20 de novembro de 2018

Capítulo Vinte e Um

E a história segue assim: tendo sucumbido enfim à loucura propriamente dita, começo a fazer conexões que jogam uma luz no caso do desaparecimento de Russell Pickett, já arquivado há tempos. Minha determinação obsessiva me leva a ignorar todas as ameaças e a arriscar a fortuna em que Daisy e eu tropeçamos. Eu me concentro no mistério, e nada me tira da cabeça que encontrar a verdade é o Bem Supremo, que as frases assertivas são naturalmente melhores que as interrogativas, e, quando chego à resposta correta apesar da loucura, automaticamente encontro um modo de viver com essa loucura. Meus circuitos cerebrais não são um empecilho para que eu me torne uma grande detetive; são eles que me tornam uma grande detetive.
Não sei bem ao lado de quem vou caminhar em direção ao horizonte no fim da história, se será ao lado de Davis ou de Daisy, mas sei que estarei lá. Nessa cena final, você me vê andando contra a luz, o contorno do meu corpo desenhado pela luz de oito minutos de idade do nosso astro-rei, seguindo de mãos dadas com alguém.
E, no caminho, percebo que tenho domínio sobre mim mesma, que meus pensamentos são — como a dra. Singh gostava de dizer — apenas pensamentos. Percebo que, na história da minha vida, eu sou a narradora, que sou livre e autônoma e que estou no comando da minha consciência e que não, não. Não foi isso que aconteceu.
Não me tornei firme nem resoluta nem segui rumo ao horizonte — na verdade, fazia tempo que eu mal via a luz do sol.
O que aconteceu foi implacável e excruciantemente sem graça: fiquei numa cama de hospital sentindo dor. Minhas costelas doíam, meu cérebro doía, meus pensamentos doíam, e só oito dias depois fui liberada.
A princípio, acharam que eu fosse alcoólatra — que tinha apelado para o antisséptico porque estava desesperada por bebida. A verdade era tão mais esquisita e tão menos lógica que só foi levada a sério quando entraram em contato com a dra. Singh. Ela foi me ver no hospital. Puxou uma cadeira e se sentou junto à minha cama.
— Temos dois problemas aqui — disse ela. — Primeiro, você não está seguindo a orientação médica.
Falei que tinha tomado o remédio quase todos os dias, o que na minha cabeça parecia verdade, mas não era.
— Eu fiquei com a sensação de que o remédio estava me deixando pior — confessei, finalmente.
— Aza, você é uma garota inteligente. Sei que tem consciência de que beber álcool em gel enquanto está internada se recuperando de uma lesão no fígado não traz nenhum benefício à sua saúde mental. — Fiquei só olhando para ela, sem dizer nada. — Também sei que os médicos explicaram a você os perigos de beber isso. Não só por causa do álcool, mas porque ele contém substâncias químicas que quando ingeridas podem matar. Portanto, não vamos levar adiante essa ideia de que foi o remédio que você parou de tomar que piorou seu estado.
Ela falou tudo isso com tanta determinação que só me restou assentir.
— O segundo problema é que o acidente foi um trauma sério, e isso já seria desafiador para qualquer um. — Continuei em silêncio. — Precisamos inserir uma nova medicação, que funcione melhor para você, à qual você se adapte e que consiga tomar corretamente.
— Nenhum remédio funciona.
— Nenhum funcionou até agora — corrigiu ela.

* * *

A dra. Singh aparecia toda manhã, e à tarde vinha outro médico examinar meu fígado. As duas visitas eram um alívio, pela simples razão de que forçavam minha onipresente mãe a deixar o quarto nem que fosse por um segundo.
No último dia, a dra. Singh se sentou ao lado da cama e colocou a mão em meu ombro. Ela não tinha encostado em mim até então.
— Entendo que o ambiente hospitalar não deve ter sido nada bom para sua ansiedade.
— Pois é.
— Você acha que é uma ameaça para si mesma?
— Não — respondi. — Só estou muito assustada e tendo muitos pensamentos invasores.
— Você ingeriu álcool em gel ontem?
— Não.
— Não estou aqui para julgá-la, Aza. Só posso ajudar se você for sincera.
— Estou sendo sincera. Não tomei.
Até porque haviam tirado o gel do meu quarto.
— Você pensou em tomar?
— Pensei.
— Não precisa ter medo desse pensamento. Pensamentos não são ações.
— Não consigo parar de pensar na C. diff. Só quero ter certeza de que não estou…
— Beber álcool em gel não vai ajudar.
— Então o que vai ajudar?
— Tempo. Tratamento. Tomar sua medicação.
— Sinto como se tivesse um nó apertando meu pescoço, e eu quero me livrar disso, mas quanto mais tento me soltar, mais apertado fica. A espiral não para nunca, entende?
A dra. Singh olhou no fundo dos meus olhos. Achei que ela fosse chorar ou ter alguma outra reação dramática.
— Você vai superar isso, Aza.

