13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e quatro


ELES ABANDONARAM A ESCOLTA DE GUARDAS NO ELEVADOR quando chegaram ao último andar. Ninguém se importou por ser fácil demais deduzir para onde estavam indo. Com sorte, quando algum acordasse da influência mental de Cinder, eles já estariam longe.
O elevador de emergência da ala de pesquisa ficava sozinho, em uma alcova afastada do resto da ala. Era o obstáculo final, e Cress tomou cuidado para garantir que estaria funcionando direito quando eles chegassem. Ela seguiu na frente para digitar o código, embora se sentisse emocionalmente esgotada. Parecia que seu cérebro estava afundado em lama, e ela levou um momento para se lembrar do código.
O elevador abriu e eles entraram.
Ninguém falou nada, fosse por respeito ao dr. Erland ou por uma esperança tênue por eles estarem tão perto, tão perto...
As portas se abriram no telhado. O crepúsculo começava a encobrir a cidade, refletido nas janelas do palácio e cobrindo a pista de pouso de sombras roxas.
E a Rampion estava ali, com a rampa abaixada na direção deles.
Cress riu; foi uma gargalhada abrupta, delirante, que pareceu ser arrancada da garganta dela.
Iko deu um gritinho vitorioso e correu para a rampa, gritando:
— Conseguimos!
Thorne apertou mais o braço de Cress.
— Ele está aqui?
— Está — sussurrou ela.
Só Lobo foi mais devagar, mostrando os dentes. Kai ainda estava caído sobre o ombro dele.
— Jacin... preparar para decolar... agora! — gritou Cinder na direção da nave. — Estamos...
As palavras dela foram interrompidas, e ela diminuiu o passo até parar. Cress ofegou e apertou as mãos no braço de Thorne, segurando-o.
Uma pessoa apareceu no alto da rampa do compartimento de carga. O casaco branco e as mangas compridas a faziam parecer um fantasma assombrando a nave, bloqueando o caminho deles para a liberdade.
Os instintos de Cress gritaram que era para ela correr, se esconder, ir para o mais longe possível da mestra Sybil quanto pudesse.
Mas, quando olhou para trás, viu que a taumaturga não estava sozinha. Seis guardas lunares tinham aparecido atrás deles, bloqueando o caminho para o elevador, que não teria funcionado, de qualquer forma, porque ela o tinha programado para parar quando chegassem ao telhado, para que ninguém pudesse ir atrás. Só funcionaria de novo quando o cronômetro que ela inseriu na programação de segurança chegasse ao zero e o sistema se reiniciasse.
O que significava que eles não tinham para onde correr. Nem para onde se esconder.
Encontravam-se a quarenta passos da nave e estavam encurralados.


A ALEGRIA MOMENTÂNEA DE CINDER EVAPOROU QUANDO ELA olhou para a taumaturga. Devia tê-la sentido imediatamente, ela e os guardas, antes mesmo de ter saído do elevador, mas estava distraída demais com a sensação de sucesso. Ficou arrogante, e naquele momento eles se encontravam cercados.
— Que linda reunião — disse Sybil, com as mangas sacudindo no vento do telhado. — Se eu soubesse que vocês todos viriam a mim, não teria desperdiçado tanta energia procurando.
Cinder tentou manter o foco em Sybil enquanto avaliava seus aliados. Lobo estava um pouco à frente e rosnava ao mesmo tempo que colocava Kai no chão. Embora não estivesse demonstrando dor, ela via uma mancha de sangue na camisa de Lobo; os pontos deviam ter se soltado e aberto o ferimento.
Iko se encontrava longe deles, a única que não estava ofegante.
Cress e Thorne permaneciam à esquerda de Cinder. Thorne estava com uma bengala, e, pensou ela, talvez ainda estivesse com a arma. Mas ele e Lobo poderiam virar problema facilmente, armas com as quais a taumaturga brincar, ao contrário de Cress e Iko, que não podiam ser controladas.
— Quantos? — perguntou Thorne.
— A mestra Sybil na nossa frente — falou Cress — e seis guardas lunares atrás.
Depois de uma breve hesitação, Thorne assentiu.
— Eu aceito as chances.
