7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinco

OS PENSAMENTOS DE SCARLET FERVIAM ENQUANTO ELA TIRAVA os engradados vazios do compartimento traseiro da nave e os levava pelas portas abertas do hangar. Ela havia encontrado o tablet no chão da nave, e ele agora estava em seu bolso, com a mensagem da polícia queimando na pele da coxa enquanto ela seguia sua rotina sem pensar.
Talvez estivesse com mais raiva de si mesma agora por se deixar distrair, mesmo que por um minuto, por um mero rosto bonito e uma aparência perigosa, tão pouco tempo depois de saber que o caso da avó tinha sido encerrado. Sua curiosidade sobre o lutador de rua a fez sentir que traíra tudo que era importante.
E havia também Roland e Gilles e todos os outros traidores de Rieux. Todos achavam que sua avó era louca, e foi o que disseram à polícia. Não que era a fazendeira mais trabalhadora da província. Não que fazia as bombas de chocolate mais deliciosas daquele lado do rio Garonne. Não que servira ao país como piloto de nave espacial durante vinte e oito anos e ainda usava a medalha de serviços honorários no seu avental quadriculado favorito.
Não. Eles disseram à polícia que ela era louca.
E, agora, a polícia tinha parado de procurá-la.
Mas não por muito tempo. Sua avó estava por aí em algum lugar, e Scarlet a encontraria mesmo se tivesse que sujar suas mãos e chantagear todos os detetives da Europa.
O sol estava se pondo rapidamente, alongando ainda mais a sombra de Scarlet pela entrada.
Depois do cascalho, as plantações sussurrantes de milho e as folhas de beterraba seguiam em todas as direções, encontrando as primeiras estrelas ao longe. Uma casa de pedra invadia a vista a oeste, com duas janelas brilhando em laranja. Os únicos vizinhos em quilômetros.
Durante mais da metade da vida dela, a fazenda havia sido o paraíso da vida de Scarlet. Ao longo dos anos, ela se apaixonou por aquele lugar mais profundamente do que pensava ser possível se apaixonar por terra e céu. E sabia que a avó sentia o mesmo. Apesar de não gostar de pensar na situação, ela sabia que um dia herdaria a fazenda, e às vezes tinha fantasias de envelhecer ali. Feliz e satisfeita, com terra para sempre embaixo das unhas e uma casa velha que precisava de constante reforma.
Feliz e satisfeita, como sua avó.
Ela não teria ido embora assim. Scarlet sabia.
Levou os engradados para o celeiro e empilhou-os no canto para que os androides pudessem enchê-los no dia seguinte, depois pegou o balde de ração das galinhas. Scarlet andava e as alimentava, jogando punhados dos restos da cozinha no caminho enquanto as galinhas corriam ao redor de seus tornozelos.
Ao sair de trás do hangar, ela hesitou.
Havia uma luz acesa na casa, no segundo andar.
No quarto de sua avó.
O balde escorregou de seus dedos. As galinhas cacarejaram e fugiram, antes de voltarem para a comida derrubada.
Scarlet passou por cima das galinhas e saiu correndo, o cascalho deslizando por baixo dos sapatos. Seu coração inchava, explodia, e a corrida já estava fazendo seus pulmões doerem quando ela escancarou a porta. Ela subiu a escada dois degraus de cada vez, com a madeira velha rangendo debaixo do seu peso.
A porta do quarto da avó estava aberta, e Scarlet parou na entrada, ofegante, se segurando no batente.
Um furacão tinha passado pelo quarto. Todas as gavetas da cômoda estavam abertas, roupas e artigos de higiene tinham sido espalhados pelo chão. As colchas estavam empilhadas de qualquer jeito no pé da cama, o colchão estava torto, os porta-retratos digitais haviam sido tirados dos pregos, deixando manchas escuras na parede onde a luz do sol não conseguia desbotar o reboco pintado.
Um homem estava de joelhos ao lado da cama revirando violentamente uma caixa com os antigos uniformes militares de sua avó. Ele deu um pulo quando viu Scarlet e quase bateu a cabeça na viga baixa de carvalho que sustentava o teto.
