20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e oito

Scarlet empurrou Winter com força e a jogou no chão com um grito. Através de um véu de cabelo, viu Scarlet dar uma cotovelada no nariz de um dos mutantes. Ela tentou pegar a arma embaixo do moletom, mas os soldados já estavam segurando-a, prendendo seus braços na lateral do corpo. A arma caiu no chão, inútil.
Doze mãos enormes colocaram Winter de pé. Ela ficou inerte nos braços deles, as pernas fracas demais para sustentá-la. Estava tremendo da cabeça aos pés, e os homens oscilavam em seu campo de visão. Em um segundo, eram soldados criados em laboratório. No outro, eram uma matilha de lobos selvagens. À espreita e mostrando os dentes enormes.
Scarlet gritou alguma coisa. Um grito de guerra. Estava lutando como uma tigresa enjaulada, com o cabelo esvoaçando, os dentes batendo, enquanto Winter pendia, fraca e delicada, tentando bloquear a visão antes que fosse demais para ela. Sua cabeça estava pesada como pedra da lua e girando rápido como um asteroide em órbita. Carregando o peso do conhecimento brutal de que aquilo era real. Elas iriam morrer. Iriam ser devoradas.
As lágrimas surgiram rápido e logo escorreram pelas bochechas.
— Por que vocês estão sendo tão cruéis? Ryu não agiria assim. Ele teria vergonha de vocês.
— Aguente firme, Winter — resmungou Scarlet.
O mundo hesitou. Dissolveu-se em escuridão e voltou a tomar forma. Winter sabia que desmoronaria se eles a soltassem, mas não conseguia encontrar apoio na própria força.
— Espere… tive uma ideia! — disse ela com animação, levantando a cabeça. — Vamos fazer um jogo diferente. Como quando Jacin e eu brincávamos de casinha. Esse aqui pode ser nosso bichinho de estimação. — Ela se inclinou para a frente e tentou colocar a palma da mão no nariz do soldado mais próximo, mas ele se afastou, surpreso.
Ela se pôs a observá-lo. Tentando lembrar quem ele era. O que ele era.
— Não? Você prefere brincar de pegar?
O rosto dele foi de perplexo a furioso em meio segundo. Ele deu um rosnado de desprezo, com os dentes ocupando metade do rosto.
— Qual é o problema dela? — perguntou alguém.
— Eu posso ser o bichinho, se você preferir. — Ela oscilou nas mãos dos que a seguravam. — Galhos e ossos, galhos e pedras. Vamos brincar durante horas, mas nunca vou me cansar e sempre vou voltar, eu sempre vou voltar… — A voz dela falhou. — Porque Ryu sempre, sempre voltava. Galhos e ossos. Galhos e ossos…
— Doença lunar — murmurou alguém. Winter o procurou e encontrou um soldado de pele quente que poderia ser bonito antes de ter sido transformado em uma coisa tão feia. Ele olhou para ela com a mesma fome de todos os outros, mas também podia haver solidariedade.
Winter não lembrava o que disse de louco. Do que estavam falando? De ir embora? Eles não estavam indo embora? Ela queria ir embora. Ou talvez estivessem fazendo planos para o jantar, para uma festa.
— Isso mesmo — disse Scarlet. Ela estava ofegante. — Ela se recusa a manipular as pessoas e a usar o glamour, mesmo quando seria extremamente benéfico para ela. Diferentemente das pessoas a quem vocês servem, é óbvio.
— Não vai fazer diferença no gosto dela — gritou alguém.
Winter começou a rir. Todos tinham se tornado animais. Até Scarlet estava lupina, com orelhas pontudas e uma cauda fofinha e pelo vermelho ardente. Winter virou o focinho para o teto cavernoso e cantarolou:
— E a Terra está cheia esta noite, esta noite, e todos os lobos estão uivando, auuuuuuu…
Uma das mãos — patas? — no antebraço dela afrouxou.