* * *

Mesmo depois que recebi alta, a dra. Singh continuou me visitando em casa, duas vezes por semana, para acompanhar meu progresso. Ela me passou outro remédio, que minha mãe verificava todo dia de manhã se eu havia tomado. Eu só podia me levantar para ir ao banheiro, pois havia o risco de que a lesão no fígado voltasse a sangrar.
Faltei à escola duas semanas. Catorze dias da minha vida reduzidos a esta única frase, porque não saberia descrever o que aconteceu nesse tempo. Eu sentia dor, o tempo todo, uma dor tão forte que escapa à linguagem. Era entediante. Era repetitivo. Como caminhar por um labirinto sem saída. É fácil descrever situações semelhantes àqueles dias, mas é impossível descrever os dias em si.
Tanto Daisy quanto Davis quiseram me visitar, mas eu preferi ficar sozinha, na cama. Não li nenhum livro, não vi TV; nada disso me distraía. Eu só ficava deitada, quase catatônica, enquanto minha mãe pairava ao redor, sempre por perto, quebrando o silêncio de tempos em tempos com uma pergunta disfarçada de afirmação. Você parece se sentir melhor a cada diaImagino que você esteja bemVocê deve estar melhorando. A inquisição das declarações.
Deixei o celular desligado por um tempo, com todo o apoio da dra. Singh.
Quando finalmente liguei o aparelho, senti um medo insolúvel. Queria e ao mesmo tempo não queria encontrar um monte de mensagens.
No fim das contas, foram trinta. A maioria de Daisy e Davis, mas não só. Mychal, outros amigos e até mesmo alguns professores também haviam mandado mensagens de apoio.

