20 de novembro de 2018

Capítulo Seis

No dia seguinte, depois da última aula, eu me juntei ao fluxo de alunos nos corredores superlotados da escola e fui pegar Harold. Demorei alguns minutos a mais porque precisei trocar o band-aid, mas de qualquer modo era bom esperar um pouco para fugir do trânsito do horário de saída. Enquanto isso, mandei uma mensagem para Daisy marcando de nos encontrarmos no Applebee’s, que era onde sempre estudávamos juntas.
Ela respondeu logo depois:
Ela: Vou trabalhar até as 8. Te vejo depois?
Eu: Vai querer carona?
Ela: Meu pai me buscou no colégio. Tá me levando. Davis mandou mensagem?
Eu: Não. Será que eu mando?
Ela: NEM PENSAR.
Ela: Espera de 24 a 30 hs. Você tá interessada, não obcecada.
Eu: Ok. Não sabia que tinha um Estatuto das Mensagens.
Ela: Tem. Quase chegando, tô indo. Hoje vamos tirar na sorte pra ver quem vai se vestir de ratinho Chuck. Reza por mim.
Harold e eu partimos para casa, mas então me ocorreu que eu poderia ir a qualquer lugar. Quer dizer, não a qualquer lugar, mas quase isso. Eu poderia sair do estado se quisesse, ir a Ohio ou Kentucky, e ainda chegaria em casa antes da minha mãe. Graças a Harold, eu tinha à minha disposição uma área de, digamos, uns quinhentos quilômetros quadrados do Meio-Oeste americano. Então, em vez de fazer o caminho de sempre, peguei a estrada. Liguei o rádio no momento em que começou a tocar uma música que eu adorava, chamada “Can’t Stop Thinking About You”, o baixo estourando nos alto-falantes ferrados do Harold e uma letra bem boba, tudo de que eu precisava.
Às vezes, a gente dá sorte de esbarrar numa sequência perfeita de músicas no rádio: entram os comerciais numa estação, a gente troca para outra bem na hora em que uma música acabou de começar, uma música que a gente ama mas nem lembrava mais que existia, uma música que nunca viria à nossa cabeça mas que acaba sendo perfeita para cantar aos berros. Naquele momento eu me deparei com uma dessas sequências milagrosas enquanto dirigia sem rumo. Segui para o leste, depois sul, depois oeste, depois norte, depois leste de novo, até retornar ao ponto de partida.
Essa voltinha por Indianápolis me custou uns sete dólares em combustível. Eu sabia que era um desperdício, mas me senti muito melhor depois de percorrer a cidade.
Quando cheguei em casa e fui abrir o portão da garagem, vi que tinha recebido várias mensagens de Daisy.

Fui sorteada, vou ter que botar a fantasia bizarra de Chuck.
Até mais tarde, se eu sobreviver.
Se eu morrer, chore sobre meu túmulo todos os dias até uma muda brotar da terra, depois continue chorando até crescer uma linda árvore e suas raízes envolverem meu corpo.
Tenho que ir agora estão levando meu celular NÃO SE ESQUEÇA DE MIM, HOLMES.

Últimas notícias: sobrevivi. Vou pegar uma carona pro Applebee’s. Até lá.

