20 de novembro de 2018

Capítulo Vinte e Três

No dia seguinte, sábado, acordei revigorada com os pingos de chuva semicongelados tamborilando na janela. Os invernos de Indianápolis raramente nos agraciavam com aquela neve linda em que as pessoas esquiam ou andam de trenó. Geralmente, tínhamos que nos contentar com um tipo de precipitação batizado de “mix invernal”, que combinava granizo, vento e aquela chuva meio água, meio gelo.
Nem estava tão frio para os nossos padrões, talvez uns dois graus, mas o vento uivava lá fora. Eu me levantei, me vesti, comi um pouco de cereal, engoli o comprimido redondinho e me sentei para ficar um pouco com minha mãe, vendo TV. Adiei o momento durante toda aquela manhã: pegava o celular, começava a escrever uma mensagem para ele e desistia. Pegava de novo, mas não. Ainda não. Sempre achava que ainda não era a hora certa. Mas, é claro, nunca seria a hora certa.

* * *

Lembro que, depois que perdi meu pai, por um tempo a morte dele foi ao mesmo tempo real e irreal na minha cabeça. Por muitas semanas eu ainda conseguia evocá-lo no meu dia a dia. Imaginava meu pai caminhando, todo suado, depois de aparar a grama. Ele tentava me abraçar, mas eu me afastava, porque já naquela época tinha pavor de suor.
Ou então eu estava deitada de bruços na cama, lendo um livro, quando olhava para a porta fechada e imaginava meu pai a abrindo, entrando no meu quarto e se ajoelhando para me dar um beijo na cabeça.
Mas com o tempo foi ficando cada vez mais difícil evocá-lo, sentir seu cheiro, imaginá-lo me pegando no colo. Meu pai morreu de repente, mas também morreu ao longo dos anos. E, anos depois, ainda estava morrendo — o que significava, acho, que ele também ainda estava vivendo.
As pessoas sempre falam como se houvesse uma linha bem definida entre a imaginação e a memória, mas não é assim, ao menos não para mim. Eu me lembro de coisas que imaginei e imagino coisas de que me lembro.

* * *

Passava do meio-dia quando finalmente mandei uma mensagem para Davis:
Eu: Precisamos conversar. Você pode passar aqui em casa hoje?
Ele: Não tem ninguém para ficar com o Noah. Você pode vir pra cá?
Eu: Tem que ser a sós.
Queria que fosse escolha de Davis contar ou não ao irmão o destino do pai.
Ele: Passo aí às cinco e meia.
Eu: Obrigada. Até mais tarde.

* * *

O dia seguiu numa lentidão dolorosa. Tentei ler, trocar mensagens com Daisy, ver TV, mas nada fazia o tempo passar mais rápido. Eu não sabia se a vida seria melhor se ficasse congelada naquele momento ou se pulasse para o momento que estava por vir.
Às quatro e quarenta e cinco, eu estava lendo na sala enquanto minha mãe organizava as contas.
— Davis vai dar uma passadinha aqui — avisei a ela.
— Tudo bem. Eu tenho que dar uma saída mesmo. Quer alguma coisa do mercado?
— Não.
— Está se sentindo ansiosa?
— Será que a gente pode combinar de eu mesma dizer quando estiver preocupada com a minha saúde mental, em vez de você ficar perguntando?
— É impossível eu não me preocupar, querida.
— Eu sei, mas também é impossível não sentir a sua preocupação pesando no meu peito.
— Vou tentar.
— Obrigada, mãe. Te amo.
— Também te amo. Muito.