Ela uivou de novo.
— Uma princesa de Artemísia que não usa o dom? — murmurou Alfa Strom. — Por escolha própria?
— Ela acha errado controlar as pessoas e não quer acabar como a rainha — disse Scarlet.
— Dá para ver o preço que está pagando por isso.
A voz de Winter falhou e ela parou de uivar. Quando o corpo ficou inerte de novo, as mãos a soltaram e deixaram que caísse de joelhos. Ela gemeu de dor e olhou ao redor.
Scarlet tinha voltado a ser Scarlet, os homens tinham voltado a ser soldados. Ela piscou e ficou grata quando a alucinação não voltou.
— Desculpe — disse ela. — Eu não pretendia interromper sua refeição.
Scarlet gemeu.
— Quando ela diz que nunca vai manipulá-los, está falando sério. E pretende mesmo devolver a liberdade de vocês. Duvido que recebam uma proposta tão promissora novamente.
O barulho das dobradiças antigas assustou Winter. Os soldados se afastaram. As portas enormes de ferro se abriram e os soldados se separaram, formando filas organizadas com a rapidez de uma máquina lubrificada. Scarlet aproveitou a oportunidade para pegar a arma e prender na calça.
Atrás das portas havia oito taumaturgos, um de vermelho, de segundo nível, o resto de preto.
O taumaturgo de casaco vermelho, um homem de cabelo grisalho, viu Winter e Scarlet e deu um sorriso de víbora para elas.
— Oi, Alteza. Soubemos que você poderia estar aqui.
Alguns dos soldados chegaram para o lado, abrindo caminho entre os taumaturgos e Winter.
— Oi, taumaturgo Holt — respondeu Winter, levantando-se em pernas bambas, embora ainda estivessem doendo. Ela achava que devia sentir medo daqueles homens e mulheres; normalmente, só de ver os casacos e as runas bordadas era tomada de ansiedade e medo e mil lembranças de pessoas morrendo no chão da sala do trono. Mas todo o medo dela tinha se esgotado.
— Quando o sistema captou sua identificação, achei que devia ser erro. Eu não achei que você fosse louca o bastante para vir aqui. — Ele olhou para os soldados. — Vocês não estavam com fome? Ou as garotas não são atraentes o bastante para seu gosto?
— Ah, eles estavam com muita fome, sim — disse Winter, lutando para ficar de pé. — Não é verdade, amigos alfas, amigos lobos? — Ela virou a cabeça para o lado. — Mas eu tinha esperanças de que pudessem me proteger e lutar por mim se eu lembrasse a eles que já foram homens, homens que não queriam ser monstros.
— Acontece que eles são só cachorros treinados de Levana, no fim das contas — disse Scarlet.
Um grupo de soldados olhou para elas com irritação.
O taumaturgo Holt riu com deboche.
— Eu já tinha ouvido falar da sua língua afiada. — O olhar se desviou para o cotoco de dedo na mão de Scarlet. — Pode dizer e pensar o que quiser, filha da Terra. Esses soldados sabem o dever deles. Foram criados para executar as ordens de Sua Majestade e fazem isso sem reclamar.
— É mesmo?
Winter não sabia qual deles tinha falado, mas as palavras foram tão carregadas de ódio que a pele dela se arrepiou.
Holt olhou com irritação para os homens ao redor, arrogante e cheio de ódio.
— Espero que não seja discordância o que estou detectando, Regimento 117. Sua Majestade ficaria decepcionada se soubesse que alguns dos estimados soldados demonstraram desrespeito pelos mestres.
— Cachorrinhos estimados, você quer dizer — murmurou Scarlet. — Cada um vai ganhar uma coleira de diamantes também?
— Amiga Scarlet — sussurrou Winter —, você não está tendo consideração.
Scarlet revirou os olhos.
— Eles estão prestes a nos matar, caso você não tenha percebido.