* * *

Minha mãe estava na sala corrigindo provas, os pés apoiados na mesa de centro.
Eu me sentei ao lado dela no sofá.
— Um tal de Lyle veio aqui hoje, segurança dos Pickett — disse ela, ainda olhando para os papéis. — Trouxe nossa canoa, consertada. Disse que você e Daisy estavam remando e bateram numa pedra.
— Foi.
— Você e Daisy — repetiu ela. — De canoa.
— Isso mesmo.
Minha mãe finalmente olhou para mim.
— Quem olha assim até pensa que você queria, sei lá, esbarrar com o Davis.
Dei de ombros, sem responder.
— Funcionou? — perguntou ela.
Dei de ombros de novo, mas ela continuou me encarando até eu me dar por vencida.
— Andei pensando nele, só isso — falei. — Acho que eu queria uma desculpa para ver como ele estava.
— Como ele está, sem o pai?
— Acho que bem. Parece que muita gente não gosta tanto assim do pai.
Ela chegou mais perto, colando o ombro no meu. Era óbvio que nós duas estávamos pensando no meu pai, mas nunca soubemos muito bem como falar sobre ele.
— Fico imaginando se você teria batido de frente com seu pai.
Fiquei quieta.
— Ele teria compreendido você, disso eu sei. Seu pai entendia você muito melhor que eu. Mas se preocupava demais; talvez isso se tornasse exaustivo para você. Para mim era, às vezes.
— Você também se preocupa — comentei.
— Acho que sim. Com você eu me preocupo, com certeza.
— Eu não me incomodo — falei. — Quem vê o mundo como ele realmente é se preocupa. A vida é preocupante mesmo.
— Você está falando igualzinho ao seu pai. — Ela deu um sorrisinho. — Ainda não acredito que ele foi embora.
Ela disse isso como se tivesse sido uma decisão dele, como se um belo dia meu pai estivesse aparando a grama e tivesse pensado: Acho que é uma boa morrer agora.

* * *

Preparei o jantar naquela noite: macarrão com seleta de legumes enlatada e um queijo cheddar gostoso, e comemos assistindo a um reality show sobre pessoas comuns tentando sobreviver na floresta. Meu celular finalmente vibrou quando a gente estava lavando a louça — era Daisy, avisando que tinha chegado ao Applebee’s. Falei para minha mãe que estaria de volta à meia-noite e fui mais uma vez ao encontro de Harold, o que era sempre um prazer.
Applebee’s é uma rede de restaurantes de qualidade mediana que serve “comida americana”, isto é, qualquer coisa com queijo. No ano anterior, um garoto havia batido à nossa porta para angariar fundos para os escoteiros, acho, e convenceu minha mãe a comprar um enorme carnê de cupons. Depois percebemos que eram todos do Applebee’s, sessenta cupons oferecendo “dois pratos por onze dólares”. Daisy e eu vínhamos nos dedicando a utilizá-los desde então.
Ela estava esperando por mim em uma mesa. Já sem o uniforme do trabalho, usava uma blusa turquesa de gola V e estava mergulhada nas profundezas de seu celular. Daisy não tinha computador, então fazia tudo pelo smartphone: trocava mensagens, escrevia fanfic e por aí vai. Era mais rápida em digitar no teclado do celular do que eu num teclado de notebook.
— Você já recebeu uma foto de pau? — perguntou ela, no lugar do clássico “oi”.
— Hã… Eu já vi um ao vivo — falei, me sentando na frente dela.
— Isso é óbvio, né, Holmes. Não estou perguntando se você é freira, quero saber se já te mandaram uma foto de pau fora de contexto e sem ser solicitada. Tipo, o cara manda um nude em vez de se apresentar.
— Nunca — respondi.
— Olha isso — disse Daisy, me passando o celular.
— Sim, é um pênis — falei, observando bem e girando o aparelho para a horizontal.
— Sim, mas podemos tratar dessa questão por um minuto?
— Podemos não tratar dessa questão agora?
Abaixei o celular, pois Holly estava vindo.
Holly era quem geralmente nos atendia, e eu diria que não era uma grande fã da dupla Daisy e Holmes, provavelmente por causa da nossa estratégia baseada no uso de cupons e dos nossos recursos limitados para gorjetas.
Como sempre, Daisy não se conteve:
— Holly, você já recebeu uma…
— Para — interrompi. — Não não não. — E depois, me dirigindo à garçonete: — Vou querer só uma água, nenhuma comida, mas por volta de quinze para as dez vou querer um hambúrguer vegetariano, sem maionese nem ketchup, só o pão com hambúrguer e queijo mesmo, para viagem, por favor. E batatas.
— E você vai querer o Blazin’ Texan Burger? — perguntou Holly para Daisy.
— Com uma taça de vinho, por favor.
A mulher não moveu um músculo.
— Tudo bem. Água.
— Imagino que vocês tenham um cupom.
— E não é que temos mesmo? — falei, e deslizei o papelzinho na mesa até ela.
Holly mal tinha se virado e Daisy já estava de novo com a imagem a postos.
— Mas o que eu faço em relação a esse pênis semiereto que algum fã me mandou? Devo ficar intrigada?
— Ele deve estar achando que isso ainda vai dar em casamento. Vocês vão marcar um encontro, se apaixonar e um dia vão contar aos seus filhos que tudo começou com uma foto do pênis dele, sem o restante do corpo.
— Não tem nada a ver um leitor meu me mandar isso. Sério… pensa comigo: “Adorei ler a aventura romântica de Chewbacca e Rey enquanto vasculhavam uma nave Tulgah abatida em Endor, em busca da famosa poção da paciência Tulgah. Em agradecimento, acho que vou mandar à autora uma fotografia do meu pau.” Como se liga os pontos nesse raciocínio, Holmes?
— Garotos são nojentos. Todo mundo é nojento. As pessoas e seus corpos nojentos… Me dá vontade de vomitar.
— Deve ser só mais um fanboy idiota do Kylo — resmungou Daisy.
Eu não entendia nada daquele dialeto de fanfic.
— Será que a gente pode, por favor, mudar de assunto? — pedi.
— Tudo bem. Hoje, no intervalo do trabalho, eu virei especialista em heranças. Então vamos lá. Na verdade, uma pessoa não pode deixar todo o seu dinheiro para um animal, mas para uma organização criada exclusivamente em benefício de um animal, pode. Resumindo: seguindo as leis do estado de Indiana, animais de estimação não são pessoas, mas organizações, sim. Portanto, o dinheiro do Pickett iria para uma fundação, que usaria tudo em prol do tuatara. Aliás, a lei não te obriga a deixar nada para os filhos. Por mais rica que a pessoa seja. Nem casa, nem dinheiro para os estudos, nada.
— E o que acontece se o pai deles for preso?
— Os dois vão ficar com um guardião. Talvez a administradora da casa, ou um parente. O guardião receberia o dinheiro para pagar as despesas dos garotos. Se esse negócio de encontrar fugitivos não der certo, acho que vou investir na carreira de guardiã de crianças bilionárias.
Daisy fez uma pequena pausa.
— Muito bem — continuou. — Você pode começar a recolher material com informações sobre o caso e os Pickett. Eu fico encarregada do registro policial e também vou fazer o dever de casa de cálculo, porque o dia só tem vinte e quatro horas e eu já tenho que passar tempo demais no Chuck.
— Mas vem cá, como é que você vai conseguir uma cópia do registro policial?
— Ah, você sabe. Artimanhas.

