mas quebrada não quer dizer impossível de consertar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!