20 de novembro de 2018

Capítulo Vinte e Dois

Pensei que seria tranquilo dirigir o Toyota Camry prateado da minha mãe até o Applebee’s naquela noite, mas eu não conseguia afastar as lembranças do acidente. Parecia surreal e milagroso que tantos carros passassem uns pelos outros sem bater, e eu tinha certeza de que cada par de faróis vindo na minha direção acabaria inevitavelmente se lançando sobre mim. Minha mente voltava ao som de metal retorcido da morte de Harold, ao silêncio que se seguiu, à dor agonizante nas minhas costelas. A parte mais importante é a parte que dói, lembrei, e pensei no celular do meu pai, destruído para sempre. Tentei me permitir ter esses pensamentos, porque negá-los apenas os colocaria no controle.
Meio que funcionou… tanto quanto qualquer outra coisa.
Cheguei ao Applebee’s quinze minutos antes do horário combinado, mas Davis já estava lá. Ele me recebeu com um abraço, e fomos nos sentar. Um pensamento tão inegável quanto o sol em um dia de céu claro surgiu na minha mente: Ele vai querer colocar bactérias na minha boca.
— Oi — falei.
— Estava com saudade.
Depois do nervosismo no carro, meu cérebro estava despertando. Lembrei a mim mesma que ter um pensamento não era perigoso, que pensamentos não são ações, que pensamentos são apenas pensamentos.
A dra. Karen Singh gostava de dizer que um pensamento indesejado é como um carro passando numa estrada enquanto você está parado no acostamento. Repeti para mim mesma que eu não precisava entrar naquele carro, que eu não teria que escolher entre ter aquele pensamento ou não, mas entre me deixar ser levada por ele ou não.
Entrei naquele carro.
Eu me sentei à mesa. Davis, em vez de ficar de frente para mim se sentou ao meu lado, sua perna tocando a minha.
— Falei com a sua mãe algumas vezes — disse ele. — Acho que ela está começando a gostar de mim.
Quem se importa se ele quer as bactérias dele na minha boca? Beijar é bom. Beijar é bom. Eu quero beijar Davis. Mas você não quer pegar a campylobacter. Isso não vai acontecer. Vai ficar doente por semanas. Talvez tenha que tomar antibiótico. Para. E aí você vai pegar a C. diff. Ou Epstein-Barr por causa da campylobacter. Para. Isso pode deixar você paralisada. E tudo porque você beijou um garoto quando nem queria fazer isso porque é nojento pra cacete enfiar a língua na boca de outra pessoa.
— Você está aí? — perguntou Davis.
— O quê? Ah, sim.
— Perguntei como está se sentindo.
— Estou bem… Bom, para ser sincera, não muito bem nesse momento, mas bem de um modo geral.
— Por que não muito bem nesse momento?
— Você pode se sentar de frente para mim?
— Hã… Sim, claro.
Ele deu a volta para se sentar no banco oposto, o que me deixou um pouco melhor. Por um tempo, pelo menos.
— Não posso fazer isso — falei.
— Isso o quê?
— Isso — repeti. — Não posso, Davis. Não sei se algum dia vou poder. Sei que você é paciente, e eu adoro as suas mensagens. São… são muito fofas, mas provavelmente esse é o melhor que vou chegar a ser.
— Eu gosto de você assim.
— Não, não gosta. Você quer que a gente se beije e quer sentar ao meu lado e quer fazer outras coisas que um casal normal faz. E você está certo em querer isso.
Davis não disse nada por um tempo.
— Talvez você só não me ache bonito.
— Não é isso — retruquei.
— Mas talvez seja.
— Não é. Não é que eu não queira beijar você, ou não goste de beijar, nada disso. Eu… Meu cérebro diz que beijar é uma das muitas coisas que podem… bem, me matar. Matar mesmo. Mas o problema nem é morrer… Por exemplo, se eu soubesse que estava morrendo e desse um beijo de despedida em você, meu último pensamento não seria sobre a morte. Seria, literalmente, sobre os oitenta milhões de micróbios que teríamos acabado de trocar. Sei que ser tocada por você não vai me deixar doente, ou pelo menos eu acho que não. Caramba, nem consigo dizer que isso com certeza não me deixaria doente, porque tenho muito medo, Davis. Não consigo nem usar o nome direito em vez de chamar de isso, entende? Não consigo.
Percebi que estava magoando Davis, que não parava de piscar. Eu via que ele não compreendia, que não conseguia compreender. E eu não o culpava. Não fazia sentido mesmo. Era uma história repleta de inconsistências narrativas.
— Parece bem assustador mesmo — comentou Davis, e eu apenas assenti. — Você acha que está melhorando?
Todos queriam que eu dissesse algo que os tranquilizasse. Da escuridão para a luz, da fraqueza para a força, do quebrado para o inteiro. Eu também queria isso.
— Talvez — respondi. — Para ser honesta, eu me sinto muito frágil ainda. Como se tivesse sido remendada com durex.
— Sei como é.
— E você? Como estão as coisas? — perguntei.
Ele deu de ombros.
— Como está o Noah?
— Nada bem.
— Hã… O que seria “nada bem”?
— Ele sente falta do pai, só isso. É como se Noah fosse duas pessoas: o delinquente juvenil que bebe vodca barata e é o rei da ganguezinha do oitavo ano e ao mesmo tempo é o garotinho que às vezes se enfia na minha cama à noite e chora. É quase como se ele achasse que, se fizer bastante merda, meu pai vai ser forçado a sair de onde quer que esteja se escondendo.
— Ele está muito triste — falei.
— Claro. Estamos todos, não? É que… Na verdade, eu prefiro não falar sobre a minha vida, se você não se importar.
Então, me ocorreu que talvez Davis gostasse justamente do que enfurecia Daisy: que eu não fizesse muitas perguntas. Todas as outras pessoas se sentiam impiedosamente curiosas sobre a vida do garoto bilionário, mas eu sempre ficava enfurnada na minha cabeça e por isso não o interrogava.
Aos poucos, retomamos a conversa, mas agora como pessoas que um dia já foram íntimas — deixando o outro a par da nossa vida, em vez de vivermos uma única vida juntos. Quando terminamos de comer e Davis pagou a conta, eu sabia que nosso relacionamento, ou qualquer que fosse o nome do que havia entre nós, não existia mais.
Mesmo assim, quando eu já estava em casa, embaixo das cobertas, mandei uma mensagem para ele.
Eu: Está acordado?
Ele: Você não consegue ficar comigo de outro jeito. E eu não posso ficar com você desse jeito.
Eu: Por quê?
Ele: Tenho a sensação de que você só gosta de mim de longe. Preciso que gostem de mim de perto.
Eu escrevia e apagava, escrevia e apagava. Acabei não respondendo.