* * *

Por acaso, eu era amiga de Davis Pickett no Facebook e, embora o perfil dele fosse uma cidade-fantasma havia muito abandonada, consegui, pelo nome de usuário — dallgoodman —, chegar ao perfil dele no Instagram.
Ele não tinha fotos, só imagens com citações, ligeiramente desfocadas, em fontes que imitavam letra de máquina de escrever sobre um fundo com textura de papel amassado. A primeira, postada dois anos antes, era de Charlotte Brontë. “Eu me importo comigo mesma. E quanto mais solitária, sem amigos e sem sustento, mais eu me respeito.”
A última postagem era: “Aquele que não teme a morte morre somente uma vez.” Achei que fosse uma referência velada ao pai, mas não dava para ter certeza. (Só para deixar registrado: aquele que teme a morte também morre somente uma vez, mas deixa pra lá.)
Fui passando de citação em citação e reparei em alguns usuários que curtiam muitas das publicações de Davis — entre eles uma anniebellcheers, que só publicava fotos de líderes de torcida. Até que, nas postagens de mais de um ano antes, encontrei uma série de fotos dela com Davis, com legendas cheias de emojis de coração.
O relacionamento dos dois parecia ter começado no verão entre o nono e o décimo anos e durado alguns meses. O perfil da garota estava conectado ao Twitter, onde ela ainda seguia um usuário chamado nkogneato. Era Davis, porque um dos posts era uma foto do irmão pulando na piscina.
Através do nkogneato, cheguei a um perfil no YouTube que pelo visto se interessava muito por notícias de basquete e por aqueles vídeos enormes de pessoas jogando videogame, e o mesmo nkogneato me levou, depois de várias tentativas, a um blog.
No início fiquei em dúvida se pertencia a Davis. Cada post começava com uma citação, seguida por um parágrafo curto nunca tão pessoal a ponto de me permitir identificá-lo. Por exemplo:

“Num determinado ponto da vida, a beleza do mundo torna-se suficiente. Já não precisas fotografar, pintar, ou até recordar. É suficiente.“
— Toni Morrison

Ontem à noite eu estava deitado no chão coberto de geada, contemplando um céu limpo, apenas um pouco manchado por uma leve poluição causada pela névoa da minha respiração — sem telescópio nem nada, éramos só eu e a imensidão do céu —, e fiquei pensando que céu é um substantivo singular, como se constituísse uma única coisa. Mas o céu não é uma coisa única. O céu é tudo. E ontem à noite foi o bastante.

Só tive certeza de que era Davis quando reconheci muitas das citações do
Instagram dele, incluindo a de Charlotte Brontë:

“Eu me importo comigo mesma. E quanto mais solitária, sem amigos e sem sustento, mais eu me respeito.”
— Charlotte Brontë

No fim, quando o caminhar se tornou exaustivo, nos sentamos em um banco de frente para o rio, que corria baixo, e ela me disse que a beleza era uma questão de atenção. “O rio é lindo porque olhamos para ele”, ela disse.

Aqui vai mais uma, de novembro do ano anterior, na mesma época em que ele e anniebellcheers pararam de interagir no Twitter.

“Por convenção o quente, por convenção o frio, por convenção a cor: na realidade, porém, átomos e o vazio.”
— Demócrito

Quando a observação falha em se alinhar à verdade, no que confiar: nos seus sentidos ou na sua verdade? Os gregos sequer tinham uma palavra para azul. A cor não existia para eles. Não conseguiam vê-la sem uma palavra para defini-la.
Penso nela o tempo todo. Meu estômago dá cambalhotas quando a vejo. Mas será que é amor ou apenas algo para o qual não temos uma palavra?

A publicação seguinte me atingiu em cheio:

“A maior arma contra o estresse é a habilidade de escolher um pensamento em detrimento de outro.”
— William James

James tinha algum superpoder, porque eu escolho meus pensamentos tanto quanto escolho meu nome.

O que ele disse sobre os pensamentos era exatamente o que eu vivia — um destino, não uma escolha. Não como um catálogo da minha consciência, mas como uma oposição a ela.
Quando eu era pequena, sempre contava para minha mãe sobre os invasores, e ela dizia: “É só não pensar nessas coisas.” Mas Davis compreendia. Não há escolha. Esse é o problema.
Outro ponto interessante na presença on-line de Davis era que os posts acabavam exatamente no dia em que o pai desaparecera. Ele publicara no blog quase todo dia por mais de dois anos, então, na tarde seguinte ao sumiço do pai, escreveu:

“Durmam bem, seus imbecis.”
— J. D. Salinger

Acho que isto é um até logo, mas é como dizem: ninguém nunca diz até logo a menos que queira ver a pessoa novamente.