* * *

Voltei à escola numa segunda-feira do início de dezembro. Ainda não estava convencida da eficácia do remédio novo, mas também não questionava mais a necessidade de tomá-lo. Eu me sentia pronta, como se estivesse de volta ao mundo — não para minha vida normal, mas para minha vida, qualquer que fosse.
Minha mãe me levou para a escola. Harold havia sofrido perda total, e, de qualquer modo, eu estava com muito medo de dirigir.
— Animada ou nervosa? — perguntou minha mãe.
Ela dirigia com as duas mãos no volante, como ponteiros de relógio marcando dez horas e dez minutos.
— Nervosa — respondi.
— Seus professores, seus amigos, todo mundo entende, Aza. Eles só querem que você fique bem e vão apoiá-la cem por cento. E se não apoiarem, eu acabo com eles.
Esbocei um sorriso.
— Todo mundo sabe, só isso. Que eu fiquei maluca.
— Ah, meu amor… Você não ficou maluca. Você sempre foi maluca.
Eu ri, e ela apertou meu braço, num gesto afetuoso.
Daisy me esperava nos degraus da entrada. Minha mãe parou bem na porta, porque o peso da mochila ainda incomodava na altura das costelas. Era um dia frio, mas o sol estava forte, embora fosse bem cedo. Eu não parava de piscar, estranhando a luz intensa. Já não lembrava a última vez que havia passado tanto tempo fora de casa.
Daisy estava diferente. Seu rosto parecia mais luminoso. Levei um segundo para perceber que ela estava de cabelo novo, um corte Chanel que lhe caía muito bem.
— Posso abraçar você sem destruir seu fígado?
— Gostei do cabelo — elogiei, enquanto nos abraçávamos.
— Você é um amor, mas nós duas sabemos que ficou um desastre.
— Escuta… Me desculpa por tudo.
— Eu também peço desculpa, então agora a gente se perdoa e vive feliz para sempre.
— Sério — insisti —, eu me sinto péssima por ter…
— Eu também — interrompeu ela. — Você tem que ler minha história nova, minha cara. É um pedido de desculpa de quinze mil palavras ambientado na Jedha pós-apocalíptica. Eu só queria dizer, Holmes, que você é cansativa, sim, e que ser sua amiga dá trabalho, sim, mas você também é a pessoa mais fascinante que eu conheço e não tem nada a ver com mostarda. Você é uma pizza inteira, e esse é o maior elogio que eu poderia fazer a alguém.
— Eu sinto muito mesmo, Daisy, por não ser…
— Meu Deus do céu, Holmes, quanto rancor de si mesma. Você é minha pessoa preferida no mundo. Quero ser enterrada perto de você. Vamos dividir uma lápide. Nela estará escrito: “Holmes e Daisy: elas faziam tudo juntas (sem safadeza).” Mas me diga, como você está? — Dei de ombros. — Quer que eu continue falando? — Fiz que sim. — Sabe quando dizem que nossa, ela adora o som da própria voz? Eu adoro mesmo a minha voz. Poderia ser locutora de rádio. — Ela se virou e começou a subir os degraus, se encaminhando para a fila do detector de metais. — Já sei o que você está se perguntando: a Daisy ainda está com o Mychal? Cadê o carro dela? O que aconteceu com o seu cabelo? As respostas são: não, vendi, e foi uma medida emergencial depois que Elena grudou de propósito três chicletes no meu cabelo enquanto eu dormia. Foram duas longas semanas, Holmes. Quer mais detalhes?
Fiz que sim mais uma vez.