* * *

Zapeei pelos infinitos canais de TV, nenhum deles muito interessante, até ouvir a batida de Davis à porta, suave e insegura.
— Oi — falei, dando um abraço nele.
— Oi.
Indiquei o sofá.
— Como você está? — perguntou ele.
— Escuta. É seu pai, Davis. Eu sei o que é a boca do corredor. É onde o Pogue’s Run desemboca, naquele projeto inacabado da empresa dele.
Davis pareceu abalado por um momento.
— Tem certeza disso?
— Quase certeza — respondi. — Acho que ele pode estar lá embaixo. Daisy e eu estávamos lá ontem à noite e…
— Você o viu?
— Não. Mas veja, Pogue’s Run, corrida, corredor. A boca do corredor. Faz sentido.
— Aquilo era só uma anotação no celular dele. Você acha que ele está lá embaixo esse tempo todo? Se escondendo no esgoto?
— Talvez — respondi. — Mas… Bem, não sei.
— O quê?
— Não quero assustar você, mas é que sentimos um cheiro ruim, muito ruim mesmo, vindo lá de baixo.
— Pode ser qualquer coisa — retrucou ele, mas era nítido o medo em seu rosto.
— Sim, claro, pode ser qualquer coisa.
— Eu nunca pensei que… Nunca me permiti considerar que ele poderia… — A voz dele falhou antes de concluir a frase. O choro que finalmente brotou de Davis foi como o céu se abrindo. Ele praticamente desabou em cima de mim, no sofá, e o abracei. Senti os soluços sacudirem seu corpo. Não era apenas Noah que sentia falta do pai. — Meu Deus, ele está morto, não é?
— Não tem como saber isso — falei.
Mas no fundo ele já sabia. Havia uma razão para não terem encontrado nenhum rastro de Pickett e para ele não ter tentado se comunicar: estava morto o tempo todo.
Davis se deitou, e eu me deitei com ele, nós dois mal cabendo no sofá velho. Ele repetia o que eu faço agora, o que eu faço agora, a cabeça apoiada no meu ombro. Talvez tivesse sido um erro contar a ele. O que eu faço agora?, repetiu Davis outra vez, e mais outra, implorando.
— Agora você segue em frente — falei. — Vocês ainda têm sete anos. Não importa o que realmente aconteceu, para todos os efeitos ele vai continuar oficialmente vivo por sete anos, e vocês vão ficar com a casa e tudo o mais. É tempo suficiente para reconstruir uma vida, Davis. Sete anos atrás a gente ainda nem se conhecia, já pensou nisso?
— Não temos ninguém agora — murmurou ele.
Eu queria poder dizer que ele tinha a mim, que podia contar comigo, mas não era verdade.
— Você tem seu irmão.
Ele desabou no choro de novo, e ficamos aconchegados um no outro por um bom tempo. Quando minha mãe chegou, com as compras, demos um pulo, embora não estivéssemos fazendo nada de mais.
— Desculpa interromper — disse minha mãe.
— Eu já estava de saída — disse Davis.
— Não precisa ir — dissemos minha mãe e eu ao mesmo tempo.
— Na verdade, preciso, sim. — Davis me abraçou. — Obrigado — sussurrou, embora eu não achasse que tinha feito favor algum a ele.
Davis parou na porta por um segundo e se virou, olhando para nós duas juntas, minha mãe e eu, aparentemente um retrato da felicidade familiar. Achei que ele fosse falar alguma coisa, mas apenas acenou, tímido e constrangido, e foi embora.

* * *

Foi uma noite calma no lar das Holmes. Uma noite como qualquer outra. Eu me ocupei com um trabalho de história, sobre a Guerra de Secessão. Lá fora, o dia — que nunca chegara a ficar particularmente claro — deu lugar à escuridão.
Avisei à minha mãe que ia dormir, vesti o pijama, escovei os dentes, troquei o band-aid que protegia a casquinha da ferida no meu dedo, me enfiei na cama e mandei uma mensagem para Davis.
Eu: Oi.
Como ele não respondeu, escrevi para Daisy:
Eu: Falei com Davis.
Ela: Como foi?
Eu: Não muito bem.
Ela: Quer que eu vá aí?
Eu: Quero.
Ela: Saindo.

* * *

Uma hora depois, Daisy e eu estávamos deitadas lado a lado na minha cama, cada uma com seu computador na barriga. Eu estava lendo a nova história de Ayala. Toda vez que eu ria de alguma coisa, Daisy perguntava o que era. Depois que terminei, ficamos deitadas sem fazer nada, olhando para o teto.
— Bem — disse Daisy —, no fim até que deu tudo certo.
— Como assim?
— Ué, nossas heroínas ficaram ricas e ninguém saiu machucado.
— Todo mundo saiu machucado — retruquei.
— Ninguém saiu machucado fisicamente.
— Eu tive uma lesão no fígado!
— Ah, é verdade. Tinha esquecido isso. Pelo menos ninguém morreu.
— Harold morreu! E talvez Pickett também!
— Holmes, quer me deixar ter um final feliz? Você está estragando tudo.
— Sou muito Ayala mesmo.
— Muito Ayala.
— O problema dos finais felizes é que ou não são realmente felizes, ou não são realmente finais, sabe? Na vida real, algumas coisas melhoram e outras pioram. E aí a gente morre.
Daisy riu.
— Aza E Aí A Gente Morre Holmes está sempre a postos para nos lembrar como a história realmente termina: com a extinção da nossa espécie.
Eu ri.
— Poxa, mas esse é o único final definitivo.
— Não, não é, Holmes. A gente escolhe os nossos finais e os nossos começos. Podemos escolher a moldura, sabe? A gente pode até não decidir o que aparece na foto, mas a moldura é a gente que decide.

* * *

Davis não respondeu à minha mensagem, nem à outra que mandei alguns dias depois. Mas atualizou o blog.
“E, tal qual a construção infundada dessa visão, / as torres, cujos topos deixam-se cobrir pelas nuvens, e os palácios, maravilhosos, / e os templos, solenes, e o próprio Globo, grandioso, / (…) e todos os que o receberem por herança se esvanecerão / (...) nada deixará para trás um sinal, um vestígio.”
— William Shakespeare

Eu entendo que nada dura para sempre. Mas por que eu tenho que sentir tanta falta de todos?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!