Fazia sentido. Provavelmente já estavam começando a xeretar a vida dele àquela altura. Afinal, se eu tinha conseguido encontrar o blog secreto de Davis, imagino que os policiais também conseguiriam. Minha dúvida era se ele abandonara de vez a internet, ou se apenas havia decidido atracar em portos mais distantes.
Perdi o rastro dele. Fiquei andando em círculos, buscando outros nomes de usuário e variantes, e terminei achando um monte de gente que não era o meu Davis Pickett. Encontrei o Dave Pickett de cinquenta e três anos, caminhoneiro do estado de Wisconsin; o Davis Pickett que morreu de esclerose lateral amiotrófica depois de anos postando textos curtos escritos com a ajuda de um software de rastreamento ocular; um dallgoodman no Twitter que se limitava a ameaças cáusticas dirigidas a senadores. Cheguei também a uma conta no Reddit que analisava o desempenho de Jimmy Butler em jogos de basquete e que, portanto, provavelmente pertencia a Davis, mas que também não tinha postagens desde o desaparecimento do Pickett pai.
— Estou muito perto — disse Daisy, de repente. — Muito, muito perto. Se ao menos eu fosse tão boa na vida quanto sou na internet…
Levantei o rosto, retornando à dimensão sensorial do Applebee’s. Daisy estava digitando no celular com uma única mão, o copo de água na outra. Tudo era muito barulhento e com luzes fortes. No balcão do bar, as pessoas acompanhavam aos gritos algum evento esportivo.
— O que você achou aí? — perguntou Daisy, colocando o copo na mesa.
— Hã… Bem, Davis teve uma namorada, mas eles terminaram em meados de novembro. Ele tem um blog, mas não posta nada desde que o pai sumiu. Engraçado, no blog ele parece… fofo, acho.
— Puxa, que bom que seus talentos de investigação on-line ajudaram você a descobrir que Davis é fofo. Holmes, eu te amo, mas vê se encontra alguma informação sobre o caso.
Foi o que fiz. O Indianapolis Star já publicara muitas matérias e notas sobre Russell Pickett, porque a empresa dele era uma das maiores empregadoras do estado, mas também porque vira e mexe ele era processado. Pickett fechou uma enorme transação imobiliária no centro da cidade que gerou vários processos; tanto a ex-secretária executiva quanto a gerente de marketing da Pickett Engenharia moviam uma ação na Justiça contra ele por assédio sexual; o cara também tinha sido denunciado por um jardineiro da mansão por violar alguma lei de proteção aos portadores de deficiências; e a lista não parava por aí…
Todas essas matérias citavam o mesmo advogado, Simon Morris. O site dele descrevia seu escritório como “uma butique jurídica concentrada nas abrangentes necessidades de indivíduos com alto patrimônio líquido”.
— Ei, posso carregar meu celular no seu laptop?
Daisy obviamente estava com a cabeça em outro lugar, porque nem tirou os olhos da tela do celular para enfiar a mão na bolsa, pegar o cabo USB e me entregar. Pluguei no notebook, e ela só murmurou:
— Obrigada. Estou quase lá.
Percebi que Holly já tinha trazido meu pedido para viagem. Entreabri a embalagem de isopor e peguei umas batatas antes de voltar à minha investigação. Cheguei por acaso a um site chamado Glassdoor, em que tanto funcionários já desligados quanto ainda empregados avaliavam a Pickett Engenharia anonimamente. As observações sobre Russell Pickett eram mais ou menos assim:
“O presidente é o maior pilantra.”
“Esse Russell Pickett é um completo megalomaníaco.”
“Não estou sugerindo que os executivos da Pickett obriguem os subordinados a burlar leis nem nada, mas é comum ouvir frases do tipo: ‘Não estou sugerindo que você burle leis, mas…’”
Então, Pickett era esse tipo de cara. E, embora ele tivesse conseguido se livrar de todos os processos por meio de acordos, a investigação criminal ainda estava em andamento. Pelas informações que encontrei, a empresa havia pagado propina a algumas autoridades em troca de contratos para construção de um sistema de escoamento de esgoto mais eficiente em Indianápolis.
