20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e dois

Kai estava grudado no chão, uma estátua cercada de tormento. Levana estava gritando, não, berrando; sua voz normalmente melódica estava rouca e insuportável. Estava dando ordens (Encontrem-na! Tragam-na de volta! Matem-na!), mas ninguém ouvia. Não tinha sobrado ninguém para ouvir.
Quase todos os guardas estavam mortos. Os taumaturgos estavam mortos. Os soldados lobos estavam mortos. Uma quantidade de corpos de servos e de aristocratas se espalhava pelo chão também, caídos em meio ao sangue e à mobília quebrada, vítimas de soldados híbridos famintos, soltos em uma multidão alheia e desarmada.
Ao lado dele, Levana arrancou o colar de uma mulher lunar e jogou para uma serva encolhida no chão, respingada de sangue.
— Você! Traga mais guardas! Quero todos os guardas e taumaturgos do palácio nesta sala agora. E vocês… limpem essa sujeira! Por que estão aí parados?
Os criados se dispersaram, meio engatinhando e meio escorregando na direção das saídas escondidas nas paredes.
A percepção começou a tomar o lugar do choque, e Kai olhou ao redor e viu um grupo de líderes terráqueos amontoados em um canto. Torin estava entre eles. Parecia abalado. O terno estava desgrenhado.
— Você está machucado? — perguntou Kai.
— Não, senhor. — Torin foi até Kai e se segurou nas costas das cadeiras, para não escorregar no chão cheio de sangue. — E você?
Kai balançou a cabeça.
— Os terráqueos…?
— Todos aqui. Nenhum parece estar ferido.
Kai tentou engolir, mas sua garganta pareceu seca demais e a saliva ficou grudada até ele tentar novamente.
Ele viu Aimery saindo de uma das alcovas de servos, o único taumaturgo a sobreviver, embora mais tivessem chegado depois. Os membros da corte que ainda não tinham fugido da sala do trono estavam colados às paredes de trás, chorando histericamente ou falando sem parar, tentando reviver o evento traumático e juntando as partes da história. Quem viu o que e quais guardas atiraram em quem e aquela garota acreditava mesmo que era a princesa perdida?
Cinder, faminta e cercada de inimigos, provocou tanta destruição em tão pouco tempo, bem na frente da rainha. Era estranho. Impossível. Meio incrível.
Uma gargalhada subiu pela garganta de Kai, tremendo descontrolada em seu diafragma. Suas emoções estavam dilaceradas por medo, pânico e espanto. A histeria o atingiu como um soco no estômago. Ele colocou a mão sobre a boca na hora em que a gargalhada enlouquecida saiu e se transformou rápido em respiração acelerada de pânico.
Torin colocou a mão entre as omoplatas dele.
— Majestade?
— Torin — gaguejou Kai, lutando para respirar. — Você acha que ela está bem?
Apesar de Torin parecer em dúvida, ele respondeu:
— Ela se mostrou bastante resiliente.
Kai começou a atravessar a sala do trono, os sapatos do casamento deixando pegadas no sangue grudento. Ao chegar à beirada, ele espiou a água. Não deu para ver da cadeira onde estava sentado antes qual era o tamanho da queda. Quatro andares, pelo menos. Seu estômago deu um nó. Ele não via a margem oposta. Na verdade, o lago ia até tão longe que parecia chegar até a parede do domo.
Embora o ar estivesse parado, a água estava agitada e preta como tinta. Ele procurou e procurou qualquer coisa que indicasse um corpo, uma garota, um brilho de membro de metal, mas não havia sinal dela.
Ele tremeu. Cinder sabia nadar? O corpo dela tinha sido feito para nadar? Ele sabia que ela tinha tomado banho a bordo da Rampion, mas estar totalmente submersa…
— Será que ela sobreviveu?
Kai deu um pulo. Levana estava a poucos metros, com os braços cruzados e as narinas dilatadas. Kai se afastou dela, tomado pelo medo irracional de que ela fosse empurrá-lo.
Mas, assim que recuou, ele lembrou que ela ainda poderia fazê-lo pular.
— Não sei — disse ele. Para provocá-la, acrescentou: — Foi um entretenimento maravilhoso, a propósito. Eu tinha altas expectativas, e você não decepcionou.
Ela rosnou, e ele ficou feliz de ter recuado.
— Aimery — disse ela, com rispidez. — Mande o lago ser todo examinado até de manhã. Quero que o coração da ciborgue seja servido em uma bandeja de prata.
Aimery fez uma reverência.
— Será feito, Vossa Majestade. — Ele assentiu para o grupo de taumaturgos que chegou depois de toda a ação, tentando passar a ideia de que a destruição na sala do trono não era tão chocante assim. Quatro saíram. — Infelizmente, tenho que informar Vossa Majestade de que houve uma confus…
— É óbvio que houve uma confusão! — berrou Levana. Ela apontou o dedo com unha vermelha para o lago. — Você acha que não estou vendo?
Aimery apertou os lábios.
— Claro, minha rainha, mas tem outra coisa.
O olhar dela pegou fogo.
— O que mais poderia ser?
