20 de novembro de 2018

Capítulo Treze

Mesmo tendo surtado na frente de Davis, no dia seguinte recebi uma mensagem dele logo cedo. Nem tinha me levantado ainda.
Ele: Quer ver um filme hoje? Nem precisa ser no espaço sideral.
Eu: Hoje não vai dar, deixa pra outro dia. Desculpa pela minha reação ontem, e pelo suor. Por tudo.
Ele: Nem foi um suor anormal.
Eu: Eu sei que foi, mas não quero mais falar sobre isso.
Ele: Você não gosta mesmo do seu corpo, hein.
Eu: Pois é.
Ele: Eu gosto. É um bom corpo.
Eu adorava estar com ele naquele espaço não físico, mas ao mesmo tempo sentia a necessidade de fechar as janelas para mim mesma.
Eu: Me sinto meio fraca de um modo geral, e a verdade é que não posso ficar com você. Nem com ninguém. Desculpa. Gosto de você, mas não tem como.
Ele: Nisso a gente concorda. Dá muito trabalho. Todo mundo que namora só sabe falar disso. É uma roda-gigante.
Eu: Como assim?
Ele: Quando as pessoas sobem na roda-gigante, só conseguem falar sobre a sensação de estar na roda-gigante e sobre a vista do alto da roda-gigante e se a roda-gigante dá medo e quantas voltas será que vai dar etc. Namorar é a mesma coisa. Os casais nunca têm outro assunto. Eu não quero namorar.
Eu: E o que você quer?
Ele: Você.
Eu: Não sei o que dizer.
Ele: Não precisa dizer nada. Tenha um bom dia, Aza.
Eu: Você também, Davis.