Quinze anos antes, o governo havia reservado uma grande quantia de dinheiro para limpar o White River. Queriam construir mais lagoas de tratamento de esgoto e expandir a rede de túneis subterrâneos, desviando um afluente chamado Pogue’s Run. A projeção era que em uma década o rio não fosse mais o destino dos escoamentos durante períodos de chuva. A Pickett Engenharia conseguiu o contrato inicial, mas o trabalho nunca foi concluído e o orçamento estourou. O governo então rescindiu o contrato e abriu nova licitação para a conclusão das obras.
Nesse segundo momento, mesmo tendo feito um péssimo trabalho da primeira vez, a Pickett Engenharia conseguiu novamente o contrato — pelo que parecia, subornando funcionários públicos.
Dois executivos da Pickett já estavam presos e, ao que tudo indicava, cooperando com a polícia. O próprio Pickett não chegara a ser indiciado, embora o jornal criticasse as autoridades por isso, em edição publicada três dias antes do desaparecimento dele. “O Indianapolis Star tem evidências suficientes para acusar Russell Pickett. Por que as autoridades não têm?” era o título do editorial.
— Tá acontecendooooooo! Espera. Só mais um segundo. Só mais um segundo. Extraindo os arquivos, vamos lá, só mais um pouquinho, abrindo… Arrá!
Daisy enfim olhou para mim e sorriu. Ela tinha os dentes da frente ligeiramente tortos, um virado para o outro, o que a incomodava um pouco, por isso quase nunca abria um sorriso escancarado, mas naquele momento dava para ver até as gengivas.
— Posso fazer que nem em Scooby-Doo e contar tim-tim por tim-tim como eu consegui?
Concordei.
— Então. A primeira matéria sobre o desaparecimento de Pickett cita o registro policial obtido pelo Indianapolis Star. Essa matéria foi assinada por Sandra Oliveros, com a colaboração de um tal de Adam Bitterley, que obviamente é um novato, e foi só dar um Google para descobrir que ele acabou de se formar na Universidade de Indianápolis. Aí, eu criei um endereço de e-mail praticamente idêntico ao de Sandra Oliveros e escrevi para Bitterley pedindo uma cópia do documento. Ele respondeu alguma coisa do tipo “Não posso, não tenho isso no meu computador de casa”, então eu fiz o pobre do garoto voltar ao escritório para me mandar o tal documento, e ele respondeu com um “mas hoje é sexta”, e eu devolvi: “Sei que é sexta-feira à noite, mas as notícias não tiram folga no fim de semana. Faça seu trabalho, ou encontro outra pessoa disposta a fazê-lo.” Aí ele foi para a porcaria do escritório e me mandou por e-mail a porcaria do registro policial escaneado.
— Eita.
— Bem-vinda ao futuro, Holmes. O negócio agora não é mais hackear computador, é hackear a alma humana. O arquivo está no seu e-mail.
Às vezes, eu achava que Daisy só era minha amiga porque precisava de uma testemunha para seus feitos.
Enquanto eu fazia o download, olhei para o estacionamento pelas frestas da persiana. A luz de um dos postes da rua vinha bem na nossa direção, o que fazia tudo ao redor parecer mergulhado na mais completa escuridão.
Eu estava tentando tirar uma coisa da cabeça, mas, quando comecei a ler o documento, o pensamento ganhou força.
— O que foi? — perguntou Daisy.
— Nada. — Tentei novamente afastar a ideia, mas não consegui. — É só que… o cara não vai se dar mal? Quando ele for trabalhar na segunda, não vai perguntar para a chefe por que ela precisava do arquivo, e aí ela vai perguntar “Do que você tá falando? Que arquivo?”, e aí não vai dar problema para ele? Vai que ele é demitido?
Daisy revirou os olhos, mas eu estava entrando na espiral e comecei a ficar com medo de que o tal Bitterley conseguisse rastrear Daisy e ela acabasse presa, e talvez eu fosse junto, já que provavelmente era cúmplice. Aquilo era só uma brincadeira boba, mas pessoas vão para a cadeia o tempo todo por crimes menores. Imaginei a manchete nos jornais: “Garotas hackers obcecadas por garoto bilionário.”
— Ele vai encontrar a gente — soltei, por fim.
— Quem?
— O cara. Bitterley.
— Não vai, não. Eu estou num Wi-Fi público, dentro de um restaurante, usando um IP que me localiza em Belo Horizonte, Brasil. E, se ele me encontrar, vou dizer que você não tinha ideia do que eu estava fazendo, e aí eu cumpro a pena sozinha, e em gratidão pela minha lealdade você tatua meu rosto no seu bíceps. Vai ser lindo.