O mundo girou. Scarlet quase não o reconheceu. Havia anos que não o via, mas poderiam ser décadas; ele tinha envelhecido tanto. Uma barba cobria o maxilar, normalmente liso. Seu cabelo estava grudado na cabeça de um lado e espetado para o alto do outro. Ele estava pálido e esquelético, como se não se alimentasse direito havia semanas.
— Pai?
Ele apertou um paletó azul de voo contra o peito.
— O que você está fazendo aqui? — Ela observou o caos de novo, com o coração ainda disparado. — O que está fazendo?
— Tem uma coisa aqui — disse ele, com a voz rouca e confusa. — Ela escondeu uma coisa. — Ele olhou para o paletó, depois o jogou na cama. Ele se ajoelhou e começou a revirar a caixa de novo. — Preciso encontrar.
— Encontrar o quê? De que você está falando?
— Ela se foi — sussurrou ele. — Não vai voltar. Ela nunca vai saber, e eu... eu preciso encontrar. Preciso saber por quê.
O cheiro de conhaque se espalhou pelo ar, e o coração de Scarlet se endureceu. Não sabia como ele tinha descoberto sobre o desaparecimento da mãe, mas era um absurdo que simplesmente partisse do princípio que toda a esperança estava perdida assim tão fácil, tão cedo, e que pensasse que teria direito a qualquer coisa que pertencesse a ela, depois de ter abandonado as duas. Tantos anos sem uma única mensagem, para depois aparecer bêbado e começar a revirar as coisas da sua avó...
Scarlet teve uma vontade repentina de chamar a polícia, só que estava com raiva deles também.
— Saia! Saia da nossa casa!
Inabalável, ele começou a empilhar uma variedade de roupas de volta na caixa.
Com o rosto quente de raiva, Scarlet contornou a cama e segurou o braço dele, tentando puxá-lo para que ficasse de pé.
— Pare!
Ele sibilou e despencou no chão antigo de madeira. Arrastou-se para longe dela como um cão raivoso, segurando o braço. Seu olhar brilhava de tanta loucura.
Scarlet recuou, surpresa, antes de apoiar os punhos bem fechados na cintura.
— Qual é o problema com seu braço?
Ele não respondeu, só continuou a aninhar o braço junto ao peito.
Scarlet ergueu a cabeça com determinação, saiu andando na direção dele e agarrou-lhe o pulso. Ele gritou e tentou se soltar, mas ela segurou com firmeza, levantando ao mesmo tempo a manga até o cotovelo. Scarlet sufocou um grito e soltou, mas o braço ficou esticado no ar, como se seu pai tivesse se esquecido de baixá-lo.
A pele estava coberta de marcas de queimaduras. Cada uma era um círculo perfeito em uma fileira organizada e perfeita. Fileira após fileira, envolvendo o antebraço do pulso ao cotovelo, algumas brilhando com tecido cicatrizado, outras negras e com bolhas. E, no pulso, havia uma ferida onde antes ficava o chip de identificação.
Ela sentiu o estômago revirar.
Com as costas na parede, o pai afundou a cabeça no colchão, para longe de Scarlet, para longe das queimaduras.
— Quem fez isso com você?
Ele deixou cair o braço e se encolheu. Não falou nada.
Scarlet se apoiou na parede e correu até o banheiro do corredor. Voltou um momento depois com um tubo de pomada e um rolo de ataduras. O seu pai não tinha se movido.
— Eles me obrigaram — sussurrou ele, já menos histérico.
Scarlet afastou o braço dele da barriga e começou a cuidar dos ferimentos com o máximo de delicadeza que conseguiu apesar das mãos trêmulas.
— Quem obrigou você a fazer o quê?
— Não consegui escapar — continuou ele, como se não a tivesse ouvido. — Fizeram tantas perguntas e eu não sabia. Não sabia o que eles queriam. Tentei responder, mas não sabia...