— Estamos, sim — disse Holt. — Homens, podem matar essas traidoras.
Winter inspirou fundo, mas Alfa Strom levantou a mão, e nenhum dos soldados se mexeu.
— Interessante você ter mencionado nossos mestres, pois parece que alguns estão faltando.
Os sete taumaturgos atrás de Holt continuaram imóveis, olhando para o regimento.
Winter contou. Havia onze matilhas naquele regimento. Deveria haver onze taumaturgos para controlá-los.
— Vou perdoar sua ignorância nesse assunto — disse Holt entredentes. — Pois você não tinha como saber que nosso país está passando por um momento de tumulto. Alguns dos nossos taumaturgos de maior nível, além de guardas e até soldados como vocês, foram assassinados hoje, junto com uma tentativa de assassinato contra nossa rainha. Como você pode perceber, não temos tempo para discussões. Mandei que vocês matassem essas garotas. Se vocês se recusam, eu mesmo vou matar, e vocês vão ser punidos por desobedecerem a uma ordem direta.
Winter sentiu corpos ao redor se moverem, como aconteceu quando eles as cercaram pela primeira vez. Aproximando-se de forma quase imperceptível. Como um nó se apertando.
— Pena que vocês alteraram tanto nossos cérebros — disse Alfa Strom. — Senão poderiam nos manipular, certo? Poderiam nos obrigar a seguir sua ordem. Mas vocês nos transformaram em um bando de animais selvagens.
— Uma matilha de lobos famintos — rosnou alguém.
— Assassinos — sussurrou Winter baixinho. — Predadores, todos.
Eles se moveram em torno de Winter e Scarlet como água ao redor de pedra. Winter segurou o pulso de Scarlet e a puxou para perto, seus ombros se tocando.
— Vocês não me fizeram para ser bom em matemática — continuou Strom. — Mas, pela minha contagem, não podem punir todos nós, mesmo que quisessem.
Eles tinham formado um semicírculo em volta dos taumaturgos, que pareciam inseguros.
— Chega — cortou Holt. — Eu mandei vocês…
A tensão explodiu antes que ele terminasse. Os soldados partiram para cima dos mestres, as bocas rosnando e as mãos enormes prontas para rasgar, arranhar e arrancar.
Como uma pulsação sônica, dezenas de soldados caíram no chão, se contorcendo e segurando a cabeça. Os nós de seus dedos ficavam brancos conforme apertavam as mãos nos crânios, gritando de dor. Os poucos que ficaram de pé pularam por cima dos colegas caídos com os rostos contorcidos de fúria.
Winter se encolheu enquanto via Alfa Strom, que tinha caído na frente dela, encolhido em posição fetal, gritando. Mas o grito foi interrompido e substituído por vômito e um choramingo, seus olhos bem apertados enquanto tentava bloquear o que estava sendo feito com ele.
Aquele choramingo atingiu Winter como uma lembrança, Ryu atrás dela. O som da faca de Jacin. O sangue quente e grudento.
Winter caiu no chão e rastejou até Strom, passou as mãos pelo rosto deformado, esforçando-se para acalmá-lo. As pontas de seus dedos rachadas, terrivelmente geladas.
A briga, se é que podia ser chamada de briga, acabou em segundos. Winter não lembrava se os taumaturgos tiveram tempo de gritar. Houve o barulho de ossos esmagados, de tecido rasgado, e acabou. Um olhar rápido confirmou oito corpos sangrentos na entrada da caverna, e uns vinte e quatro soldados de pé acima deles, limpando sangue do queixo e tirando carne de baixo das unhas.
A respiração de Winter formou uma névoa no ar. O frio estava no estômago também, congelando tudo.
Os dedos ainda estavam no cabelo de Strom quando ele de repente segurou a mão dela e empurrou.