* * *

No dia seguinte, na escola, estava indo para o refeitório quando fui interceptada por Daisy.
— Holmes, precisamos conversar.
Ela me levou para uma mesa praticamente vazia, perto de alguns calouros.
— Você terminou com o Mychal de novo? — perguntei.
— Não, claro que não. A magia de sermos Só Amigos é que não existe o que terminar. Tenho a sensação de que desvendei o segredo do universo com esse esquema. Mas não é isso que eu quero falar. Nós duas vamos partir em uma aventura.
— Ah, vamos?
— Você acha que se recuperou o suficiente para, digamos, se esgueirar pelos subterrâneos de Indianápolis para uma exposição de arte de guerrilha?
— Exposição de quê?
— Então. Lembra a ideia que eu tive de Mychal fazer uma montagem com fotografias de presidiários inocentados?
— Bem, a maior parte da ideia era del…
— Não vamos nos ater a detalhes, Holmes. A questão é que ele fez a tal montagem e mostrou para esse coletivo de artistas muito incrível, os Known City, e eles vão incluir o trabalho dele numa exposição na sexta-feira, chamada Arte Underground. Vai ser só uma noite, e eles vão transformar parte do túnel do Pogue’s Run numa galeria de arte.
O túnel de escoamento do Pogue’s Run desembocava no White River. Era esse túnel que a empresa de Pickett tinha sido contratada para expandir, embora a obra nunca tivesse sido concluída. Um lugar estranho para uma exposição.
— Não quero passar a noite de sexta numa galeria ilegal.
— Não é ilegal. Eles têm permissão para isso. Só é underground. Literalmente underground, no caso. Subterrânea.
Franzi a testa, resistente à ideia.
— É o evento mais maneiro da história de Indianápolis — continuou Daisy —, e meu “amigo” tem um trabalho nessa exposição. Não se sinta obrigada a ir nem nada, mas… vamos.
— Não quero ficar segurando vela.
— Vou estar supernervosa e cercada de gente muito descolada, e eu realmente queria que minha melhor amiga estivesse lá comigo.
Abri o saco plástico que continha meu sanduíche de mel e manteiga de amendoim e dei uma mordida.
— Você está pensando em ir! — disse ela, empolgada.
— Estou considerando. — Então, depois de engolir, falei: — Tudo bem, vamos.
— Eba! Vamos buscar você às seis e quinze, tudo bem? Vai ser incrível.
Era impossível não sorrir diante daquela cara de felicidade dela. Em voz baixa, sem nem ter certeza de que ela ouviria, falei:
— Eu te amo, Daisy. Sei que você diz isso para mim o tempo todo e que eu nunca digo de volta, mas é verdade. Eu te amo.
— Ahhh, merda. Isso lá é hora de vir cheia de fofura pra cima de mim, Holmes?