Scarlet ergueu o olhar quando o pai inclinou a cabeça na direção dela e observou com os olhos vidrados os cobertores emaranhados. Lágrimas haviam se acumulado em seus olhos. Seu pai... chorando. Era quase mais chocante do que as queimaduras. Sentiu um aperto no peito e ficou parada, com a atadura enrolada pela metade do pulso dele. Ela se deu conta de que não conhecia esse homem triste e destruído. Tinha apenas a forma de seu pai, aquele pai carismático e egoísta que não valia nada.
Onde antes queimaram tanta raiva e ódio, havia agora um doloroso sentimento de pena. O que poderia ter causado isso?
— Me deram o atiçador — prosseguiu ele com olhos arregalados e distantes.
— Deram para você...? Por quê...?
— E me levaram até ela. E percebi que era ela quem tinha as respostas. Ela tinha a informação. Eles queriam algo dela. Mas ela assentiu, apenas... me viu fazendo, e chorou... mas eles lhe fizeram as mesmas perguntas, e ela ainda assim não os respondeu. Ela se recusou a respondê-los. — Ele soluçou, e o sangue subindo ao seu rosto com uma fúria repentina. — Ela permitiu que fizessem isso comigo.
Com um nó na garganta, Scarlet terminou de enrolar a atadura e se encostou no colchão, as pernas começando a tremer.
— Grand-mère? Você a viu?
Com ódio, ele se virou para ela, enlouquecido de novo.
— Ficaram comigo por uma semana e depois simplesmente me soltaram. Perceberam que ela não ligava para mim. Que ela não iria ceder por mim.
Sem aviso, ele se lançou para a frente e cambaleou de joelhos na direção de Scarlet, agarrando seus braços. A garota tentou se afastar, mas o pai a segurou com firmeza, afundando as unhas na pele dela.
— O que é, Scar? O que é tão importante? Mais importante do que seu próprio filho?
— Pai, você precisa se acalmar. Precisa me contar onde ela está. — Os pensamentos dela se embaralharam. — Onde ela está? Quem está com ela? Por quê?
Seu pai a avaliou, seus olhos, em pânico e brilhando. Lentamente, ele balançou a cabeça e voltou a olhar para o chão.
— Ela está escondendo alguma coisa — murmurou ele. — Quero saber o que é. O que ela está escondendo, Scar? Onde está?
Ele virou para mexer em uma gaveta de camisas velhas que já tinha sido claramente revirada antes. Suava, o cabelo umedecido ao redor das orelhas.
Scarlet se apoiou na a base da cama para se erguer até o colchão.
— Pai, por favor. — Ela tentou parecer doce, embora o coração estivesse tão disparado que doía. — Onde ela está?
— Não sei. — Ele enfiou as unhas no espaço entre o rodapé e a parede. — Eu estava em um bar em Paris. Devem ter colocado drogas na minha bebida, porque acordei depois em um quarto escuro. Tinha um cheiro úmido, de mofo. — Ele fungou. — Também me drogaram quando me soltaram. Em um minuto eu estava naquele quarto escuro, no seguinte estava aqui. Acordei na plantação de milho.
Tremendo, Scarlet puxou os cabelos até eles se enrolarem em suas mãos. Levaram-no para aqui, o mesmo lugar onde sequestraram a avó. Por quê? Aquelas pessoas sabiam que Scarlet era a única pessoa que ele tinha na família? Será que acharam que ela seria a melhor pessoa para cuidar dele?
Não fazia sentido. Estava claro que não se preocupavam com o bem-estar de seu pai. Então o quê? Deixá-lo ali era uma mensagem para ela? Uma ameaça?
— Você deve se lembrar de alguma coisa — disse ela, sua voz assumindo um leve tom de desespero. — Alguma coisa do quarto ou algo que alguém disse? Você chegou a ver algum deles? Conseguiria descrever para um retratista da polícia? Alguma coisa?
— Estava drogado — disse ele rapidamente, mas suas sobrancelhas se franziram e se esforçou para pensar. Fez que ia tocar nas marcas de queimadura, mas acabou deixando a mão no colo. — Não me deixavam ver.
