3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Cinco

O FERRO-VELHO FOI TOMADO PELOS GRITOS AGUDOS DE PEONY, penetrando nas rachaduras de máquinas quebradas e computadores ultrapassados. A interface auditiva de Cinder não a protegia de sons agudos, mesmo quando a voz de Peony falhou e se dissolveu em histeria.
Cinder ficou parada, sem firmeza, incapaz de se mover. Querendo consolar Peony. Querendo fugir.
Como aquilo era possível?
Peony era jovem, saudável. Não podia estar doente.
Ela chorava, esfregando repetidamente a pele, as manchas.
A rede de Cinder assumiu o controle, como costumava acontecer em momentos em que ela não conseguia pensar por si mesma. Pesquisando, conectando, conseguindo informações que ela não desejava obter.
Letumose. A febre azul. Pandemia mundial. Centenas de milhares de mortos. Causa desconhecida. Cura desconhecida.
— Peony…
Ela esticou a mão de modo hesitante, mas Peony se afastou sem jeito, secando as bochechas e o nariz.
— Não cheguem perto de mim! Você vai pegar! Vocês vão pegar!
Cinder encolheu a mão. Ela ouviu Iko ao seu lado, a ventoinha zumbindo. Viu a luz azul lançada sobre Peony, sobre o ferro-velho, piscando. Ela estava assustada.
— Eu já disse, afastem-se! — Peony caiu de joelhos, curvando-se.
Cinder recuou dois passos e então parou, observando Peony se balançar para a frente e para trás sob a luz de Iko.
— Eu… Eu preciso chamar um aerodeslizador de emergência. Para…
Para que a levem daqui.
Peony não respondeu. Todo o seu corpo tremia. Cinder podia ouvir os dentes dela batendo em meio aos lamentos.
Cinder estremeceu. Esfregou os braços, inspecionando-os à procura de manchas. Não via nenhuma, mas olhou para a luva da mão direita com desconfiança, sem querer removê-la, sem querer checá-la.
Afastou-se novamente. As sombras do ferro-velho se avultaram na direção dela. A peste. Estava lá. No ar. No lixo. Quanto tempo levaria para que os primeiros sintomas se manifestassem?
Ou…
Ela pensou em Chang Sacha na feira. Na multidão apavorada fugindo de seu estande. No barulho das sirenes.
O estômago dela se revirou.
Tinha sido culpa dela? Ela levara a peste da feira para casa?
Verificou os braços de novo, espanando com a mão os insetos invisíveis que rastejavam em sua pele. Cambaleou para trás. Os soluços de Peony encheram sua cabeça, sufocando-a.
Um aviso em vermelho piscou em seu visor de retina, informando-a de que seus níveis de adrenalina estavam elevados. Ela piscou para desativar o alerta, depois acionou seu link de sistema de comunicação com as vísceras se contraindo e enviou uma mensagem simples antes de sequer poder questionar.
EMERGÊNCIA, FERRO-VELHO DO DISTRITO DE TAIHANG. LETUMOSE.
Ela trincou os dentes, sentindo a dolorosa secura nos olhos. Uma dor de cabeça latejante tornou evidente que deveria estar chorando, que seus soluços deveriam se juntar aos da irmã.
— Por quê? — perguntou Peony, gaguejando. — O que foi que eu fiz?
— Você não fez nada — respondeu Cinder. — Isso não é sua culpa.
Mas pode ser minha.
— O que devo fazer? — perguntou Iko, muito baixo para ser ouvida.
— Não sei — disse Cinder. — Um aerodeslizador está a caminho.
Peony esfregou o nariz com o braço. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar.
— Você p-precisa ir. Pode pegar isso de mim.
Sentindo-se tonta, Cinder percebeu que vinha respirando muito rápido. Deu mais um passo para trás antes de encher os pulmões.
— Talvez eu já tenha pegado. Talvez seja minha culpa você estar doente. O surto no mercado hoje… Eu-eu não pensei estar perto o bastante, mas… Peony, eu sinto muito.
Peony apertou os olhos e escondeu o rosto de novo. Seus cabelos castanhos estavam embaraçados, caindo ao longo dos ombros, em forte contraste com a pele pálida. Um soluço, seguido por outro.
— Eu não quero ir.
— Eu sei.
Foi tudo que Cinder conseguiu dizer. Não se preocupe? Tudo ficará bem? Ela não podia mentir, não quando era tão óbvio.
— Queria que houvesse alguma coisa… — Ela parou. Ouviu as sirenes antes de Peony. — Eu sinto muito mesmo.
Peony secou o nariz com a manga da blusa, deixando uma trilha de muco. Depois, continuou chorando. Ela não respondeu até que o som das sirenes alcançasse seus ouvidos e sua cabeça se erguesse. Olhou ao longe, para a entrada do ferro-velho em algum lugar além das pilhas de lixo. Os olhos arregalados. Os lábios tremendo. O rosto extremamente vermelho.
Cinder sentiu um aperto no coração.
Ela não podia evitar. Se tivesse que ser infectada, provavelmente isso já acontecera.
Caiu de joelhos, envolvendo Peony com os braços. O cinto de ferramentas ficou enterrado em seu quadril, mas ela o ignorou enquanto Peony se agarrava à sua camisa, os soluços renovados.
— Eu sinto tanto.
— O que você dirá à mamãe e a Pearl?
Cinder mordeu os lábios.
