20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e nove

Scarlet esperou até os uivos pararem de ecoar pelas paredes da caverna e se jogou na frente de Winter.
— Você entende que, ao aceitar nos ajudar, só pode atacar a rainha Levana e as pessoas que servem a ela — disse ela, apontando para Strom. — Nada de civis, em hipótese nenhuma, nem mesmo aqueles aristocratas irritantes, a não ser que eles se mostrem uma ameaça. Nosso objetivo é destronar Levana, não massacrar a cidade toda. E também não vamos dar a vocês um almoço grátis. Esperamos que vocês sigam ordens e sejam úteis. Isso pode querer dizer treinar algumas pessoas dos setores para lutar e usar armas, ou pode querer dizer tirar pessoas feridas do fogo cruzado… não sei. Mas não quer dizer que vocês podem sair correndo pelas ruas de Artemísia destruindo tudo o que veem. Podemos concordar com isso?
Strom sustentou o olhar dela, com a ferocidade novamente virando diversão.
— Entendo por que seu companheiro a escolheu.
— Não estou atrás de comentários pessoais — disse ela com rispidez.
Strom assentiu.
— Aceitamos suas exigências. E, quando Levana se for, seremos homens livres, podendo seguir a vida que escolhermos.
— Desde que essa vida siga as leis da sociedade… sim. Isso mesmo.
Strom observou a multidão. Se não fosse por todo o sangue, pareceria que as mortes dos taumaturgos não aconteceram.
— Alfa Perry? Alfa Xu?
Um a um, ele contou os alfas restantes, e um a um eles aceitaram os termos de Scarlet e Winter. Quando acabou, Winter se virou para Scarlet com um sorriso lacrimoso, mas encantador.
— Eu falei que eles se juntariam a nós.
Scarlet respirou fundo.
— Precisamos descobrir o que está acontecendo na superfície. Tem alguma forma de nos comunicarmos com os setores? Dizer para eles que a revolução vai acontecer, mesmo que Cinder…
Ela não conseguiu terminar a frase. Não fazia ideia do que tinha acontecido com Cinder, com Lobo.
Lobo. Ze’ev. Seu companheiro alfa.
Pensar nele abria um buraco em seu peito, então ela não pensaria. Acreditaria que ele estava vivo porque tinha que estar.
— Temos que ir para a superfície de qualquer jeito — disse Strom. — Esses tubos de lava não têm ligação com os trilhos dos trens de levitação magnética. Ou… têm, mas nos obrigariam a fazer um desvio muito grande. É melhor subirmos até o setor mais próximo e nos infiltrarmos nos túneis por lá.
— Qual é o setor mais próximo? — perguntou Scarlet.
— EM-12 — disse alguém. — Extração e produção de madeira. É um trabalho perigoso, com muitos acidentes. Duvido que sejam simpatizantes de Sua Majestade.
— Talvez tenhamos a sorte de conseguir armas lá também — disse outro.
— Qual é a distância até lá? — perguntou Scarlet.
— Aqui era o depósito de EM-12. — Strom apontou para o teto. — Está bem acima das nossas cabeças.
Quando eles voltaram para as cavernas, demorou menos de dez minutos para um homem abrir uma porta de metal que levava a uma escadaria estreita. Parecia uma quantidade interminável de degraus. O espaço confinado logo ficou abafado e quente.
— Amiga Scarlet?
A voz frágil de Winter deixou Scarlet tensa. Ela fez uma pausa, olhou para baixo e viu a princesa usando o corrimão antigo preso à parede para se empurrar para a frente, ao mesmo tempo que usava as pernas. A respiração estava pesada, e não era por causa da subida.
— O que foi?
— Sou uma garota feita de gelo e neve — sussurrou a princesa. Seus olhos perderam o foco.
Scarlet falou um palavrão e contornou um grupo de soldados para chegar até a princesa. Todos pararam, e Scarlet se sentiu estranhamente tocada com a preocupação que viu nos olhos de alguns soldados.
Só Winter mesmo para deixar um bando de predadores sádicos e explosivos doidos por ela. Embora Scarlet não gostasse de pensar que o que ela e Lobo tinham era construído com base em instintos animais, não deixou de se perguntar se o mesmo tipo de instinto estava em jogo ali. Uma vez que elas persuadiram os homens a se juntar à causa delas, estariam eles passando de predadores assassinos a predadores protetores?