— Que encantador — comentou Sybil, inclinando a cabeça. — Minha pequena protegida foi recebida por ciborgues e androides e criminosos, a escória da sociedade terráquea. É bem apropriado para uma cascuda inútil.
Com o canto do olho, Cinder reparou em Thorne se colocando como um escudo entre Cress e a taumaturga, mas foi Cress quem ergueu o queixo, com expressão mais confiante do que Cinder já tinha visto.
— Você está falando da cascuda inútil que desconectou a ligação de todo o seu equipamento de observação do palácio?
Sybil estalou a língua.
— A arrogância não cai bem para você, minha querida. Que importância tem se a ligação foi cortada? Em pouco tempo, esse palácio vai se tornar o lar da rainha Levana. — Ela assentiu. — Guardas, não machuquem Sua Majestade nem o agente especial. Matem todo o resto.
Cinder ouviu o baque de botas, a movimentação de uniformes, o estalo de armas sendo retiradas de coldres.
Ela abriu os pensamentos para eles.
Seis homens lunares. Seis guardas reais que, assim como Jacin, foram treinados para manterem as mentes abertas. Treinados para serem marionetes.
Ela procurou as pulsações elétricas ao redor deles. Ao mesmo tempo, todos os seis guardas se viraram para a beirada do telhado e jogaram as armas com toda a força que tinham. Seis armas voaram para longe e caíram em algum lugar dos telhados abaixo.
Sybil soltou uma gargalhada aguda, a mais livre que Cinder já testemunhou vindo dela.
— Você aprendeu algumas coisinhas desde a última vez que nos vimos, não é? — Sybil começou a descer a rampa. — Não que controlar um punhado de guardas seja um feito impressionante.
Ela desviou o olhar para Lobo.
Cinder abandonou os guardas e se projetou na direção dele, preparando-se para as intensas pontadas de dor na cabeça que aconteciam sempre que assumia o controle de Lobo.
Mas a dor não veio. A mente de Lobo já estava fechada para ela, como se alguém tivesse trancado a energia dele em um cofre.
Ele se virou para Cinder, com o rosto contorcido em uma fome animal.
Cinder falou um palavrão e deu um passinho para trás. Sua mente lembrou todos os duelos dentro do compartimento de carga, e então Lobo se lançou para cima dela.
Cinder se agachou, esticou as mãos para o abdômen dele e usou o impulso para jogá-lo por cima da cabeça. Ele caiu graciosamente de pé e se virou, mirando o punho direito no maxilar dela. Cinder afastou o golpe com o punho de metal, mas a força a desequilibrou e ela caiu no asfalto duro da área de pouso. Colocou as mãos no chão e levantou o calcanhar na direção de Lobo, atingindo-o no lado ferido. Ela se odiou por isso, mas ele gemeu de dor e cambaleou de leve para trás.
Ela ficou de pé. Já estava ofegante. Avisos encheram o display na retina dela.
Lobo lambeu os lábios e se preparou para atacá-la uma segunda vez, revelando o brilho dos dentes afiados.
Sufocando o pânico, Cinder tentou alcançá-lo de novo. Se ao menos rompesse o controle mental de Sybil. Se ao menos tivesse chegado nele primeiro. Ela procurou alguma fagulha do Lobo que sabia estar preso dentro de toda a fúria e sede de sangue. Algum ponto vulnerável na mente dele.
Estava tão distraída com as tentativas de afastar o controle de Sybil que não reparou no chute que acertou a lateral de sua cabeça e jogou-a longe na plataforma.
Ela ficou deitada de lado, tonta, com fagulhas brancas piscando na visão e o braço esquerdo ardendo por ter sido arrastado no chão. O ar não voltava aos pulmões. Cinder não conseguiu levantar a cabeça. Os diagnósticos de programação estavam enlouquecendo, e ela demorou um momento para lembrar como afastar isso para poder se concentrar.
Quando sua visão clareou, ela reparou em formas se movendo contra o céu crepuscular. Pessoas e sombras. Lutando. Brigando. As imagens confusas vinham acompanhadas de grunhidos de dor.
