13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e nove

FOI COMO SER ARRASTADO DEVAGAR DA ESCURIDÃO SERENA, da forma como se acorda quando se está tendo um sonho lindo e o subconsciente luta para permanecer lá só mais um pouquinho. Mas, com resignação furiosa, Kai acordou, os olhos bem abertos olhando para um teto desconhecido. O estrado da cama superior de um beliche.
Ele esfregou os olhos e pensou que talvez ainda não tivesse acordado. O peito estava latejando, e havia um nó enjoado no estômago. Ele virou a cabeça para o lado e sentiu uma dor no pescoço. Ao levantar a mão, descobriu uma atadura presa perto do couro cabeludo.
Mas sua atenção já estava seguindo em frente, vagando pelo aposento. Havia uma mesinha e um armário utilitário do outro lado, embora o quarto fosse tão pequeno que ele quase conseguisse tocar de onde se encontrava. Uma luz fraca estava acesa ao lado da porta. As paredes eram de metal, e o cobertor meio áspero onde ele estava deitado era de um tom militar de marrom.
Com a pulsação acelerando, ele esticou a mão para a cama de cima para não bater a cabeça quando botou os pés no chão. Os pés pousaram no piso sem tapete com um baque, e ele ficou surpreso de descobrir que estava de sapatos.
Sapatos de festa.
E calça de festa.
E a camisa do casamento e a faixa, amassada e solta.
Grandes estrelas. O casamento.
Com a boca seca de repente, Kai pulou da cama e cambaleou para a pequena janela. Apoiou as mãos de cada lado dela. Seu estômago despencou junto com o queixo.
Grandes estrelas mesmo. Ele nunca tinha visto tantas na vida, e nunca tão brilhantes.
Provocou nele uma estranha sensação de tontura, como se devesse estar olhando para o céu noturno, mas a gravidade estava errada. Onde estava o horizonte para se orientar?
Um suor frio cobriu sua testa quando ele encostou a bochecha na parede, tentando espiar o mais longe que a janelinha permitia, e então...
A Terra.
Kai se afastou da parede. Quase caiu, mas se apoiou no colchão de cima do beliche. Seu coração acelerou e tremeu.
Os mistérios começaram a clarear no cérebro enevoado. Cinder. Uma faca. As ataduras no pulso e no pescoço, os chips de rastreamento. O chip no pescoço não era para ser secreto? E uma arma, alguma coisa embutida na mão dela. O ardor persistente ao lado do esterno.
Ela tinha atirado nele?
Ele passou a mão pelo cabelo, se virou e abriu a porta.
Viu-se em um corredor estreito, mais iluminado do que o quarto. Na extremidade, havia um tipo de cozinha. Ele ouvia vozes vindas da outra direção. Empertigando os ombros, andou nessa direção.
O corredor levava a um enorme aposento de metal, cheio de caixas plásticas. Pela porta, ele viu as luzes e instrumentos de um cockpit, além de outra vista de tirar o fôlego da Terra.
Duas pessoas estavam sentadas no cockpit quando ele se aproximou.
— Onde está Cinder?
Elas se viraram para olhar para ele, e a garota ficou de pé.
— Vossa Majestade!
O homem, com um sorriso enorme se abrindo no rosto, demorou mais para ficar de pé porque pegou antes uma bengala apoiada na parede.
— Bem-vindo a bordo da Rampion, Vossa Majestade. Sou o capitão Carswell Thorne a seu serviço.
Ele fez uma reverência.
Kai fez uma careta.
— É, reconheci você.
— É mesmo? — O sorriso do homem ficou mais largo, e ele cutucou a garota com o cotovelo. — Ele me reconheceu.
— Onde está Cinder?
A garota se balançou nervosamente.
— Acho que está na doca das naves de passeio, Vossa Majestade.
Kai se virou e marchou na direção do compartimento de carga, mas deu um gritinho. Havia outro homem sentado de pernas cruzadas sobre uma caixa, sem camisa, com uma agulha na mão, um pedaço de linha na boca e uma pilha de ataduras ensanguentadas ao lado. O tronco estava coberto de inúmeros ferimentos e cicatrizes, velhos e novos. Ele tinha uma tatuagem preta no braço esquerdo.
Depois de passar a agulha por um corte no peito, soltou a linha da boca e assentiu.
— Vossa Majestade.
Com o coração na garganta, Kai se viu preso ao chão, esperando que o homem pulasse nele e o torturasse até a morte a qualquer momento. Ele ainda não tinha visto um dos soldados lobos da rainha de perto, mas havia assistido a muitas filmagens. Sabia o quanto eram rápidos e mortais.
No entanto, depois de um momento constrangido e silencioso, o homem voltou a atenção para o ferimento.
— Hum. Vossa Majestade?
Kai levou um susto e olhou de novo para a garota loura.
— Você gostaria que eu o levasse para a doca?
Ele se forçou a abrir as mãos e lembrou a si mesmo que era o governante da Comunidade dos Países Orientais e se comportaria de acordo com sua posição, mesmo entre criminosos e monstros.
— Obrigado — disse ele com a voz falhada. — Eu agradeceria muito.


