20 de novembro de 2018

Capítulo Vinte e Quatro

Um mês depois, assim que o recesso de Natal terminou, acordei cedo um dia e servi duas tigelas de cereal, uma para minha mãe, outra para mim. Estava comendo em frente à TV quando ela desceu, ainda de pijama, agitada.
— Estou muito muito muito atrasada — falou. — Exagerei no soneca do alarme.
— Preparei seu café da manhã.
— Cheerios já vem pronto — disse ela, sentando-se ao meu lado no sofá.
Dei uma risada enquanto ela comia algumas colheradas e corria para se vestir.
Sempre um turbilhão de movimentos, essa minha mãe.
Quando olhei de novo para a TV, o telejornal anunciava uma notícia urgente. Um repórter estava parado ao portão da mansão dos Pickett. Procurei o controle remoto e aumentei o volume.
— Fontes asseguram que, apesar de a identidade não ter sido confirmada, as autoridades dão como certo que o corpo encontrado em um túnel secundário do Pogue’s Run é do bilionário e magnata imobiliário Russell Davis Pickett. Uma fonte que acompanhou de perto as investigações declarou ao Eyewitness News que a provável causa da morte foi hipotermia, poucos dias após o desaparecimento. Não obtivemos confirmação oficial, mas, segundo várias fontes, o corpo foi descoberto depois de uma denúncia anônima.
Mandei uma mensagem para Davis na mesma hora.
Eu: Acabei de ver na TV. Lamento muito, Davis. Sei que já cansei de dizer isso, mas sinto muito mesmo.
Ele não respondeu de imediato, então acrescentei:
Eu: Quero que você saiba que não fui nem eu nem a Daisy quem avisou à polícia. Nunca contamos nada a ninguém. É sério.
Vi o “digitando…”.
Ele: Eu sei. Fomos nós. Noah e eu decidimos juntos.
Minha mãe entrou na sala, colocando os brincos enquanto calçava os sapatos. Ela provavelmente havia escutado parte da notícia, porque disse:
— Aza, você devia falar com o Davis. Hoje vai ser um dia bem difícil para ele.
— Acabei de mandar uma mensagem. Foram eles, Davis e o irmão, que avisaram à polícia onde procurar.
— Caramba, dá pra acreditar que todos os bens deles vão para um lagarto? Eles poderiam ter esperado sete anos, pelo menos, para que Pickett fosse declarado morto. Mais sete anos naquela casa, mais sete anos tendo o que quisessem. Mas tinham decidido permitir que tudo fosse para o tuatara.
— Acho que eles não conseguiriam deixar o pai lá — opinei. — Talvez eu não devesse ter contado ao Davis.
No fim das contas, aquilo tudo era culpa minha. Um calafrio de pavor percorreu meu corpo. Eu havia forçado Davis e Noah a escolher entre abandonar o pai ou as próprias vidas.
— Não seja cruel consigo mesma — disse minha mãe. — É claro que saber a verdade importava mais para eles do que a casa. Além disso, Davis não vai morar debaixo da ponte, Aza.
Tentei pensar daquela forma, mas não dava para ignorar aquele sentimento que brotara em mim. Por um momento, tentei resistir, mas só por um momento. Tirei o band-aid e cravei a unha no calo, abrindo um novo corte onde o anterior havia enfim cicatrizado.
Enquanto eu lavava o dedo e colocava outro band-aid, me encarei no espelho do banheiro. Eu sempre seria daquele jeito, sempre teria aquilo dentro de mim. Não havia como vencer. Eu nunca mataria o dragão, porque o dragão era parte de mim. Estava presa à minha doença pelo resto da vida.
Então me lembrei da citação de Frost no blog de Davis: “Posso resumir em três palavras tudo o que aprendi sobre a vida: a vida continua.”
E nós continuamos também, quando a corrente está a nosso favor e também quando não está. Ou ao menos foi isso que sussurrei mentalmente para mim mesma. Antes de sair do banheiro, mandei outra mensagem para ele.
A gente pode se ver um dia desses?
Vi o “digitando…” aparecer, mas a resposta nunca veio.
— Temos que ir — chamou minha mãe.
Abri a porta do banheiro, peguei um casaco e um gorro de lã no cabideiro e fui até a garagem gelada. Passei os dedos por baixo do portão, o ergui e me acomodei no banco do carona, enquanto minha mãe terminava de tomar café. Continuei olhando para o celular, esperando uma resposta. Apesar do frio, eu suava, o suor encharcando o gorro. Pensei em Davis ouvindo o próprio nome nos jornais de novo. Você continua, falei para mim mesma, e tentei dizer isso a ele mentalmente.