— Não sei. — E então: — A verdade, eu acho.
Ela sentiu o gosto de bile na boca. Talvez fosse um sinal. Talvez a dor em seu estômago fosse um sintoma. Ela baixou a vista para o braço, que mantinha Peony abraçada a ela. Ainda não havia manchas.
Peony a empurrou, voltando rapidamente para a sujeira.
— Fique longe de mim. Você pode não estar doente ainda. Mas eles levariam você. Você precisa sair daqui.
Cinder hesitou. Ouviu o som de correias esmigalhando alumínio e plástico.
Não queria deixar Peony, mas e se ela não tivesse sido contaminada ainda?
Sentou nos calcanhares, depois se ergueu. Luzes amarelas se aproximavam delas vindo da escuridão.
A mão direita de Cinder suava dentro da luva. Sua respiração estava fraca de novo.
— Peony…
— Vá! Vá embora!
Cinder se afastou. E ainda mais. Teve o bom senso de parar para pegar a correia magnética dobrada. Moveu-se em direção à saída, sua perna humana tão dormente quanto a protética. Os soluços de Peony a seguiram.
Três androides brancos encontraram-na dobrando uma esquina. Tinham sensores amarelos e cruzes vermelhas pintadas na cabeça, e dois deles traziam uma maca flutuante.
— Você é a vítima de letumose? — perguntou um deles com voz neutra, portando um escâner de identificação.
Cinder escondeu o pulso.
— Não. Minha irmã, Linh Peony. Ela… ela está naquela direção, à esquerda.
Os medidroides com a maca se desviaram dela e seguiram caminho.
— Você teve contato direto com a vítima nas últimas doze horas? — perguntou o último androide.
Cinder abriu a boca, hesitou. Culpa e medo se contorciam em suas vísceras. Ela podia mentir. Não havia prova de que já tivesse a doença, mas, se eles a levassem para a quarentena, não teria a menor chance.
Mas, se fosse para casa, poderia infectar a todos. Adri. Pearl. Aquelas crianças que gritavam e riam e que corriam pelos corredores.
Mal pôde ouvir a própria voz.
— Sim.
— Você está manifestando sintomas?
— Na-não. Não sei. Eu me sinto tonta, mas não. — Ela não continuou.
O medidroide se aproximou dela, as rodas rangendo no chão sujo. Cinder cambaleou para longe dele, que não disse nada, apenas se aproximou até que as panturrilhas dela tivessem encostado numa caixa empilhável apodrecida. Ele portava um escâner de identificação em uma das mãos, e então um terceiro braço surgiu de seu torso — com uma seringa no lugar da mão em forma de pinça.
Cinder encolheu os ombros, mas não resistiu quando o androide agarrou seu pulso direito e introduziu a agulha. Ela se contraiu e ficou observando enquanto o líquido escuro, quase negro sob a luz amarela do androide, era coletado.
Embora não tivesse medo de agulhas, o mundo começou a girar. O androide removeu a agulha bem na hora em que ela se deixou cair sobre a caixa.
— O que você está fazendo? — sussurrou.
— Iniciando um escaneamento de sangue em busca dos patógenos portadores de letumose. — Cinder ouviu um motor ser acionado dentro dele, alertas difusos anunciando cada passo. A luz do androide diminuía quando sua fonte de energia era mais exigida.
Ela prendeu a respiração até que seu painel de controle a dominasse e forçasse seus pulmões a se contraírem.
— Identidade — disse o androide, estendendo o escâner para ela. Uma luz vermelha passou pelo pulso de Cinder e o equipamento bipou. O androide guardou-o no torso oco.
Ela se perguntou quanto tempo levaria para que o escaneamento fosse finalizado e determinasse que estava infectada, confirmando que fora culpa dela. Por tudo.
Cinder ouviu alguma coisa se aproximando e virou a cabeça enquanto os dois androides apareceram com Peony sobre a maca. Ela estava sentada, com as mãos atadas ao redor dos joelhos. Seus olhos inchados se moviam de forma selvagem pelo ferro-velho, como se procurassem uma fuga. Como se estivesse vivendo em um pesadelo.
Mas ela não tentou fugir. Ninguém nunca resistia quando era levado às quarentenas.
Os olhos delas se encontraram. Cinder abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. Ela tentou implorar por perdão com os olhos.
Um breve sorriso saiu dos lábios de Peony. Ela ergueu uma das mãos e acenou apenas com os dedos.
Cinder acenou de volta, sabendo que deveria ser ela.
Já sobrevivera ao destino uma vez. Ela é que deveria estar sendo levada. Era ela que deveria estar morrendo. Deveria ser ela.
Tudo se resumia a isso.
Tentou falar, dizer a Peony que estaria logo atrás dela. Que ela não ficaria sozinha. Mas então o androide bipou.
— O escaneamento foi concluído. Nenhum patógeno portador de letumose foi detectado. O indivíduo tem que manter uma distância de quinze metros do paciente infectado.
Cinder piscou. Alívio e medo se contorceram dentro dela.
Ela não estava doente. Não ia morrer.
Não acompanharia Peony.
— Nós a avisaremos por meio do sistema de comunicação quando Linh Peony entrar nos estágios subsequentes da doença. Agradecemos sua cooperação.
Cinder se envolveu nos próprios braços e viu Peony se deitar enquanto era transportada, enrolada em posição fetal, como uma criança, na maca.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!