— Daisy, é sério.
— Eu estou falando sério. Esse seu bracinho magro precisa da minha cara tatuada. Mas o garoto não vai ser demitido. Ele não vai encontrar a gente. No máximo, vai aprender uma lição importante sobre phishing da forma menos dolorosa possível, tanto para ele quanto para o jornal. Relaxa. Agora estou ocupada com uma coisa importante aqui, discutindo com um estranho aleatório na internet se o Chewbacca é uma pessoa ou não.
Holly chegou com a conta, um lembrete nada sutil de que já havíamos abusado da hospitalidade do lugar. Entreguei o cartão de débito da minha mãe — Daisy nunca tinha dinheiro, mas minha mãe me deixava gastar vinte e cinco dólares por semana desde que eu só tirasse notas altas. Por baixo da mesa, esfreguei o calo do dedo. Disse a mim mesma que Daisy provavelmente tinha razão, que provavelmente daria tudo certo. Provavelmente.
— Sério, Holmes — disse ela, sem tirar os olhos do celular. — Não vou deixar que nada aconteça. Prometo.
— Você não tem como impedir, essa é a questão. Não dá para controlar a vida, sabe?
— Dá, sim! — murmurou ela, ainda concentrada no celular. — Eca, meu Deus, agora o cara está dizendo que eu escrevo bestialidades.
— Espera aí, o quê?
— Porque, na minha fanfic, o Chewbacca e a Rey estavam apaixonados. Esse cara está dizendo que isso é, abre aspas, criminoso, porque é um romance interespécies. Nem tem sexo, porque eu classifico a história como “adolescente” para qualquer um poder ler. É só amor.
— Mas o Chewbacca não é humano — argumentei.
— A questão não é se o Chewbacca era humano, Holmes. É se ele era uma pessoa. — Ela estava quase gritando. Daisy levava aquele negócio de Star Wars muito a sério. — E ele obviamente era. O que configura uma pessoa? Ele tinha corpo, alma e sentimentos, falava um idioma e era adulto. E se ele e Rey estavam vivendo um amor comunicativo, peludo e ardente, vamos só agradecer a Deus por dois adultos conscientes, de comum acordo, terem encontrado um ao outro numa galáxia escura e dividida.
Muitas vezes nada conseguia me livrar do medo, mas, em outras, só ouvir Daisy já resolvia. Ela conseguia consertar alguma coisa dentro de mim, e eu já não sentia mais como se estivesse num redemoinho, ou sendo sugada por uma espiral que só se afunilava. Eu não precisava recorrer a comparações. Estava dentro de mim mesma de novo.
— Então ele é uma pessoa porque tem consciência?
— Ninguém reclama de machos humanos se relacionando com fêmeas Twi’leks! Porque é claro que homens podem transar com o que bem entenderem. Mas uma humana se apaixonar por um Wookiee, Deus me livre! Poxa, eu sei que estou só alimentando a ira dos haters, Holmes, mas não dá para ouvir essas coisas e ficar calada.
— Eu só queria dizer que, sei lá, um bebê não tem consciência, mas ainda assim é uma pessoa.
— Ninguém está falando de bebês, Holmes. Estou falando de uma pessoa adulta, que por acaso era humana, se apaixonar por outra pessoa adulta, que por acaso era um Wookiee.
— A Rey ao menos sabe falar Wookiee?
— Olha, eu fico um pouco irritada por você não ter lido a minha fanfic, mas fico muito revoltada por você não ter lido nenhuma fanfic do Chewie. Se tivesse, você saberia que Wookiee não era um idioma, e sim uma espécie. Existiam pelo menos três idiomas Wookiee. A Rey aprendeu shyriiwook com Wookiees que vieram de Jakku, mas não falava porque a maioria deles compreendia o Básico.
Comecei a rir.
— E por que você está falando no passado?
— Porque tudo isso aconteceu há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante, Holmes. Sempre se usa o passado quando se fala de Star Wars. Dã.
— Espera, humanos sabem falar shyri… o idioma Wookiee?
Em resposta, Daisy fez uma imitação muito passável do Chewbacca e, depois, traduziu:
— Eu perguntei se você vai comer as batatas.
Empurrei a embalagem para ela. Daisy pegou um punhado e fez mais um barulho de Chewbacca com a boca cheia.
— O que você disse? — perguntei.
— Já se passaram mais de vinte e quatro horas. Pode mandar uma mensagem para Davis.
— Wookiees têm celular?
— Tinham.

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