* * *

Mychal e Daisy apareceram na minha porta às seis e quinze em ponto. Ela usava um vestido e uma meia-calça sob um casaco acolchoado gigante, e ele, um terno cinza-claro que ficava um pouco grande demais. Eu estava com uma camiseta de manga comprida, calça jeans e casaco.
— Eu não sabia que era para me arrumar toda para entrar no esgoto — falei, envergonhada.
— Para uma exposição no esgoto.
Daisy sorriu. Fiquei na dúvida se não seria melhor trocar de roupa, mas ela logo segurou meu braço para me elogiar.
— Holmes, você está radiante. Está… você mesma.
Eu me acomodei na parte de trás da minivan de Mychal, e quando ele partiu pela Michigan Road, Daisy colocou uma das nossas músicas preferidas para tocar, “You’re the One”. Mychal ria enquanto Daisy e eu cantávamos aos berros uma para a outra. Ela fazia a voz principal e eu vociferava o coro, que só repetia “You’re everything everything everything”, sentindo que eu era mesmo tudo. Somos tanto o fogo quanto a água que o extingue. Somos o narrador, o protagonista e o coadjuvante. O contador da história e a história em si. Somos alguma coisa de alguém, mas também o nosso eu.
Quando Daisy trocou para uma música mais romântica, que apenas ela e Mychal cantaram, me vieram à mente as tartarugas até lá embaixo. Fiquei pensando que talvez tanto a senhora quanto o cientista estivessem certos. Afinal, o mundo tem mesmo bilhões de anos, e a vida é produto de mutações nucleotídicas e tudo mais. Mas o mundo também são as histórias que contamos sobre ele.