— Como Vossa Majestade sabe, o julgamento e a execução de hoje foram transmitidos para todos os setores. Parece que, como resultado da fuga da ciborgue, o povo está… está se rebelando. Em vários setores, ao que parece. SB-1 é o mais próximo indicado por nossas câmeras de segurança, e também parece haver uma multidão razoável de civis começando a se aproximar de Artemísia vindo desde AT-6.
— Ela não fugiu. — A voz de Levana soou fina e tensa, prestes a se partir. Kai deu outro passo para longe dela. — Ela está morta. Diga para eles que ela está morta. Ela não pode ter sobrevivido à queda. E encontre-a! Encontre-a!
— Sim, minha rainha. Vamos montar uma transmissão para informar ao povo da morte de Linh Cinder imediatamente. Mas não podemos garantir que isso por si só vá acalmar as rebeliões…
— Já chega. — Levana empurrou o taumaturgo para poder passar, andou até o trono e se plantou na frente dele. — Bloqueiem os túneis dos trens de levitação magnética de entrada e saída de Artemísia. Fechem os portos. Ninguém entra ou sai deste domo até aquela ciborgue ser encontrada e os civis de Luna se arrependerem de suas ações. Se alguém tentar passar pelo bloqueio, mande atirarem.
— Espere — disse Bromstad, o primeiro-ministro da Europa, andando na direção de Levana. A sala do trono estava quase vazia de aristocratas lunares, só havia os servos, tentando tirar os corpos da sala, e os terráqueos, tentando não parecer tão abalados quanto estavam. — Você não pode trancar os portos. Fomos convidados para um casamento, não para uma zona de guerra. Meu gabinete e eu vamos partir esta noite.
Levana ergueu uma das sobrancelhas, e esse gesto simples e elegante deixou todos os pelos da nuca de Kai eriçados. Ela se aproximou do primeiro-ministro, e apesar de Bromstad não recuar um passo, Kai viu que ele estava arrependido do que tinha dito.
Atrás dele, os outros líderes se aproximaram.
— Você quer ir embora esta noite? — perguntou Levana, a voz parecendo um ronrono novamente. — Muito bem, então. Permita-me ajudá-lo com isso.
Uma criada ali perto, que estava tentando permanecer invisível, parou de esfregar o chão e pegou um garfo. De joelhos, com a cabeça baixa, a criada entregou o garfo para o primeiro-ministro Bromstad.
Assim que a mão se fechou no cabo do garfo, o medo surgiu no rosto dele. Não só medo. Mas um medo de saber que estava segurando uma arma e que Levana poderia obrigá-lo a fazer qualquer coisa, qualquer coisa, que quisesse.
— Pare! — disse Kai, segurando o cotovelo de Levana.
Ela olhou para ele com irritação.
— Como falei antes, não vou fazer de você minha imperatriz se você atacar o líder de um país aliado. Deixe que ele vá. Deixe que todos vão. Já houve banho de sangue suficiente para um dia.
Os olhos de Levana ardiam como carvões, e houve um momento no qual Kai achou que ela pudesse matar todos e simplesmente tomar a Terra com seu exército, com o caminho livre de todos os líderes mundiais.
Ele sabia que o pensamento passou pela cabeça dela.
Mas havia muita gente na Terra, bem mais do que em Luna. Ela não poderia controlar todo mundo. Uma rebelião na Terra seria bem mais difícil de controlar se ela tentasse usar a força.
O garfo se chocou contra o chão, e Bromstad soltou todo o ar de uma vez.
— Ela não vai salvar você — sibilou Levana. — Sei que você acha que ela está viva e que essa rebeliãozinha vai dar certo, mas não vai. Em pouco tempo, eu serei imperatriz e ela estará morta. Se já não estiver. — Ela recompôs as feições e passou a mão pela frente do vestido, como se pudesse ajeitar o desastre da hora anterior. — Não sei se vou voltar a vê-lo, querido marido, até estarmos juntos para a coroação. Infelizmente, ver você está me fazendo mal.
Graças a um olhar de aviso de Torin, Kai evitou fazer um comentário sobre essa decepção inesperada.
Com um estalo de dedos, Levana mandou um dos criados preparar um banho nos aposentos dela e sumiu, sangue grudado na barra do vestido conforme ela deixava a sala do trono.
Kai expirou, tonto com tudo aquilo. A ausência repentina da rainha. O odor de ferro do sangue misturado a produtos de limpeza e ao aroma de carne grelhada. O eco dos tiros em seus ouvidos e o fato de que ele nunca esqueceria a imagem de Cinder se lançando pela varanda.
— Vossa Majestade? — disse uma voz murcha e assustada.
Ao se virar, ele viu Linh Adri e Pearl agachadas em um canto. Os rostos estavam manchados de lágrimas e sujeira.
— Nós podemos… — Adri engoliu em seco, e ele viu o movimento trêmulo do peito que ela fazia ao tentar se controlar. — Seria possível o senhor… enviar a mim e minha filha para casa? — Ela fungou, e novas lágrimas surgiram em seus olhos. Com o rosto enrugado, ela relaxou os ombros, o corpo apoiado no canto da sala. — Estou pronta… Quero ir para casa. Por favor.
Kai contraiu o maxilar, sentindo tanta pena da mulher quanto sentia desprezo.
— Desculpe — disse ele. — Mas parece que ninguém vai embora até que isso acabe.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!