20 de novembro de 2018

Capítulo Sete

Na segunda-feira, minha mãe e eu fomos para o colégio no meu carro, porque o dela estava na oficina. Meu dedo ardia, porque eu tinha passado antisséptico de novo antes de sair, e isso me fazia apertar o band-aid toda hora, o que piorava e aliviava a dor ao mesmo tempo. Eu não tinha mandado nenhuma mensagem para Davis. Pensei em fazer isso muitas vezes ao longo do fim de semana, mas, como não enviei nada no dia do Applebee’s, o tempo foi passando e comecei a ficar nervosa, achando que tinha perdido o timing. E Daisy não estava por perto para me obrigar a escrever, porque ela havia trabalhado sábado e domingo.
— Você não tem uma consulta com a dra. Singh amanhã? — lembrou minha mãe.
Ela devia ter percebido que eu estava mexendo muito no band-aid.
— Tenho.
— O que está achando do remédio?
— Acho que está tudo bem.
O que não era exatamente verdade. Primeiro, porque eu ainda não tinha certeza de que aquela bolinha branca estava fazendo efeito, e, segundo, porque não estava tomando o remédio direito. Muitas vezes era esquecimento mesmo, mas havia também outro motivo que eu não sabia identificar muito bem, um medo, lá no fundo, de que precisar tomar remédio para ser uma pessoa normal fosse errado.
— Você está aí? — perguntou minha mãe.
— Aham.
Parte de mim, não mais que uma parte, continuava dentro do Harold, ouvindo a voz da minha mãe, dirigindo pelo tão familiar caminho até a escola.
— É só ser sincera com ela, está bem? Isso não precisa ser um sofrimento para você.
Pensei em comentar que isso é apenas um equívoco básico do dilema humano, mas deixei pra lá.

* * *

Estacionei Harold, me despedi da minha mãe e segui para a fila do detector de metais. Depois de ser declarada inofensiva à sociedade, me juntei ao fluxo de corpos humanos que preenchiam os corredores como células sanguíneas nas veias.
Quando cheguei ao meu armário, percebi que estava alguns minutos adiantada e aproveitei para pesquisar sobre Adam Bitterley, o repórter que fora vítima do golpe de Daisy. Naquela manhã mesmo ele havia compartilhado no Twitter o link de uma matéria sua recém-publicada sobre um livro que talvez fosse banido do currículo escolar por um conselho disciplinar, o que me fez concluir que não havia sido demitido. Daisy estava certa: não tinha dado problema nenhum.
Eu já estava a caminho da sala quando Mychal chegou correndo e me puxou para um banco.
— E aí, Aza? Tudo bem?
— Tudo bem.
Eu estava pensando sobre como é estranho que uma parte nossa às vezes esteja num lugar enquanto as partes mais importantes estejam em outro, um espaço que não pode ser alcançado pelos sentidos. Como era possível que eu tivesse dirigido por todo o caminho de casa até a escola sem estar de verdade no carro? Eu tentava olhar para Mychal naquele momento, me esforçando para ouvir a balbúrdia no corredor, mas eu não estava ali, não por inteiro, não completamente.
— Que bom — disse ele. — Olha, eu não quero estragar a amizade entre o pessoal do nosso grupo nem nada, porque a gente tem uma relação incrível, mas é que… Isso é tão difícil… Você acha que… Pode dizer que não, sério mesmo…
Ele não conseguia continuar, mas já dava para perceber aonde queria chegar.
— Não estou num bom momento para ficar com ninguém — adiantei. — É que...
Ele me cortou:
— Nossa, só piora. Eu ia perguntar se você acha que a Daisy ficaria comigo, ou se estou viajando. Não é que… Olha, você é incrível, Aza…
Só não morri de humilhação porque Mychal era um amigo próximo, mas faltou pouco.
— Ah, sim — interrompi. — Acho que sim. Ótima ideia. Mas é melhor você falar direto com ela, não comigo. Mas enfim… Sim, com certeza, chama ela pra sair. Ai, que vergonha. Isso é constrangedor. Fala com a Daisy. Eu vou indo, para encerrar essa conversa com o pouco de dignidade que ainda me resta.
— Desculpa — disse ele, enquanto eu me levantava. — Sério, Aza, você é linda. Não é isso.
— Tudo bem. Não precisa dizer mais nada. Eu é que mandei mal. Eu vou… Vou indo, tá? Não deixa de falar com a Daisy.
Por sorte, o sinal tocou, me permitindo fugir para a aula de biologia. A professora se atrasou, e a turma toda estava conversando. Fui para o meu lugar e mandei uma mensagem para Daisy na mesma hora.
Eu: Achei que Mychal fosse me chamar pra sair e tentei recusar com jeitinho, mas ele não ia *me* chamar pra sair. Só queria me pedir pra falar com você pra VOCÊ sair com ele. Nível de humilhação: mais alto, impossível. Mas você tem que aceitar. Ele é bonitinho.
Ela: Ai, meu Jesus. Pânico. Ele parece um bebê gigante.
Eu: Hein?
Ela: Ele parece um bebê gigante. Molly disse isso uma vez e eu nunca mais consegui olhar pra ele de outro jeito. Não posso pegar um bebê gigante.
Eu: Só porque ele tem a cabeça raspada?
Ela: Por tudo, Holmes. Porque ele é um bebê gigante.
Eu: Claro que não.
Ela: Da próxima vez que passar por ele, olha bem e me diz se não parece. Se Drake e Beyoncé tivessem um bebê gigante, seria o Mychal.
Eu: Seria um bebê gigante gato, isso sim.
Ela: Vou tirar um print disso caso eu precise chantagear você um dia. Ah, JÁ LEU O DOC DA POLÍCIA?
Eu: Hum, não. Você leu?
Ela: Li. E olha que fechei o restaurante ontem E no sábado E fiz esse exercício de cálculo que parecia sânscrito E ainda tive que me vestir de Chuck umas doze vezes. Não encontrei nenhuma pista, mas li tudo. Mesmo sendo um saco. Sou a heroína não reconhecida dessa investigação.
Eu: Acho que você até que é bem reconhecida. Vou ler hoje tenho que ir a professora tá me olhando feio.