Talvez tivessem vivido com violência e escuridão por tanto tempo que uma mera rachadura na armadura bastava para que desejassem algo mais profundo.
Ou talvez fosse Winter, que era capaz de fazer uma pedra se apaixonar por ela se sorrisse do jeito certo.
— Você está tendo uma alucinação? — perguntou Scarlet, apertando a mão na testa de Winter, apesar de não ter certeza do que estava procurando ali. — Não está gelada. Consegue andar? Ainda está respirando?
Winter baixou o olhar.
— Meus pés estão presos em cubos de gelo.
— Seus pés estão ótimos. Tente andar.
Com um esforço absurdo, Winter subiu mais um degrau. Mas parou de novo, ofegante.
Scarlet suspirou.
— Tudo bem. Você é uma garota de gelo e neve. Alguém pode ajudá-la?
O soldado mais próximo segurou o pulso de Winter e passou o braço dela por seus ombros, para que ela se apoiasse no corpo dele para subir a escada. Em pouco tempo, ele a estava carregando.
Eles chegaram ao alto e saíram em um tanque de aço que devia ser usado para sustentar a atmosfera artificial enquanto os domos estavam sendo construídos. Em pouco tempo, estavam do lado de fora.
Ou tão do lado de fora quanto possível em Luna, o que Scarlet achava que era uma representação triste.
— Isso deveria ser uma floresta? — murmurou ela, observando as árvores baixas e magrelas em fileiras perfeitas.
Depois dos troncos ao longe, ela via uma área ampla que tinha sido cortada recentemente e, do outro lado, hectares de árvores novas.
Bem à frente, no centro do domo, ela identificou a forma de um chafariz, idêntico ao do setor de mineração, situado em uma clareira entre as árvores. A grama ao redor parecia sem cuidados.
Alfa Strom foi na frente, na direção contrária ao chafariz, para as residências. Dava para ouvir barulho de gente. Muita gente. Quando eles chegaram às ruas residenciais principais, Scarlet viu dezenas de civis segurando uma variedade de armas (a maioria pedaços de pau), de pé em fileiras organizadas e sendo guiadas por uma série de manobras. Um homem de peito largo e barba estava andando pelas fileiras, gritando coisas como:
— Desviem! Ataquem! Tem alguém atrás de você!
Até os olhos destreinados de Scarlet viam que os movimentos das pessoas eram desajeitados e descoordenados e que elas formavam um grupo terrível, a maioria com aparência magra e faminta como as pessoas do setor mineiro. Mesmo assim, era animador saber que estavam atendendo ao chamado de Cinder.
Scarlet teve o pensamento horrível de que podiam estar enviando essas pessoas para a morte, mas afastou a ideia.
Um grito surpreso interrompeu o treinamento. Eles foram vistos.
Scarlet e cem mutantes saíram das sombras da floresta. O primeiro grito gerou outras dezenas, e as fileiras se separaram, recuaram. Mas as pessoas não correram. O que aconteceu foi que, conforme Scarlet e os soldados mutantes se aproximaram, as pessoas levantaram as armas, tentando esconder o terror por trás de coragem fingida. Ou talvez fosse a coragem mais verdadeira que existia.
As pessoas deviam estar esperando alguma coisa assim. Não seria surpresa Levana puni-las por essa exibição clara de rebelião. Mas cem soldados eram muito além das expectativas delas.
Fiéis à palavra, os soldados não atacaram, só seguiram em frente até estarem a vinte passos da primeira fila de cidadãos.
Scarlet prosseguiu e se separou do grupo.
— Sei que eles têm uma aparência assustadora — disse ela. — Mas não estamos aqui para machucar vocês. Somos amigos da princesa Selene. E vocês talvez reconheçam Vossa Alteza, a princesa Winter.
A cabeça de Winter rolou no ombro do homem que a carregava.
— É um grande prazer conhecer todos vocês — murmurou ela, parecendo meio bêbada.
Scarlet sentiu orgulho dela pelo esforço.
As pessoas apertaram os pedaços de pau e as lanças, ou o que quer que aquelas coisas fossem.
O homem barbado abriu caminho até a frente da multidão, parecendo durão e ansioso ao mesmo tempo.
— A princesa Winter está morta.
— Não, não está — disse Scarlet. — A rainha tentou mandar matá-la, mas falhou. Tudo o que contou para vocês era mentira.