* * *

Eu tinha consulta marcada com a dra. Karen Singh no dia seguinte, depois da escola. Eu me sentei no sofazinho de frente para ela e olhei para o quadro do pescador com a rede. Não tirei os olhos da obra, porque o olhar implacável da dra. Singh era um pouco demais para mim.
— Como estamos indo? — perguntou ela.
— Não muito bem.
— O que houve?
Pelo canto do olho eu via suas pernas cruzadas, o sapato preto baixo, o pé balançando.
— Estou saindo com um garoto.
— E…?
— Não sei… Ele é fofo e inteligente, e eu gosto dele, mas continuo sem melhorar nada, então fico pensando: se isso não me faz feliz, o que vai fazer?
— Não sei. O que vai fazê-la feliz?
Soltei um gemido de irritação.
— Isso é tão típico de psicólogos.
— Não posso negar — respondeu ela. — Veja, toda mudança pessoal, mesmo que seja positiva, pode ser um gatilho para a ansiedade. Não é incomum se sentir tensa no início de um relacionamento. Como tem sido sua resposta aos pensamentos intrusivos?
— Bem, ontem mesmo eu estava com esse garoto e tive que me afastar, porque não conseguia me livrar da sensação de que aquilo era nojento, então eu diria que a minha resposta não tem sido muito boa.
— O que era nojento?
— Ah, é que a língua de cada pessoa tem um microbioma próprio, e se um garoto enfia a língua na minha boca, as bactérias dele se tornam parte do meu microbioma pelo resto da vida. A língua dele vai estar sempre na minha boca, até eu morrer, e quando isso acontecer, os micróbios da língua dele vão comer meu cadáver.
— E por isso você quis parar de beijá-lo.
— Mas é claro.
— Isso não é incomum. Quer dizer que uma parte sua queria continuar beijando o garoto, mas outra parte estava sentindo o grande nervosismo que acompanha a intimidade com o outro.
— Sim, mas meu medo não era a intimidade. Era a troca de micróbios.
— Isso foi apenas a forma que seu corpo encontrou para manifestar esse nervosismo, desviando a tensão para o aspecto da troca de micróbios.
Só me restou soltar mais um gemido em resposta àquela explicação ridícula e óbvia de todos os terapeutas. Em seguida, ela perguntou se eu tinha tomado o Ativan, e expliquei que não tinha levado o remédio de emergência para a casa de Davis. Então ela perguntou se eu estava tomando o Lexapro todo dia, e respondi que, bem, não todo dia. A partir daí a conversa degringolou, com ela me dizendo que a medicação só funcionaria se eu tomasse como recomendado e que eu precisava mostrar empenho e constância se quisesse que minha saúde melhorasse, e de novo tentei explicar que era muito esquisita e deprimente a ideia de que eu só seria uma pessoa normal se ingerisse determinadas substâncias capazes de mudar quem eu era.
Seguiu-se uma breve pausa na conversa, que aproveitei para perguntar:
— Por que você quis colocar esse quadro na parede? Desse cara com a rede?
— O que está deixando de me contar? Do que você tem medo, Aza?
Havia uma questão central em tudo aquilo, a dúvida que permanecia no fundo da minha consciência, um zunido incessante. Eu sentia vergonha dela, mas também tinha a sensação de que era perigoso verbalizá-la, sabe-se lá por quê. Do mesmo jeito que nunca se diz o nome do Voldemort.
— Sinto que sou uma ficção — confessei.
— Como assim?
— Bem, você disse que é estressante quando passamos por mudanças pessoais, não foi?
Ela assentiu.
— O que eu quero saber é: existe um “eu” que não depende das circunstâncias? Será que existe, lá no fundo, um eu que é uma pessoa real, uma pessoa de verdade, tendo dinheiro ou não, tendo namorado ou não, estudando nessa ou naquela escola? Ou será que eu não passo de um conjunto de circunstâncias?
— Não estou conseguindo acompanhar: como isso a tornaria uma pessoa fictícia?
— Estou tentando dizer que, se eu não controlo meus pensamentos, eles não são realmente meus. Eu não decido se estou suando, ou se tenho câncer, ou se tenho a C. diff, ou o que for, portanto meu corpo também não é realmente meu. Não tenho escolha em nada disso… São forças externas que decidem por mim. Eu sou uma história contada por essas forças externas. Sou circunstancial.
Ela assentiu.
— Você consegue identificar essas forças externas?
— Ei, eu não estou tendo alucinações. É que… eu só queria ter certeza de que sou real, estritamente falando.
A dra. Singh enfim descansou o pé no chão e se inclinou para a frente na poltrona, com as mãos nos joelhos.
— Isso é muito interessante, Aza — observou ela. — Muito interessante.
Senti um leve orgulho de ser, nem que só por um momento, não não incomum.
— Imagino que seja muito assustador sentir que você não pertence a si mesma. Uma espécie de… aprisionamento?
Era isso mesmo.
— Em Ulysses — comentou a dra. Singh —, tem uma cena, quase no fim, em que a personagem Molly Bloom parece se dirigir diretamente ao autor. Ela diz: “Ah meu são Jaime me tire dessa.” Você, Aza, está aprisionada dentro de um “eu” que parece não ser seu por completo, assim como Molly Bloom. Ao mesmo tempo, você tem a sensação frequente de que esse seu “eu” está contaminado profundamente.
Mais uma vez, concordei.
— Você dá poder demais aos seus pensamentos, Aza. São apenas pensamentos. Eles não são você. Você pertence a si mesma, mesmo quando seus pensamentos não pertencem.
— Mas os nossos pensamentos somos nós. Penso, logo existo, não é assim?
— Na verdade, não. Uma demonstração completa da filosofia de Descartes seria: Dubito, ergo cogito, ergo sum. “Duvido, logo penso, logo existo.” Descartes queria descobrir se era realmente possível saber se determinada coisa é real, mas acreditava que duvidar da realidade já era uma prova de que, enquanto a realidade talvez não fosse real, ele era. Você é uma pessoa de verdade tanto quanto qualquer outra, e suas dúvidas a tornam ainda mais real, não menos.