* * *

Mychal pegou a rua 10 e seguimos por ela até chegarmos a uma loja com um letreiro luminoso e piscante que anunciava PISCINAS ROSENTHAL. O estacionamento já estava quase lotado. Daisy desligou o rádio enquanto Mychal estacionava. Ao sairmos da minivan, nos vimos cercados por uma mistura esquisita de hipsters de vinte e poucos anos e casais de meia-idade. Todo mundo parecia se conhecer, portanto nós três ficamos parados perto do carro um tempão, em silêncio, só observando, até que uma senhora toda de preto se aproximou.
— Vocês vieram para o evento? — perguntou ela.
— Ah... oi. Eu sou… hã… Mychal Turner. Tenho uma peça na exposição.
— Preso 101?
— É. Essa mesma.
— Frances Oliver, prazer. Achei sua obra uma das mais fortes da galeria. E, considerando que sou a curadora, sei do que estou falando. Venha, venha, vamos descer juntos. Adoraria saber mais do seu processo criativo.
Frances e Mychal começaram a atravessar o estacionamento, mas a cada cinco segundos Frances dizia: “Ah, preciso apresentá-lo a…”, e parávamos para conhecer um artista ou colecionador, ou um “sócio investidor”. Aos poucos, Mychal foi engolido por todas as pessoas que tinham adorado o conceito de Preso 101 e queriam conversar com ele sobre a montagem. Depois de sermos deixadas de lado por um tempo, Daisy finalmente pegou a mão dele.
— Holmes e eu vamos descer para a exposição — disse ela. — Aproveite seu momento. Estou muito orgulhosa de você.
— Eu vou com vocês — disse Mychal, dando as costas a um bando de estudantes da Herron, a faculdade de belas-artes local.
— Não, Mychal, vai se divertir. Você precisa conhecer essas pessoas, para elas comprarem seus quadros no futuro.
Mychal sorriu, deu um beijo nela e voltou para sua multidão de fãs.
Quando Daisy e eu chegamos ao fim do estacionamento, vimos do outro lado das árvores o facho de uma lanterna cruzando o céu de um lado a outro. Descemos uma colina baixa, indo na direção da luz, até as árvores darem lugar a uma estrutura larga de concreto. Um riacho minúsculo (tão fino que dava para saltar com facilidade) corria lá embaixo. Fomos até o homem barbado que acenava com a lanterna. Ele se apresentou como Kip e nos ofereceu capacetes de segurança, daqueles com luz embutida, além de uma lanterna comum.
— Sigam direto pelo túnel. Depois de uns duzentos metros, virem na primeira à esquerda e vocês vão sair na galeria.
A luz do meu capacete seguiu o fluxo de água. Via-se mais à frente o começo do túnel de escoamento, um quadrado cortado na encosta que engolia toda a luz. Junto à entrada havia um carrinho de supermercado virado, caído sobre uma pedra grande e coberta de musgo. Enquanto Daisy e eu caminhávamos até lá, observei as silhuetas negras dos bordos sem folhas que fragmentavam o céu.
O riacho se estendia ao longo da lateral esquerda do túnel Pogue’s Run, então seguimos por uma passarela de concreto à direita do filete de água. O fedor veio com tudo, na mesma hora — o mau cheiro do esgoto e o odor repulsivo e adocicado de podridão. Achei que meu olfato se acostumaria, mas não.
Avançamos poucos passos no túnel e começamos a ouvir roedores correndo pelo leito do riacho. Ouvíamos vozes, também — conversas ecoadas, ininteligíveis, que pareciam vir de todos os lados. As lanternas dos capacetes iluminaram o grafite que cobria as paredes: nomes em letras largas pintadas com tinta em spray, e também imagens e frases feitas com estêncil. A lanterna de Daisy se deteve em uma das imagens, que mostrava um rato corpulento bebendo uma garrafa de vinho, com a legenda O REI RATO CONHECE TODOS OS SEUS SEGREDOS. Outra frase, rabiscada com o que parecia ser tinta branca, dizia NÃO IMPORTA COMO VOCÊ MORRE. IMPORTA QUEM VOCÊ MORRE.
— Esse lugar é meio sinistro — sussurrou Daisy.
— Por que você está sussurrando?
— Estou com medo. Já andamos os duzentos metros?
— Não sei. Mas parece que tem coisa por ali. — Eu me virei e apontei a luz do capacete para a entrada do túnel, e um casal de homens de meia-idade atrás de nós acenou. — Viu? Está tudo bem.
O riacho não era exatamente um fluxo de água, e sim uma poça que fluía lentamente. Vi um rato atravessá-lo em disparada sem sequer molhar o focinho.
— Aquilo era um rato — disse Daisy, tensa.
— Ele mora aqui — comentei. — Os invasores somos nós.
Continuamos a caminhar. A única luz no mundo parecia vir dos fachos amarelos das lanternas; era quase como se todos ali embaixo houvessem se tornado raios de luz, avançando ao longo do túnel em pequenos grupos.

