13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e dois

SEGUNDOS DEPOIS QUE O DARDO BATEU NO PEITO DE KAI, SUAS PÁLPEBRAS se fecharam e ele caiu em cima de Cinder. O conselheiro deu um gritinho e ficou de pé, mas Iko o interceptou e restringiu o homem enquanto Cinder colocava o corpo inconsciente de Kai no chão.
Por um momento, ela ficou paralisada, a mente girando pelas coisas que tinha acabado de dizer, pelo que tinha acabado de fazer.
— Cinder? Você está bem? — perguntou Iko.
— Estou — murmurou ela, tremendo ao apoiar Kai na mesa e puxar o dardo. — Ele vai me odiar quando acordar, mas estou bem.
Ela não pôde evitar um olhar para a enorme janela com cortinas pesadas de seda. Para o próprio reflexo, olhando de volta para ela. Para a garota com mão de metal e cabelo desgrenhado, usando uniforme de criada.
Ela soltou a respiração devagar para espairecer a mente e puxou a mão de Kai.
— O que você vai fazer com ele?
Cinder fez uma pausa suficiente para olhar para o conselheiro. O rosto dele estava vermelho de fúria.
— Vamos levá-lo para um lugar seguro — disse ela. — Para um lugar onde Levana não vai conseguir chegar a ele.
— E você acha que isso não vai gerar repercussões? Não só para você, mas para todo mundo neste planeta. Você não percebe que estamos no meio de uma guerra?
— Não estamos no meio de uma guerra, estamos no comecinho. — Ela fixou o olhar nele. — E eu vou acabar com ela.
— Ela pode acabar com a guerra — disse Iko. — Temos um plano. E Sua Majestade vai estar seguro conosco.
Estranhamente constrangida pela confiança de Iko, Cinder se concentrou no pulso de Kai. Ela já tinha extraído tantos chips de identificação nas últimas semanas que já estava quase acostumada, embora a primeira incisão ainda a lembrasse da mão inerte de Peony e dos dedos azuis. Todas as vezes.
Uma gota grossa de sangue surgiu na pele, e Cinder inclinou instintivamente o braço dele para que rolasse pelos dedos sem manchar a camisa branca.
— Ele acredita que você encontrou a princesa perdida, Selene.
Ela fez uma pausa e, depois de um momento, olhou para Iko e para o conselheiro.
— Ele... o quê?
— É verdade? Você a encontrou?
Ela engoliu em seco e voltou a se concentrar no pulso de Kai. Esperou até as mãos pararem de tremer para tirar o pequeno chip.
— É — disse ela, a voz cautelosa ao pegar ataduras limpas no compartimento da panturrilha e enrolar no ferimento. — Ela está conosco.
— Então você também acredita que ela pode fazer diferença.
Ela trincou os dentes, mas se obrigou a relaxar ao prender as ataduras.
— Ela vai fazer diferença. As pessoas de Luna vão apoiá-la. Ela vai recuperar o trono. — Depois de embutir novamente a faca, ela reencontrou o olhar de raiva do conselheiro. — Mas, se esse casamento acontecer, não vai importar. Nenhuma revolução em Luna pode anular um casamento e uma coroação. Se vocês derem a ela esse poder, não tem nada que eu ou ninguém possa fazer para tirar dela. E sei que você é inteligente o bastante para ver as repercussões disso. — Com um suspiro, Cinder baixou a perna da calça e ficou de pé. — Entendo que você não tem motivo para confiar em mim, mas vou pedir que confie mesmo assim. Prometo que nada vai acontecer a Kai enquanto ele estiver conosco.
Em resposta, só recebeu silêncio e um olhar furioso.
Ela assentiu.
— É justo. Iko?
Iko se abaixou e pegou o cotovelo de Kai. Juntas, elas o levantaram e passaram um braço sobre os ombros de cada uma.
Elas o arrastaram por quatro, cinco passos na direção da porta.
— Ele tem outro chip.
