20 de novembro de 2018

Capítulo Três

Não fazia muitos anos, minha mãe e eu às vezes descíamos o White River remando e íamos até o parque que ficava atrás do museu de arte, passando pela casa de Davis. Chegando à praia, puxávamos a canoa para a areia e caminhávamos um pouco por ali, e na volta remávamos contra a corrente preguiçosa. Mas isso fazia anos. Na teoria, o White River é lindo — garças-azuis, gansos, cervos e tudo o mais —, só que, ao vivo e a cores, a água fede a esgoto. E fede a esgoto porque é esgoto. Sempre que chove, as galerias subterrâneas transbordam e os dejetos de toda a região central de Indiana são lançados direto no rio.
Parei o carro na frente de casa. Saí, fui até a entrada da garagem, me agachei, enfiei os dedos por baixo do portão e o ergui. Então voltei para o carro e estacionei, com Daisy ainda repetindo no meu ouvido que ficaríamos ricas.
O esforço para abrir o portão da garagem tinha me deixado um pouco suada, então fui direto para o meu quarto, liguei o ar-condicionado e me sentei de pernas cruzadas na cama, deixando o ar gelado bater nas minhas costas. Meu quarto estava uma bagunça, roupas sujas espalhadas por toda parte e a escrivaninha soterrada por papéis — folhas de exercícios, provas antigas, panfletos de universidades que minha mãe tinha me dado — meio que caindo e se esparramando pelo chão. Daisy ficou parada à porta.
— Será que eu consigo achar alguma roupa que sirva em mim aqui? — perguntou ela. — Tenho a impressão de que não seria uma boa encontrar um bilionário com esse uniforme do Chuck E. Cheese’s ou com uma blusa manchada de tinta de cabelo, que são minhas únicas opções no momento.
Decidimos assaltar o armário da minha mãe, considerando que elas eram mais ou menos do mesmo tamanho, e, enquanto tentávamos encontrar um combo jeans-e-camiseta menos maternal, Daisy falava. Ela falava muito.
— Tenho uma teoria sobre uniformes. Acho que essas roupas são feitas para desumanizar os funcionários. Eu deixo de ser Daisy Ramirez, uma Pessoa, e viro uma criatura que serve pizza e troca tíquetes por bichinhos de plástico. É como se o uniforme fosse pensado para me esconder.
— Aham.
— Maldito sistema opressor — resmungou Daisy, e puxou do armário uma camisa roxa horrorosa. — Sua mãe tem um estilo meio professora de matemática do nono ano.
— Bem, ela é professora de matemática do nono ano.
— Isso não é desculpa.
— Que tal um vestido? — sugeri, mostrando a ela um midi preto com estampa Paisley rosa. Horrendo.
— Acho que vou me contentar com o uniforme mesmo — decidiu Daisy.
— É.
Ouvi um carro chegando e, embora eu soubesse que minha mãe não se importaria de pegarmos algumas roupas dela, levei um susto. Percebendo meu nervosismo, Daisy me pegou pelo braço e me puxou até o quintal antes que minha mãe entrasse em casa. Abrimos caminho pelo pequeno amontoado de arbustos de madressilva no canto do terreno.
De fato, ainda tínhamos aquela canoa, mesmo que estivesse de cabeça para baixo e cheia de aranhas mortas. Daisy a desvirou e começou a limpar o mato dos remos e dos dois coletes salva-vidas que um dia foram laranja. Em seguida, espanou a canoa com a mão, jogou lá dentro os remos e os coletes e começou a puxá-la, arrastando-a para o rio. Apesar de baixinha e nada atlética, Daisy era forte à beça.
— O White River é tão sujo… — comentei.
— Holmes, você está sendo irracional. Vem me ajudar aqui com essa porcaria.
Segurei a parte de trás da canoa.
— Essa água deve ser cinquenta por cento urina. E os outros cinquenta têm coisa pior ainda.