Os guardas atacaram. Thorne arrumou uma faca em algum lugar, Cress estava balançando loucamente a bengala dele e Iko usava os membros de metal e silício da melhor maneira possível para se defender. Mas Thorne estava cego, e Iko não tinha programação para lutar, e, assim que um dos guardas tirou a bengala da mão de Cress, ela caiu de joelhos, paralisada, encolhida atrás dos braços.
Enquanto Cinder olhava, um guarda segurou o pulso de Thorne e o virou até as costas. Ele deu um grito. A faca caiu. Outro guarda deu um soco no estômago dele.
Nesse momento, Cinder ouviu um rosnado. Lobo estava agachado, pronto para atacá-la de novo.
Cinder resistiu à vontade de fechar os olhos e se preparar para o impacto e soltou a respiração devagar pelo nariz. Fez com que os músculos relaxassem também.
Sua mente e seu corpo precisam trabalhar juntos.
Por um momento, foi como ser duas pessoas simultaneamente. Seus olhos estavam abertos, concentrados em Lobo enquanto ele pulava para cima dela, e seu corpo, relaxado, rolou para longe instintivamente antes de ela se levantar de novo.
Ao mesmo tempo, seu dom lunar procurou as pulsações de energia ao redor, direcionou para os seis guardas e os envolveu com tanta força que foi como agarrá-los com enormes punhos de metal.
Houve uma reação de surpresa dos guardas. Um caiu de joelhos. Dois caíram de lado, em convulsão.
Cinder desviou de outro soco, bloqueou outro chute. Seus instintos desejavam usar a faca no dedo, mas ela se recusou.
Lobo não era o inimigo.
Ela deu um soco para cima no queixo dele, seu primeiro golpe sólido, enquanto essas palavras se infiltravam no seu cérebro.
Lobo não é o inimigo.
Uma mancha azul chamou a sua atenção. Iko pulou nas costas de Lobo com um grito de guerra e envolveu a cintura dele com as pernas. Os braços envolveram a cabeça, tentando cegá-lo ou sufocá-lo ou distraí-lo como fosse possível.
Ela conseguiu por dois, três segundos, mas Lobo levantou as mãos, agarrou a cabeça dela e girou com tanta força que a pele rasgou no pescoço. Os fios na parte superior da coluna estalaram e soltaram fagulhas.
Iko escorregou dele e desmoronou no chão. As pernas estavam torcidas em uma posição estranha. As placas externas que protegiam a estrutura do colo estavam amassadas de um lado e deixavam à mostra fios desconectados e uma placa muscular rasgada, já vazando silício grosso e amarelado pelo ombro.
Cinder cambaleou e caiu de joelhos enquanto olhava para a forma retorcida. Seu áudio interno se fixou naquele som horrível e ficou repetindo sem parar o mesmo estalo brutal.
O mesmo baque pesado de quando o corpo de Iko bateu no chão.
Seu estômago deu um salto, mas ela o acalmou quando desviou o olhar de Iko e o direcionou não para Lobo, mas para Sybil.
A taumaturga estava de pé na base da rampa. O rosto bonito, franzido de concentração.
Em seus pensamentos distantes, Cinder sentiu que os guardas estavam se levantando do chão. Partindo para cima de seus amigos de novo.
Rosnando, ela os ignorou. Ignorou Lobo.
Sybil era a inimiga.
Lobo se virou para ela. Seus pés bateram no asfalto.
Mas Cinder estava concentrada demais na bioeletricidade emanando de Sybil para se importar. A energia de Sybil era distorcida e arrogante e orgulhosa, e Cinder tinha acabado de penetrar nas rachaduras dos pensamentos dela quando o impacto chegou.
Lobo se chocou contra ela, derrubando-a, mas Cinder quase nem sentiu.
Enquanto Lobo a prendia no chão, Cinder trabalhava para contornar o dom de Sybil. Estava conhecendo intimamente a forma como a energia emanava dos membros e dedos dela. Era tão diferente da forma como a mesma energia latejava e ardia dentro do seu cérebro.
Quando Lobo revelou os caninos afiados, Cinder descobriu onde o dom de Sybil fervia em suas tentativas de controlar Lobo, deixando o resto do cérebro distante e vulnerável.
Quando Lobo baixou os dentes na direção do pescoço desprotegido de Cinder, ela agarrou a mente de Sybil e atacou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!