Elas pararam.
O conselheiro, ainda sentado no divã, ainda com expressão de raiva, pareceu irritado consigo mesmo.
— O que você quer dizer?
— Tem um segundo dispositivo de rastreamento atrás da orelha direita dele. Para o caso de alguém algum dia tentar sequestrá-lo.
Cinder deixou que Iko sustentasse o peso de Kai e esticou a mão hesitante para a cabeça pendente. Afastou o cabelo dele e apertou os dedos no espaço entre a coluna e o crânio. Havia uma coisa pequena e dura encostada no osso.
Ela assentiu para o conselheiro.
— Obrigada — disse ela, ejetando a faca de novo.
Ele grunhiu.
— Se alguma coisa acontecer com ele, Linh-mèi, vou caçá-la e matá-la eu mesmo.


UMA GOTA DE SUOR DESCEU PELA COLUNA DE CRESS, MAS AS MÃOS estavam ocupadas demais para limpar. Os dedos voavam sobre as telas, observando listas e códigos, verificando pela terceira vez o que tinha feito.
O sistema de segurança de circuito fechado estava desligado, incluindo todas as câmeras, escâneres, software de identificação e alarmes.
Os dois sistemas de apoio estavam desativados, e ela não encontrou evidências de um terceiro esperando para ser acionado e estragar todo o trabalho assim que ela virasse as costas.
A conexão com os aparelhos de espionagem lunar tinha sido cortada.
Ela tomou cuidado para que todas as trancas digitais da torre norte estivessem desabilitadas, além de qualquer porta entre esse centro de controle de segurança e a ala de pesquisa. Tomou o cuidado especial de quebrar a tecnologia de radar embutida nas esculturas decorativas qilin do telhado, para que não detectassem a aproximação da Rampion.
Todos os elevadores estavam paralisados, exceto um único na torre norte, ainda parado no décimo quarto andar, esperando que Cinder e Iko fugissem.
O que estava demorando uma eternidade.
Ela afastou os dedos da tela principal e ergueu o olhar. As dezenas de telas ao redor estavam pretas, com apenas duas palavras piscando: ERRO OPERACIONAL.
— Pronto. — Ela se encostou. — Acho que é tudo.
Não havia ninguém por perto para ouvi-la. A parede de vidro que a separava de Lobo e do resto do Subnível D era à prova de som, à prova de balas e provavelmente à prova de um monte de outras coisas que ela nem imaginava. Cress se afastou da mesa.
Lobo estava no pequeno saguão, encostado na parede perto da porta que levava à escadaria. Em algum momento, ele tinha tirado o paletó do smoking e a gravata-borboleta, desabotoado o colarinho e dobrado as mangas. O cabelo não estava mais arrumado, mas espetado em vários ângulos. Ele parecia entediado.
Aos pés dele, espalhados no chão do saguão, havia pelo menos trinta guardas do palácio.
Ele olhou nos olhos de Cress na hora em que a porta que levava à escada se abriu e um guarda atacou com a arma erguida.
Cress gritou, mas Lobo só segurou o braço do guarda, dobrou-o nas costas dele e acertou um golpe preciso na lateral do pescoço.
O guarda desmoronou, e Lobo o colocou cuidadosamente na pilha de colegas.
E então esticou as palmas das mãos para Cress, como se perguntando por que estava demorando tanto.
— Certo — murmurou ela para si mesma, com o coração disparado.
Ela examinou a tela com o relatório da situação do elevador mais uma vez e viu que só um estava se movendo. Descendo do décimo quarto andar na torre norte.
Um sorriso surgiu nos lábios dela, mas foi sufocado pela avalanche de ansiedade.
Inclinada sobre o painel de controle, ela ligou o tablet ao console principal e acionou o cronômetro.