* * *

Durante a aula de biologia, toda vez que a sra. Park se virava para o quadro-negro eu aproveitava para ler no celular mais um trechinho do registro de desaparecimento.
Eram poucas páginas, então consegui ler tudo na escola mesmo. A PD (pessoa desaparecida) era um homem de cinquenta e três anos, com cabelo grisalho, olhos azuis, uma tatuagem com as palavras Nolite te bastardes carborundorum (“Não permita que os bastardos abatam-no”, se não me engano) na omoplata esquerda, três pequenas cicatrizes no abdome resultantes de uma cirurgia de remoção de vesícula, 1,83 metro de altura, aproximadamente cem quilos, visto pela última vez com seu traje de dormir usual: camisa de pijama com listras horizontais azul-marinho e brancas e samba-canção azul-claro. O desaparecimento foi notificado às 5h35, quando policiais entraram na casa da PD para investigar uma denúncia de corrupção.
A maior parte do documento consistia em “depoimentos de testemunhas” que não haviam testemunhado nada. Na noite do desaparecimento, não havia ninguém na casa além de Noah e Davis. A câmera na entrada tinha registrado dois zeladores indo embora às 17h40. Malik, o zoólogo, saíra às 17h52; Lyle, às 18h02, e Rosa, às 18h04. Portanto, tudo indicava ser verdade o que Lyle dissera sobre o expediente dos empregados.
Um resumo do depoimento de Davis preenchia apenas uma página:

Rosa tinha deixado pizza. Noah e eu comemos jogando videogame. Meu pai desceu, ficou um tempinho com a gente, comendo pizza, depois subiu de novo. Não aconteceu nada fora do comum. Geralmente eu vejo meu pai à noite só por alguns minutos, ou nem isso. Ele não parecia nervoso. Foi um dia como outro qualquer. Depois que Noah e eu acabamos de comer, colocamos os pratos na pia e fui ajudar meu irmão com o dever de casa. Depois, fiquei lendo um texto para a escola no sofá, enquanto Noah jogava. Subi lá pelas dez, fiz meu dever de casa no quarto, depois observei duas estrelas pelo telescópio — Vega e Epsilon Lyrae. Fui dormir umas onze horas. Mesmo agora, depois de tudo que aconteceu, não consigo me lembrar de nada estranho naquele dia.
[A testemunha também declarou não ter reparado em nada fora do comum pelo telescópio e acrescentou: “O meu telescópio não serve para olhar o chão. Se eu por acaso tentasse, ia ver tudo de cabeça pra baixo e ao contrário.”]