* * *

À nossa frente, vi as lanternas virarem à esquerda, em um túnel lateral quadrado com cerca de dois metros e meio de altura. Saltamos o riacho estreito, passamos por uma placa em que se lia UM PROJETO DA PICKETT ENGENHARIA e entramos no túnel de concreto.
A única iluminação nas obras de arte era a que vinha das lanternas, de modo que as pinturas e fotografias alinhadas nas paredes pareciam entrar e sair de foco. Para ver o trabalho inteiro de Mychal era preciso ficar encostado na parede oposta do túnel. Era realmente uma obra de arte incrível: o Preso 101 parecia tão real quanto qualquer um, mas era feito de pedaços de uma centena de fotos de homens condenados injustamente por assassinato e depois libertados. Mesmo bem de perto, eu não conseguia ter certeza de que o Preso 101 não era uma pessoa.
As outras obras também eram legais — grandes pinturas abstratas de formas geométricas com ângulos agudos, um agrupamento de cadeiras de madeira velhas empilhadas precariamente até o teto, uma fotografia enorme de uma criança pulando em um trampolim, sozinha, em um vasto milharal —, mas a de Mychal era a minha favorita, e não só porque ele era meu amigo.
Ouvimos um clamor de vozes se aproximando, e a galeria de repente ficou lotada. Alguém ligou um aparelho de som, e a música começou a reverberar pelo túnel. Copos descartáveis passavam de mão em mão, seguidos por garrafas de vinho, e o lugar ficou cada vez mais barulhento. Embora estivesse muito frio ali embaixo, comecei a suar, então chamei Daisy para dar uma volta.
— Uma volta? — estranhou ela.
— Só, sei lá, seguir o túnel, andar por aí.
— Você quer se embrenhar nesse túnel.
— Isso. Quer dizer, é só uma ideia.
Ela apontou para a escuridão que se ampliava fora do alcance das nossas lanternas.
— Você está propondo que a gente simplesmente entre naquele buraco negro.
— Não vamos andar quilômetros. É só para ver o que tem mais pra lá.
Daisy suspirou.
— Tá certo. Vamos dar uma volta.

* * *

Depois de apenas um minuto de caminhada o ar já parecia mais fresco. O túnel à frente era pura escuridão e parecia bem comprido, pois o teto abobadado se fechava muito ao longe e de forma bem sutil, afastando-se tanto da galeria que em determinado momento já não víamos luz alguma às nossas costas. Ainda escutávamos a música e o burburinho, mas parecia outra festa, em outro lugar, como se apenas tivéssemos passado de carro por ela.
— Não entendo como você consegue ficar nessa calma tão sobrenatural aqui, quatro metros abaixo do solo, com cocô de rato até o tornozelo, mas tem uma crise de pânico porque acha que seu dedo infeccionou.
— Não consigo explicar direito — admiti. — Isso aqui simplesmente não me assusta.
— Ah, mas é, sim.
Desliguei a lanterna do meu capacete.
— Desliga a sua — pedi a Daisy.
— Nem a pau!
— Desliga. Não vai acontecer nada.
Ela fez o que pedi, e o mundo ficou escuro. Senti meus olhos tentando se adaptar, mas não havia sequer o mínimo de luz para ser absorvida.
— Agora você não vê as paredes, certo? E não vê os ratos. Se girar algumas vezes, não vai saber de que lado fica a entrada e de que lado fica a saída. Isso é assustador. Agora imagine se não pudéssemos conversar, se não conseguíssemos ouvir a respiração uma da outra. Imagine se não tivéssemos tato, ou seja, se mesmo uma ao lado da outra não tivéssemos ideia disso. Imagine que você está tentando encontrar alguém, ou até tentando encontrar a si mesma, mas não pode contar com nenhum dos seus sentidos, não tem como saber onde estão as paredes, ou o que fica à frente ou o que fica atrás, ou o que é água e o que é ar. Você está sem seus sentidos e sem forma… Sua sensação é de que você só consegue descrever o que é se identifica o que não é, e você está flutuando sem rumo num corpo completamente fora do seu controle. Não é você quem decide de quem gosta, ou onde mora, a que horas come, do que tem medo. Você está presa e pronto, totalmente sozinha, nessa escuridão. É assustador. Isto — fiz uma pausa para ligar a lanterna — é controle. Isto é poder. Mesmo que haja ratos e aranhas e o cacete, somos nós que lançamos luz sobre todas essas coisas, não o contrário. Sabemos onde estão as paredes, de que lado é a entrada e de que lado é a saída. Isto — mais uma pausa, para desligar a lanterna — é o que eu sinto quando estou apavorada. Isto — liguei novamente a lanterna — é moleza.
Caminhamos por algum tempo em silêncio.
— É tão ruim assim? — perguntou Daisy, por fim.
— Às vezes.
— Mas chega uma hora em que a sua lanterna volta a funcionar, não?
— Por enquanto.