— Você é a escolhida — disse Daisy, me ignorando, e ergueu a canoa enquanto a empurrava até a água.
Depois, ela pulou da margem para uma pequena península de lama abaixo, colocou no pescoço uma boia salva-vidas pequena demais e subiu na parte da frente.
Eu me acomodei atrás e dei um empurrão com o remo para tomar impulso. Já fazia um bom tempo que eu não andava de canoa, mas o rio era tão largo e o nível da água estava tão baixo naquele dia que eu nem precisei remar muito.
Daisy se virou para mim e deu um sorrisinho. Ali, no rio, me senti de volta à infância.
Quando éramos crianças, aproveitávamos os dias em que a água estava baixa daquele jeito para correr de um lado para o outro pelas margens. Tínhamos uma brincadeira chamada “crianças do rio”: fingíamos que só havia a gente ali, revirando o lixo para ter o que comer e se escondendo dos adultos, pois eles queriam nos colocar num orfanato. Eu me lembro de Daisy jogando aquelas aranhas pequenininhas em mim, porque sabia que eu odiava, e eu saía correndo aos berros, sacudindo os braços, mas não tinha medo de verdade, porque naquela época era como se eu sentisse tudo de brincadeira, experimentando as emoções em vez de ser prisioneira delas. O verdadeiro terror não é ter medo, é não ter escolha senão senti-lo.
— Sabia que Indianápolis só existe por causa desse rio? — disse Daisy. — Foi mais ou menos assim: Indiana tinha acabado de se tornar um estado, e queriam construir uma cidade nova para ser a capital, e aí estava todo mundo debatendo onde deveria ser a tal cidade. Decidiram pelo mais óbvio, que é no meio do estado. Então, os caras estavam examinando um mapa do novo estado e viram que tinha um rio bem ali, bem no centro, então pensaram, opa!, taí o lugar perfeito para a nossa capital, porque isso foi lá pra 1819 e uma cidade de verdade precisava ter água por perto, para os navios e tal. Então, eles pensaram: “Vamos construir uma cidade nova! Junto do rio! E como somos espertos, vamos dar o nome de Indianápolis!” Só depois de fazerem o anúncio é que eles se deram conta de que o White River tem, tipo, quinze centímetros de profundidade e não aguenta nem um caiaque, quanto mais um navio. Durante um tempo, Indianápolis foi a maior cidade do mundo sem um canal navegável.
— Como é que você sabe tudo isso? — perguntei.
— Meu pai é fissurado por história. — Naquele exato momento, o celular dela começou a tocar. — Merda. Falando no diabo... — Ela atendeu. — Oi, pai… Hã… sim, claro… Não, ele não vai se importar… Pode deixar, às seis estou em casa. — Guardando o celular no bolso, Daisy se virou novamente para mim, estreitando os olhos por causa do sol. — Ele queria saber se eu podia trocar meu horário no trabalho para tomar conta da Elena, porque minha mãe vai fazer hora extra, ou seja, não precisei mentir, porque afinal eu nem cheguei a ir, e agora meu pai acha que me importo com a minha irmã. Holmes, está dando tudo certo. Nosso destino está entrando nos eixos. Estamos prestes a viver o Sonho Americano, que é, obviamente, tirar vantagem da desgraça alheia.
Eu ri, e o eco alto da minha risada soou meio bizarro no rio deserto. Uma tartaruga-de-casco-mole empoleirada num tronco semissubmerso na margem nos viu e mergulhou. O White River é infestado delas.
Após a primeira curva, passamos por uma ilha rasa, uma aglomeração de milhões de seixos brancos. Uma garça-azul encarapitada em um velho pneu esbranquiçado abriu as asas e alçou voo ao nos ver, mais pterodátilo do que ave. A ilha nos forçou a tomar o canal estreito da direita, e seguimos por baixo das figueiras que se debruçavam acima d’água em busca de sol.