* * *

Logo que cheguei em casa, percebi o nervosismo da minha mãe para saber como tinha sido minha consulta com a dra. Singh, embora ela tentasse parecer calma e normal.
— Como foi? — perguntou ela, sem nem sequer olhar para mim, ainda corrigindo provas no sofá.
— Foi bom, eu acho.
— Quero me desculpar de novo pelo jeito que falei com Davis ontem — disse ela. — Você tem todo o direito de ficar chateada comigo.
— Não estou chateada com você.
— Só quero que você tome cuidado, Aza. Já percebi que tem andado mais ansiosa… Dá para ver do seu rosto à ponta do dedo do pé.
— Não é por causa dele — retruquei, irritada.
— É por quê, então?
— Não tem um motivo.
Liguei a TV, mas minha mãe pegou o controle remoto e tirou o som.
— Parece que você se trancou na sua cabeça, e eu não sei o que está acontecendo aí dentro. Isso me assusta.
Apertei o dedo com a unha, por cima do band-aid, enquanto pensava que ela ficaria muito mais assustada se soubesse o que estava acontecendo dentro de mim.
— Estou bem, mãe. Sério.
— Eu sei que não está.
— Então me fala o que você quer que eu diga. Sério. É só me dizer quais palavras tenho que usar para acalmar você.
— Não quero que você me acalme. Quero que você pare de sofrer.
— Não é assim que funciona. Olha, tenho que estudar história agora.
Eu me levantei e fui para o meu quarto, mas minha mãe continuou:
— Falando nisso, seu professor comentou comigo hoje que seu trabalho sobre Intercâmbio Colombiano foi o melhor que ele já leu desde que começou a dar aula.
— Ele é professor há, sei lá, dois anos — retruquei.
— Quatro. Mas mesmo assim. Você vai longe, Aza Holmes. Muito longe.
— Já ouviu falar de Amherst?
— Quem?
— Amherst. É uma universidade em Massachusetts. Muito boa. Tem uma nota bem alta no ranking de avaliação. Acho que eu podia ir para lá… se for aceita.
Minha mãe começou a dizer alguma coisa, mas engoliu as palavras e suspirou.
— Vamos só ter que tentar alguma bolsa.
— Ou Sarah Lawrence — acrescentei. — Essa também parece boa.
— Bem, Aza, você precisa lembrar que muitas dessas universidades cobram só para você se candidatar, por isso temos que fazer uma seleção. Além disso, todo o processo é manipulado, do início ao fim. A gente paga apenas para descobrir que não pode pagar. Temos que ser realistas, e, realisticamente falando, você vai estudar aqui por perto mesmo, está bem? E não é só por causa do dinheiro. Duvido muito que você queira ficar a meio país de distância de tudo que você conhece.
— Aham.
— Tá, já entendi. Você não quer conversar com sua mãe. Ainda te amo.
Ela me soprou um beijo, e finalmente fugi para o quarto.

* * *

Eu tinha mesmo que estudar história, mas quando terminei ainda não estava cansada e não parava de pensar em falar com Davis.
Eu sabia o que escrever na mensagem, ou ao menos o que queria escrever. Só pensava nisso: digitar, apertar enviar com a consciência de que não teria como voltar atrás, começar a suar e ficar com o coração acelerado à espera da resposta.
Apaguei a luz, me deitei de lado e fechei os olhos, mas não conseguia afastar aquele pensamento. Então, peguei o celular e escrevi:
O que você quis dizer quando falou que gostava do meu corpo?
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos, ansiosa pelo “digitando…”, mas não apareceu. Devolvi o aparelho à mesinha de cabeceira. Meu cérebro estava quieto, agora que eu tinha atendido ao seu pedido insistente, e eu estava quase dormindo quando ouvi o celular vibrar.
Ele: Quis dizer que gosto do seu corpo.
Eu: Do quê, exatamente?
Ele: Gosto da curva dos seus ombros se desenhando a partir da clavícula.
E gosto das suas pernas. Da curva da sua panturrilha.
Gosto das suas mãos. Dos seus dedos longos e da parte interna dos seus pulsos, da cor da sua pele nessa parte e das veias se insinuando por baixo.
Eu: E eu gosto dos seus braços.
Ele: São finos demais.
Eu: Mas são fortes, eu senti. Te incomoda eu dizer isso?
Ele: Não mesmo.
Eu: Mas vem cá, a curva da minha panturrilha? Nunca reparei nisso.
Ele: É bonita.
Eu: O que mais?
Ele: Gosto da sua bunda. Gosto muito mesmo da sua bunda. Te incomoda eu dizer isso?
Eu: Não.
Ele: Vou fundar um fã-clube da sua bunda.
Eu: Aí já é meio estranho.
Ele: Vou escrever uma fanfic contando como sua bunda incrível se apaixonou pelos seus lindos olhos.
Eu: Hahaha. Isso está quebrando o clima. Onde estávamos mesmo?
Ele: Eu estava dizendo que gosto do seu corpo. Da sua barriga, suas pernas, seu cabelo. Adoro. Seu. Corpo.
Eu: Sério?
Ele: Sério.
Eu: Qual é o meu problema, que me divirto com mensagens e me apavoro com beijos?
Ele: Não tem nada errado com você. Quer vir aqui em casa na segunda depois da escola? Ver um filme, quem sabe?
Hesitei. Finalmente, respondi:
Claro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!