Em seguida vinha o depoimento de Noah:

Eu joguei um pouco de “Battlefront” com Davis. Jantamos pizza. Meu pai sentou com a gente por um tempo, ficamos conversando sobre os Cubs. Ele disse que Davis precisava cuidar melhor de mim, e Davis disse alguma coisa tipo: Eu não sou pai dele. Mas eles estão sempre discutindo. Meu pai colocou a mão no meu ombro quando foi levantar, e eu achei isso meio esquisito. Eu senti ele apertando o meu ombro até quase doer. Aí ele me soltou e subiu. Davis me ajudou com o dever de casa de matemática e depois eu joguei “Battlefront” mais umas duas horas. Subi mais ou menos meia-noite e fui dormir. Não vi meu pai depois que ele deu boa–noite para a gente.

Nesse trecho havia também fotos, umas cem, mostrando todos os cômodos da casa. Nada parecia fora do lugar. No escritório de Pickett havia pilhas de papéis que pareciam ter sido deixadas ali de um dia para o outro, não para sempre. Tinha um celular na mesinha de cabeceira do quarto dele. Os carpetes estavam tão limpos que dava para notar um único par de pegadas indo em direção à escrivaninha e outro na direção contrária. Os armários tinham dezenas de ternos, alinhados perfeitamente, do cinza mais claro ao preto. Uma fotografia da pia da cozinha mostrava três pratos sujos com manchinhas de gordura de pizza e molho de tomate. A julgar pelas fotos, Pickett tinha sido abduzido em vez de simplesmente desaparecido.
No entanto, o documento não fazia menção alguma às fotografias da câmera de visão noturna, o que significava que tínhamos algo que os policiais não tinham: uma cronologia.

* * *

Depois das aulas, ao entrar no Harold, dei um grito quando Daisy apareceu do nada no banco de trás.
— Meu Deus, que susto!
— Desculpa — disse ela. — Eu estava me escondendo porque Mychal é da minha turma de história e eu não estou em condições de lidar com isso por enquanto. Ainda tenho um monte de comentários para responder. É dura a vida de uma escritora de fanfic independente. Alguma coisa interessante no registro da polícia?
— Parece que eles sabem um pouco menos que a gente — respondi, apesar de ainda estar recuperando o fôlego.
— Mentira! — exclamou Daisy. — Espera. Holmes, é isso. É isso! Eles sabem um pouco menos que a gente!
— Hã… E daí?
— A recompensa é para qualquer “informação que leve ao paradeiro de Russell Davis Pickett”. Podemos não saber onde ele está, mas temos informações que eles não têm e que vão ajudar a encontrar o homem.
— Ou não — falei.
— Vamos ligar e perguntar: se soubéssemos onde Pickett estava na noite em que desapareceu, quanto isso valeria, hipoteticamente falando? Talvez não valha os cem mil, mas deve valer alguma coisa.
— Preciso falar com Davis sobre isso.
Eu estava com medo de traí-lo, embora mal o conhecesse.
— Parta corações, mas não quebre promessas, Holmes.
— Mas é que… A gente nem sabe se vai receber mesmo algum dinheiro por isso, entende? É só uma foto — falei, tentando explicar o motivo da minha hesitação. — Quer uma carona para o trabalho?
— Quero, pra variar.