CINDER MORDEU O LÁBIO INFERIOR ENQUANTO GIRAVA OS FIOS, apertando com um conector.
— Tudo bem, experimente isso.
Iko, deitada de costas, olhou para baixo e depois inclinou a cabeça para a esquerda. Seus olhos se iluminaram e ela tentou a direita, ousando testar o movimento completo.
Ela abriu um sorriso.
— Funciona!
Cinder bateu o cabo do alicate no queixo.
— Aquela terceira vértebra ainda está um pouco torta, mas não tem nada que eu possa fazer agora. Vamos ter que esperar até eu encontrar uma peça para trocar. Experimente usar os dedos de novo.
Iko mexeu os dedos das mãos e dos pés. Levantou as pernas até estarem perpendiculares ao chão e continuou até praticamente beijar os joelhos. Com um gritinho de prazer, ela se jogou para a frente e usou o impulso para ficar de pé.
— Funciona! Tudo funciona!
— Iko, pare! — Cinder ficou de pé ao lado dela. — Ainda preciso...
Antes de ela terminar, Iko a puxou para perto e a abraçou e balançou e tremeu de alegria.
Um androide. Tremendo de alegria.
— Você é a melhor mecânica que uma androide poderia desejar.
— Diga isso quando não estiver com um buraco enorme no pescoço — disse Cinder, soltando-se do abraço.
Iko verificou o reflexo na janela da nave de passeio e se encolheu. A cobertura da parte de cima do pescoço até o esterno estava aberta para Cinder poder ter acesso aos mecanismos internos. O processador central, os fios e a mecânica de mobilidade permaneciam completamente à mostra.
— Ah, eca — disse Iko, tentando cobrir o buraco com as mãos. — Odeio quando meus fios aparecem.
— Sei como é. — Cinder pegou um alicate na faixa magnética da parede. — Venha aqui. Vou ver se consigo dobrar parte dessa cobertura externa e botar no lugar. Uma boa parte das suas fibras de pele não tem conserto, então não vai ficar perfeito, mas é o que posso fazer agora. Você talvez tenha que usar blusas de gola alta por um tempo.
Suspirando, Iko ficou de pé ao lado de Cinder.
— Logo quando o capitão Thorne traz esse corpo maravilhoso para mim, os lunares idiotas estragam tudo.
Cinder deu um sorrisinho.
— Pare de falar por um minuto enquanto faço isso.
Iko bateu com impaciência os dedos nos quadris enquanto Cinder dobrava a cobertura externa em algo que se parecia com a forma de uma clavícula.
Atrás dela, a porta zumbiu e se abriu.
— Aqui está ela, Vossa Majestade.
Cinder enrijeceu com o alicate ainda preso na cobertura de Iko. Ouviu passos, e Iko deu um gritinho e empurrou Cinder e a ferramenta para longe.
— Não deixe que ele me veja assim! — gritou ela, mergulhando atrás da nave de passeio.
Cinder engoliu em seco, enfiou o alicate no bolso de trás e se virou lentamente. O olhar de Kai estava pesado ao se dirigir para ela e para a nave, com as pernas de Iko aparecendo embaixo, e para os baús de ferramentas e cabos de força presos às paredes, até voltar a Cinder.
Cress e Thorne ficaram na porta, curiosos.
— Você acordou — gaguejou ela. E então, percebendo que era uma coisa idiota de dizer, tentou ficar mais ereta. — Como está se sentindo?
— Sequestrado. Como eu deveria me sentir?
Ela massageou o pulso e ficou tentada a usar um glamour para esconder a mão ciborgue. O que também era idiotice, claro. Além do mais, era o tipo de coisa que Levana faria.
— Eu estava torcendo para que você estivesse se sentindo descansado — disse ela, com um sorriso fraco e hesitante.
Ela não recebeu reação alguma. Nenhum sorriso. Nenhuma risadinha. Nem mesmo um vislumbre de humor.
Ela apertou bem os lábios.
— Precisamos conversar — disse Kai.
Thorne soltou um assobio lento.
— Ninguém gosta de ouvir essas palavras.
Cinder olhou para ele com raiva.
— Thorne, por que você não dá uma aula de controles do cockpit para Iko?
— Excelente ideia — falou Cress, empurrando Thorne pela porta. — Venha, Iko.
Iko ainda estava escondida e abraçando o corpo com vergonha.
— Ele está olhando?
Kai ergueu uma sobrancelha.
— Ele não está olhando — disse Cinder.
Uma hesitação.
— Tem certeza?
Cinder fez um gesto exasperado para Kai.
— Você não está olhando.
Ele olhou para o teto.
— Ah, por todas as estrelas.
Ele cruzou os braços e virou-se de costas.
Cinder acenou para Iko.
— Está limpo. Vamos terminar isso... depois.
Com as tranças balançando, Iko correu para se juntar a Cress e Thorne no corredor.
— Estou tão feliz de ver que você está bem, Vossa Majestade! — gritou ela para as costas dele.
Quando a porta se fechou, Iko fez um sinal encorajador de positivo para Cinder.
E eles ficaram sozinhos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!