Scarlet mal resistiu ao desejo de sacudi-lo e gritar que ele tinha que fazer mais esforço.
— Vendaram você?
— Não. — Ele apertou os olhos. — Tive medo de olhar.
Lágrimas frustradas estavam começando a arder em seus olhos, e Scarlet inclinou a cabeça para trás, engolindo em seco sua respiração, paciente. Seus piores medos, aquelas desconfianças sorrateiras e horríveis, eram verdade.
Sua avó tinha sido sequestrada. Não apenas sequestrada, mas sequestrada por pessoas cruéis e brutais. Será que a estavam ferindo como feriram seu filho? O que fariam com ela? O que queriam? Resgate? Mas por que ainda não tinham pedido nada? E por que levaram seu pai e depois o soltaram? Não fazia sentido.
Uma nuvem de terror cobriu sua mente. Todos os horrores possíveis passavam por sua imaginação. Tortura e queimaduras e quartos escuros...
— O que quis dizer quando falou que obrigaram você? O que obrigaram você a fazer?
— Me queimar — sussurrou ele. — Me deram o atiçador.
— Mas como...?
— Tantas perguntas. Não sei. Não conheci meu pai. Ela não fala sobre ele. Não sei o que ela faz aqui nesta casa antiga e grande. O que aconteceu na lua. Não sei o que ela está escondendo. Ela está escondendo alguma coisa. — Ele puxou fracamente os cobertores da cama, olhando sem entusiasmo debaixo do lençol.
— Você não está fazendo sentido — disse Scarlet, com a voz falhando. — Precisa pensar melhor. De alguma coisa você deve se lembrar.
Um longo silêncio. Do lado de fora, as galinhas estavam cacarejando de novo, com os pés ásperos raspando no cascalho.
— Tatuagem.
Ela franziu a testa.
— O quê?
Ele colocou o dedo em uma das queimaduras, na pele interna do braço, logo abaixo do cotovelo.
— O que me entregou o atiçador tinha uma tatuagem. Aqui. Letras e números.
A visão dela se encheu de pontinhos de luz e Scarlet se apoiou na colcha emaranhada, sentindo por um momento que poderia desmaiar.
Letras e números.
— Tem certeza?
— S... L... — Ele balançou a cabeça. — Não consigo lembrar. Tinha mais.
A boca de Scarlet ficou seca, o ódio superando a tontura. Ela conhecia aquela tatuagem. Ele tinha fingido ser gentil. Fingira que só precisava de trabalho honesto.
Quando — dias? horas? — ele torturara seu pai. E estava mantendo sua avó prisioneira.
E ela quase confiou nele. O tomate, as cenouras... Pensou que o estivesse ajudando. Céus, ela havia flertado com ele, e o tempo todo ele sabia. Ela se lembrou dos momentos de estranha diversão, do brilho nos olhos dele, e sentiu um nó no estômago. Ele estava rindo dela.
Com os ouvidos zumbindo, ela olhou para o pai, que estava revirando os bolsos de uma calça que não devia caber na avó havia vinte anos.
Ela ficou de pé. O sangue lhe subiu à cabeça, mas ela ignorou a sensação. Marchou até o canto do quarto e pegou o tablet da avó no local onde o pai o tinha jogado, no chão.
— Aqui — disse ela, jogando o tablet na cama. — Vou até a fazenda Morel. Se eu não voltar em três horas, mande uma mensagem para a polícia.
Atordoado, o pai esticou a mão e pegou o tablet.
— Pensei que os Morel estivessem mortos.
— Você está me ouvindo? Quero que tranque todas as portas e não saia. Três horas e pode mandar uma mensagem para a polícia. Entendeu?
Mais uma vez, ele sucumbiu àquela expressão assustada e infantil.
— Não vá, Scar. Você não entendeu? Me usaram como isca para ela, e você vai ser a próxima. Eles virão para você também.
Scarlet cerrou os dentes e fechou o zíper do moletom até o pescoço.
— Pretendo encontrá-los primeiro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!