— Com todo o prazer — respondeu ela, enquanto passávamos pelo detector de metais. — Então. Sobre Mychal: as coisas esfriaram diante da minha necessidade de ser jovem, louca e livre. Foi como… Bem, depois daquela experiência de quase-morte, eu pensei: Será que quero mesmo desperdiçar minha juventude num relacionamento sério? Então cheguei pra ele e falei: “Acho que a gente devia sair com outras pessoas.” E ele só disse assim: “Eu não acho.” E eu insisti: “Por favor.” E ele: “Eu quero um relacionamento monogâmico.” E eu: “Eu não quero o peso dessa, sei lá, dessa Coisa na minha vida.” E ele mandou o seguinte: “Eu não sou uma coisa.” Aí a gente terminou. Acho que, tecnicamente, fui eu que levei um pé na bunda, mas foi uma dessas situações que só tendo um júri para determinar de quem foi a culpa.
Daisy tomou fôlego e prosseguiu:
— Quanto ao segundo tópico, eu descobri que carros são muito caros de se manter e que podem machucar pessoas, aí fui lá e consegui meu dinheiro de volta, porque foram menos de sessenta dias de uso, e agora só vou andar de Uber pelo resto da vida, porque é como se eu tivesse um monte de carros, e além do mais, agora que sou rica, mereço um motorista. Continuo ou não?
Havíamos chegado ao meu armário, e fiquei surpresa por me lembrar da combinação. Eram muitos corpos humanos ao meu redor. Eu quase não conseguia acreditar. Abri o armário. Não tinha feito nenhum dever de casa. Estava atrasada em todas as matérias. O corredor estava barulhento e agitado.
— Continue — respondi.
— Beleza. Posso fazer isso o dia todo. Mais um motivo para a gente nunca mais brigar: você é muito boa em não falar. Então: Elena. Ela grudou chiclete no meu cabelo de propósito enquanto eu dormia, e no dia seguinte eu virei e perguntei: “Por que tem chiclete no meu cabelo?”, e ela só fez: “Ha, ha, ha!”, aí eu falei: “Elena, você não entende nada de senso de humor. Infernizar a vida dos outros não tem graça. Se eu quebrasse sua perna, você ia achar engraçado?”, e ela, de novo: “Ha, ha, ha!”, então fiz um corte todo bacana e, sem dó nenhum, paguei com o dinheiro da poupança para a universidade dela. Ah, é, tem isso: meus pais me obrigaram a abrir uma poupança para a universidade da Elena. E mais: toda essa história com Mychal deixou o clima na nossa mesa de almoço meio constrangedor, por isso nós duas vamos fazer um piquenique ao ar livre. Sei que está um pouquinho frio, mas, acredite, ficar sentada com Mychal no refeitório vai ser bem mais gelado. Pronta para seu retorno triunfal à aula de biologia? Caramba, quanta coisa aconteceu enquanto você estava fora de si. É indelicado eu falar assim?
— Quem dera eu conseguisse ficar fora de mim. Minha mente é uma prisão.
— É exatamente isso que eu sinto em relação à minha virgindade. O que também explica por que Mychal e eu estávamos fadados ao fracasso… Ele só quer transar quando estiver apaixonado, e tudo bem, eu sei que esse negócio de virgindade é uma construção social misógina e opressora, mas mesmo assim quero perder a minha, e nesse meio-tempo eu fiquei com um garoto todo paradão e sem graça, que mais parecia ter saído de um romance da Jane Austen. Eu queria que os caras não fossem tão sentimentais e que eu não precisasse bancar a psicanalista para ficar com eles. — Daisy foi comigo até a sala de biologia e me acompanhou até minha mesa. Eu me sentei. — Você sabe que eu te amo, não sabe? — Assenti. — Passei a vida toda achando que eu era a estrela de uma comédia romântica, e no fim das contas eu estava o tempo todo numa comédia com “duas amigas vivendo altas aventuras…”. Tenho que ir para a aula de cálculo. Tô muito feliz por ter você de volta.

