20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinco

Scarlet apertou o corpo nas barras de ferro, tentando segurar o galho de árvore pendurado em frente à jaula. Perto, tão perto. A barra machucou sua bochecha. Esticou os dedos, roçou em uma folha, tocou em um tronco… sim!
Os dedos se fecharam ao redor do galho. Ela voltou para dentro da jaula e o puxou para mais perto. Enfiando o outro braço entre as barras, arrancou três pequenos galhos cobertos de folhas, depois cortou a ponta e soltou. O galho balançou para cima, e um monte de nozes pequenas e desconhecidas caíram na cabeça dela.
Scarlet se encolheu e esperou a árvore parar de tremer para virar o capuz do moletom vermelho do avesso e tirar todas as nozes que a atacaram. Pareciam avelãs. Se ela descobrisse como abri-las, talvez não fossem um lanche ruim mais tarde.
Um som de arranhado leve chamou a atenção de volta à situação. Ela espiou o caminho do jardim e viu o lobo branco que estava de pé nas patas de trás, batendo nas barras da jaula dele.
Scarlet passou bastante tempo desejando que Ryu pulasse por cima daquelas barras. O muro da jaula dele batia na altura da cintura e ele deveria saltar com facilidade. Assim, Scarlet poderia acariciar seu pelo, coçar suas orelhas. Que luxo seria ter um pouco de contato. Ela sempre gostou dos animais da fazenda, ao menos até a hora de matá-los para preparar um belo ragoût, mas nunca tinha se dado conta do quanto apreciava a afeição simples deles até ser reduzida a um animal também.
Infelizmente, Ryu não escaparia do confinamento, assim como ela. De acordo com a princesa Winter, havia um chip inserido entre as omoplatas que daria um choque doloroso se ele tentasse pular por cima da grade. A pobre criatura já havia aprendido a aceitar o habitat.
Scarlet duvidava que um dia pudesse aceitar o seu.
— É isso — disse ela, pegando o tesouro obtido com dificuldade: três raminhos e um galho quebrado. Ela os levantou para o lobo ver. Ele latiu e fez uma dança entusiasmada perto do muro da jaula. — Não consigo alcançar mais nada. Você vai ter que se contentar com isso.
As orelhas de Ryu tremeram.
Ela ficou de joelhos, o mais próximo de se levantar na jaula que conseguia. Scarlet segurou na barra, mirou um dos galhinhos menores e o jogou.
Ryu correu atrás e pegou o galho no ar. Em segundos, pulou de volta até a pilha de varas e largou o ramo no topo. Satisfeito, sentou-se com a língua para fora.
— Bom trabalho, Ryu. Boa demonstração de controle. — Suspirando, Scarlet pegou outro galho.
Ryu tinha acabado de pular quando ela ouviu o barulho de passos no caminho. Scarlet se sentou nos calcanhares, tensa na mesma hora, mas aliviada quando viu um vestido esvoaçante cor de creme entre os caules das flores exóticas e das trepadeiras pendentes.
A princesa surgiu na curva do caminho um momento depois, com uma cesta na mão.
— Oi, amigos — disse a princesa Winter.
Ryu largou o galho mais recente na pilha e depois se sentou, com o peito estufado como se estivesse demonstrando respeito.
Scarlet fez cara feia.
— Puxa-saco.
Winter inclinou a cabeça na direção de Scarlet. Uma espiral de cabelo preto caiu na bochecha dela e escondeu as cicatrizes.
— O que você me trouxe hoje? — perguntou Scarlet. — Murmúrios alucinógenos com acompanhamento de loucura? Ou você está em um de seus dias bons?
A princesa sorriu e se sentou na frente da jaula de Scarlet, sem se importar com a chance de o caminho com pedras pretas e terra sujar seu vestido.
— Hoje é um dos meus melhores dias — disse ela, colocando a cesta no colo —, pois eu trouxe uma coisa especial para você junto com um acompanhamento de notícias.
— Ah, não me conte. Vão me mudar para uma jaula maior? Ah, me diga que essa vai ter encanamento de verdade. E quem sabe um daqueles alimentadores chiques que os pássaros têm?
Apesar de as palavras de Scarlet estarem carregadas de sarcasmo, na verdade uma jaula maior com encanamento seria uma melhoria enorme. Sem conseguir ficar de pé, seus músculos estavam ficando cada dia mais fracos, e seria uma maravilha se ela não precisasse contar com os guardas para a levarem até o anexo ao lado duas vezes por dia, onde ela era graciosamente escoltada até uma calha para fazer as necessidades.
Uma calha.
Winter, imune como sempre à mordacidade no tom de Scarlet, se debruçou com um sorriso cheio de segredos.
— Jacin voltou.