* * *

Conforme seguíamos adiante no túnel, a música cada vez mais distante atrás de nós, Daisy foi se acalmando.
— Estou pensando em matar Ayala — disse ela. — Você levaria para o lado pessoal?
— Claro que não — respondi. — Mas eu estava até começando a simpatizar com ela.
— Você leu a última história que eu postei?
— Aquela em que eles vão a Ryloth para entregar conversores de energia? Amei a cena em que Rey e Ayala estão esperando aquele cara no bar e elas ficam conversando. Gosto das cenas de ação e tudo o mais, mas as cenas só de diálogo são as minhas preferidas. Também gostei de ter me envolvido com um Twi’lek. Quer dizer, foi Ayala quem se envolveu com ele. Você escreve de um jeito que faz tudo aquilo parecer real, como se eu estivesse mesmo lá.
— Obrigada — disse Daisy. — Agora você está me deixando em dúvida se mato mesmo Ayala.
— Não me importo se você matá-la. Só quero que ela morra como uma heroína.
— Ah, isso com certeza. Tem que ser assim. Eu estava pensando em fazer da morte dela algum sacrifício pelo bem maior, no estilo Rogue One. Acha legal?
— Por mim, está perfeito — respondi.
— Caramba, por acaso o cheiro está ficando pior? — perguntou ela.
— Não está ficando melhor, isso é fato.
O fedor era um misto de lixo podre e privada entupida. Quando passamos por uma ramificação do túnel, Daisy quis voltar, mas então eu vi, um pouco mais à frente, um ponto de luz cinza. Precisava saber o que havia no final.
Conforme avançávamos, os sons da cidade ficavam gradualmente mais altos, e o cheiro melhorou, porque estávamos nos aproximando da saída. A luz cinza foi crescendo até que alcançamos a boca do túnel. Estava aberta e inacabada — o minúsculo filete de água que deveria ter sido desviado do White River pingava no rio abaixo.
Olhei para a frente. Passava das dez da noite, mas a cidade nunca me parecera tão iluminada e ofuscante. Dava para ver tudo dali: o musgo verde crescendo nas rochas no rio abaixo; as bolhas douradas da espuma onde a água caía; as árvores lá longe se inclinando sobre a água como o telhado de uma capela; os cabos de força abaixo de nós cruzando o rio de uma margem à outra; um grande moinho de grãos prateado, absurdamente imóvel sob o luar; os letreiros em neon da Speedway e do banco Chase.
Os prédios em Indianápolis são tão baixos que é impossível ver a cidade de cima. Não é um lugar com uma vista deslumbrante. Naquele momento, porém, brindada com um cenário daqueles, e no mais inesperado dos lugares, a cidade se estendendo abaixo e adiante, demorei um minuto para lembrar que era noite, que aquele horizonte prateado era o que se passava, visto da superfície, por escuridão.
Daisy me surpreendeu ao sentar ali na beirada, deixando as pernas pendendo do concreto. Fiz o mesmo, do outro lado do filete de água, e ficamos ali observando juntas a mesma cena.
Saímos para o prado naquela noite. Conversamos sobre universidades, sobre beijos, sobre religião e arte, e não tive a sensação de estar acompanhando nossa conversa como uma observadora externa. Eu estava presente. Ouvia Daisy e sabia que ela também me ouvia.
— Será que algum dia vão terminar isso? — comentou ela.
— Tomara que não — falei. — Quer dizer, sou totalmente a favor de água limpa, mas acho que gostaria de poder voltar daqui a dez ou vinte anos. Tipo, em vez de ir a um reencontro do pessoal do colégio, quero vir aqui.
Com você, pensei em dizer.
— É — disse Daisy. — Vamos manter o Pogue’s Run imundo para sempre, porque a vista do túnel inacabado é simplesmente espetacular. Muito obrigada, Russell Pickett, por sua corrupção e incompetência.
— Pogue’s Run. Run. Corrida… — murmurei. — Espere, onde começa o Pogue’s Run? Onde ele desemboca?
— A boca de um rio é onde ele termina, não onde começa. O Pogue’s Run  desemboca aqui. — Observei a expressão de Daisy enquanto ela se dava conta do que aquilo significava. — Pogue’s Run. Cacete, Holmes! Nós duas estamos na boca do corredor!
Eu me levantei. Não sei explicar, mas sentia que Pickett talvez estivesse atrás de nós, como se ele pudesse nos empurrar do túnel rio abaixo.
— Agora eu fiquei com medo — falei.
— O que vamos fazer?
— Nada — respondi. — Não vamos fazer nada. A gente vai voltar para a festa, socializar com o pessoal descolado do mundo das artes e voltar cedo para casa. — Comecei a andar na direção da música. — Vou contar para o Davis. Vamos deixar que ele decida se conta ou não ao Noah. Fora isso, não vamos dizer uma palavra a ninguém.
— Tudo bem — concordou Daisy, correndo para me alcançar. — Mas… será que ele está aqui embaixo agora?
— Não sei. E não acho que isso seja da nossa conta.
— Tudo bem — repetiu ela. — Mas como ele poderia estar aqui embaixo esse tempo todo?
Eu tinha um palpite, mas o guardei para mim.
— Caramba, aquele cheiro… — continuou Daisy, deixando a frase por terminar.