A maioria das árvores estava cheia de folhas, algumas já rajadas de rosa, exibindo os primeiros sinais do outono. Mas passamos por baixo de uma árvore morta, sem folha alguma e no entanto ainda de pé, e olhei para seus galhos entrelaçados, que fragmentavam o céu azul sem nuvens numa infinidade de polígonos irregulares.
Ainda tenho o celular do meu pai. Fica guardado na mala do Harold, no compartimento do estepe, escondido perto do pneu, com o carregador. Um monte de fotos no celular dele são de galhos nus dividindo o céu, como a vista que eu tinha naquele momento. Eu sempre me perguntava o que atraía meu pai naquelas imagens, naquele céu fragmentado.
Bom, mas fazia um dia lindo — o brilho dourado do sol nos envolvendo com calor na medida certa. Eu sou caseira, por isso raramente tenho chance de observar o clima, mas em Indianápolis temos entre oito e dez dias realmente lindos por ano, e aquele era um desses. Eu mal precisava remar, a corrente deslizando naturalmente para o oeste. A água cintilava ao sol. Uma dupla de patos fugiu à nossa aproximação, batendo as asas, enlouquecidos.
Finalmente, chegamos ao pedaço de terra que havíamos batizado de Ilha dos Piratas quando éramos crianças. Era uma ilha de verdade, não como a ilhota de seixos pela qual tínhamos passado. Na Ilha dos Piratas havia um bosque cerrado de madressilvas e árvores altas, os troncos retorcidos pelas anuais enchentes de primavera. Como o rio também inundava áreas de cultivo, havia vegetais comestíveis ali: pequenos pés de tomate e de soja por toda parte, bem fertilizados por todo aquele esgoto.
Remei até a praia cheia de algas e descemos para dar uma volta por ali. Algo no rio nos deixara caladas, quase alheias uma à outra, e saímos andando em direções diferentes.
Eu havia passado parte do meu aniversário de onze anos ali. Depois de cortarmos o bolo em casa, Daisy, minha mãe e eu descemos o rio remando até a Ilha dos Piratas. Minha mãe tinha feito um mapa do tesouro. Munidas de pás, cavamos próximo à raiz de uma árvore e encontramos um bauzinho cheio de moedas de chocolate embrulhadas em papel laminado dourado. Davis e o irmão mais novo, Noah, foram nos encontrar ali. Eu me lembro de cavar até sentir a pá bater no baú de plástico e de me permitir fantasiar que era um tesouro de verdade, mesmo sabendo que não era. Como eu era boa em ser criança, e como era péssima em ser fosse lá o que eu fosse naquele momento.
Caminhei ao longo de toda a costa da ilha, até encontrar Daisy sentada num tronco muito liso arrancado pela raiz, que encalhara ali depois de as águas de alguma enchente recuarem. Fui até lá, me acomodei ao lado dela e fiquei olhando para a piscininha abaixo dos nossos pés, onde os lagostins disparavam de um lado a outro. A piscina estava encolhendo; o verão tinha sido mais seco que o normal; mais quente também.
— Lembra daquele seu aniversário que a gente comemorou aqui? — perguntou Daisy.
— Sim.
Naquele dia, Davis perdeu de vista por alguns instantes o boneco do Homem de Ferro que levava para todo canto. Era um boneco tão velho que quase toda a tinta já havia desbotado, restando só um torso vermelho com braços e pernas amarelos. Davis ficou desesperado, sem saber onde estava o boneco, mas minha mãe logo o encontrou.
— Você está bem, Holmes?
— Sim.
— Sabe dizer outra palavra além de sim?
— Sim — respondi, com um sorrisinho.