* * *

Daisy levou metade de uma pizza dormida para nosso piquenique, e nos sentamos embaixo do único carvalho grande da escola, no caminho para o campo de futebol. Com aquela temperatura congelante, nós duas usávamos casacos enormes, com o capuz erguido, e minha calça jeans chegava a ficar enrijecida em contato com o gramado.
Eu não estava de luva, então enfiei as mãos na manga do casaco. Aquele tipo de clima não era nada apropriado para um piquenique.
— Eu tenho pensado muito no Pickett — disse Daisy.
— Sério?
— É. Sabe… enquanto você estava longe, fiquei pensando que é muito esquisito abandonar os filhos desse jeito, sem nem se despedir. Para ser sincera, quase me senti mal por ele. Deve estar acontecendo alguma coisa bem bizarra com esse homem para ele não ter comprado nem um celular vagabundo qualquer e mandado uma mensagem para os filhos avisando que está bem.
Eu tinha mais pena do menino de treze anos que acordava todos os dias com esperança e passava a noite jogando videogame para esquecer aquela dorzinha chata de saber que o pai não confiava nele nem o amava o bastante para entrar em contato, o mesmo pai que só pensou em um tuatara ao escrever o testamento.
— Eu me sinto pior pelo Noah do que pelo Pickett — falei.
— Você sempre teve empatia por esse garoto. Mesmo quando não consegue ter empatia nem pela sua melhor amiga.
Olhei na mesma hora para ela, que riu, mas eu sabia que não era brincadeira.
— Mas então: o que seus pais fazem? — perguntei.
Daisy riu de novo.
— Meu pai trabalha no Indiana State Museum. É segurança lá. Ele gosta, porque é apaixonado pela história do estado, mas passa a maior parte do tempo só impedindo que toquem nos ossos de mastodonte ou sei lá o quê. Minha mãe trabalha numa lavanderia em Broad Ripple.
— Você contou a eles sobre o dinheiro?
— Sim. Foi assim que a Elena conseguiu a tal poupança. Me obrigaram a depositar dez mil para ela. Meu pai disse: “Sua irmã faria o mesmo por você.” Até parece.
— Eles não ficaram bravos?
— Por eu chegar em casa num belo dia com cinquenta mil no bolso? Não, Holmes, não ficaram bravos.
Por dentro da manga, senti alguma coisa pingando do meu dedo médio. Eu teria que trocar o band-aid antes da aula de história, passar por todo aquele ritual chato. Mas, por ora, era bom estar com Daisy. Era bom ficar vendo minha respiração condensar no ar frio.
— Como vai Davis? — perguntou ela.
— Ainda não falei com ele. Não falei com ninguém.
— Então a coisa foi feia mesmo.
— Foi — falei.
— Sinto muito.
— Não é culpa sua.
— Você pensou… Você pensa em se matar?
— Só pensei que não queria continuar vivendo desse jeito.
— Você ainda…
— Não sei. — Respirei fundo bem devagar, observando a fumacinha se desfazer no ar de inverno. — Talvez eu seja como o White River. Não navegável.
— Essa não é a moral da história, Holmes. O importante é que construíram a cidade mesmo assim, entende? A gente trabalha com o que tem. Eles tinham esse rio de merda e ergueram uma cidade legal em volta. É uma cidade incrível? Talvez não. Mas tem seu valor. Você não é o rio. É a cidade.
— Então, eu tenho meu valor?
— Tem, sim. Você é um 9 fácil nessa prova, cara. Se conseguir construir uma cidade 9 com essa geografia 7,5, já está de bom tamanho.
A ideia me fez rir. Ao meu lado, Daisy se deitou com a cabeça nas raízes daquele carvalho solitário e me convidou a fazer o mesmo. Ficamos olhando para o céu cinza-chumbo que se estendia acima da névoa da nossa respiração, os galhos sem folhas se cruzando no alto.
Eu não lembrava se já tinha comentado com Daisy sobre aquilo — será que ela tinha se deitado, exatamente naquele momento, porque sabia que eu adorava ver o céu fragmentado? Pensei naqueles galhos distantes uns dos outros, que ainda assim conseguiam se cruzar no meu campo de visão, assim como as estrelas de Cassiopeia estão muito distantes umas das outras, mas, de algum modo, ao mesmo tempo estão perto de mim.
— Eu queria entender como é — disse Daisy.
— Tudo bem. No fundo ninguém entende o que se passa com o outro. Está todo mundo preso dentro de si mesmo.
— Você… hã… se odeia? Você odeia ser você?
— Não existe um “eu” para odiar. É como se, quando eu olhasse para mim mesma, não visse nada definido… só um monte de pensamentos, atos e contextos. E muitos na verdade nem parecem meus. Muitos pensamentos eu não quero pensar, muitas coisas eu não quero fazer, é mais ou menos isso. Quando procuro o que eu sou, nunca encontro. Como as matrioskas, aquelas bonecas russas, sabe? As bonecas são ocas e, quando abrimos uma delas, tem outra boneca menor dentro, e assim por diante, todas ocas até a menor delas, que é sólida. Só que dentro de mim… acho que não existe a última. Só bonecas ocas, uma menor que a outra.
— Isso me lembra uma história que minha mãe gosta de contar.
— Que história?
Daisy batia os dentes enquanto falava, mas não queríamos parar de olhar o céu fragmentado.
— É assim… Um cientista estava dando uma palestra sobre a história do nosso planeta para uma plateia enorme e explicou que a Terra foi formada há bilhões de anos, a partir de uma nuvem de poeira cósmica, e por um tempo o planeta era muito quente, mas com o tempo esfriou um pouco, permitindo a formação dos oceanos. Um organismo unicelular surgiu, e, após bilhões de anos, a vida ficou mais abundante e complexa, até que, há mais ou menos duzentos e cinquenta mil anos, os seres humanos evoluíram e começaram a usar ferramentas mais avançadas, chegando a construir naves espaciais e tudo o mais.
“Pois então. O cientista fez toda essa apresentação sobre a história da Terra e do surgimento da vida e, no fim, perguntou se alguém tinha alguma dúvida. Uma senhora lá no fundo levantou a mão e disse: ‘Isso tudo é muito bonito, senhor cientista, mas a verdade é que a Terra é uma superfície plana em cima do casco de uma tartaruga gigante.’
“O cientista decidiu se divertir um pouco e respondeu: ‘Ora, mas se é assim, a tartaruga gigante está em cima do quê?’ E a mulher disse: ‘Ela está em cima do casco de outra tartaruga gigante.’ Então o cientista, já frustrado a essa altura, perguntou: ‘Ora, e essa tartaruga está em cima do quê?’ E a senhora respondeu: ‘O senhor não está entendendo. São tartarugas até lá embaixo.’
Dei uma risada.
— São tartarugas até lá embaixo — repeti.
— São só umas tartarugas ridículas até lá embaixo, Holmes. Você está tentando encontrar a primeira tartaruga, mas não é assim que funciona.
— Porque são tartarugas até lá embaixo — repito uma segunda vez, sentindo uma espécie de revelação espiritual.