A sobrancelha de Scarlet tremeu, suas emoções disparando em dez direções diferentes. Ela sabia que Winter tinha uma paixonite por esse tal de Jacin, mas a única interação de Scarlet com o rapaz foi quando ele estava trabalhando para uma taumaturga e atacou a ela e aos amigos.
Ela se convenceu de que ele estava morto, porque a alternativa era que ele tinha matado Lobo e Cinder, e isso era inaceitável.
— E aí? — encorajou ela.
Os olhos de Winter brilharam. Havia horas em que Scarlet sentia que tinha endurecido o coração diante da beleza impecável da garota, com cabelos densos e pele marrom calorosa, os olhos dourados e lábios rosados. Mas então a princesa dava um olhar daqueles e o coração de Scarlet pulava, e ela mais uma vez se perguntava como era possível isso não ser glamour.
A voz de Winter virou um sussurro conspiratório:
— Seus amigos estão vivos.
Essa simples declaração fez o mundo girar. Scarlet passou um momento no limbo, sem confiar, sem querer ter esperanças.
— Tem certeza?
— Tenho. Ele disse que até o capitão e a garota do satélite estavam bem.
Como uma marionete libertada, ela caiu sobre os joelhos.
— Ah, graças às estrelas.
Eles estavam vivos. Depois de quase um mês subsistindo de teimosia obstinada, finalmente Scarlet tinha motivos para ter esperanças. Foi tão repentino, tão inesperado que ela se sentiu tonta de euforia.
— Ele também pediu para lhe dizer que Lobo sente muito a sua falta — prosseguiu Winter. — Bem, as palavras de Jacin foram que ele estava deixando todo mundo louco com os choramingos patéticos por sua causa. É fofo, não acha?
Alguma coisa estalou dentro de Scarlet. Ela não chorou nem uma vez desde que chegou a Luna, com exceção das lágrimas de dor e delírio quando foi torturada, mental e fisicamente. Mas, naquele momento, todo o medo e todo o pânico e todo o horror se acumularam, e ela não conseguiu segurar, não conseguiu nem pensar além da onda de choro e lágrimas intensas.
Eles estavam vivos. Estavam todos vivos.
Ela sabia que Cinder ainda estava por aí, o boato tinha se espalhado até mesmo no jardim de que ela tinha se infiltrado no palácio de Nova Pequim e sequestrado o imperador. Scarlet ficou se sentindo superior por vários dias quando a fofoca chegou a ela, mesmo não tendo tido nada a ver com o sequestro.
Mas ninguém mencionou cúmplices. Ninguém disse nada sobre Lobo e Thorne e a garota do satélite que eles estavam tentando resgatar.
Ela limpou o nariz e tirou o cabelo sujo do rosto. Winter estava observando a torrente de emoções de Scarlet como alguém assistiria a uma borboleta saindo do casulo.
— Obrigada — disse Scarlet, dando outro soluço. — Obrigada por me contar.
— Claro. Você é minha amiga.
Scarlet passou a palma da mão pelos olhos e, pela primeira vez, não discutiu.
— E agora sua coisa especial.
— Não estou com fome. — Era mentira, mas ela tinha passado a ressentir o quanto contava com a caridade de Winter.
— Mas é uma balinha de maçã azeda. Uma iguaria lunar que…
— É uma das suas favoritas, é, eu sei. Mas não estou…
— Acho que você devia comer. — A expressão da princesa era inocente e significativa ao mesmo tempo, daquele jeito todo peculiar dela. — Acho que vai fazer você se sentir melhor — continuou ela, e empurrou uma caixa pelas barras da jaula.
Ela esperou até que Scarlet pegasse e atravessou o caminho até Ryu. Agachou-se para dar uma coçada amorosa atrás das orelhas do lobo e se inclinou por cima da grade para começar a pegar a pilha de galhos dele.
Scarlet levantou a tampa da caixa e encontrou a bala vermelha como mármore na cama de açúcar. Winter levava muitas guloseimas para ela desde seu aprisionamento, a maioria misturada com analgésicos. Embora a dor no dedo de Scarlet, que havia sido cortado durante o interrogatório com a rainha, tivesse virado uma lembrança distante, as balas ainda ajudavam com as dores e os sofrimentos da vida em um local tão apertado.
Mas, quando levantou a bala da caixa, ela viu uma coisa inesperada embaixo. Uma mensagem manuscrita.
Paciência, amiga. Eles vêm buscar você.
Ela fechou a caixa depressa, antes que a câmera de segurança acima de seu ombro visse, e enfiou a bala na boca, com o coração disparado. Fechou os olhos e quase não sentiu a casca da bala se quebrar, quase não sentiu a calda agridoce dentro.