* * *

Os meses se passaram, e a vida continuou. Melhorei, sem nunca chegar a uma cura. Daisy e eu criamos um Grupo de Apoio à Saúde Mental e uma Oficina de Fanfics, que poderíamos aproveitar para incluir na lista de atividades extracurriculares para nossas candidaturas às universidades, no ano seguinte, embora fôssemos os únicos membros dos dois clubes. Nos encontrávamos quase toda noite, na casa dela, na minha ou no Applebee’s, às vezes com Mychal, mas normalmente só nós duas mesmo. Víamos filmes, fazíamos o dever de casa ou só conversávamos. Era muito fácil “sair para o prado” com ela.
Eu sentia falta de Davis, é claro. Nos primeiros dias, não parava de olhar o celular, esperando que ele respondesse, mas aos poucos compreendi que éramos parte do passado um do outro. Só que a saudade permanecia. Assim como a saudade que eu tinha do meu pai. E de Harold. Eu sentia falta de todos. Estar vivo é sentir saudade.

* * *

Então, numa noite de abril, Daisy e eu estávamos na minha casa assistindo a uma premiação de música de quinta categoria em que nossa banda preferida se reunira para uma única apresentação. Eles haviam acabado de fazer um playback impecável de “It’s Gotta Be You” quando alguém bateu à porta. Eram quase onze da noite, tarde demais para visitas, e senti um arrepio de nervosismo quando fui atender.
Era Davis, com uma camisa xadrez e jeans skinny. Trazia uma caixa enorme.
— Hã… Oi — falei.
— Para você — disse ele, me entregando a caixa, que não era tão pesada quanto parecia.
Levei para dentro e a coloquei na mesa de jantar. Quando me virei de novo, Davis já estava indo embora.
— Espera. Vem cá — chamei, estendendo a mão.
Fomos para o quintal. O nível do rio estava alto, o ruído das águas agitadas nos alcançando na escuridão. Eu me deitei no chão, sob um freixo grande, e senti o ar cálido em meus antebraços nus. Davis se deitou ao meu lado, e mostrei a ele o céu que eu via da minha casa, todo fragmentado pelos galhos que apenas começavam a se revestir de folhas.
Davis me contou que ele e o irmão iam morar no Colorado, onde Noah havia sido aceito num colégio interno para adolescentes problemáticos. Davis concluiria o ensino médio numa escola pública. Eles alugaram uma casa.
— É menor que a nossa, mas, olhando pelo lado bom, não tem nenhum tuatara.
Ele me perguntou como eu estava. Contei que me sentia bem na maior parte do tempo, que as consultas com a dra. Singh haviam passado a ser mensais.
— Quando você vai embora? — perguntei.
— Amanhã.
Isso fez a conversa morrer. Quebrei o silêncio um minuto depois:
— Mas então, o que eu estou vendo lá em cima?
Ele deu uma risadinha.
— Bem, ali está Júpiter, isso é fácil. Brilhando muito hoje. E ali está Arcturo. — Ele se contorceu um pouco para se virar e apontou para outro lado. — E lá está a Ursa Maior. E se a gente traçar uma linha na direção daquelas duas estrelas, bem ali, aquela é a Estrela Polar, ou Estrela do Norte.
— Davis, por que você contou à polícia?
— Porque o vazio de não saber o que aconteceu estava corroendo Noah. Percebi que… Acho que eu entendi que tinha um papel a cumprir como irmão mais velho, sabe? Esse é o meu papel em tempo integral agora. É isso que eu sou. E Noah simplesmente precisava saber por que o pai não tinha entrado em contato com ele. Ele precisava disso mais do que de todo aquele dinheiro. Então, foi o que fizemos.
Apertei a mão dele, tentando reconfortá-lo.
— Você é um bom irmão.
Davis assentiu. À meia-luz, notei que ele estava chorando um pouquinho.
— Obrigado — respondeu ele. — Eu queria ficar aqui, neste momento, por muito, muito tempo.
— Sei como é.
Um silêncio confortável nos envolveu, e senti a magnitude do céu acima de mim, a vastidão inimaginável de tudo aquilo — olhar para a Estrela Polar e perceber que a luz que eu via tinha quatrocentos e vinte e cinco anos, depois olhar para Júpiter, a menos de uma hora-luz de nós. Na escuridão daquela noite sem lua, éramos só testemunhas da luz, e tive um vislumbre de compreensão do que provavelmente tanto atraía Davis na astronomia — certo alívio em se confrontar com a própria pequenez. Então me dei conta de algo que ele já devia saber: as espirais vão se fechando até o infinito quanto mais mergulhamos nelas, mas também se ampliam até o infinito à medida que saímos.
Foi quando eu soube que me lembraria para sempre do que senti naquele momento, sob o céu fragmentado, quando a máquina do destino ainda viria a aterrar nossos caminhos, quando ainda havia tantas possibilidades.
Pensei, deitada sob aquele freixo, que provavelmente amaria Davis pelo resto da vida. Nós nos amávamos de verdade — mesmo que nenhuma declaração tivesse sido feita, mesmo que não estivéssemos imersos no amor, mas era o que eu sentia. Eu o amava, e pensei: talvez nunca mais o veja, e sempre sentirei saudade, e isso não é terrível?