O DR. ERLAND OLHOU PARA A PEQUENA TELA NO PAINEL DA MÁQUINA que cuspia um fluxo de dados, documentando a estabilidade das células-tronco de Thorne, cada passo do procedimento automatizado e os detalhes da reação química que acontecia em nível celular dentro do pequenino frasco plástico encaixado. Demorava uma eternidade, mas eles não estavam com pressa. Ainda não. Atrás dele, Thorne permanecia sentado na mesa do laboratório, batendo com os calcanhares nas laterais.
A tela de dados se iluminou.
SOLUÇÃO COMPLETA. REVISAR OS PARÂMETROS ABAIXO.
Ele deu uma olhada rápida nos tais parâmetros antes de se permitir ficar satisfeito. Depois de retirar o frasco, ele procurou um conta-gotas na bancada.
— Terminei.
Thorne puxou a venda ao redor do pescoço.
— Mas já?
— Seu sistema imunológico vai ter que fazer o resto. Vamos precisar umedecer seus olhos quatro vezes por dia durante uma semana, mais ou menos. Sua visão deve começar a voltar depois de seis ou sete dias, mas vai ser gradual. Seu corpo está praticamente gerando um novo nervo óptico, o que não acontece da noite para o dia. Agora... você consegue ser um garoto crescido e pingar as gotas sozinho?
Thorne franziu a testa.
— É sério? Você quer que a gente tenha vindo até aqui e eu fure meu próprio olho?
Suspirando, o doutor mergulhou o conta-gotas no frasco.
— Tudo bem. Incline a cabeça para trás e fique com os olhos bem abertos. Três gotas de cada lado.
Ele esticou a mão, e a solução clara formou uma bolha na ponta do conta-gotas parado sobre os olhos arregalados de Thorne.
Mas, nesse momento, o dr. Erland prestou atenção em um hematoma na parte de dentro do próprio pulso. Ele parou e girou a mão para examinar.
O hematoma tinha se formado ao redor de uma mancha vermelha escura, como sangue acumulado logo abaixo da superfície da pele fina como papel.
Seu estômago deu um nó.
Tremendo de repente, ele se afastou de Thorne e colocou o frasco e o conta-gotas na bancada.
Thorne baixou o queixo.
— O que foi?
— Nada — murmurou o dr. Erland enquanto procurava uma gaveta e tirava uma máscara para o rosto e prendia sobre a boca e o nariz. — Só... estou verificando uma coisa.
Ele pegou um líquido esterilizador e limpou o frasco e o conta-gotas, depois envolveu em tecido. Já estava se sentindo fraco, mas sem dúvida era coisa de sua cabeça.
Mesmo com a doença em mutação, as vítimas ainda sobreviviam entre vinte e quatro e quarenta e oito horas depois de exibir sintomas. Pelo menos.
Mas ele era velho. E passou o dia se exaurindo, com a caminhada nos túneis e a correria pelo palácio. Seu sistema imunológico já devia estar fraco.
Ele olhou para Thorne, que tinha começado a assobiar baixinho.
— Preciso tirar uma amostra de sangue.
Thorne gemeu.
— Por favor, não me diga que alguma coisa deu errado.
— Não. Só estou sendo precavido. Seu braço, por favor.
Thorne não pareceu feliz, mas dobrou a manga da camisa mesmo assim. Era um teste rápido, que o dr. Erland já fizera mil vezes: tirar o sangue e passar pelo módulo diagnóstico para verificar patógenos portadores de letumose. Mesmo assim, ele se viu distraído pelo calor da respiração presa na máscara.
Thorne. E, se ele voltasse com os outros, Cinder.
E sua Lua Crescente.
Ele se segurou na lateral da bancada para impedir que as mãos tremessem. Por que não contou a verdade a ela antes? Ele supusera que teriam tempo. Acreditara que haveria anos depois que Selene fosse coroada e Levana estivesse longe. Anos para contar a ela a verdade. Para abraçá-la. Para dizer o quanto a amava. Para pedir desculpas repetidas vezes por tê-la abandonado.