Scarlet chegou lá em um segundo, passou os cotovelos por baixo dos braços de Winter e a puxou para longe. Ao redor, os que tinham caído estavam se recuperando do tormento que os mestres tinham infligido a eles. Os rostos estavam contorcidos de dor, mas também houve satisfação quando eles viram os taumaturgos mortos.
Strom se agachou e balançou a cabeça. O olhar penetrante encontrou Winter. Ela se encolheu junto à amiga flamejante, tremendo.
As palavras de Strom saíram arrastadas quando ele falou:
— Você tem doença lunar porque não consegue controlar as pessoas como eles controlam?
Winter olhou para os taumaturgos, ou para o que sobrou deles, e se arrependeu na mesma hora. Olhou então para as pontas dos dedos frágeis.
— Ah, talvez — gaguejou ela com lábios dormentes. — Mas sei c-como é ser controlada, a-assim como você.
Strom se levantou, recuperando a força com mais rapidez do que muitos outros. Ele avaliou Winter e Scarlet por um tempo.
Por fim, disse:
— Ela vai mandar mais cães de caça para nos punir por isso. Eles vão nos torturar até estarmos implorando aos pés deles, como os cachorros que somos. — Apesar de a voz soar rouca, um sorriso surgiu na boca cruel. — Mas conhecer o gosto e o cheiro de sangue de taumaturgo compensa.
Um soldado uivou em concordância, e logo vários uivos soaram juntos, perfurando os tímpanos de Winter e fazendo a caverna tremer. Alfa Strom se virou para o regimento, e houve um momento de celebração, punhos batendo em punhos e uivos que pareciam não terminar.
Winter se obrigou a se levantar, embora ainda estivesse com frio e tremendo. Scarlet ficou ao lado dela, um pilar.
A voz de Winter estava forte quando ela perguntou:
— Agora vocês estão saciados?
Strom se virou e as parabenizações agitadas entre os homens começaram a se dissipar. Os olhos ainda exibiam fome quando se viraram para as duas garotas.
— Seus desejos estão saciados? — perguntou Winter. — Sua fome foi aliviada?
— Winter — sibilou Scarlet. — O que você está fazendo?
Ela sussurrou em resposta:
— Eu estou descongelando.
Scarlet franziu a testa, mas Winter deu um passo para longe dela.
— E então? Vocês estão saciados?
— Nossa fome nunca é saciada — rosnou um dos soldados.
— Foi o que pensei — disse Winter. — Sei que vocês querem comer a mim e minha amiga, pois seríamos um lanchinho suculento e delicioso. — Ela sorriu, não tão apavorada com a ideia como estava antes. — Mas, se decidirem nos ajudar, talvez em pouco tempo possam se empanturrar com a própria rainha. E a carne dela vai ser mais satisfatória do que a nossa, não vai? Mais satisfatória até do que a dos seus mestres mortos ali na porta?
Um silêncio se espalhou por eles. Winter viu os cálculos por trás dos rostos e ouviu alguns deles sugando os dentes.
— Lutem comigo — disse ela quando bastante tempo tinha se passado e nem ela e nem Scarlet foram devoradas. — Não vou controlar vocês. Não vou torturar vocês. Me ajudem a acabar com o reinado de Levana, e vamos todos conquistar a liberdade.
Alfa Strom olhou nos olhos de alguns soldados (os outros alfas, presumiu ela) antes de fixar um olhar penetrante nela.
— Não posso falar pelo regimento todo — disse ele. — Mas aceito sua proposta. Se você jurar nunca nos controlar como eles fizeram, minha matilha vai lutar pela sua revolução.
Alguns homens assentiram. Outros rosnaram, mas Winter achou que era um rosnado de concordância.
Em resposta, ela levantou o nariz na direção do teto da caverna e uivou.

Um comentário:

  1. the girl you'll never know who it is9 de março de 2019 23:34

    Ah meu Deus que bom que vocês conseguiram,sério eu já tinha tido um ataque cardíaco no lugar de vocês

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Boa leitura, E SEM SPOILER!