* * *

Passei na sala da minha mãe no finalzinho do almoço. Fechei a porta e me sentei de frente para ela. Olhei o relógio na parede: 13h08. Eu tinha seis minutos. Não precisava de mais que isso.
— Oi — falei.
— Tudo indo bem no seu retorno à escola?
Ela assoou o nariz num lenço de papel. Estava gripada, mas tinha gastado todos os dias da licença médica para ficar em casa cuidando de mim.
— Sim — respondi. — Olha, Davis me deu dinheiro. Muito dinheiro. Tipo cinquenta mil dólares. Eu não gastei. Estou guardando para a faculdade. — Ela parecia tensa. — Foi um presente — acrescentei.
— Quando foi isso?
— Hum, faz uns dois meses.
— Isso não é presente. Um colar é um presente. Uma bolsa com cinquenta mil é… é tudo menos um presente. Se eu fosse você, devolveria esse dinheiro. Para não ficar devendo nada ao Davis.
— Mas eu não sou você. E não vou devolver.
Fez-se uma pausa de um segundo.
— É verdade — disse ela, por fim. — Você não sou eu.
Esperei até ela dizer mais alguma coisa, explicar por que seria errado ficar com o dinheiro.
— A vida é sua, Aza, mas acho que se você olhar bem para a sua saúde mental nos últimos meses… — começou ela.
— Isso não teve nada a ver com o dinheiro. Eu já estou doente há muito tempo.
— Não desse jeito. Eu preciso que você fique bem, Aza. Não posso perder…
— Meu Deus, para de dizer isso, mãe. Sei que a sua intenção não é me pressionar, mas eu fico com a sensação de que estou fazendo alguma coisa contra você, de que estou cometendo uma agressão, e acabo me sentindo dez mil vezes pior. Estou fazendo tudo que posso, mas não consigo fazer minha cabeça ficar boa só por sua causa, entende?
Ficamos em silêncio por um tempo.
— No dia em que você saiu do hospital, eu te carreguei para o banheiro, depois te levei para a cama e te cobri. Então eu percebi que provavelmente nunca mais pegaria você no colo. Você tem razão. Eu fico dizendo que não posso perder minha filha, mas vou perder. Estou perdendo. E é difícil encarar isso. Muito, muito difícil. Mas você tem razão. Você não sou eu. Você precisa fazer suas escolhas. E se está guardando dinheiro para sua educação, tomando decisões responsáveis, ora, então, eu estou… — Ela não chegou a terminar a frase, porque naquele momento as entidades superiores tocaram o sinal.
— Tudo bem, então — falei.
— Eu te amo, Aza.
— Também te amo, mãe.
Eu queria dizer mais, queria encontrar um modo de expressar os polos magnéticos do meu amor por ela: obrigada desculpa obrigada desculpa. Tentei muito, mas não consegui. De qualquer modo, o sinal havia tocado.

* * *

Eu estava a caminho da aula de história quando Mychal me parou no corredor.
— Oi, como você está? — perguntou ele.
— Bem, e você?
— Daisy e eu terminamos.
— Eu soube.
— Estou meio mal.
— Sinto muito.
— E ela não está nem aí, então me sinto meio patético. Daisy acha que eu tenho que superar essa história e pronto, mas tudo me lembra ela, Holmes, e quando vejo que Daisy está me ignorando, que não aparece para o almoço, tudo isso… Você não pode falar com ela por mim?
Bem nessa hora, vi Daisy no meio do corredor cheio, andando de cabeça baixa.
— Daisy! — gritei.
Ela continuou andando, então gritei de novo, mais alto. Daisy levantou o rosto, abriu caminho pela multidão e veio ao nosso encontro.
Coloquei os dois lado a lado.
— Vocês me procuram para falar um sobre o outro, mas não conseguem conversar entre si. Tratem de resolver isso, porque está ficando chato. Tudo bem? Então tá bom. Tenho aula de história agora.
Daisy me mandou uma mensagem durante a aula.
Ela: Obrigada por fazer aquilo. Decidimos ser amigos.
Eu: Legal.
Ela: Mas amigos que se beijam logo depois de decidirem ser só amigos.
Eu: Com certeza vai dar supercerto.
Ela: Tudo dá certo no final.
Como eu já estava com o celular e estavam passando um vídeo na aula, resolvi mandar uma mensagem para Davis.
Eu: Desculpa demorar tanto para falar com você. Oi. Estou com saudades.
Ele respondeu na mesma hora.
Ele: Quando a gente pode se ver?
Eu: Amanhã?
Ele: 7h no Applebee’s?
Eu: Por mim tá ótimo.

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