* * *

Naquela noite, enquanto eu jantava com minha mãe na frente da TV, continuei pensando sobre o caso. E se eles realmente nos dessem uma recompensa? Sem dúvida era uma informação útil que a polícia não tinha. Talvez Davis passasse a me odiar — se algum dia descobrisse —, mas será que não era bobagem me importar com o que um garoto qualquer do Camping da Depressão pensava de mim?
Depois de um tempo remoendo isso, inventei que tinha dever de casa e fugi para o meu quarto. Fiquei com a sensação de que havia deixado escapar alguma coisa no tal documento da polícia, então comecei a ler tudo de novo. Ainda estava concentrada nisso quando Daisy me ligou. Mal terminei de dizer “oi” e ela já desatou a falar.
— Tive uma conversa altamente hipotética com um policial, e ele disse que a recompensa está sendo oferecida pela empresa, não pela polícia, e que cabe à organização decidir se qualquer informação é relevante, e que só vão liberar a recompensa depois que encontrarem Pickett. O que temos é definitivamente relevante, mas eu duvido muito que encontrem o homem só com uma foto da câmera de visão noturna, então talvez a gente tenha que dividir a recompensa com outras pessoas. Ou, se ele nunca for encontrado, talvez a gente nunca receba. Mesmo assim, essa foto ainda é melhor que nada.
— Ou a mesma coisa que nada, se ele não for encontrado.
— Sim, mas é uma pista. A gente pode conseguir pelo menos parte da grana.
— Se o encontrarem.
— Bandido capturado. Dinheiro na mão. Não estou entendendo qual é o problema, Holmes.
Naquele exato momento, meu celular vibrou.
— Tenho que ir — falei para Daisy, e desliguei.
Era uma mensagem de Davis:
Eu achava que não valia a pena ser amigo de quem só está interessado no dinheiro ou na influência de alguém.
Comecei a escrever uma resposta, mas logo chegou outra mensagem dele.
Nunca acredite na amizade de quem não gosta de VOCÊ.
Comecei a digitar novamente, mas vi o “digitando…”, então parei e esperei.
Mas talvez o dinheiro seja parte de mim. Talvez seja o que eu sou.
Segundos depois, mais uma vez:
Qual a diferença entre quem somos e o que temos? Talvez nenhuma.
Já não ligo mais para o que faz alguém gostar de mim. Estou me sentindo muito sozinho.
Sei que é patético. Mas é verdade.
Estou deitado numa banca de areia do campo de golfe do meu pai, olhando o céu. Meu dia hoje foi uma merda. Desculpa pelas mil mensagens.
Entrei embaixo das cobertas e respondi:
Eu: Oi.
Ele: Eu avisei que não era bom de papo. Então tá, se é assim que se começa uma conversa. Oi.
Eu: Você não é o seu dinheiro.
Ele: Então o que eu sou? O que é cada pessoa?
Eu: “Eu” é a palavra mais difícil de definir.
Ele: Talvez a gente seja o que não pode deixar de ser.
Eu: Talvez. Como está o céu?
Ele: Demais. Enorme. Incrível.
Eu: Também gosto de andar ao ar livre à noite. Dá uma sensação esquisita, tipo uma saudade de casa, mas não realmente de casa. É uma coisa gostosa de sentir.
Ele: Esse sentimento está transbordando em mim agora mesmo. Você está fora de casa?
Eu: Estou na cama.
Ele: É uma droga observar as estrelas a olho nu aqui, por causa da poluição luminosa. Mas estou vendo todas as oito estrelas da Ursa Maior, se contar Alcor.
Eu: Por que o seu dia foi uma merda?
Vi o “digitando...” e achei melhor esperar. Ele ficou um tempão escrevendo, e imaginei Davis digitando e apagando, digitando e apagando.
Ele: Acho que estou completamente sozinho aqui.
Eu: E o Noah?
Ele: Ele está sozinho também. Essa é a pior parte. Não sei como conversar com ele. Não sei como fazer essa dor passar. Ele não tem feito o dever de casa. Não consigo convencer meu irmão nem a tomar banho todo dia. Poxa, ele já não é mais criança, sabe? Não posso OBRIGAR Noah a nada.
Eu: Se eu soubesse alguma coisa… alguma coisa sobre seu pai... E te contasse. Você se sentiria melhor ou pior?
Ele digitou por um bom tempo. Por fim, veio a resposta.
Ele: Muito pior.
Eu: Por quê?
Ele: Por duas razões. Se Noah tiver 18 anos, ou 16, ou até 14 quando tiver que ver o pai indo pra cadeia, vai ser melhor do que se ele ainda tiver 13. E também porque seria menos pior se meu pai fosse pego porque entrou em contato com a gente. Mas se ele for pego SEM ter nos procurado, Noah vai ficar arrasado. Ele ainda acha que nosso pai ama a gente.
Por um momento, e apenas um momento, cogitei a hipótese de Davis ter ajudado o pai a sumir. Mas eu não conseguia imaginá-lo como cúmplice.
Eu: Sinto muito. Não vou dizer nada. Não se preocupe.
Ele: Hoje seria aniversário da nossa mãe, mas Noah mal a conheceu. Pra ele é tudo muito diferente.
Eu: Sinto muito.
Ele: E a questão é que, quando a gente perde alguém, a gente se dá conta de que no fim vai perder todo mundo.
Eu: É verdade. Depois que a gente se dá conta disso, não tem como esquecer.
Ele: As nuvens estão cobrindo o céu. Tenho que ir dormir. Boa noite, Aza.
Eu: Boa noite.
Coloquei o celular na mesinha de cabeceira e puxei as cobertas até a cabeça, pensando no céu enorme acima de Davis e no peso das cobertas sobre mim, pensando no pai dele e no meu. Davis tinha razão: no fim, todo mundo desaparece.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!