* * *

Ficamos sentadas por um tempo, até que, sem trocar uma palavra, nos levantamos e seguimos com a água na altura do joelho até a margem. Por que eu não me incomodava em chapinhar na água nojenta do White River quando apenas horas antes não conseguia nem ouvir meu estômago roncar? Bem que eu queria saber.
Uma cerca de metal sustentava as pedras do muro de contenção contra enchentes. Pulei a cerca e estendi a mão para ajudar Daisy. Subimos engatinhando a encosta íngreme e fomos parar num bosque de figueiras e bordos. Ao longe eu via os jardins imaculados do campo de golfe dos Pickett e, mais além, a mansão, toda em vidro e aço, projetada por algum arquiteto renomado.
Andamos sem rumo por um tempo, enquanto eu tentava me localizar, até que ouvi sussurrarem meu nome:
— Holmes.
Segui por entre as árvores na direção de Daisy. Ela havia encontrado a câmera de visão noturna, instalada numa árvore, a aproximadamente um metro do chão. Era uma bolinha preta bem pequena — o tipo de coisa que ninguém nota no meio de uma floresta a menos que saiba onde procurar.
Peguei o celular e o conectei à câmera, que não era protegida por senha. Em questão de segundos, as fotos começaram a ser transferidas para meu aparelho. Apaguei as duas primeiras, que eram imagens de nós duas, e passei rapidamente por mais uma dúzia, da semana anterior: cervos, coiotes, guaxinins e gambás, todas tiradas durante o dia, ou outras silhuetas verdes com olhos brancos brilhantes.
— Não quero assustar você nem nada, mas tem um carrinho de golfe meio que vindo na nossa direção — avisou Daisy, baixinho.
Levantei o olhar. O carrinho ainda estava bem distante. Passei pelas fotos até chegar ao dia 9 de setembro. Ali, enfim, nas sombras esverdeadas, via-se um homem atarracado, de costas, com uma camisa de pijama listrada. A hora registrada era 01h01min03s. Tirei um print da tela.
— O cara com certeza viu a gente — disse Daisy, tensa.
Olhei novamente.
— Estou indo o mais rápido que consigo — murmurei.
Passei para a foto anterior, mas estava levando uma eternidade para carregar.
Ouvi Daisy sair correndo, mas não me mexi, ainda esperando. Era estranho ser a pessoa controlada da situação enquanto sentia a estridência do nervosismo de Daisy, mas as coisas que deixam os outros nervosos nunca me assustam. Eu não tinha medo de homens em carrinhos de golfe, filmes de terror nem montanhas-russas.
Não sabia exatamente do que eu tinha medo, mas com certeza não era daquilo. A imagem surgiu devagar, uma fileira de pixels por vez. Um coiote.
Levantei a cabeça, vi o homem no carrinho me olhando e saí em disparada.
Corri na direção do rio, desci de qualquer jeito o muro de contenção e encontrei Daisy sentada na canoa virada, segurando uma pedra grande e pontuda acima da cabeça.
— O que é que você está fazendo? — perguntei.
— Seja quem for esse cara, ele com certeza viu você, então estou criando uma desculpa.
— Que desculpa?
— Numa situação assim, só nos resta ser a donzela em perigo, Holmes — respondeu ela, e logo em seguida bateu a pedra com toda a força no casco da canoa, arrebentando a pintura verde e revelando a fibra de vidro embaixo. Feito isso, desvirou a canoa, que no mesmo instante começou a se encher de água. — Muito bem, agora vou me esconder e você vai falar com o cara do carrinho.
— O quê? Não. De jeito nenhum.
— Uma donzela em perigo não costuma ter companhia — argumentou ela.
— NÃO.
Foi quando uma voz chamou do alto do muro:
— Tudo bem aí embaixo?
Era um senhor magro e com rugas profundas no rosto, usando um terno preto e uma camisa branca.
— Foi a nossa canoa — respondeu Daisy. — Furou. Na verdade, somos amigas do Davis Pickett. Ele mora aqui, não é?
— Meu nome é Lyle — disse o homem. — Segurança. Posso levar vocês até a casa.

Um comentário:

  1. Tatah/UMA_LEITORA_QUALQUER_S213 de dezembro de 2018 14:16

    Aaaa, já vi que esse se tornará um dos meus muitos livros preferidos! Kkkk ❤️

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Boa leitura, E SEM SPOILER!