* * *

Mas nem é algo terrível, porque eu conheço o segredo que a Aza deitada sob aquele céu jamais poderia imaginar: sei que aquela garota continuaria, cresceria, teria filhos e os amaria. Que, apesar de amá-los, em algum momento ficaria doente e não poderia cuidar deles, seria hospitalizada, se recuperaria, depois ficaria doente de novo. Sei que um terapeuta lhe diria: “Escreva, escreva como chegou até aqui.”
E você faria isso, e, ao escrever, perceberia que amar não é uma tragédia ou um fracasso, mas um presente.
Você se lembra do seu primeiro amor porque os primeiros amores mostram — provam — que você pode amar e ser amada, que nada nesse mundo é merecido exceto o amor, que o amor é ao mesmo tempo como e por que você se torna uma pessoa.

* * *

Mas sob esses céus, com sua mão — não, minha mão — não, nossa mão — na dele, você ainda não sabe. Não sabe que o quadro da espiral está naquela caixa na sua mesa de jantar, com um post-it colado na parte de trás da moldura: Roubei isso de um lagarto para você. D. Você ainda não tem como saber que aquele quadro vai acompanhá-la de um apartamento para outro, e finalmente para uma casa; nem que, décadas depois, vai ter muito orgulho por Daisy continuar sendo sua melhor amiga, que seguir vidas diferentes só tornou as duas ainda mais leais uma à outra. Você não sabia que cursaria uma faculdade, que teria um emprego, que construiria sua vida, e que veria essa vida se desconstruir e se reconstruir.
Eu, pronome pessoal no singular, continuaria seguindo em frente, mesmo que sempre numa oração condicional.
Mas você ainda não sabe nada disso. Apertamos a mão dele com carinho. Ele retribui o gesto e aperta a nossa. Vocês olham para o mesmo céu, juntos, e enfim ele diz: Tenho que ir. E você responde: Até logo. E ele diz: Até logo, Aza. E ninguém nunca diz até logo a menos que queira ver a pessoa novamente.


3 comentários:

  1. Ameiiii, apesar desse dedo de AZA me dar arrepios, gostei muito.
    Att: Aline Durães

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  2. mais uma vez John Green fez um livro fantástico, ameiii

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Boa leitura, E SEM SPOILER!