* * *

Era de se imaginar que resolver mistérios traria uma sensação de desfecho, que fechar o ciclo confortaria e acalmaria a mente. Mas isso nunca acontece. A verdade sempre desaponta. Enquanto passeávamos pela galeria à procura de Mychal, eu não estava com a sensação de ter encontrado a boneca sólida dentro de tantas outras matrioskas ocas. Nada tinha mudado, nada se resolvera. Era como o zoólogo falara sobre a ciência: na verdade, a gente nunca encontra respostas, apenas perguntas novas e mais interessantes.
Finalmente avistamos Mychal, apoiado na parede oposta a Preso 101, conversando com duas mulheres. Daisy se intrometeu e segurou a mão dele.
— Odeio interromper a festa — falou —, mas este artista famoso tem hora para chegar em casa.
Mychal riu, e nós três deixamos o túnel. Chegamos ao estacionamento com as fortes luzes prateadas e entramos na minivan. Assim que fechei a porta, Mychal disse:
— Hoje sem sombra de dúvida foi o melhor dia da minha vida obrigado por virem ai meu Deus essa foi simplesmente a melhor coisa que já me aconteceu acho que posso ser um artista tipo de verdade! Foi tudo muito muito muito incrível! Vocês gostaram?
— Conta tudo que perdemos — disse Daisy, sem responder propriamente à pergunta.

* * *

Quando cheguei em casa, minha mãe estava sentada à mesa da cozinha, tomando uma xícara de chá.
— Que cheiro é esse? — perguntou ela.
— Esgoto, suor, musgo… Uma mistura de várias coisas.
— Estou preocupada, Aza. Estou com medo de que você esteja perdendo a conexão com a realidade.
— Não estou perdendo nada. Só estou cansada.
— Hoje você vai ficar acordada e conversar comigo.
— Sobre o quê?
— Sobre aonde você foi, o que andou fazendo, com quem estava. Sobre sua vida.
Então contei tudo. Contei a ela que Daisy, Mychal e eu tínhamos ido a uma exposição de uma noite só no subterrâneo da cidade, e que Daisy e eu havíamos caminhado até o fim do túnel inacabado de Pickett, e contei sobre “sair para o prado”, e contei sobre a boca do corredor, e sobre nosso palpite de que Pickett estava lá embaixo, e sobre o fedor.
— Você vai contar para o Davis? — perguntou ela.
— Vou.
— Mas não à polícia?
— Não. Se eu contar à polícia e ele estiver mesmo morto lá embaixo, Davis e Noah vão perder a casa. Tudo vai passar a pertencer a um tuatara.
— A um tua-o-quê?
— Um tuatara. É um bicho que parece um lagarto, mas não é um lagarto. Um contemporâneo dos dinossauros. Pode viver até uns cento e cinquenta anos, e Pickett deixou, em testamento, todos os seus bens para seu tuatara de estimação. A propriedade, a empresa, tudo.
— A loucura da riqueza — resmungou minha mãe. — Às vezes você acha que está aproveitando o dinheiro que tem, mas o tempo todo é o dinheiro que está se aproveitando de você. — Ela baixou os olhos para a xícara de chá, depois me encarou. — Mas só se você idolatrá-lo. Você serve àquilo que idolatra.
— Então temos que tomar cuidado com o que idolatramos — concluí.
Ela sorriu e mandou que eu tomasse um banho. Debaixo do chuveiro, eu me perguntei o que idolatraria quando ficasse mais velha, e como isso acabaria influenciando minha vida, como me faria escolher entre pegar a estrada da direita ou a da esquerda. Eu ainda estava no início do caminho. Ainda podia ser qualquer pessoa.

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