13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinquenta e cinco

CRACK.
Cress ergueu o olhar na hora em que Iko deslizou das costas de Lobo e caiu, quebrada e destruída, no chão duro. Um tremor percorreu o corpo dela. Mesmo de longe, ela via a pele rasgada e os fios soltando fagulhas.
— O que foi isso?
Ela voltou a atenção para Thorne. Ainda estava ajoelhada ao lado dele, tentando ajudá-lo da melhor forma possível. Ele tinha levado um soco forte no estômago que o deixou sem ar, mas pelo menos estava respirando e falando de novo.
— Acho que acabamos de perder Iko — disse ela. — Você consegue ficar de pé?
Thorne gemeu, ainda com a mão no estômago.
— Consigo — respondeu ele, não parecendo nada convencido.
Alguma coisa se mexeu. Ao erguer o olhar, Cress deu um gritinho e enfiou os dedos nos braços de Thorne. Os guardas, que tinham estado paralisados e com expressões vazias até pouco tempo, estavam se mexendo. Um deles gemeu.
Ao lado dela, Thorne se levantou.
— Pronto. Melhor — disse ele, embora ainda estivesse fazendo careta. — Você está vendo minha bengala por aí? Ou minha faca?
Ela viu a bengala atrás de um dos guardas, cujo olhar furioso não estava mais vazio e nem inofensivo.
— Cress?
— Os guardas estão levantando de novo — disse ela.
Thorne fez uma careta.
— Todos os seis?
Ela olhou por cima do ombro.
— E Cinder está no chão, talvez esteja inconsciente. E Lobo ainda está sob o controle de Sybil e eu... eu acho que ele vai...
Ela apertou o braço de Thorne, horrorizada com a visão de Lobo prendendo Cinder no chão. Queria afastar o olhar, mas não conseguia, era como estar presa em um sonho ruim.
— Isso tudo parece horrível — disse Thorne.
Tremendo, ela encostou as costas nele e se perguntou como sua morte viria. Com o crânio esmagado no concreto? Com o pescoço quebrado, como o de Iko?
— Acho que está na hora.
Enquanto os pensamentos de Cress continuavam remoendo as coisas horríveis que poderiam acontecer, ela se sentiu sendo virada de repente e deitada para trás, um braço forte sustentando suas costas. Deu um gritinho e se segurou no ombro de Thorne.
E ele a beijou.
A batalha se tornou um furacão com os dois bem no meio: os braços dele protegendo-a do vento, a saia dela voando ao redor das pernas dele, os lábios dele gentis mas insistentes, como se os dois tivessem todo o tempo do mundo.
Um calor tomou conta dela, e Cress fechou os olhos. Pensou que seus braços queriam envolver o pescoço dele, mas todo o seu corpo vibrava, e ela estava tão tonta que mal conseguia manter os dedos no tecido da saia.
Tinha acabado de derreter quando foi erguida novamente.
O mundo virou de cabeça para baixo. Thorne girou e a puxou contra o peito com um braço enquanto o outro procurava alguma coisa na cintura. Cress ouviu o tiro e gritou, pressionando-se contra ele, antes de perceber que foi Thorne quem atirou.
Um guarda grunhiu.
Outro guarda segurou Thorne pela gola e ele se virou, dando uma cotovelada no maxilar do guarda.
— Cress, me faça um favor. — Ele se virou de forma que ela ficasse de costas para ele; Cress estava começando a se sentir como um satélite constantemente tirado de órbita, mas não tinha tempo para pensar, pois Thorne apoiou um braço no ombro dela. — Faça com que eu não atire em ninguém de quem nós gostamos.
Ele disparou de novo, e a bala raspou no bíceps de um guarda. Ele nem reagiu ao disparo e partiu para cima deles.
Ofegante, Cress envolveu as mãos de Thorne com as suas e mirou. Ele disparou de novo, dessa vez acertando o guarda no peito, que cambaleou para trás e caiu.
Cress se moveu e direcionou a mão de Thorne para outro guarda. Mais um tiro no peito. Um terceiro tiro acertou o ombro do guarda seguinte. Ela mirou no quarto...
Click. Click.
Thorne falou um palavrão.
— Bem, foi divertido enquanto durou.
O guarda riu. Era alto e todo feito de músculos, seu cabelo ruivo-alaranjado penteado para o alto. Era o único guarda que Cress reconhecia. Ela o tinha visto nas filmagens de segurança junto com o grupo da rainha, o que significava que devia ser o guarda de posição mais alta entre eles.
— Se não se importar — disse ele —, vou matar você agora.
— Você não é um cavalheiro? — perguntou Thorne, empurrando Cress para trás de si e erguendo os punhos.
Um grito soou em meio ao vento.
Não apenas um grito, mas um grito feito de dor e delírio, tortura e agonia.
Cress e Thorne se abaixaram e cobriram os ouvidos, e Cress ficou morrendo de medo de ter sido Cinder. Mas, quando olhou, a mestra Sybil tinha caído no chão, tendo convulsões e enfiando as unhas no couro cabeludo. O grito prosseguiu enquanto ela se debatia e se feria, torcendo a cabeça com tanta força que se chocou no asfalto, depois se encolhendo como um feto, procurando um alívio que não vinha.
Cinder ainda parecia inconsciente, com Lobo acima dela. Mas nesse momento ele virou a cabeça como um cachorro atordoado e se afastou de Cinder com olhos enlouquecidos e cheios de remorso.