O homem ficou olhando para Winter por bastante tempo, seu rosto contorcido de desconfiança.
— Não é glamour — disse Scarlet. — É ela mesmo. — Ela hesitou, revirando os olhos. — Não que eu tenha forma de provar. Mas, se quiséssemos matar vocês, para que fazer isso tudo? Olhem, estamos aqui para nos juntar a vocês no cerco a Artemísia. Esses homens aceitaram lutar por nós.
O homem a observou.
— Quem é você?
— Meu nome é Scarlet Benoit. Sou… — Ela lutou para pensar em como se intitular. A piloto? A fêmea alfa?
— Ela é terráquea — disse alguém. Ela achava irritante que eles percebessem com tanta facilidade, como se ela tivesse uma marca.
— Sou amiga da princesa Selene — declarou ela. — E sou amiga da princesa Winter. E há bem pouco tempo eu era prisioneira da rainha Levana. Ela cortou meu dedo. — Ela levantou a mão. — E matou minha avó, e agora pretendo ajudar Selene a tirar tudo dela. — Ela indicou os soldados. — Esses homens escolheram nosso lado, e não o de Levana, assim como vocês, e são as melhores armas que temos. Talvez eles possam ajudar no treinamento de combate. — Ela se virou para Strom. — Certo?
Mas a expressão de Strom não foi tão conciliadora quando ele parou ao lado dela.
— Nós dissemos que íamos ajudar e vamos mesmo, mas não vamos ficar parados aqui a noite toda ouvindo negociações com um bando de lenhadores. Se não nos querem aqui, vamos encontrar um setor que queira.
Scarlet riu com deboche.
— Boa sorte.
Ele rosnou para ela. Ela rosnou para ele.
Com os lábios apertados, o homem barbado olhou dos civis nervosos com pedaços de paus afiados para os soldados fortes e cobertos de pelos.
— Mandamos mensagens para os setores próximos sempre que podemos, mas é difícil tentar coordenar o ataque. Os transportes não estão funcionando. E não somos guerreiros.
— Obviamente — resmungou um dos soldados.
Alguém na multidão sibilou:
— Conte sobre os guardas.
Scarlet levantou as sobrancelhas quando o medo da multidão foi substituído por peitos estufados e colunas empertigadas.
— Guardas?
— Um regimento de guardas armados ficou aqui durante anos e falamos em tentar dominá-los, até fizemos planos para isso antes, mas sempre pareceu sem sentido se Levana ia simplesmente mandar mais. Mas assim que a mensagem de Selene chegou… — Ele sorriu para os companheiros. — Nosso plano funcionou. Nós os desarmamos em minutos, e eles estão trancados em um dos depósitos na fábrica. — Ele cruzou os braços. — Houve fatalidades, mas sabíamos que isso aconteceria. Estamos dispostos a fazer o que tem que ser feito, assim como as pessoas de MR-9. Acredito que Selene nos deu o que pode ser nossa única chance.
Scarlet piscou.
— O que tem as pessoas de MR-9?
— Dizem que Selene esteve lá, e que havia uma mulher que a abrigou. Ela era só uma mineira, não era ninguém especial, mas provou o quanto podemos ser corajosos.
— Maha Kesley — sussurrou Scarlet.
O homem levou um susto.
— Isso mesmo. — Ele olhou para o povo reunido, com o maxilar firme. — Ela foi morta por oferecer sua casa para nossa verdadeira rainha, mas a morte dela não vai ser em vão, assim como as mortes de todos os que resistiram a Levana no passado.
Scarlet assentiu, embora ainda estivesse meio tonta. Aimery queria que a morte de Maha fosse um aviso para qualquer pessoa que ficasse do lado de Cinder, mas ali, pelo menos, teve o efeito oposto.
Maha Kesley se tornou mártir.
— Você está certo — disse ela. — Selene não precisa que vocês sejam guerreiros. Maha Kesley não era, mas era corajosa e acreditava na nossa causa. É dessa determinação que a revolução precisa.
— Ter mais alguns guerreiros não faria mal — murmurou Strom, pegando um pedaço de pau do civil mais próximo, que se encolheu. — Pessoal, voltem à formação! Vamos ver se conseguimos fazer vocês parecerem um pouco menos patéticos.

Um comentário:

  1. the girl you'll never know who it is9 de março de 2019 23:50

    AI SIM!!Senhor isso é a história acontecendo!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!