Ele olhou para a ferida que parecia um hematoma. Era um hematoma só até então. Não estava se espalhando, ao menos não nos braços. Mas seu cérebro analítico, depois de ter visto a mesma ferida nos pulsos de tantas vítimas, já tinha acionado um cronômetro.
Ele ia morrer.
O módulo apitou e o fez pular de susto.
RESULTADO DE LETUMOSE: NEGATIVO
Ele fechou os olhos, aliviado.
— Como está indo tudo aí, doutor?
Ele limpou a garganta.
— Eu... determinei que seria melhor deixar a solução de células-tronco descansar por algumas horas. Você pode pingar as gotas quando estiver de novo na nave. — Ele pegou um stylus e começou a digitar uma mensagem no tablet. — Vou colocar as instruções no tablet. Só por garantia.
— Instruções para quem?
Seu estômago deu um nó enquanto ele escrevia.
— Eu não vou voltar com vocês.
Houve silêncio, pontuado pelas batidas do stylus e pela respiração dele, repentinamente difícil.
— Do que você está falando?
— Estou velho demais. Só vou atrapalhar. Quando os outros chegarem, quero que vocês sigam sem mim.
— Não seja idiota. Nós temos um plano. Vamos segui-lo.
— Não. Vocês vão me deixar para trás.
— Por quê? Para Levana poder botar as mãos em você e torturá-lo para obter informações? Excelente ideia.
— Ela não vai ter tempo para me torturar. Já estou morrendo.
As palavras provocaram alguma coisa dentro dele, e, de repente, os óculos ficaram embaçados. Não havia tempo. Depois de todos aqueles anos, nunca havia tempo suficiente.
— Do que você está falando?
Ele só respondeu quando terminou de digitar no tablet. Depois de colocar o stylus atrás da orelha, ele andou até a porta e espiou pela janelinha que levava ao corredor do laboratório.
Do lado de fora, dezenas de guardas ocupavam o corredor nas duas direções, com as armas erguidas.
— Tudo está mesmo indo como planejado — murmurou.
Uma mão pousou em seu ombro, e ele se afastou tão rápido que quase caiu na bancada.
— Não toque em mim.
— O que está acontecendo? — perguntou Thorne, ficando impaciente.
O dr. Erland desviou dele e andou até o outro lado da sala.
— Tem uma sala de quarentena adjacente a este laboratório. Vou me colocar em quarentena. Não se preocupe, ninguém vai ousar entrar para me interrogar. — Ele tirou os óculos e limpou as lentes na camisa. — Acabei de diagnosticar a mim mesmo com letumose.
Thorne deu um pulo para longe como se tivesse sido queimado e grudou as costas na parede para que houvesse o máximo de espaço entre eles. Falando palavrões, ele esfregou na calça a mão com que tocou o doutor.
— Não se preocupe. Seu resultado foi negativo. As chances são mínimas de você ter pegado nos últimos dois minutos. — Ele recolocou os óculos. — Sua solução de células-tronco está na bancada à sua esquerda, envolta em tecido. Tem um tablet ao lado. Entregue para Cress, ela pode ajudar. — A voz dele ficou estrangulada, e ele tateou em busca do teclado digital. O código não tinha mudado desde que foi embora.
Quando abriu a porta, as luzes da quarentena se acenderam. A janela que dividia as salas só dava vista para um lado, para que os pacientes não pudessem ver os técnicos enquanto faziam testes.
Ele nunca tinha ido para aquele lado do vidro.
— Carswell Thorne?
Ao olhar para trás, ele viu que Thorne ainda estava grudado na parede, mas o medo tinha sumido da expressão dele e sido substituído por determinação e solidariedade.
— Sim?
— Obrigado. Por cuidar dela no deserto. — Ele franziu a testa. — Embora você ainda não a mereça.
Antes que Thorne pudesse reagir, o dr. Erland entrou na quarentena e se fechou. Seu cativeiro foi imediato, limitado, sufocante e final.

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