— O que você disse no julgamento — disse Winter, voltando com alguns galhos nos braços e os colocando onde Scarlet alcançasse. — Eu não entendi na época, mas entendo agora.
Scarlet engoliu rápido demais. A bala desceu com dificuldade, com pedaços da casca arranhando a garganta. Ela tossiu, desejando que a princesa tivesse levado um pouco de água também.
— Que parte? Eu estava sendo intensamente coagida, você deve lembrar.
— A parte sobre Linh Cinder.
Ah. A parte sobre Cinder ser a princesa perdida Selene. A verdadeira rainha de Luna.
— O que tem? — disse ela, se enchendo de desconfiança. Teria Jacin dito alguma coisa sobre os planos de Cinder de recuperar o trono? E de que lado ele estava se passou semanas com os amigos dela, mas agora tinha voltado para Levana?
Winter pensou na pergunta por bastante tempo.
— Como ela é?
Scarlet enfiou a língua nos molares, pensando. Como Cinder era? Não fazia muito tempo que a conhecia. Era uma mecânica brilhante. Parecia honrada e corajosa e determinada a fazer o que precisava ser feito… mas Scarlet desconfiava que não era sempre tão confiante quanto tentava aparentar.
Além do mais, ela tinha uma paixonite tão grande pelo imperador Kai quanto Winter tinha por Jacin, embora Cinder se esforçasse bem mais para fingir que não.
Mas Scarlet achava que isso não respondia a pergunta de Winter.
— Ela não é como Levana, se é isso que você quer saber.
Ryu choramingou e rolou, sentindo falta da atenção delas.
Winter pegou um galho na pilha e jogou. O lobo ficou de pé e correu atrás.
— Seu amigo lobo — disse Winter. — Ele é um dos da rainha?
— Não mais — respondeu Scarlet com rispidez. Lobo jamais voltaria a pertencer à rainha. Não se ela pudesse evitar.
— Mas foi, e agora ele a traiu. — O tom da princesa ganhou um ar sonhador, os olhos virados para o nada mesmo depois que Ryu voltou e largou o galho ao lado das barras, começando uma pilha nova. — Pelo que sei dos outros soldados, isso não deveria ser possível. Pelo menos não enquanto eles estão sob controle do taumaturgo.
Com calor de repente, Scarlet abriu o moletom. Estava imundo de terra e suor e sangue, mas usá-lo ainda fazia com que se sentisse ligada à Terra e à fazenda e à avó. Lembrava que ela ainda era humana, apesar de ter sido colocada em uma jaula.
— O taumaturgo de Lobo está morto — contou ela. — Mas Lobo lutou contra ele mesmo quando estava vivo.
— Talvez tenham cometido um erro com ele quando alteraram seu sistema nervoso.
— Não foi erro. — Scarlet deu um sorrisinho superior. — Eu sei, eles se acham tão inteligentes ao darem aos soldados os instintos de lobos selvagens. Os instintos de caçar e matar. Mas veja Ryu. — O lobo tinha se deitado e estava mordendo o galho. — Os instintos dele também são de brincar e amar. Se ele tivesse uma companheira e filhotes, seus instintos seriam de protegê-los a todo custo. — Scarlet enrolou o fio do capuz do moletom no dedo. — Foi o que Lobo fez. Ele me protegeu.
Ela pegou outro galho na pilha em frente à jaula. A atenção de Ryu foi atraída, mas Scarlet só passou os dedos pela casca.
— Tenho medo de nunca mais vê-lo.
Winter enfiou a mão pelas barras e acariciou o cabelo de Scarlet com os nós dos dedos.
Scarlet ficou tensa, mas não se afastou. Contato, qualquer contato, era um presente.
— Não se preocupe — disse Winter. — A rainha não vai matar você enquanto for meu bichinho de estimação. Você vai ter uma chance de dizer ao seu Lobo que o ama.
Scarlet fez cara de irritação.
— Não sou seu bichinho tanto quanto Lobo não é mais de Levana. — Desta vez, ela se afastou, e Winter deixou que sua mão caísse no colo. — E não é que eu o ame. É só que…
Ela hesitou, e mais uma vez Winter inclinou a cabeça e olhou para Scarlet com curiosidade penetrante. Era irritante pensar que ela estava sendo analisada por uma pessoa que reclamava com frequência que as paredes do castelo tinham começado a sangrar de novo.
— Lobo é tudo o que tenho — esclareceu Scarlet. Ela jogou o galho sem empolgação. Caiu ao alcance da pata de Ryu, mas ele só ficou olhando, como se não valesse o esforço. Scarlet murchou os ombros. — Preciso dele tanto quanto ele precisa de mim. Mas nem por isso é amor.
Winter baixou os cílios.
— Na verdade, amiga querida, desconfio que seja precisamente por isso que é amor.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!