20 de novembro de 2018

Capítulo Vinte

No dia seguinte, você acorda na cama do hospital, encarando o teto. Temerosa e hesitante, você acessa sua consciência. E se pergunta: Será que acabou?
— Preparei seu café da manhã, porque o do hospital não estava nada apetitoso — diz sua mãe. — Fiz Cheerios.
Você olha para o próprio corpo estendido, que a manta branquíssima do hospital deixa quase sem forma.
— Cheerios já vem pronto — você diz.
Sua mãe ri. Você vê, na mesinha ao pé da cama, um enorme buquê de flores, ostentosamente grande, num vaso de cristal, para completar.
— Davis que trouxe — explica sua mãe.
Perto de você, acima de seu corpo disforme, uma bandeja de comida é oferecida. Você engole em seco. Olha para o Cheerios boiando no leite. Seu corpo dói. Um pensamento cruza sua mente: Só Deus sabe o que você inalou enquanto estava dormindo.
Não acabou.
Você está deitada ali, nem sequer está pensando, só está tentando descobrir um modo de descrever sua agonia, como se, ao expressá-la, fosse conseguir arrancá-la de si. Se você pode tornar algo real, se pode vê-lo e cheirá-lo e tocá-lo, então pode matá-lo.
Você pensa: é como um incêndio no cérebro. Como um rato te roendo por dentro. Uma faca em suas entranhas. Uma espiral. Redemoinho. Buraco negro.
As palavras usadas para descrever — desespero, medo, ansiedade, obsessão — não conseguem sequer chegar perto de transmitir a sensação. Talvez tenhamos inventado a metáfora como uma resposta à dor. Talvez precisássemos dar forma à dor opaca e profunda que escapa tanto à razão quanto aos sentidos.
Você acha que está melhor. Acabou de formar um raciocínio completo, com início, meio e fim. Pensamentos seus. De sua própria autoria. Mas então sente uma onda de náusea, um torno apertando seu peito, testa quente suor frio você já se contaminou já está dentro de você desalojando todo o resto dominando você e vai te matar te devorar de dentro para fora e é quando, numa voz muito fraca, meio estrangulada pelo pavor inefável, você consegue, a muito custo, empurrar para fora as palavras que precisa dizer.
— Eu estou mal, mãe. Muito mal.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!