Cinder permaneceu no chão como um cadáver.
— Pare! — gritou o guarda ruivo.
Ele segurou Cress, puxou-a para longe de Thorne e envolveu o pescoço dela com a mão. Ela gritou e enfiou as unhas no pulso dele, mas ele não pareceu perceber.
— Mandei parar, senão esmago o pescoço dela!
Embora ele estivesse gritando, mal podia ser ouvido por causa dos gritos de Sybil, e Cinder não o ouviu ou não se importou... ou não conseguiu parar. Cress tentou dar chutes, mas suas pernas eram curtas demais, e a escuridão já tomava conta de sua visão...
Crack.
O pulso do guarda afrouxou e ele caiu inconsciente. Cress cambaleou para longe dele e massageou o pescoço. Ao se virar, viu Thorne segurando a bengala como uma clava.
— Encontrei minha bengala — disse ele, girando-a uma vez e tentando segurar na outra ponta, mas errando. A bengala caiu no chão. Thorne fez uma careta. — Você está bem?
Ela engoliu em seco e tentou ignorar o ardor na garganta.
— S-Sim.
— Que bom. — Thorne pegou a bengala. — Agora, o que em nome das espadas foi aquele grito?
— Não sei. Cinder está fazendo alguma coisa com a mestra Sybil... alguma coisa com o dom dela.
— Bem, está me irritando, e estamos ficando sem tempo. Venha.
Um dos guardas em quem eles tinham atirado esticou a mão para o tornozelo de Cress quando ela passou, mas Cress o chutou e eles continuaram correndo até Cinder. Lobo a estava sacudindo, mas ela não reagia. Atrás deles, os gritos de Sybil viraram um choramingo incontrolável enquanto ela convulsionava no chão.
— Talvez Cinder tenha que ser reiniciada — falou Thorne depois que Cress descreveu a situação da melhor maneira que conseguiu. — Isso já aconteceu uma vez. Aqui.
Ele enfiou a mão por baixo da cabeça de Cinder, e Cress ouviu um clique.
Os olhos de Cinder se abriram, e a mão dela envolveu o pulso de Thorne. Com um grito, ele caiu no chão.
Os soluços de Sybil viraram um choramingo.
— Não. Abra. Meu painel de controle — disse ela.
Depois de soltar Thorne, ela fechou a placa da cabeça.
— Então pare de ficar em estado de coma perto de mim! — Ele ficou de pé. — Podemos ir agora, antes que toda a força militar da Comunidade apareça?
Cinder se sentou, piscando.
— Iko...
— Certo. Lobo, você pode pegar a androide, por favor? E o imperador, acho que ele ainda está em algum lugar por aí.
O imperador. Em meio ao caos, Cress se esqueceu dele.
— Sirenes.
Cress olhou para Lobo. Ele estava com a cabeça inclinada para o lado.
— Vindo para cá.
— O que quer dizer que os militares não devem estar muito atrás — disse Cinder. — Devo concluir que não há sinal de Jacin?
Ninguém respondeu. Não havia sinal do piloto desde que a luta começara. Cress lambeu os lábios. Teria ele os traído? Teria contado a Sybil sobre o plano?
— Faz sentido — disse Cinder. — Thorne, você vem comigo no cockpit. Jacin e eu treinamos decolagens... uma vez. Você pode ajudar a ativar minha memória.
Juntos, eles se apressaram para carregar o corpo quebrado de Iko e Kai, ainda inconsciente, para o compartimento de carga.
De repente, ouviram risos. Uma gargalhada aguda e tensa que fez a coluna de Cress congelar.
Sybil estava se esforçando para se levantar. Ficou de pé e deu dois passos cambaleantes, mas caiu sobre um dos joelhos. Ela riu de novo e fechou os punhos no cabelo comprido e desgrenhado.
Cress foi empurrada de lado de repente quando Lobo desceu a rampa e agarrou Sybil pela frente do casaco branco, puxando-a para perto. Os olhos dela se reviraram para dentro da cabeça.
— Onde ela está? — gritou ele. — Ainda está viva?
Mesmo do alto da rampa, Cress viu o ódio ardendo nos olhos dele, superado só pela necessidade de saber. De receber uma sombra de esperança de que Scarlet ainda estava viva. De que ele ainda tinha chance de salvá-la.
Mas a cabeça de Sybil só caiu para o lado.
— Que... que pássaros bonitos! — disse ela, antes de ser tomada de um ataque de risadinhas incoerentes.
Lobo rosnou e mostrou os dentes. Por um momento, o corpo todo dele tremeu, e Cress achou que ele ia arrancar um pedaço do pescoço dela. Mas largou Sybil no chão. Ela caiu com força, choramingou pelo impacto e rolou até ficar de costas. Em seguida, voltou a gargalhar, olhando para o céu. O sol estava se pondo, mas a lua cheia já tinha surgido acima dos contornos da cidade.
Lobo se virou de costas para ela e subiu a rampa. Não olhou nos olhos de Cress ao passar.
Cress ficou olhando, desnorteada, quando Sybil levantou os dois braços para o céu. Gargalhando. Gargalhando.
A rampa começou a subir e a bloquear lentamente a visão de Sybil e dos guardas ensanguentados espalhados pelo telhado. O rugido do motor logo encobriu tanto as risadas loucas quanto as sirenes berrando além dos muros do palácio.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!